Mostrando postagens com marcador geopolítica. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador geopolítica. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 30 de janeiro de 2019

Mercenários russos na Venezuela

(Mercenários russos do grupo Corpo Eslavo, na Síria.)

        Mercenários russos do Grupo Wagner, que tem atuado na Síria e na Ucrânia, chegaram à Caracas com o objetivo de fazer a segurança de Nicolás Maduro e outras altas autoridades da Venezuela. A notícia em inglês foi divulgada inicialmente, dia 25 de janeiro, pela Agência Reuters, mas um levantamento feito pela Fundação Jamestown mostrou que, de fato, os mercenários foram enviados de Moscou, passando por Dacar (Senegal), Ciudad del Leste (Paraguai) e Havana (Cuba), antes de chegar à capital venezuelana por um voo comercial no dia 22. A trajetória aparentemente errática da viagem levanta a hipótese de que fora planejada para não levantar suspeitas.      

          Segundo a Jamestown, mercenários russos chegaram à Venezuela já em maio de 2018, antes da atual crise política, iniciada em janeiro com a posse de Maduro para um novo mandato como presidente. A nova leva de combatentes veio, portanto, a somar-se aos que já se encontravam no país. Seriam até 400 novos mercenários.

          Dois dias depois da notícia na Reuters, vários veículos de comunicação informaram que Moscou negou o envio desses mercenários. A Jamestown comenta, porém, que em geral a reação das autoridades russas tem sido de negação ou silêncio sobre o assunto. Em 23 de janeiro, a porta-voz do Kremlin, Maria Zakharova, admitiu que companhias privadas russas de segurança atuavam no Sudão e entrou em contradição com o embaixador russo no país, que em novembro de 2018 havia negado o fato. Este lapso pode ser um indicativo de que a Rússia busca manter silêncio sobre mercenários contratados pelo governo para atuar em nome dos interesses de Estado. Há companhias privadas russas atuando também no Gabão e na República Centro-Africana, como apurou com detalhes a agência Coda.

          Como comentei na última postagem, a Rússia tem muito a perder com a queda do governo de Maduro, que encontra-se cada vez mais isolado internacionalmente, mas tem apoio explícito, além dos russos, da China e da Turquia. A queda do governo significaria a perda de contratos para grandes empresas russas, de dinheiro por não pagamento de empréstimos (que Maduro tem tido dificuldades de pagar) e, principalmente, de um espaço de influência política e militar numa região próxima dos EUA. Um adversário geopolítico ao lado de Washington significa o triunfo de Moscou no seu empenho pela corrosão da liderança global norte-americana. Daí a disputa dos dois países em torno da crise venezuelana. 

          Até o momento, Moscou não tem dado sinais de que enviará militares para a Venezuela ante a possibilidade, mesmo que pequena, de uma intervenção militar de Washington. Enquanto acusa os EUA de promover, com seus aliados, um golpe de Estado na Venezuela e um potencial derramamento de sangue, a Rússia busca se antecipar a uma convulsão social ou mesmo intervenção estrangeira utilizando-se de mercenários pagos. Ao menos por enquanto.

quinta-feira, 24 de janeiro de 2019

Rússia declara apoio a Maduro. E agora?

(Putin recebendo Maduro em sua residência oficial perto de Moscou, em 5 de dezembro de 2018. Promessa de apoio político.)

          Em meio à grave crise social, política e econômica que atinge a Venezuela, Vladimir Putin telefonou para o presidente Nicolas Maduro para expressar apoio à sua autoridade como presidente do país. Diversos países do mundo, como EUA, Canadá e Brasil, declararam não reconhecer o novo mandato de Maduro e consideraram Juan Guaidó, presidente da Assembleia Nacional, como presidente encarregado legítimo.

          Na mensagem, Putin afirmou que "a piora da situação política interna" é "provocada de fora do país", um alusão, ainda que não exclusiva, aos EUA, e que essa interferência é uma "grosseira violação" da lei internacional.

          Observando as votações na ONU, as alianças internacionais e as declarações de Moscou e Washington, principalmente depois que a Rússia anexou a Crimeia e passou a patrocinar uma guerra no leste da Ucrânia, fica claro que a Venezuela é um aliado dos russos e que serve como espaço de presença do Kremlin numa região tradicionalmente influenciada pelos EUA.

          Em dezembro passado, a Rússia enviou dois bombardeiros Tupolev Tu-160 Blackjacks à Venezuela para realizar exercícios militares com as forças armadas locais, onde ficaram do dia 10 a 14 de dezembro. No dia 12, realizaram manobras aéreas com duração de 10 horas sobre o Mar do Caribe. Os Tu-160 foram apresentados em novembro de 2017 e foram projetados para realizar voos de mais 10 mil quilômetros de distância sendo capazes de carregar armas nucleares.

          A presença dos bombardeios na Venezuela foi um duplo recado para os EUA, que abandonou recentemente um tratado sobre ogivas nucleares assinado com os soviéticos em 1987 (Tratado de Forças Nucleares de Alcance Intermediário, INF em inglês, que Trump acusou ter sido violado várias vezes pelos russos) e vem aumentando o tom das críticas ao governo ditatorial de Maduro. Também pode ser uma resposta ao apoio dado pelos americanos à Ucrânia na crise do Estreito de Kerch, em novembro de 2018. De forma secundária, é também um recado ao Brasil de Jair Bolsonaro, maior país da América Latina, que tem sido duro crítico de Caracas e busca um alinhamento com Washington. 

(Tupolev Tu-160)

          Há também a possibilidade da Rússia estabelecer uma base militar na ilha venezuelana de La Orchila, no Mar do Caribe, o que garantiria presença permanente de tropas na região e suplantaria dificuldades logísticas, como o deslocamento e abastecimento de aviões como o Tu-160. Ainda que o interesse russo no local tenha mais de dez anos e esta possibilidade não seja clara, uma base em La Orchila implicaria numa mudança da segurança militar das Américas liderada pelos EUA.  

          A presença russa também é uma forma de reafirmar sua aliança com Caracas. Entre 2016 e 2017, Moscou emprestou pelo menos U$ 17 bilhões à Venezuela, e em dezembro de 2018 (quando Maduro encontrou Putin) prometeu mais U$ 6 bilhões em investimentos na indústria de petróleo e na exploração de ouro. Tais dívidas são pagas em parte com petróleo e a participação da estatal russa Rosneft em negócios da venezuelana PDVSA. No campo político, Maduro tem sido um firme apoiador de Moscou nas suas ações geopolíticas, como na Ucrânia e países vizinhos. 

          A questão que fica nestes dias tensos para os venezuelanos é: a Rússia vai agir ante a ameaça de uma possível queda de Maduro? Num momento de tensão, fica em aberto a possibilidade de Caracas pedir a Moscou ajuda de última hora, já que, como mostrou o telefonema de Putin, se a crise política atual é causada por interferência estrangeira seria legítimo que outros estrangeiros (os russos) viessem em defesa de Maduro. Ademais, os russos têm muito a perder com uma eventual queda do governo, não só dinheiro e contratos, mas também uma possível presença militar a médio prazo no Mar do Caribe, região tradicionalmente influenciada por Washington. O quadro que não se vê nas Américas desde a Crise dos Mísseis de 1962 poderia se repetir, ainda que num grau menor do que a tensão que quase levou o mundo a uma guerra nuclear.

quinta-feira, 17 de janeiro de 2019

Acordo entre Grécia e Macedônia contraria a Rússia. O que Moscou tem a ver com isso?

(Os primeiros-ministros Zoian Zaev, da Macedônia, e Alexis Tsipras, da Grécia, observam os ministros das relações exteriores assinarem o Acordo de Prespa.)

          Tudo indica que a relação entre Grécia e Rússia piorou nos últimos meses. A causa seria o Acordo de Prespa, que os gregos fecharam com a Macedônia, e os efeitos disto para a geopolítica da região, tradicionalmente influenciada pelos russos há pelo menos duzentos anos.

          O Acordo de Prespa, assinado em 17 de junho de 2018, resolveu uma disputa entre Grécia e Macedônia sobre o nome deste último país. Atenas reclamava que a nomenclatura era referência à região histórica ao norte de seu território na fronteira com a Macedônia, e poderia haver reivindicação dos vizinhos quanto à posse da área. Com o acordo, o país terá de tomar uma série de medidas administrativas e passará a se chamar República da Macedônia do Norte (ou Setentrional).

          Com efeito, o pequeno país dos Bálcãs poderá pleitear a entrada na UE e na OTAN, tornando-se o 30º membro da aliança militar. O último país a ingressar na aliança foi o pequeno Montenegro, em abril de 2017, com apoio dos EUA. O não-bloqueio da entrada da Macedônia nessas duas organizações é o único compromisso grego no acordo.

          É aí que mora o problema entre Grécia e Rússia. A OTAN é a principal adversária militar de Moscou, e foi o acordo fechado com a Grécia que tornou viável a entrada da Macedônia. Devido à disputa pelo nome, Atenas vinha bloqueando a entrada de Skopje tanto na OTAN quanto na União Europeia. 

          Pouco antes de fazer sua viagem à Sérvia em 17 de janeiro, Vladimir Putin disse que o acordo foi conseguido por pressão política. Neste caso, do Ocidente. Isso num país cujo regime democrático ainda é frágil. E que a entrada na OTAN deve trazer mais instabilidade numa região já instável. Não é necessário repetir aqui que a principal dor de cabeça do Kremlin é a aliança militar do Ocidente. Qualquer movimentação da organização provoca reação do lado oposto. E vice-versa.


          Para termos em mente a sensibilidade da região na disputa entre OTAN e Rússia, relembremos o caso de Montenegro que comentei neste blog. De setembro de 2015 até pelo menos maio de 2016, diversos protestos irromperam em Montenegro contra o governo, que então pleiteava a entrada OTAN. Os manifestantes reclamavam deste plano, bem como o cerceamento à liberdade de imprensa, a falta de democracia e pediam a renúncia do então primeiro-ministro Mila Djukanovic, há mais de vinte anos no poder. Acontece que os principais líderes da oposição eram favoráveis a uma proximidade com a Rússia, e foram a Moscou buscar apoio político para a mudança de governo. Prometeram pôr fim às sanções econômicas contra os russos e fazer de Montenegro um país "neutro" entre uma Sérvia aliada de Moscou e países europeus vinculados à OTAN e a UE. 

          Em 16 outubro de 2016, Djukanovic sofreu uma tentativa de golpe de Estado. Alguns de seus perpetradores foram presos. Alguns membros do grupo eram russos e/ou fugiram para a Rússia. Apesar da grande tensão, Montenegro ingressou na OTAN em abril de 2017

          Voltando à Grécia, o mal-estar com a Rússia causou a debandada do partido Gregos Independentes da coalização governista composta com o bloco Syriza do primeiro-ministro Alexis Tsipras. Uma aliança incomum, dado que o GI é um partido de perfil fascista e o Syriza um bloco de esquerda e extrema-esquerda. 

          Como comentei em duas postagens em junho de 2015 (aqui e aqui), o Kremlin foi um dos responsáveis pela costura desta aliança e considerava Tsipras como um firme aliado da Rússia. Uma lista de fatores vinculavam Atenas a Moscou: o governo eleito em janeiro de 2015 fechou um acordo de vendas de gás com a Gazprom em fevereiro e acertou a extensão do gasoduto Turkish Stream, da mesma empresa, até a Grécia em junho; em 2016, o Syriza votou contra as sanções econômicas da UE contra Moscou no Parlamento Europeu; em 2013, Alexander Dugin esteve na Grécia para uma palestra a convite do futuro ministro grego das relações exteriores, Nikos Kotzias, defendendo fazer da Grécia uma meio de influência da Rússia no bloco europeu, e noutra ocasião sugeriu o nome de Tsipras para o governo grego. 

          Konstantin Malofeev, oligarca promotor da política externa do Kremlin sob sanções econômicas da UE, foi o financiador dos contatos de Dugin na Grécia. Já um dos deputados do Gregos Independentes era presidente de Aliança Grego-Russa, organização voltada à promoção das relações entre os dois países. Tanto Tsipras quanto membros do GI estiveram diversas vezes na Rússia prometendo levantar as sanções econômicas e promover uma aliança com Moscou.      

          Portanto, o acordo da Grécia com a Macedônia não apenas ia contra ao histórico de proximidade entre gregos e russos, como atingiu a coalização governista e os planos do Kremlin para a Europa. Novamente, o pivô de toda a história era o grande adversário russo, a principal barreira às forças do oriente, a OTAN.

terça-feira, 15 de janeiro de 2019

Trump, parceiro da Rússia? Perguntem aos alemães


(Sede do consórcio Nord Stream AG em Zug, na Suíça.)

          De acordo com o jornal The Times do Reino Unido, o governo americano alertou empresas alemãs de que elas podem ser alvos de sanções econômicas dos EUA. A causa é a participação no projeto Nord Stream 2, um gasoduto de 1.200 km através do Mar Báltico que dobrará a capacidade da importação de gás natural da Rússia para a Alemanha. Correndo ao lado do já existente Nord Stream, o país poderá receber até 111 bilhões de metros cúbicos de gás por ano, o dobro da sua capacidade atual. 

          O projeto de 9,4 bilhões de euros tem como principal empresa a estatal russa Gazprom e é promovido pelo consórcio Nord StreamAG, que tem como presidente do Comitê de Acionistas o ex-primeiro-ministro alemão Gerhard Schöreder, amigo pessoal de Vladimir Putin. O consórcio foi criado em 2005 com o objetivo de construir este gasoduto.

          O alerta de sanções foi dado pelo embaixador americano em Berlim que, segundo a reportagem, alertou que "empresas envolvidas na exportação de energia da Rússia estão participando de algo que poderia levar a um significativo risco de sanções", além de estarem minando a segurança da Ucrânia e da Europa. Um novo gasoduto até a Europa permitiria a Moscou cortar o suprimento de gás que passa pela Ucrânia, país em conflito armado com separatistas pró-Rússia. 

          Nas palavras de um funcionário americano, o alerta de Washington é uma "mensagem clara da política americana".

(Nord Stream - em verde - e Nord Stream 2 - em amarelo pontilhado.)

        Isto vai de encontro ao que comentei em minha última postagem: o governo Trump não é tão parceiro da Rússia quanto parece. O analista, consultor político e jornalista Taras Kuzio, especialista em política da Rússia e da Ucrânia, comentou em seu Twitter em 14 de janeiro que "a ameaça americana às empresas alemãs na construção do gasoduto mostra mais um vez que o governo Trump (apesar de suas muitas idiossincrasias) é um aliado da Ucrânia mais firme do que a União Europeia". 

          Como era de se esperar, Polônia e os Países Bálticos estão muito incomodados com o projeto russo-alemão. Estes últimos consideram o Nord Stream 2 um projeto político, e não econômico, que busca aumentar a dependência do gás russos pela Europa, e dá a Moscou a capacidade de influenciar politicamente o continente.

          Ao longo de 2019, porém, Angela Merkel defendeu a construção do gasoduto, posição que parece ter mudado ao final do ano devido as muitas críticas e pressões de partidários, opositores e aliados ocidentais. Trump acusou Merkel de ser "cativa" em relação aos russos.

          Mais do que as idiossincrasias da Casa Branca e o suposto "conluio" de Trump com a Rússia, a ameaça à segurança europeia vem principalmente da dependência energética da Rússia e os acordos de cooperação que o Kremlin tem construído com diversos partidos políticos e ativistas no continente.

sexta-feira, 11 de janeiro de 2019

Trump, parceiro da Rússia? Notas sobre o artigo de Anne Applebaum

(Trump e Putin no encontro em Helsinque, em 16 de julho de 2018.)

          Na última postagem, comentei sobre o aprofundamento da integração entre Rússia e Bielorrússia, tornando este último mais dependente de Moscou e afastando-o dos países ocidentais. Utilizei como base um artigo da jornalista e historiadora americana Anne Applebaum escrito no The Washington Post de 4 de janeiro.

          O texto de Applebaum dava razões para que os países do Ocidente dessem mais atenção aos movimentos da Rússia em relação à Bielorrússia, o que eles não têm feito, citando como principal exemplo a postura de Trump. Seu governo teria abandonado o compromisso histórico dos EUA de garantir uma Europa unida e livre (uma clara alusão ao seu desdenho pela União Europeia) e estaria ajudando a divulgar informações que colaboram para a propaganda russa em diversos temas, como eventos (sem especificá-los) que envolvem Montenegro e Afeganistão. O governo Trump teria dado uma estranha atenção a um plano inexistente de invasão da Bielorrússia pela Polônia, por exemplo, extensamente divulgado pela mídia russa. Nas palavras de Applebaum, o presidente americano está "inclinado a adotar o ponto de vista da Rússia na maioria dos temas".

          Acompanhando as postagens de Applebaum no Twitter, percebe-se que a jornalista e historiadora é uma dura crítica de Trump. Não há nada de incomum ou errado nisso, mas observando analistas ocidentais pelo mesmo meio de comunicação, praticamente todos são duros críticos, quando não debochados, em relação ao presidente americano. Isto torna uma análise fria mais difícil e põe em questão a pretensa imparcialidade das fontes.

          A postura americana em relação à Rússia é vista como negativa quando o presidente americano se dirige diretamente ao colega russo. Analistas vêem isso, com certa razão, como um afago ou tratamento imerecido a Putin. Mas vejamos alguns pontos: logo no início do mandato de Trump, a ex-diplomata americana na ONU, Nikki Haley, afirmou firmemente que os EUA não levantariam as sanções econômicas contra a Rússia enquanto esta não devolvesse a Crimeia à Ucrânia. Esta também era a posição do próprio presidente americano. Seu ex-secretário de defesa, James Mattis, era firme apoiador da OTAN, aliança militar que tem sido a principal dor de cabeça do Kremlin há mais de 20 anos. Ademais, em 11 de abril de 2017, Trump apoiou a entrada de Montenegro na aliança, e em setembro de 2018 ainda considerava a instalação de uma base americana na Polônia, para desgosto dos russos. Não apenas a Polônia, mas os Países Bálticos são favoráveis à presença americana na região. Eles conheceram o domínio russo no período comunista e não o querem de volta, nem como possibilidade.

(Anne Applebaum)

          Se compararmos as ações de Trump em relação ao seu antecessor, a oposição à Rússia fica mais clara. Em setembro de 2009, o governo Obama abandonou o projeto de criação de um escudo anti-míssil na Europa lançado por seu antecessor, George W. Bush, sob a alegação de uma ameaça nuclear do Irã. Ocorre que o Irã até hoje não possui armas nucleares. O escudo era claramente uma defesa contra a Rússia. Mas uma iniciativa semelhante nos dias de hoje geraria uma reação muito mais agressiva de Moscou, como observado nas tensões militares entre Rússia e OTAN no segundo semestre de 2016. Obama também retirou as tropas do Iraque em 2011, o que teria ajudado no surgimento e expansão do Estado Islâmico, agora atuante apenas na Síria. Sobre a saída dos americanos da Síria decidida por Trump, o impacto é muito menos relevante mesmo que isto ajude na consolidação da Rússia no país, cujas tropas atuam desde setembro de 2015. Na conferência anual à imprensa realizada em dezembro, Putin deixou claro que considera a Síria sua área de influência. Afirmou que a presença das tropas americanas no país eram "ilegítimas" e classificou sua saída como uma "decisão correta". Os EUA, porém, continuam com presença física no Iraque, mantém a aliança com a Arábia Saudita e fortaleceram o apoio político com Israel. Na gestão Obama, houve significativa piora das relações com sauditas e israelenses.

          Em contraste com as palavras amigáveis, Trump não tem sido tão condescendente com Putin nas vias de fato. Pelo contrário: o fortalecimento militar da OTAN, a garantia de alianças no Oriente Médio e a manutenção das sanções contra a Rússia, questões determinantes para a contenção da projeção russa no mundo, restringem a ação global de Moscou. Resta saber se o novo secretário de defesa, Patrick Shanahan, e a nova diplomata na ONU, a pouco experiente Heather Nouert (posto temporariamente ocupado por Jonathan Cohen desde 1º de janeiro), seguirão a mesma política.

          Críticas como as de Anne Applebaum são legítimas, porém, mais importante do que discursos e diatribes da Casa Branca, a questão central é o que está acontecendo concretamente, a política de fato, principalmente em questões econômicas e militares, os dois principais calcanhares de aquiles da Rússia. Caso Trump seja bem-sucedido em fortalecer os EUA no longo prazo (a economia americana está em plena expansão, por exemplo), menos espaço restará à Rússia na arena internacional. O plano de Putin de re-estabelecer a superpotência russa e recriar seu Império depende, principalmente, de tirar este posto dos EUA. Como vimos na Guerra Fria, o mundo era pequeno demais para duas superpotências, e para o Kremlin a Guerra Fria não acabou.

quarta-feira, 9 de janeiro de 2019

Moscou se volta para a Bielorrússia

(Bandeiras da Bielorrússia e Rússia.)

          Em sua coluna no jornal The Washington Post de 4 de janeiro, Anne Applebaum busca chamar a atenção dos recentes movimentos que Rússia tem feito em relação ao seu vizinho ao oeste, a Bielorrússia. Segundo a jornalista e historiadora americana, a ambição imperial de Moscou tem se voltado para Minsk, e alguns destes sinais seriam a possibilidade dos russos assumirem alguns dos serviços do governo bielorrusso como a alfandega, a emissão de vistos e a política monetária e de impostos. Tais medidas comporiam um projeto de maior integração da economia dos dois países. 

          O presidente do país, Alexander Lukashenka, se encontrou com Putin nos dias 6 e 25 de dezembro passados e, num sinal de reaproximação política, trocou felicitações pública de Ano Novo com seu colega. Em sua mensagem, Putin afirmou que a união entre os dois países criada pelo tratado que estabeleceu o Estado da União da Rússia e Bielorrússia em 1999 tem sido um sucesso. Desde a crise na Ucrânia em 2014, Lukashenka tem se distanciado de Moscou e tentado projetar uma política externa mais independente aproximando-se da Europa. A Rússia, por seu turno, tem buscado evitar o distanciamento da Bielorrússia e consolidar sua influência nos países do entorno. 
   
          Em 28 de dezembro, o primeiro-ministro russo Dmitri Medvedev assinou um decreto que criou um comitê para atuar na integração entre os dois países. O comitê será presidido pelo Ministro de Desenvolvimento Econômico Russo, Maxim Oreshkin. Isto sinaliza de aprofundamento da relação e, por consequência, de um maior atrelamento da Bielorrússia ao seu vizinho mais poderoso.

          Como comentei no final de dezembro, a Bielorrússia tem dado recentes sinais de distanciamento da Rússia, como a declaração de Lukashenka de que se referirá ao país vizinho não como "estado fraternal", mas "parceiro", e a afirmação de que não são necessárias bases militares estrangeiras em seu país, inclusive russas. Disse também que a Bielorrússia nunca será parte da Rússia. A reação de Moscou, portanto, não é surpreendente. Como lembra Applebaum, a popularidade de Putin está em queda, e demonstrações de força no exterior, como as guerras na Geórgia, na Ucrânia e na Síria, renovam o capital político do Kremlin, além de reafirmar o poder russo perante o mundo. 

          Applebaum lembra, por fim, que o Ocidente tem dado cada vez menos relevância a Minsk, e este desinteresse poderia encorajar as ações de Moscou num movimento de absorção do país vizinho. Não cabe aqui analisar esta possibilidade que tem sido aventada por alguns analistas do Ocidente, mas dado o histórico dos governos de Putin esta possibilidade não é nula. Refiro-me ao reordenamento da política russa desde 2000 com um poder crescentemente centralizador, as ações agressivas no estrangeiro desde que o presidente russo reassumiu o posto em 2012 e a forte influência do Movimento Eurasiano na elite política e militar da Rússia que almeja a criação de um poder imperial. A atual crise econômica do país e o descontentamento da população com o plano de governo de reformar a previdência anunciado, não por acaso, durante a Copa do Mundo são fatores adicionais que podem estimular ações do Kremlin no exterior. Mesmo que Lukashenka afirme garantir o contrário, a falta de força e a dependência econômica e energética em relação aos russos lhe dá limitada margem de manobra. 

          Desde que assumiu a presidência no último dia de 1999, Putin tem tentado reerguer a potência Rússia e reestabelecer seu Império. Isto indica a necessidade de ganhar não apenas poder, mas também terreno. Literalmente. 

domingo, 30 de dezembro de 2018

Putin: promessa de apoio (e a necessidade) dos BRICS

(7ª Conferência dos BRICS em Ufa, Rússia. Julho de 2015.)

          No último dia de 2018, Vladimir Putin mandou mensagens de Ano Novo aos presidentes dos quatro países dos BRICS, Brasil, Índia, China e África do Sul. Nas mensagens, foram mandadas as promessas de manter a cooperação estratégica com cada um deles bem como a coordenação conjunta do bloco nos organismos internacionais.

          A ênfase nas cooperações bilaterais foi dada à China. Putin disse que a parceria entre os dois países está num "nível sem precedentes". Com a previsão de crescimento do PIB em modesto 1,7%, uma parceria com a segunda maior economia do mundo com taxa de crescimento na casa dos 6% é fundamental. Cabe lembrar que em julho de 2014, Rússia e China fecharam um acordo de U$ 400 bilhões para venda de gás russo para o gigante asiático. Em tempos de tensão com os países ocidentais e a entrada de gás natural liquefeito dos EUA para a Europa desde abril de 2016, a Rússia inclina-se à Ásia em busca de apoio e dinheiro.

          Quanto ao Brasil, pode haver mudanças na relação com a Rússia. Putin também enviou felicitação de Ano Novo ao novo presidente eleito, Jair Bolsonaro. Mas Bolsonaro indicou, em diversas ocasiões ao longo da campanha, a intenção de aproximar-se dos EUA e de Israel. A escolha do novo chanceler, Ernesto Araújo, um forte apoiador de um política pró-Ocidente, como deixa bem claro seu artigo "O Brasil no barco de Ulisses", deve significar, se não algum distanciamento, ao menos um desagrado à Moscou. Alexander Dugin, fundador do Movimento Eurasiano e pensador mais influente nos círculos políticos e militares da Rússia, afirmou pelo Facebook que Bolsonaro é um "autoritário ultra-liberal" e que apoia a esquerda no Brasil, explicando, noutra postagem, se tratar de uma esquerda não globalista. Isto indica uma possível rejeição ao novo presidente pelo Kremlin.

          Nos últimos anos, os BRICS têm mostrado oposição às atitudes dos EUA e do Ocidente em geral na arena global. Rússia, China e Brasil (até o governo Dilma) têm sido os principais sinalizadores neste sentido. A nova atuação do Brasil no mundo ainda está em aberto, mas para a Rússia regiões como Ásia e Europa têm maior relevância, em particular a parceria militar com a China e seu gigantesco mercado de commodities. 

          

sexta-feira, 28 de dezembro de 2018

Bielorrússia: aliado da Rússia, mas nem tanto

(Putin da Rússia, Lukashenka da Bielorrússia e Poroshenko da Ucrânia.)

          Nos últimos anos, a Bielorrússia tem dado sinais de distanciamento em relação à Rússia, principalmente desde a anexação da Crimeia em 2014, não reconhecida pelo governo de Minsk, ao mesmo tempo em que tem buscado uma aproximação com o Ocidente. A posição oficial é de busca por uma política externa mais independente, não tão atrelada à Moscou.

          Neste dia 27, um economista da Universidade Estatal da Bielorrússia alertou da possibilidade dos países ocidentais criarem um movimento contra Moscou e instalar um governo pró-Ocidente em Minsk. Estes países estariam promovendo política e financeiramente pessoas comprometidas esta agenda. A narrativa é comum entre membros e apoiadores do governo russo, que buscam, por vezes de forma propositalmente exagerada, por uma "quinta coluna" em seu território. O pano de fundo do argumento, como não poderia deixar de ser, foi a onda de protestos que em fevereiro de 2014 derrubou o presidente Yanukovich, na Ucrânia, e deu passagem para a ascensão do governo pró-Ocidente de Pietro Poroshenko. 

           Noutro episódio no último dia 24, o presidente do país, Alexander Lukashenka, disse que passará a se referir à Rússia não como um "Estado fraternal", mas apenas como "parceiro", que na linguagem política russa é um termo muito mais vago e de variada interpretação. Segundo ele, é como os russos vêem seu país. Ainda que seja apenas retórica, as palavras vindas de um governante no poder desde 1994 indicam a tendência de distanciamento de Minsk em relação à Moscou. Lukashenka vem acumulando uma série de pronunciamentos neste sentido.

          A Rússia, porém, considera a Bielorrússia um vizinho fundamental, dada a possibilidade de expandir sua ação política e militar até as fronteiras da Europa, como ficou exemplificado pelo Zapad, grande treinamento militar realizado em setembro de 2017 justamente no oeste da Bielorrússia, próximo à fronteira com a Polônia. Na ocasião, foram mobilizados até 100 mil militares de ambos os países. Apesar deste tipo de cooperação, o governo Lukashenka resiste à ideia da presença permanente de militares estrangeiros em seu território, fazendo referência também à Rússia, que planeja uma base militar no territória vizinho.

           Apesar da Bielorrúsia ser culturalmente muito similar à Rússia e dependente de seus produtos comerciais, principalmente o gás natural, nos últimos anos Lukashenka tem se mostrado não tão fiel ao seu parceiro mais poderoso. Uma posição pouco segura para um pequeno país que tem ao seu lado um gigante que ocupa militarmente três de seus países vizinhos.   
          

sexta-feira, 13 de outubro de 2017

Fórum Conservador Russo: a tradição messiânica da Rússia e a estratégia conservadora


          A imagem acima é o logotipo do Fórum Conservador Russo Internacional, um evento que reuniu lideranças políticas europeias na Rússia em 2014 e 2015. Ao centro Nossa Senhora traz o Menino Jesus nos braços sobre o símbolo bizantino da águia bicéfala. A águia foi adotada pelo Grão-Duque de Moscóvia, Ivan III, e representa a união entre o poder espiritual e temporal da Rússia. O reino, que viria a se tornar Império Russo no reinado de Ivan IV, o Terrível, atribuía a si o legado do Império Bizantino. Os bizantinos desenvolveram o conceito de harmonia, o casamento perfeito entre Igreja e Estado, representada pelas duas cabeças da águia unidas a um mesmo corpo. Na proclamação e coroação de Ivan IV como czar em 1547, o rito declarou abertamente que a Rússia era a "Terceira Roma", transformando a doutrina que circulava entre os reinos eslavos pelo menos um século antes em elemento do poder de Estado. E era necessário que um "autocrata eleito por Deus" governasse com firmeza seu reino para que este cumprisse seu papel escatológico. A Rússia estava destinada por Deus a proteger e guiar a Cristandade, que teria sido traída pela heresia de Roma com o cisma de 1054 e derrotada em Constantinopla pelos muçulmanos em 1453. A única forma do czar cumprir tão grandiosa tarefa era ser divinamente inspirado. Deus era a fonte de sua legitimidade, que se sustentaria até a Revolução de 1917.

          Aos pés da águia bicéfala estão de um lado o cetro, símbolo de autoridade, e do outro o globo terrestre. A alusão é clara: a Rússia tem a função divina não apenas de guiar a Cristandade, mas o mundo todo, toda a criação. Daí a figura do sol ao fundo, a luz, Deus, fonte de todas as coisas e sob qual todas as coisas se submetem. O sol abraça e abençoa toda a criação, tendo a Rússia a autoridade sobre o mundo como protetora e guia da Cristandade. Por fim, Nossa Senhora, que é a principal intercessora junto à Deus no cristianismo e a quem o cristianismo ortodoxo russo possui particular e profunda devoção, apresenta-se como elo entre a Rússia que está representada pela a águia detrás dela e Deus que está em seus braços na Pessoa de Jesus.  

          A síntese da imagem é a liderança mundial pela Rússia, autoridade política e espiritual do mundo, guiada por Deus através das mãos de Nossa Senhora.

          O Fórum Conservador Russo Internacional já traz no nome sua pretensão: ser russo e internacional ao mesmo tempo, dando destaque ao papel da Rússia na liderança de uma nova ordem mundial construída sobre os escombros da atual. Ao sediar um evento deste tipo, o país está assumindo este papel, ao exemplo do que diz o comunicado sobre a missão do Fórum:

"Vemos quantos países euro-atlânticos realmente tomaram o caminho para rejeitar suas raízes, incluindo os valores cristãos que constituem a base da civilização ocidental. Princípios morais contrários a qualquer identidade tradicional - nacional, cultural, religiosa ou mesmo sexual. Existe uma política que coloca uma família e uma união homossexual no mesmo nível, [como se] a fé em Deus ou a fé em Satanás [fossem equivalentes]. Os excessos do politicamente correto vão tão longe que estão discutindo seriamente em criar eventos que visam propagar a pedofilia. As pessoas em muitos países europeus estão envergonhadas e com medo de falar sobre sua filiação religiosa. Os feriados podem ser cancelados ou são apresentados como algo vergonhoso, escondendo a essência desses feriados, sua base moral. E este modelo está tentando se impor agressivamente a todos, o mundo inteiro. Estamos convencidos de que este é um caminho direto para a degradação e a primitivização, uma profunda crise demográfica e moral. O que mais pode ser evidente de uma crise moral se não a perda da capacidade [da população] de auto-reprodução [?]. E hoje quase todos os países desenvolvidos não conseguem crescer mesmo com a ajuda da migração. Sem os valores estabelecidos no cristianismo e em outras religiões mundiais, sem as normais morais que foram formadas por milhares de anos, as pessoas inevitavelmente perderão a dignidade humana. E consideramos natural e corretos proteger esses valores." *

          Em seguida a esta declaração, o site do Fórum segue com um discurso de Vladimir Putin aos participantes do Clube Valdai, em setembro de 2013, onde o presidente defende os valores tradicionais, afirma que o Estado poderia ser um parceiro nesta defesa e alerta para a ameaça da perda de soberania dos países ocidentais. O Clube Valdai é um think thank vinculado ao Kremlin e voltado à pesquisa de política externa da Rússia, e todos os anos recebe a participação de Putin.


(Um dos eventos do Fórum em São Petersburgo, Rússia, 21-22 de março de 2015. Esta foi a foto do Fórum mais divulgada pela imprensa ocidental.)

          O Fórum tem como missão criar um novo conceito de desenvolvimento humano em resposta ao liberalismo do Ocidente, integrar as organizações políticas conservadoras e fortalecer os vínculos comerciais, culturais e espirituais estabelecidos historicamente entre a Rússia e a Europa. Tomado como um congresso científico, seu público-alvo são as organizações públicas, políticas e patriotas russas e estrangeiras, representantes dos governos regionais, nacional e de universidades, cientistas russos, especialistas em História, Sociologia, Demografia, Direito, Economia, Finanças e membros da indústria. A intenção é influenciar organizações políticas e sociais da Rússia e do exterior, além de figuras públicas das áreas citadas anteriormente, escritores e personalidades públicas.

          O evento de 2015 ocorreu entre os dias 21 e 22 de março no Hotel Holiday Inn, em São Petersburgo, e foi organizado pelo Centro Cultural Nacional Russo - Casa do Povo, organização voltada à promoção da cultura russa. A iniciativa veio do partido Rodina, do vice-primeiro-ministro russo Dmitry Rogozin. Segundo um comunicado oficial do governo britânico, participaram membros da direita e da extrema-direita da Alemanha, Bélgica, Bulgária, Dinamarca, Espanha, Grécia, Itália, Reino Unido e Suécia. Não houve, porém, a participação de políticos do governo russo. Os participantes são principalmente partidos políticos e lideranças políticas e militares que se alinham à proposta do Fórum, como os partidos Ataka da Bulgária, Golden Dawn da Grécia, Fuerza Nuova da Itália e a organização política europeia Aliança pela Paz e Liberdade. (O Partido da Liberdade da Áustria, que havia firmado um acordo de cooperação com o Rússia Unida, partido de Putin, e havia confirmado a presença no Fórum, decidiu de última hora não ir.) Estes partidos possuem simpatia à Rússia e à liderança do Kremlin. Dentre os participantes do Fórum havia também pessoas de perfil neo-nazista e antissemita.

          Ao final do encontro foi divulgada a Resolução dos Participantes, que inicia com a declaração de lamento à destruição dos "valores morais europeus". O texto apresenta sete pontos defendidos pelo membros: 1) a criação uma "nova ordem livre, multipolar e progressista" (principal objetivo do Fórum), a defesa a soberania dos países e o conservadorismo como a melhor forma de atividade social existente; 2) a promoção, através dos partidos e do Parlamento Europeu, dos valores cristãos e propagá-los às massas, a melhora das relações com o Ocidente e o fim da "Guerra Fria" promovida contra a Rússia; 3) a criação um sistema de segurança coletivo na Europa alheio à OTAN, que se transformou em instrumento de uma ditadura, a saída das tropas americanas do continente e a rejeição das intervenções das forças ocidentais em outros países; 4) a Rússia é sucessora legítima da União Soviética e do Império Russo e agora é parte integral das tradições europeias e de sua família estendida; 5) Europa e Rússia possuem um caminho próprio e devem ser libertos do poder americano. O principal exemplo disto é o conflito da Ucrânia, que vê como um problema interno, mas considera que parte de seu território foi artificialmente separado da Rússia, é habitado por russos e pede que o Ocidente pare de apoiar o governo de Kiev; 6) a condenação das sanções contra a Rússia e que prejudicam também a Europa, e o desejo de estimular o comércio entre as duas regiões para transformá-las novamente no centro de progresso da humanidade; 7) por fim, a tarefa mais importante é estimular o crescimento demográfico através do retorno da população aos valores tradicionais, e também intervir mais rapidamente para melhorar a vida urbana e a saúde das pessoas. A Resolução encerra pedindo que as organizações participantes ajam de forma coordenada para atingir estes objetivos.

          O documento repete algumas vezes que os membros do Fórum são "conservadores" e nos objetivos ficam evidentes as referências ao papel especial da Rússia no mundo (a dualidade Rússia-Europa mencionada repetidamente reforça esta ideia).

          O fato do Fórum utilizar um logotipo de forte carga religiosa não significa necessariamente a divinização do evento nem sua pretensão messiânica (o mesmo poderia ser dito, por exemplo, da bandeira do Brasil, cujo lema positivista "Ordem em Progresso" nela inscrito não faz deste país um agente ativo na promoção da filosofia positivista pelo mundo, que promete uma nova era de paz e progresso para a humanidade). Porém, sua simbologia e atuação inserem-se na tradição messiânica da Rússia. A exemplo do que comentei em uma outra postagem neste blog, a Rússia de hoje continua a reproduzir esta tradição com o objetivo de criar uma nova ordem mundial sob os escombros da atual. Seja sob a autoridade divina dos czares, seja sob a divinização do Partido e do triunfalismo comunista, seja sob a escatologia do atual Movimento Eurasiano, o messianismo russo mantém vivo em projetos políticos planetários voltados à formação de uma nova humanidade, um novo mundo criado à imagem e semelhança de seus planejadores sociais.

          O Fórum Conservador Russo Internacional é apenas uma das diversas investidas do Kremlin para alcançar este objetivo. Sua estratégia é revelada na narrativa conservadora e nacionalista onde se misturam elementos de tradição revolucionária (anti-conservadora, portanto), como fascistas, neo-nazistas e extremistas de direita, cujo ponto em comum não está tanto nos valores, mas no sentimento pró-Rússia e anti-EUA. O desconhecimento da missão deste evento pela grande maioria das pessoas mostra que este não é um plano com consentimento dos povos, muito menos de consentimento divino.

* Traduzido do russo pelo Google Tradutor e adaptado pelo autor.

segunda-feira, 24 de julho de 2017

A língua como elo de uma nação: a Rússia e o mundo russo

(Camiseta com os símbolo bizantino da águia bicéfala, o mapa da Rússia com as bandeira nacional e o nome do país escrito em russo: símbolos unificadores da nação.) 

          No último dia 20 de julho, o presidente da Rússia Vladimir Putin fez um pronunciamento no Conselho Presidencial sobre Assuntos Interétnicos na cidade de Yoshkar-Ola, capital da pequena república de Mari El, sobre as relações interétnicas no país. A república possui em torno de 700 mil habitantes, sendo em torno de 47% de russos e 43% da etnia mari, cuja descendência pertence aos povo fino-úgricos, originários do norte e leste europeu e que possuem interação com a etnia russa.

(Putin na reunião do Conselho Presidencial sobre Assuntos Interétnicos, em Yoshkar-Ola, 20 de julho de 2017.)

          De acordo com o analista americano Paul A. Goble, especialista em questões étnicas e religiosas da Eurásia, em seu discurso Putin afirmou que todos os não-russos étnicos deveriam aprender a língua russa, ao passo que os russos não étnicos não deveriam ser obrigados a aprender a língua das repúblicas em que habitam e que são caracterizadas culturalmente pelo grupo étnico predominante. Goble adota um postura crítica a este discurso afirmando que ele aplica dois pesos e duas medidas no que se refere ao status étnicos dos grupos que compõe a Rússia, privilegiando os russos étnicos em detrimento das demais etnias e estimulando as paixões nacionais de ambos os lados.

          Golbe transcreve o comentário de Putin, que diz: “A língua russa para nós é uma língua estatal, a língua da comunicação interétnica, e ela não pode ser substituída por nada. É o esqueleto espiritual natural de todo o nosso país multinacional. Todos devem saber isto... As línguas dos povos da Rússia são também o aspecto inalienável da cultura única dos povos da Rússia". O discurso é claro: a Rússia possui uma cultura peculiar, única, cuja unidade multinacional é tecida pela língua, o centro, a estrutura principal de sua cultura. Segundo Putin, as línguas não russas não são propriedade do Estado como é a língua russa, mas pertence aos seus respectivos povos. A Constituição garante o estudo delas, mas de forma voluntária, e não obrigatória como a língua pátria. "É inadmissível forçar alguém a estudar uma língua que não e sua língua nativa", disse o presidente. A exceção cabe ao russo, obrigatório em todo o país.

          Segundo Golbe, Putin tratou das culturas não russas sob a ótica do turismo e eventos públicos, de forma que os russos pudessem conhecer outras culturas, destacando que o desenvolvimento e a popularização destas regiões é de extrema importância dado que a Rússia "é única na multiplicidade de sua natureza e tradições nacionais". Acontece que o presidente fez referência unicamente às comunidades nacionais extraterritoriais, aos municípios e aos oficiais regionais, mas não às etnias que possuem repúblicas próprias com leis próprias conforme sua cultura. Na visão de Golbe, isto é um "estrondoso silêncio" dada a importância dessas regiões na formação e estrutura do país.

          A ênfase na peculiaridade da cultura russa é uma narrativa recorrente nos discursos de Putin, que normalmente evoca questões de ordem espiritual e civilizacional quando aborda este tema. Fica claro no seu discurso do dia 20 que a língua russa é o elo que une toda a nação multiétnica, uma cultura prevalecente.

(São Paulo, maior cidade do Brasil e das Américas, com 11 milhões de habitantes, palco da pesquisa de Svetlana Ruseishvili: a pesquisadora considerou como russos os habitantes da cidade com base na unidade linguística.)

          Esta visão de Putin pode ser melhor compreendida com a distinção dos papéis de cada grupo nacional dentro da Rússia, construída historicamente como um império multinacional. Em sua tese de doutorado em Sociologia pela Universidade de São Paulo Ser russo em São Paulo, a russa Svetlana Ruseishvili, radicada no Brasil, procura responder  à pergunta "o que é ser russo?" para balizar sua abordagem de campo. Ruseishvili lembra que a Rússia deve ser compreendida segundo a natureza imperialista de seu Estado, onde as dimensões étnicas e cívicas de ser russo não estão totalmente separadas (todo o russo étnico é cidadão russo, bem como todo o não russo étnico que vive dentro das fronteiras do país é também um cidadão russo).

          Ruseishvili explica que na medida em que o Império se expandia a partir do século XVI, diversas etnias foram incorporadas ao seu domínio, criando diferentes categorias de cidadãos segundo sua identidade étnica. A assimilação obedecia critérios geográficos e culturais, e os povos "com pouco grau de cidadania" recebiam um status administrativo e político inferior. Diz a autora:
"A preocupação de um Império em organizar seus territórios conquistados de modo segregado, conferindo-se a alguns peso cultural e político maior que a outros, criou uma concepção de pertencimento étnico como atributo inerente a cada indivíduo, sendo ele imutável e herdado" (p. 179)
          A socióloga utiliza-se da ideia de língua comum para explicar o chamado "mundo russo". Ao compreender o mundo russo através da ideia de língua comum, o termo adquire uma concepção que é similar à da Academia russa, conceituado como: 
"...um espaço cultural transnacional cujo elemento principal é a língua russa. Sem dúvida, a dimensão ideológica desse conceito não pode ser ignorada: mundo russo é antes de tudo um mundo de colonização russa, com sua longa história de 'russificação' dos novos territórios como a principal estratégia de assimilação cultural." (p. 182)
E continua:
"Contudo, o resultado dessas políticas se transformou um concepção de nacionalidade étnica que se baseia, sobretudo, no pertencimento linguístico. Dessa maneira, a língua russa, uma língua de difícil acesso para os não nativos, tornou-se denominador comum universal para um país multilinguístico e multinacional como a Rússia. Parafraseando Elias, a língua russa se modificou efetivamente em uma instituição que permite falar da existência de um habitus nacional na Rússia." (p. 182)  
          Antes desta parte, Ruseishvili reproduz passagens escritas pelo sociólogo alemão Norbert Elias, para quem a consciência nacional, a personalidade de um povo, "cristaliza-se em instituições que têm a responsabilidade de assegurar" que várias pessoas diferentes adquiram o mesmo habitus nacional. Para ele, a língua comum é o exemplo "mais imediato" deste habitus.

          Foi com base na uso comum da língua que a socióloga russa definiu quem são os russos e seus descendentes em São Paulo. A língua é "o elemento central de compreensão daquilo que chamei aqui de 'ser russo'". Este é o fator delimitador das fronteiras deste grupo social capaz de dar-lhe coesão interna e  que permite que pessoas de diferentes etnias se apresentem como russos sem expor sua identidade original. Desta forma, Ruseishvili delimitou sua pesquisa de campo onde, além de russos étnicos, abordou judeus, ucranianos, bessarábios e lituanos todos como russos.

          Para os russos, portanto, é a língua russa o habitus nacional e o elemento da cultura que se manifesta de forma mais direta nas instituições nacionais. Neste caso, a escola seria o principal veículo e divulgador da língua. Goble não fala da escola no discurso de Putin, mas isto pode ser subentendido devido ao seu papel como propagador de valores cívicos e nacionais. Para o historiador português Fernando Catroga, é a escola a responsável por inculcadora de valores cívicos nas pessoas: 

"Ao apelar para a necessidade de o ensino ministrar uma educação moral e social comum, ele exigia a partilha de ideias e valores comuns acerca do mundo e da vida (...) mundividência que a ação ativa do poder político (...) teria de tornar hegemônica para se poder 'fazer' cidadãos patriotas e racionalistas. O que, como se viu, não dispensava o papel socializador, se não de uma religião civil (...), pelo menos uma espécie de 'religião laica' ou 'cívica'" (p. 302-303)
(Vista do Kremlin: na Rússia o Estado tem forte presença na sociedade, inclusive como promotor da cultura russa ao longo dos séculos, como a língua pátria.)

          A citação de Catroga ocorre dentro da análise que o ele faz da relação Igreja-Estado numa perspectiva histórica para destacar o papel da escola na propagação de valores. Isto é particularmente relevante na Rússia devido ao forte papel do Estado na vida social, onde até mesmo a Igreja esteve sob sua influência direta. Por séculos a autoridade política esteve acima das autoridades religiosas, com diversos momentos de tensão. A Igreja esteve submissa ao poder político não apenas durante o período soviético, como relata Ruseishvili, mas durante todo o período desde o reinado de Pedro, o Grande. Segundo o historiador britânico Benedict H. Sumner, em 1721 o imperador aboliu o Patriarcado da Igreja Ortodoxa Russa e o substituiu por uma junta administrativa, o Santo Sínodo. O imperador Alexandre I foi mais longe: em 1824 nomeou um procurador chefe (na prática um ministro de Estado) para dirigir o Sínodo. Esta situação perdurou até a Revolução Russa em 1917. Com a restauração do Patriarcado em 1918, porém, veio sua submissão a um órgão vinculado diretamente ao PCUS e a massiva perseguição antirreligiosa, particularmente em 1929 e 1937. Hoje, mesmo que Igreja e Estado sejam oficialmente separados, na prática há uma relação de dependência e apoio mútuo: a Igreja está atrelada ao Estado e deste depende para seu reavivamento e manutenção (a reconstrução de igrejas e monastérios destruídos durante o período soviético foi apoiada e financiada pelo Kremlin e os novo oligarcas); por outro lado e o Estado busca apoio e legitimidade na Igreja como forma de unir o país e exaltar o sentimento nacional.

          Disto podemos concluir que o Estado russo não é apenas um administrador das questões públicas, mas acima de tudo uma estrutura que procura abraçar toda a sociedade e, portanto, definir o papel e os valores que ela deve carregar. Observando a história do país descrita por Sumner, na medida em que o Estado russo se expande, expande também sua atuação nos diversos domínios da vida pública, particularmente a partir da gestão de Pedro, o Grande. Na Rússia, Estado e sociedade caminham juntos ou, para ser mais exato, o Estado caminha acima da sociedade e mesmo da Igreja.

          Quando Golbe afirma que Putin não fez referência às repúblicas não russas, mas apenas às nações sem território próprio, fica subentendido que a prioridade da língua russa sobre as demais vai além da escola e abraça todo o aparato estatal. Isto não significa que estes grupos não possuam um aparelho estatal próprio capaz de propagar a língua materna, e sim que estas línguas têm importância secundária frente ao projeto nacional de promoção da língua pátria da Rússia

          Não pretendo aqui qualificar o que Putin disse, mas concluir esta breve análise afirmando que para o que chamamos de Rússia, a etnia russa não prevalece sobre as demais apenas em número (equivalente a 82% da população do país), mas também formalmente através da promoção oficial de sua língua materna. Desta forma o Estado age para promover a unidade nacional e territorial através de uma cultura específica, mas sem necessariamente depreciar outras culturas, dado que legalmente não há proibição do ensino das línguas de etnias não russas.


(Mapa dos grupos étnicos da antiga URSS: a língua materna geralmente acompanha os grupos étnicos correspondentes. A língua russa - cujo grupo étnico aparece em vermelho - é a mais difundida na região, e vai além das fronteiras étnicas e nacionais da Rússia atual.)

          Já a evocação do "mundo russo" conforme contornos étnicos e linguísticos como vetor da política externa de Moscou é uma preocupação para vizinhos como Ucrânia, Geórgia e Moldávia, que possuem presença militar da Rússia, bem como para outros países da antiga URSS, que assistem à "multiplicação" de cidadãos russos através da concessão de cidadania aos seus habitantes. Desta forma o mundo russo se amplia legalmente e Moscou passa a reivindicar o direito sobre estas populações. Mas este já é outro problema.

sexta-feira, 18 de novembro de 2016

A publicação do debate entre Olavo e Dugin na Romênia: a necessidade de se defender uma nação

(Capa da publicação romena.)

Pela primeira vez o debate entre Olavo de Carvalho e Alexander Dugin será publicado numa língua além de português e inglês. Trata-se de uma iniciativa da Editora Humanitas, da Romênia. A publicação é, portanto, na língua romena, e sairá dia 20 de novembro deste ano.

(Horia-Roman Patapievici)

Numa entrevista concedida a uma televisão do seu país, o filósofo, ensaísta e ex-presidente do Instituto Cultural Romeno, Horia-Roman Patapievici, falou sobre a publicação do livro (aqui e aqui para os que dominam o romeno). Patapievici foi questionado sobre a razão de se publicar na Romênia um livro com as ideias de Dugin devido à hostilidade inspirada por seu pensamento filosófico e o Movimento Eurasiano. No texto abaixo, reproduzido em português no perfil do Olavo de Carvalho no Facebook, estão as respostas do pensador romeno.

"Entrevistador: Por que a editora Humanitas publica Alexandre Dugin?
Horia-Roman Patapievici: Porque temos de conhecer bem nossos adversário, e Dugin é autor de uma teoria bem articulada, que recupera as ideologias totalitárias do século XX, mas também a ideia do messianismo russo, para propor uma teoria do eurasianismo. O Liberalismo ocidental é, para ele, o mal absoluto. O ódio - deslegitimado pela prática política liberal - contra a modernidade e a pós-modernidade tem de levar, afinal, à aniquilação do Ocidente e do seu sistema de valores. 
Entrevistador: Não é, então, nociva a propagação de suas ideias no espaço romeno? 
Horia-Roman Patapievici: Não, porque a réplica do professor brasileiro Olavo de Carvalho é uma réplica brilhante. Olavo de Carvalho é o oposto completo da ideia do intelectual institucionalizado, como é o caso de Dugin. Exilou-se de seu Brasil natal para uma quinta dos EUA, onde tem um "jardim" filosófico online com 3000 alunos. Ele opõe à retórica emocional de Dugin a argumentação proveniente da racionalidade de tipo ocidental. Portanto, a editora Humanitas publica este livro, em primeiro lugar, para conhecer uma ideologia extremamente perniciosa, contra os valores em que cremos e mesmo contra nossa estatalidade, mas também para ter acesso a uma contra-argumentação, uma réplica brilhante, que mobiliza o melhor na sociedade ocidental, para mostra que a ideologia de Dugin não tem nenhuma raiz na filosofia, no pensamento, na cultura e na religião ocidental. 
Entrevistador: Por que é perigoso o putinismo para a estabilidade romena?
Horia-Roman Patapievici: Porque o plano eurasiano conta [com a] divisão da Ásia entre a Rússia e a China, passando a Europa a ser integralmente da Rússia. Neste plano, a Romênia não tem nenhum futuro. Tem de fazer parte da Rússia. É inaceitável, não apenas do ponto de vista romeno, como também europeu."

Sem entrar no mérito do debate, dois pontos nas respostas de Patapievici merecem atenção. O primeiro é a guerra cultural travada por Dugin contra os valores que sustentam política e socialmente o Ocidente. Sua guerra não se restringe no campo das ideias: ela entra na política. Na sua complexa trajetória como filósofo, ideólogo, fundador de movimentos culturais e assessor de líderes políticos, o pensador russo já declarou abertamente que sua intenção não é atuar como um político, mas agir nos bastidores do poder com o objetivo de influencia-lo. Ao criar o movimento político Evraziia, em 21 de abril de 2001, Dugin declarou: "Nosso objetivo não é chegar ao poder, nem lutar pelo poder, mais lutar por influência nele." Segundo a professora Marlène Laruelle, o movimento tinha como objetivo formular uma "ideia nacional" para Rússia. Dugin abandonou o Evraziia em setembro de 2003, pouco mais de um ano depois de sua transformação em partido político e dois meses depois de sua fusão com o Bloco Rodina, de cujo perfil ideológico discordava. Mas ele continuou sua trajetória como assessor de outros parlamentares russos e professor na Universidade Estatal de Moscou (de onde saiu em 2014), divulgando de uma série de livros e textos na internet, como no The Fourth Political Theory e o recém fundado Katehon.

(Mastodôntico Palácio do Parlamento - 365 mil m² - construído pelo ditador Nicolae Ceaucescu, em Bucareste: experiência comunista ajudou a colocar a Romênia na UE e na OTAN.)

O segundo ponto é a dimensão geopolítica do pensamento neoeurasiano. Em junho fiz uma breve análise da visão de Dugin sobre o Brexit com base numa entrevista concedida ao think thank Katehon (do qual ele é um dos membros do Conselho Supervisor) sob o título "Brexit: a Europa está caindo no abismo" e no debate com Olavo de Carvalho. O pensador russo afirma que o declínio europeu seria devido à "ideologia ultraliberal" atuante no continente, e põe em cheque a liderança ocidental no mundo. Por outro lado ele mostra preferência pela alternativa rival, a Organização de Cooperação de Shanghai (OCS), cujo dois grandes membros são Rússia e China. "O Brexit é o colapso do Ocidente e é uma vitória da humanidade", afirma Dugin, que depois completa: "E a bandeira da humanidade é a OCS, a Rússia, a atual Rússia multipolar livre soberana liderada por Putin, e aqueles que estão no Clube Eurasiano".

A guerra cultural e as consequências geopolíticas do neoeurasianismo são o cerne do alerta de Patapievici. Num mundo moldado pelo Movimento Eurasiano e liderado pela OCS haverá pouco ou nenhum espaço para oposição de países menores como a Romênia. Após a experiência do bloco comunista, isto ajuda a explicar a opção do país pela União Europeia e a OTAN. Ademais, Rússia e China possuem uma aliança estratégica de longo (a exemplo dos multibilionários acordos de fornecimento de gás russo em 2014), sendo a China polo de atração de toda a Ásia Oriental e a Rússia a linha de frente da expansão do eurasianismo com suas investidas na Europa e mesmo nos EUA em no campo político, cultural e militar. Num mundo onde poderes multinacionais (seja eurasiano ou ocidental) crescem de forma desmedida, é necessário saber onde mora o maior perigo para saber se situar de forma mais consciente e menos desconfortável junto às grandes potências. No caso da Romênia esta acomodação é estritamente necessária, dado que o país situa-se na Europa Oriental junto à Moldávia e Ucrânia, países sob ação direta da Rússia.

 (Terceira e segunda edições de "O Jardim das Aflições", do filósofo Olavo de Carvalho: defesa da liberdade interior contra a intromissão do Estado moderno. Na terceira edição, o filósofo corrige algumas distorções de seu ensaio e o complementa com uma breve análise do neoeurasianismo de Dugin.)

Por fim, cabe aqui o que Patapievici comentou sobre o filósofo brasileiro: "Olavo de Carvalho é o oposto completo do intelectual institucionalizado", cuja réplica a Dugin ele definiu como "brilhante". Isto vai de encontro ao que eu escrevi no texto sobre o Brexit: Dugin não entende o pensamento de Carvalho, não consegue vê-lo fora de um esquematismo ideológico, e por isso mesmo sente-se confuso no debate que travou com o brasileiro. Para o russo era inconcebível que seu oponente fosse um opositor do plano eurasiano e também do plano globalista do Ocidente. Ocorre que Carvalho pensa como indivíduo e não dentro de esquemas ideológicos, por mais complexos que sejam. É esta liberdade interior que Patapivici também quer preservar, porque dela depende a liberdade de uma nação. Esta última frase não é uma defesa apaixonada, emocional da liberdade: é pilar do pensamento de Olavo de Carvalho, como bem demonstra o capítulo final daquele que considero o melhor de seus livros, O Jardim das Aflições (p. 307, 2ª edição):

"Na ausência do poder espiritual (...) o poder é o único juiz. Democrático ou oligárquico, comunista ou capitalista, monárquico ou republicano, socialdemocrata ou neoliberal, ele será sempre o poder de César, com uma propensão incoercível de autodivinizar-se. E enquanto não compreendermos essas coisas continuaremos a apostar neste ou naquele sistema político, não enxergando que os méritos de qualquer sistema político dependem essencialmente de que ele saiba respeitar os limites impostos pela consciência religiosa do povo, vivificada pela presença da autoridade espiritual e firmada em valores que antecedem de muito o nascimento desse sistema e da própria sociedade que ele governa; que o antecedem, talvez, desde a eternidade"

domingo, 16 de outubro de 2016

Kaliningrado e a súbita deterioração das relações Rússia-Ocidente

(Veículo militar russo com míssil Iskander-M à bordo: sistema móvel poderia carregar ogivas nucleares, e com adaptações ampliar seu alcance.)

No último dia 7, sexta-feira, o sistema de mísseis Iskander-M chegou à província de Kaliningrado, território da Rússia espremido entre a Polônia e a Lituânia na costa do Mar Báltico. A primeira informação veio do governo da Estônia e foi levada ao público no mesmo dia pelo portal de notícias ERR. Logo a informação se espalhou e causou reação na Europa, principalmente na Polônia e nos Países Bálticos.

(Território de Kaliningrado: posto avançado da Rússia na Europa Oriental cercado por membros da União Europeia e da OTAN.)

(Alcance do míssil Iskander-M: com adaptações, este sistema em Kaliningrado poderia atingir Berlim e Copenhague, além de cobrir quase a totalidade da Polônia.) 

Os mísseis estavam à bordo de uma embarcação civil chamada Ambal que saiu da pequena cidade de Ust-Luga, próxima à São Petersburgo, com destino à Kaliningrado. Segundo um especialista ouvido pelo The Guardian, os mísseis Iskander-M, conhecidos como SS-26 pela OTAN, são altamente sofisticados e não há armamento similar no mundo. Eles podem atingir o sistema de mísseis de defesa instalados pelos EUA na Polônia, os três países Bálticos, mudar de direção durante o voo e são capazes de carregar tanto explosivos comuns quanto ogivas nucleares. Outro especialista ouvido pelo Observer, John Schindler, diz que o sistema é ofensivo e pode ter alcance ampliado para 700 km e atingir Berlim. Este raio também abrange parte do sul da Suécia e a capital dinamarquesa Copenhague.

O transporte dos Iskander-Ms por uma embarcação civil e a instalação numa região cercada por países membros da OTAN e da União Europeia sugerem, dentro do contexto de rápida piora nas relações entre a Rússia e o Ocidente desde a guerra na Ucrânia, que esta movimentação militar tem como objetivo desestabilizar a segurança da Europa Oriental. É o que diz o especialista citado no Observer:

Há uma razão para o Kremlin não enviar este sistema de mísseis para Kalinigrado desde 2009, em troca do abandono pelo presidente Obama do sistema de mísseis de defesa na Polônia e na República Checa. O ativamento de uma unidade Iskander-M em Kaliningrado, ao oeste das repúblicas bálticas, é certamente visto como uma desestabilização de toda o flanco oriental da OTAN que, apesar das promessas de segurança pela Casa Branca, se mantém vulnerável a um ataque russo. Para Varsóvia e outras capitais da OTAN, este movimento se assemelha à versão báltica da Crise dos Mísseis de Cuba.

A referência ao ano de 2009 diz respeito à decisão da administração Obama, no mês de setembro, de eliminar o European BMD (em inglês, Defesa de Mísseis Balísticos Europeu), criado pelo governo George W. Bush e conhecido como escudo anti-míssil, e substitui-lo pelo PAA (em inglês, Abordagem Adaptativa Gradual), um novo sistema que atuaria de forma responsiva e, ao menos oficialmente, seria voltado contra um Irã empenhado no desenvolvimento de armas nucleares. O então presidente russo Dmitri Medvedev chamou a mudança de "um movimento responsável" e se colocou à disposição para dialogar. Tantos analistas russos quanto americanos consideraram a atitude de Obama uma vitória da diplomacia russa. Seus críticos o acusaram de ceder à pressão sem conseguir nada em troca, enquanto que seus apoiadores disseram que Moscou não queria um confronto imediatamente cabendo aos americanos esperar e observar quais seriam as novas atitudes russas. A julgar pela crítica de Schindler, Moscou aproveitou o erro do governo Obama para alocar os mísseis Iskander-M em Kaliningrado. Na atual situação, uma reação americana e/ou da OTAN, como um novo escudo anti-míssil, por exemplo, poderia ser perigoso.

(Charge ironiza o desmonte por Obama do projeto do escudo antimíssil de W. Bush para a Europa. Obama aparece sorrindo para o presidente russo Medvedev como alguém que prefere agradar ao inimigo do que proteger os europeus.)

A Rússia, por sua vez, minimizou a questão dos mísseis. A imprensa do país (Sputnik, Russia Today e Russian Insider) destacou as palavras do porta-voz do Ministério da Defesa russo, Igor Konashenkov, que declarou que os Iskander-Ms foram deliberadamente expostos aos satélites norte-americanos durante seu transporte, que o deslocamento deles para Kaliningrado era parte de exercícios militares e que a inteligência americana já detectara a movimentação. Esta última informação veio por uma fonte anônima à agência Reuters: o deslocamento dos Iskander-Ms para a província "poderia ser inócuo", já que em 2014 a Rússia colocou um sistema de mísseis similar na região. A mensagem do governo russo era clara: Moscou não tinha nada a esconder e suas atividades militares eram rotineiras.

Os países vizinhos à Kaliningrado reagiram à implantação dos mísseis com preocupação e reclamações: a Polônia considerou a atitude russa altamente preocupante, o governo da Estônia, através de seu ministro da defesa, disse que a Rússia pretende dominar o Mar Báltico, já a Lituânia prometeu fazer um protesto à Moscou.

(Avião militar russo An-72 - um dos modelos Antonov - para transporte de cargas pesadas que invadiu o espaço aéreo da Estônia em 6 de outubro.)

A reação dos vizinhos é justificável. São recorrentes as invasões do espaço aéreo dos países do Báltico por aviões russos. No dia 6, um antes da notícia sobre os mísseis, o avião russo SU-27
invadiu espaço aéreo finlandês sobre as águas do Golfo da Finlândia próximo à cidade de Parvoo. A invasão ocorreu às 16:43, hora local, e durou um minuto. Outra invasão aconteceu pouco depois, às 21:33. No dia seguinte, às 18:23, quatro horas após a divulgação da primeira notícia sobre os mísseis em Kaliningrado, a aeronave An-72 da Força Aérea Russa invadiu o espaço aéreo da Estônia na região da ilha de Vandloo por quase um minuto e meio. Apesar do transponder estar ligado, a aeronave não informou sua rota nem fez contato por rádio. Do lado russo a resposta aos fatos foi simples: Moscou negou a violação dos espaços aéreos. Seus aviões estariam na rota planejada e em águas internacionais.

O transporte dos mísseis para Kaliningrado tem relação com duas questões que também estão inter-relacionados.

A primeira é a segurança da Europa Oriental. Em maio deste ano ficou pronto um escudo antimíssil na Bulgária, e em 2018 será implantado o mesmo escudo na Polônia. Ocorre que ambos são patrocinados pelos EUA. Em junho uma reportagem do jornal britânico Express citou fontes do próprio Kremlin que afirmavam que a Rússia iria instalar os Iskander-Ms em Kaliningrado de forma permanente. Este plano era cogitado desde pelo menos 2008, mas a expectativa era que os mísseis fossem instalados não antes de 2018 (outras fontes afirmam que o plano era apenas para 2019). Especialistas disseram que a criação o escudo antimíssil na Romênia seria o que Moscou precisava para justificar sua atitude, que viria a se concretizar antes do esperado neste 7 de outubro. O patrocínio destes escudos pelos americanos foi recebido pela Rússia como uma provocação.

(Vista da Kaliningrado, capital da província de mesmo nome: a região possui arquitetura alemã, igrejas ortodoxas e mais de 85% da população é da etnia russa. Sob governo Putin a província voltou a ser a vitrine militar e cultural da Rússia na Europa.) 

Este acontecimento é mais uma etapa da nova política do governo Putin para a região. Apesar da grande redução de homens em relação aos tempos soviéticos, quando Kaliningrado chegou a ter 200 mil homens das forças armadas e a entrada de cidadãos era restrita, em 2010 havia apenas dez mil homens num universo de 950 mil habitantes. A província, que foi anexada pela URSS em abril de 1945 e que foi habitada exclusivamente por cidadãos soviéticos após a retirada da população alemã, voltou a ser nos últimos anos um importante e estratégico posto avançado da Rússia na Europa. Kaliningrado tem experimentado uma melhora no seu padrão de vida com a criação de uma zona econômica especial, e investimentos foram realizados na modernização da estrutura militar regional com o objetivo de fazer frente ao poder da OTAN. O governo também tem patrocinado eventos de ordem cultural, como o encontro do Conselho dos Povos do Mundo Russo realizado em abril de 2015 com intelectuais russos e membros da Igreja Ortodoxa.

No final de junho de 2016 foi realizada uma profunda mudança na hierarquia militar de Kaliningrado pelo ministro da defesa russo, Sergey Shoigu. Mais de cinquenta homens de alta patente e membros da Frota Báltica foram demitidos, segundo o ministério por infringirem as regras estabelecidas pela organização. O ministro justificou a drástica atitude alegando a "instável situação política e militar" nas fronteiras ocidentais da Rússia. É uma clara alusão à deterioração das relações entre Moscou e o Ocidente desde o início do conflito na Ucrânia.

(Russos e americanos divergem sobre a estratégia a ser adotada na guerra civil na Síria, um dos motivos da profunda piora nas relações entre os dois países. Na foto, imediações da principal praça de Aleppo, na Síria. Parte da cidade está arrasada.)

A segunda questão é mais ampla e mais grave: a significativa piora nas relações entre Rússia e EUA nas últimas duas semanas. Na lista de acontecimentos está a acusação por parte dos americanos de que a Rússia tentou interferir nas eleições americanas ao hackear o Comitê Nacional do Partido Democrata em agosto, gerando uma crise no partido, e que agora estaria por trás da contínua liberação de e-mails pessoais de John Podesta, chefe de campanha de Hillary Clinton, pelo Wikileaks em 7 de outubro; a preparação por parte da CIA de contra-atacar o Kremlin na guerra virtual (notícia que parece exagerada, como bem observou o analista Anton Shekovtsov em seu perfil no Facebook, devido a publicidade dada à informação); o rompimento de dois acordos de colaboração na área nuclear entre Washington e Moscou por parte dos russos; o cancelamento da visita de Putin à França agendada para o dia 19 de outubro em razão da acusação por Paris de que Moscou estaria cometendo crimes de guerra na Síria e por divergências entre as estratégias russa e americana no conflito; as orientações e o treinamento em massa da população russa para uma eventual guerra nuclear; e a chamada de Putin para que altos funcionários do governo e suas famílias voltassem para o país. Este último ponto em particular gerou uma série de análises e rumores do lado ocidental de que a Rússia estaria se preparando para uma grande guerra, inclusive uma "guerra nuclear" ou uma "Terceira Guerra Mundial", termos que apareceram em diversos veículos de comunicação depois de muitos anos. O pedido de Putin teria sido informal, e não há informações de que o mesmo pedido valeria para cidadãos russos no exterior. Ademais, o presidente russo está fazendo uma grande reforma política interna remanejando membros do governo, do serviço secreto, secretários do alto-escalão e governadores das províncias. A chamada pode ter relação com esta reforma.

Kaliningrado insere-se na súbita deterioração das relações Rússia-EUA/Europa, e esta situação sugere que o posicionamento dos mísseis Iskander-M na província não seja apenas para exercícios militares, mas também para instalação definitiva. Apesar dos sinais profundamente preocupantes (poderia ainda acrescentar o cercamento da Ucrânia em agosto), esta conjuntura não indica necessariamente uma guerra global em curto prazo. Com a aproximação das eleições nos EUA, o Kremlin pisou no acelerador para exercer pressão sobre seu resultado e está jogando toda as cartas possíveis para reagir ao que seu ministro do exterior, Sergei Lavrov, chamou de "histeria russofóbica" do Ocidente.

Voltarei ao quadro geral descrito no final deste texto num momento oportuno. A situação é preocupante, e Kaliningrado é apenas um capítulo de uma crise muito mais ampla e profunda.