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domingo, 16 de outubro de 2016

Kaliningrado e a súbita deterioração das relações Rússia-Ocidente

(Veículo militar russo com míssil Iskander-M à bordo: sistema móvel poderia carregar ogivas nucleares, e com adaptações ampliar seu alcance.)

No último dia 7, sexta-feira, o sistema de mísseis Iskander-M chegou à província de Kaliningrado, território da Rússia espremido entre a Polônia e a Lituânia na costa do Mar Báltico. A primeira informação veio do governo da Estônia e foi levada ao público no mesmo dia pelo portal de notícias ERR. Logo a informação se espalhou e causou reação na Europa, principalmente na Polônia e nos Países Bálticos.

(Território de Kaliningrado: posto avançado da Rússia na Europa Oriental cercado por membros da União Europeia e da OTAN.)

(Alcance do míssil Iskander-M: com adaptações, este sistema em Kaliningrado poderia atingir Berlim e Copenhague, além de cobrir quase a totalidade da Polônia.) 

Os mísseis estavam à bordo de uma embarcação civil chamada Ambal que saiu da pequena cidade de Ust-Luga, próxima à São Petersburgo, com destino à Kaliningrado. Segundo um especialista ouvido pelo The Guardian, os mísseis Iskander-M, conhecidos como SS-26 pela OTAN, são altamente sofisticados e não há armamento similar no mundo. Eles podem atingir o sistema de mísseis de defesa instalados pelos EUA na Polônia, os três países Bálticos, mudar de direção durante o voo e são capazes de carregar tanto explosivos comuns quanto ogivas nucleares. Outro especialista ouvido pelo Observer, John Schindler, diz que o sistema é ofensivo e pode ter alcance ampliado para 700 km e atingir Berlim. Este raio também abrange parte do sul da Suécia e a capital dinamarquesa Copenhague.

O transporte dos Iskander-Ms por uma embarcação civil e a instalação numa região cercada por países membros da OTAN e da União Europeia sugerem, dentro do contexto de rápida piora nas relações entre a Rússia e o Ocidente desde a guerra na Ucrânia, que esta movimentação militar tem como objetivo desestabilizar a segurança da Europa Oriental. É o que diz o especialista citado no Observer:

Há uma razão para o Kremlin não enviar este sistema de mísseis para Kalinigrado desde 2009, em troca do abandono pelo presidente Obama do sistema de mísseis de defesa na Polônia e na República Checa. O ativamento de uma unidade Iskander-M em Kaliningrado, ao oeste das repúblicas bálticas, é certamente visto como uma desestabilização de toda o flanco oriental da OTAN que, apesar das promessas de segurança pela Casa Branca, se mantém vulnerável a um ataque russo. Para Varsóvia e outras capitais da OTAN, este movimento se assemelha à versão báltica da Crise dos Mísseis de Cuba.

A referência ao ano de 2009 diz respeito à decisão da administração Obama, no mês de setembro, de eliminar o European BMD (em inglês, Defesa de Mísseis Balísticos Europeu), criado pelo governo George W. Bush e conhecido como escudo anti-míssil, e substitui-lo pelo PAA (em inglês, Abordagem Adaptativa Gradual), um novo sistema que atuaria de forma responsiva e, ao menos oficialmente, seria voltado contra um Irã empenhado no desenvolvimento de armas nucleares. O então presidente russo Dmitri Medvedev chamou a mudança de "um movimento responsável" e se colocou à disposição para dialogar. Tantos analistas russos quanto americanos consideraram a atitude de Obama uma vitória da diplomacia russa. Seus críticos o acusaram de ceder à pressão sem conseguir nada em troca, enquanto que seus apoiadores disseram que Moscou não queria um confronto imediatamente cabendo aos americanos esperar e observar quais seriam as novas atitudes russas. A julgar pela crítica de Schindler, Moscou aproveitou o erro do governo Obama para alocar os mísseis Iskander-M em Kaliningrado. Na atual situação, uma reação americana e/ou da OTAN, como um novo escudo anti-míssil, por exemplo, poderia ser perigoso.

(Charge ironiza o desmonte por Obama do projeto do escudo antimíssil de W. Bush para a Europa. Obama aparece sorrindo para o presidente russo Medvedev como alguém que prefere agradar ao inimigo do que proteger os europeus.)

A Rússia, por sua vez, minimizou a questão dos mísseis. A imprensa do país (SputnikRussia Today e Russian Insider) destacou as palavras do porta-voz do Ministério da Defesa russo, Igor Konashenkov, que declarou que os Iskander-Ms foram deliberadamente expostos aos satélites norte-americanos durante seu transporte, que o deslocamento deles para Kaliningrado era parte de exercícios militares e que a inteligência americana já detectara a movimentação. Esta última informação veio por uma fonte anônima à agência Reuters: o deslocamento dos Iskander-Ms para a província "poderia ser inócuo", já que em 2014 a Rússia colocou um sistema de mísseis similar na região. A mensagem do governo russo era clara: Moscou não tinha nada a esconder e suas atividades militares eram rotineiras.

Os países vizinhos à Kaliningrado reagiram à implantação dos mísseis com preocupação e reclamações: a Polônia considerou a atitude russa altamente preocupante, o governo da Estônia, através de seu ministro da defesa, disse que a Rússia pretende dominar o Mar Báltico, já a Lituânia prometeu fazer um protesto à Moscou.

(Avião militar russo An-72 - um dos modelos Antonov - para transporte de cargas pesadas que invadiu o espaço aéreo da Estônia em 6 de outubro.)

A reação dos vizinhos é justificável. São recorrentes as invasões do espaço aéreo dos países do Báltico por aviões russos. No dia 6, um antes da notícia sobre os mísseis, o avião russo SU-27
invadiu espaço aéreo finlandês sobre as águas do Golfo da Finlândia próximo à cidade de Parvoo. A invasão ocorreu às 16:43, hora local, e durou um minuto. Outra invasão aconteceu pouco depois, às 21:33. No dia seguinte, às 18:23, quatro horas após a divulgação da primeira notícia sobre os mísseis em Kaliningrado, a aeronave An-72 da Força Aérea Russa invadiu o espaço aéreo da Estônia na região da ilha de Vandloo por quase um minuto e meio. Apesar do transponder estar ligado, a aeronave não informou sua rota nem fez contato por rádio. Do lado russo a resposta aos fatos foi simples: Moscou negou a violação dos espaços aéreos. Seus aviões estariam na rota planejada e em águas internacionais.

O transporte dos mísseis para Kaliningrado tem relação com duas questões que também estão inter-relacionados.

A primeira é a segurança da Europa Oriental. Em maio deste ano ficou pronto um escudo antimíssil na Bulgária, e em 2018 será implantado o mesmo escudo na Polônia. Ocorre que ambos são patrocinados pelos EUA. Em junho uma reportagem do jornal britânico Express citou fontes do próprio Kremlin que afirmavam que a Rússia iria instalar os Iskander-Ms em Kaliningrado de forma permanente. Este plano era cogitado desde pelo menos 2008, mas a expectativa era que os mísseis fossem instalados não antes de 2018 (outras fontes afirmam que o plano era apenas para 2019). Especialistas disseram que a criação o escudo antimíssil na Romênia seria o que Moscou precisava para justificar sua atitude, que viria a se concretizar antes do esperado neste 7 de outubro. O patrocínio destes escudos pelos americanos foi recebido pela Rússia como uma provocação.

(Vista da Kaliningrado, capital da província de mesmo nome: a região possui arquitetura alemã, igrejas ortodoxas e mais de 85% da população é da etnia russa. Sob governo Putin a província voltou a ser a vitrine militar e cultural da Rússia na Europa.) 

Este acontecimento é mais uma etapa da nova política do governo Putin para a região. Apesar da grande redução de homens em relação aos tempos soviéticos, quando Kaliningrado chegou a ter 200 mil homens das forças armadas e a entrada de cidadãos era restrita, em 2010 havia apenas dez mil homens num universo de 950 mil habitantes. A província, que foi anexada pela URSS em abril de 1945 e que foi habitada exclusivamente por cidadãos soviéticos após a retirada da população alemã, voltou a ser nos últimos anos um importante e estratégico posto avançado da Rússia na Europa. Kaliningrado tem experimentado uma melhora no seu padrão de vida com a criação de uma zona econômica especial, e investimentos foram realizados na modernização da estrutura militar regional com o objetivo de fazer frente ao poder da OTAN. O governo também tem patrocinado eventos de ordem cultural, como o encontro do Conselho dos Povos do Mundo Russo realizado em abril de 2015 com intelectuais russos e membros da Igreja Ortodoxa.

No final de junho de 2016 foi realizada uma profunda mudança na hierarquia militar de Kaliningrado pelo ministro da defesa russo, Sergey Shoigu. Mais de cinquenta homens de alta patente e membros da Frota Báltica foram demitidos, segundo o ministério por infringirem as regras estabelecidas pela organização. O ministro justificou a drástica atitude alegando a "instável situação política e militar" nas fronteiras ocidentais da Rússia. É uma clara alusão à deterioração das relações entre Moscou e o Ocidente desde o início do conflito na Ucrânia.

(Russos e americanos divergem sobre a estratégia a ser adotada na guerra civil na Síria, um dos motivos da profunda piora nas relações entre os dois países. Na foto, imediações da principal praça de Aleppo, na Síria. Parte da cidade está arrasada.)

A segunda questão é mais ampla e mais grave: a significativa piora nas relações entre Rússia e EUA nas últimas duas semanas. Na lista de acontecimentos está a acusação por parte dos americanos de que a Rússia tentou interferir nas eleições americanas ao hackear o Comitê Nacional do Partido Democrata em agosto, gerando uma crise no partido, e que agora estaria por trás da contínua liberação de e-mails pessoais de John Podesta, chefe de campanha de Hillary Clinton, pelo Wikileaks em 7 de outubro; a preparação por parte da CIA de contra-atacar o Kremlin na guerra virtual (notícia que parece exagerada, como bem observou o analista Anton Shekovtsov em seu perfil no Facebook, devido a publicidade dada à informação); o rompimento de dois acordos de colaboração na área nuclear entre Washington e Moscou por parte dos russos; o cancelamento da visita de Putin à França agendada para o dia 19 de outubro em razão da acusação por Paris de que Moscou estaria cometendo crimes de guerra na Síria e por divergências entre as estratégias russa e americana no conflito; as orientações e o treinamento em massa da população russa para uma eventual guerra nuclear; e a chamada de Putin para que altos funcionários do governo e suas famílias voltassem para o país. Este último ponto em particular gerou uma série de análises e rumores do lado ocidental de que a Rússia estaria se preparando para uma grande guerra, inclusive uma "guerra nuclear" ou uma "Terceira Guerra Mundial", termos que apareceram em diversos veículos de comunicação depois de muitos anos. O pedido de Putin teria sido informal, e não há informações de que o mesmo pedido valeria para cidadãos russos no exterior. Ademais, o presidente russo está fazendo uma grande reforma política interna remanejando membros do governo, do serviço secreto, secretários do alto-escalão e governadores das províncias. A chamada pode ter relação com esta reforma.

Kaliningrado insere-se na súbita deterioração das relações Rússia-EUA/Europa, e esta situação sugere que o posicionamento dos mísseis Iskander-M na província não seja apenas para exercícios militares, mas também para instalação definitiva. Apesar dos sinais profundamente preocupantes (poderia ainda acrescentar o cercamento da Ucrânia em agosto), esta conjuntura não indica necessariamente uma guerra global em curto prazo. Com a aproximação das eleições nos EUA, o Kremlin pisou no acelerador para exercer pressão sobre seu resultado e está jogando toda as cartas possíveis para reagir ao que seu ministro do exterior, Sergei Lavrov, chamou de "histeria russofóbica" do Ocidente.

Voltarei ao quadro geral descrito no final deste texto num momento oportuno. A situação é preocupante, e Kaliningrado é apenas um capítulo de uma crise muito mais ampla e profunda.

segunda-feira, 25 de julho de 2016

Sanções, OTAN, Olimpíadas e assassinato: ingredientes da piora nas relações entre a Rússia e o Ocidente

(Ocidente e Rússia: pouco amigos.)

As últimas semanas foram marcadas por um aumento da tensão entre a Rússia e o Ocidente. Da OTAN às Olimpíadas, divergências de ordem política, econômica e militar têm colocado russos e ocidentais de lados opostos e piorado a situação internacional de Moscou.

Não pretendo aprofundar os fatos a seguir, mas dar um panorama geral de como os últimos eventos podem afetar a relação da Rússia com o Ocidente e contribuir para a compreensão do clima político que envolve esta relação.

(União Europeia renovou por mais seis meses as sanções econômicas contra a Rússia. Sinal vermelho para o Kremlin.)

Em 15 de junho União Europeia renovou por mais seis meses as sanções econômicas contra a Rússia por sua atuação no conflito na Ucrânia. A medida afeta personalidades da política e da economia e investimentos russos no continente e são válidas até 31 de janeiro de 2017. Nada de novo neste aspecto já que a renovação era esperada. Como resposta, a Rússia anunciou aplicar o princípio de reciprocidade e irá impor sanções à importação de alimentos da Europa. Há uma falta de perspectiva de suspensão das sanções.

(Legisladores no senado de Chipre na capital, Nicósia: país de tradição ortodoxa de históricas relações com a Rússia.)

Em compensação há movimentos dentro de alguns países que questionam a eficácia das sanções e pressionam a União Europeia para suspendê-las. Tais questionamentos partem de grupos eurocéticos e/ou pró-Rússia. Um deles é Chipre. Em 7 de julho seu parlamento pediu o fim das sanções dizendo que elas prejudicavam o comércio entre os dois países, eram contraproducentes, "inaceitáveis" e que os alvos das sanções eram pessoas amigas do país. A Itália também posicionou-se contra a renovação das sanções. A resolução foi adotada em 27 de junho pelo senado à pedido da Liga Norte, partido de estreitas ligações com o Kremlin (a Liga também pediu que o senado reconhecesse oficialmente a Crimeia como território russo, mas esta resolução foi negada). Outros dois partidos pró-Rússia, Cinco Estrelas e Força Itália, também apoiaram a resolução. E há algumas semanas governos regionais italianos têm pedido a suspensão das sanções. Outro país que tomou a mesma medida foi a Grécia, cujo governo de Alexis Tsipras, da coalização esquerdista Syriza, têm se oposto sistematicamente às sanções contra a Rússia. Durante uma visita de Putin ao país no final de maio, Tsipras declarou mais uma vez ser firmemente contra tais sanções. O Syriza governa a Grécia junto com o partido de extrema-direita Gregos Independentes, também pró-Rússia. Membros de ambos partidos possuem estreitas ligações com o Kremlin, como já comentado neste blog.

(Logotipo do encontro da OTAN em Varsóvia com as bandeiras dos países membros.)

Em 8 e 9 de julho foi realizado em Varsóvia, na Polônia, o encontro dos países da OTAN. Os membros divulgaram uma declaração conjunta onde afirmam que a "a comunidade Euro-Atlântica está encarando desafios sem precedentes emanando do sul e do leste", estabelecem acordos entre a organização e a União Europeia para agilizar os preparativos da defesa do continente e melhoram a troca de informações e know how para uma guerra híbrida. As referências ao "sul" e "leste" são, respectivamente, norte da África/Oriente Médio e Rússia, e a menção à "guerra híbrida" é uma resposta à estratégia do Kremlin de penetração na Europa através de campanhas de desinformação, ativismo na internet, atução do serviço secreto e, no caso do extremismo islâmico, o terrorismo. Outro ponto de grande importância foi a aprovação formal do envio de mais tropas da aliança para o Leste Europeu. Um total de quatro mil soldados (mil em cada batalhão) serão alocados na Estônia, Letônia e Lituânia, além do oeste da Polônia, países vizinhos à Rússia. Apesar destas tropas não serem o suficiente para conter uma invasão russa elas são uma clara mensagem ao comportamento de Moscou, que, desde a anexação da Crimeia em 2014 e a infiltração de soldados que deram início a uma guerra na Ucrânia, tem se tornado muito mais provocativo.

(Vladimir Putin com o primeiro-ministro finlandês, Salui Niinisto: o presidente russo foi claro no que pensa sobre uma possível integração da Finlândia à OTAN.)

Uma semana antes da reunião da OTAN, Vladimir Putin esteve na Finlândia onde se encontrou com o primeiro-ministro do país, Salui Niinisto. Tendo em vista as recentes tensões envolvendo a invasão do espaço aéreo dos países na região do Mar Báltico por aviões russos e os exercícios militares da OTAN na Polônia, a Finlândia tem levado em consideração sua entrada na organização. Putin disse apreciar a neutralidade militar finlandesa, mas que sua entrada na OTAN causaria uma resposta da Rússia sugerindo que realocaria suas forças militares junto à fronteira dos dois países. A declaração foi uma mensagem clara da irritação que os recentes movimentos militares da aliança causam no Kremlin, e foi entendida por alguns meios de comunicação ocidentais como uma ameaça. Apesar da Finlândia ser militarmente neutra, com o encontro de Varsóvia o país passou a ter (assim como a Suécia, outro país neutro) uma cadeira permanente para conversações dentro da organização. Caso no futuro os finlandeses passem a integrar o grupo, a Rússia terá mais uma fronteira (desta vez extensa, com 1340 km) com tropas militares adversárias. O movimento de tropas da OTAN junto à Rússia é um fator incômodo e um desafio à Moscou, que vê a necessidade de responder à altura da presença militar ocidental.

(Bicampeã olímpica em Atenas e Pequim, tricampeã mundial e tetracampeã mundial indoor no salto com vara: para Yelena Isinbayeva o banimento dos russos do atletismo é o "funeral" do esporte e "uma evidente ordem política".) 

Nos esportes a Rússia também teve prejuízos. No dia 17 de junho, a Associação Internacional das Federações de Atletismo (IAAF, sigla em inglês) baniu os atletas russos do atletismo das Olimpíadas de 2016 no Rio de Janeiro sob acusação de que muitos deles utilizavam substâncias proibidas para melhorar o desempenho esportivo. Tais usos eram sistemáticos e faziam parte de uma política de dopagem apoiada pelo Estado. Segundo o relatório publicado pela Agência Mundial Anti-Doping (WADA) houve muitas fraudes na coleta para análise: muitas delas foram canceladas ou recusadas, outras foram perdidos e amostras de urina foram trocadas. Neste últimos caso o trabalho teria sido feito pelo serviço secreto russo. O banimento vem na sequência da punição sofrida pelos mesmos atletas em novembro de 2015. Na ocasião ele foram suspensos de todas as competições internacionais devido ao mesmo escândalo. As investigações apontaram que as fraudes nos testes anti-doping haviam sido generalizadas.

O Comitê Olímpico Russo (ROC) e outros 68 atletas tentaram reverter o banimento para os Jogos do Rio, mas até o momento sem sucesso. O Comitê Olímpico Internacional (COI) disse que os atletas russos poderiam competir caso provassem que estavam limpos do uso de substâncias proibidas, e que sua presença nos jogos seria sob bandeira neutra. No dia 25 de julho, outros sete atletas russos, desta vez do nado sincronizado, também foram banidos pela Federação Internacional de Natação (FINA, sigla em francês).

(As Olimpíadas de Moscou, em 1980, teve boicote norte-americano em resposta à invasão soviética do Afeganistão: esporte e política nunca estiveram totalmente separados. Soviéticos responderam boicotando os jogos de Los Angeles quatro anos mais tarde.)

A Federação Atlética de Toda a Rússia (ARAF) e algumas autoridades russas oscilaram entre a defensiva e a acusação. Vladimir Putin e Sergey Lavrov pediram que a questão esportiva não fosse politizada. Porém, Lavrov reclamou com John Kerry a interferência dos EUA no banimento de seus atletas e acusou os americanos de pedirem, através de uma carta enviada ao COI por sua agência anti-doping (USADA), o banimento de toda a delegação russa. O ministro chamou este ato de "demandas provocativas antirrussas". Já Putin suspendeu o vice-ministro dos esportes, Igor Upland, e todos os nomes citados no relatório da WADA, mas defendeu o ministro Vitaly Mutko, aliado político de longa data, e questionou qual seria a razão para que a agência anti-doping dos EUA e demais países pedissem tão apressadamente, com base no relatório da WADA, a suspensão de toda a delegação russa. Por sua parte, Mutko respondeu que a acusação contra ele era "absolutamente irreal e impossível"

As defensivas de Lavrov e Putin sugerem, por um lado, que o escândalo de doping generalizado é real; por outro lado as críticas às organizações anti-doping de outros países sugerem uma motivação política para o banimento dos atletas russos. Real ou não, esta atitude transfere em alguma medida o significado do banimento da esfera esportiva para a política internacional. É mais um ingrediente nas más relações entre russos e ocidentais. Apesar do COI ser uma organização mundial, os organismos internacionais são vistos pelo Kremlin como instrumentos políticos do Ocidente, mais especificamente dos EUA, e o banimento do atletismo russo das Olimpíadas seria mais uma provocação política. O boicote dos americanos às Olimpíadas de 1980 em Moscou em resposta à invasão soviética do Afeganistão (1978-1988) e a resposta soviética de boicote às Olimpíadas de 1984 em Los Angeles mostram que o esporte funciona, também, como instrumento de pressão internacional. Caso se confirme o banimento dos russos para as Olimpíadas do Rio, será a primeira vez que um grande número de atletas (mais de cem) fica de fora da competição desde 1984 por razões de doping ou políticas, e será a terceira vez que uma crise deste tipo envolve os russos.

(Pavel Sheremet e o carro em que estava após a explosão em Kiev, no dia 20 de julho: instabilidade política na Ucrânia.)

Em 20 de julho foi assassinado na Ucrânia o jornalista Pavel Sheremet. Apesar de falecido aos 44 anos, sua carreira foi intensa: nascido na Bielorrússia, era duro crítico do governo de Alexander Lukashenko. Foi preso em 1997 enquanto atravessava a fronteira vindo da Lituânia durante a gravação para uma TV russa sendo acusado de "receber dinheiro de agências estrangeiras" e por "atividade jornalística ilegal". Foi libertado no início de 1998. Em 1999 mudou-se para a Rússia, onde adquiriu cidadania no ano seguinte. Lá também foi um jornalista crítico de Putin, mas sua situação ficou mais difícil quando da anexação da Crimeia em 2014, do qual se tornou forte crítico. Ele acusou abertamente a Rússia de anexar ilegalmente a península e de apoiar os separatistas no leste ucraniano. Neste mesmo ano Sheremet saiu da TV onde trabalhava, ORT, em protesto à atuação do governo russo na mídia, e mudou-se para Kiev. Lá acabou assassinado.

O carro em que estava explodiu no centro da cidade enquanto ia ao trabalho pouco antes das 8 h da manhã. A dona do veículo era sua mulher, Olena Prytula, jornalista e ex-editora do jornal em que ambos trabalhavam, Ukrayinska Pravda. O jornal, fundado em 1990, tem um histórico de oposição ao governo ucraniano. Um de seus fundadores, Georgiy Gongadze, que na época era próximo de Prytula, foi sequestrado e decapitado em 2000 durante o governo de Leonid Kuchma. O caso teve grande repercussão e ajudou a precipitar a "Revolução Laranja" em 2004 que levou ao poder opositor de Kuchma, Viktor Yuschenko. Sheremet era amigo de Boris Nemtsov, um dos principais opositores de Putin na Rússia, e tornou-se mais um dos quase vinte jornalistas assassinados no país desde sua independência em 1991. Uma assessora do Ministério do Interior da Ucrânia afirmou que não poderia ser excluído o possível envolvimento do serviço secreto russo no assassinato. Outra suspeita era de que o alvo era Prytula, já que a bomba fora plantada em seu carro. O trabalho recente de Sheremet versava, também, sobre a corrupção do governo de Poroshenko e a atuação do pró-Ucrânia Batalhão de Azov e liderado pelo extremista Setor de Direita. Poroshenko descreveu o assassinato como "tragédia" e disse que conhecia jornalista pessoalmente.

(O político russo assassinado Boris Nemtsov ao lado de Sheremet ao microfone.) 

Não é possível dizer quem encomendou a morte de Sheremet. Das informações disponíveis é possível levantar hipóteses. E muitas. Desde os batalhões pró-Ucrânia ao serviço secreto da Rússia, de algum membro do governo ucraniano ao governo da Bielorrússia, qualquer um desses grupos ou membros podem ter ligação com o assassinato. Jornalistas e opositores dos governos russo e bielorruso lamentaram a morte de Sheremet e lembraram sua proximidade com Nemtsov destacando o papel que ambos desempenharam ao revelar os esquemas de corrupção dos establishments destes países; outros compararam a morte do jornalista com o assassinato de Alexander Litvinenko pela FSB em Londres em 2006. Ambas as comparações dão a entender que Sheremet foi mais uma vítima dos governos dos países da antiga URSS. Apesar da suspeita do envolvimento russo, duas coisas precisam ser ditas: primeiro que tudo ainda é especulação, e o envolvimento da Rússia é apenas teoria. Segundo que, como anunciaram algumas autoridade ucranianas, o assassinato de Sheremet piora o clima político na Ucrânia e, por consequência, favorece Moscou que considera o governo de Kiev ilegítimo. O Ministério do Exterior russo denunciou estas análises como "russofóbicas".

(Relacionamento cada vez mais difícil.)

A renovação das sanções econômicas da União Europeia contra Moscou, a pressão interna de partidos e políticos aliados dos russos pela suspensão destas sanções, a nova estratégia da OTAN para com a Rússia com a alocação de tropas no leste, o combate na guerra de informações e uma maior aproximação da organização com a Escandinávia apontam para um aumento da tensão entre russos e ocidentais. No caso dos partidos aliados, a pressão dentro do bloco europeu fortalece a necessidade de uma reação à "guerra híbrida" promovida pelo Kremlin que envolve, além da disseminação de propaganda através da mídia, a rede de contatos com extremistas de direita e de esquerda.

Por outro lado a possibilidade (ainda que fortemente especulativa) de que a Rússia tenha alguma relação com o assassinato de Sheremet apenas contribui para o aumento da tensão política na região e uma maior instabilização da Ucrânia. Já o desconforto gerado pelo banimento dos atletas russos das Olimpíadas do Rio desmoraliza as autoridades do país ao expô-las ao mundo como profundamente corruptas e pouco confiáveis. Nos dois últimos casos os precedentes históricos de assassinatos de jornalistas no países da antiga URSS e os episódios de retaliações políticas em eventos esportivos contribuem para ou aumento da desconfiança generalizada em relação à Rússia.

O pedido do ministro russo Sergey Lavrov ao Secretário de Estado americano John Kerry para que o escândalo de doping não se transformasse em mais uma contenda política entre os dois lados é mais um sinal de que a lógica da realpolitik invadiu todos canais de contato entre a Rússia e os países do Ocidente. Cada acontecimento é equacionado dentro do quadro de problemas e discordâncias entre ambos. Todo o cuidado é pouco.



quarta-feira, 11 de novembro de 2015

O cavalo de Tróia russo e a ação do FMI na disputa pela Ucrânia



Quando o governo do ex-presidente da Ucrânia, Victor Yanukovich, suspendeu as negociações para avançar o Acordo de Associação com a União Europeia e firmou um acordo com a Rússia, estopim da crise que se abateu sobre o país a partir de novembro de 2013, uma das vantagens oferecidas pelo governo russo foi o empréstimo de U$ 15 bilhões a Kiev, além de desconto no preço do gás. Na ocasião, Moscou chegou a emprestar inicialmente U$ 3 bilhões, mas o governo Yanukovich foi derrubado e o empréstimo foi suspenso. A dívida dos U$ 3 bilhões ainda não foi paga, e seu vencimento ocorrerá mês que vem.

O empréstimo russo apenas fortaleceu a oposição que foi às ruas, que via neste laço financeiro uma dependência de Moscou. Com a crise provocada pelos protestos, a queda de Yanukovich, a ocupação da Crimeia pela Rússia e o conflito armado em andamento no leste do país, além do histórico de corrupção e má administração, a Ucrânia projeta uma queda de até 9,5% no seu PIB (o FMI fala em 11%) neste ano tendo caído mais de 12% no período 2014-15.

(O presidente da Ucrânia, Petro Poroshenko, e a diretora-geral do FMI, Christine Lagarde, num encontro em setembro deste ano.)

O FMI, como de costume, propõe uma série de reformas econômicas, administrativas e financeiras para conceder empréstimos ao país (detalhes dos ajustes e dados gerais da economia ucraniana de março/2015 aqui). Em julho o Fundo aprovou a liberação da primeira parcela no valor de U$ 1,7 bilhão de um total de U$ 17,5 bilhões em ajuda ao longo de quatro anos. Dentre as prerrogativas do empréstimo está a negociação das dívidas com credores internacionais que somam U$ 15 bilhões. E dentre eles está o empréstimo ainda não pago de U$ 3 bilhões à Rússia.

A dívida pendente com a Rússia é o calcanhar de aquiles do atual projeto de empréstimos do FMI à Ucrânia e, em última instância, um mecanismo arrasto da Ucrânia à órbita de Moscou ao mesmo tempo em que este busca cortar a influência do Ocidente sobre Kiev.



Como sugere uma reportagem da Rádio Europa Livre, o empréstimo rápido inicial da Rússia à Ucrânia foi o "cálice envenenado" que agora ameaça a capacidade do país que quitar suas dívidas, um cavalo de Tróia que garantiria influência de Moscou em Kiev. Com a economia em grave crise, altamente endividada e desorganizada, os ucranianos tendem a perder ainda mais confiança no mercado internacional e afugentar investimento estrangeiro, como coloca o relatório do FMI. Segundo as regras do Fundo, um país membro não pode receber empréstimos enquanto estiver endividado com países ou credores. A solução seria, ou o pagamento da dívida (o que não é possível até sua data limite, mês que vem), ou a sua reestruturação. A Rússia, porém, está buscando bloquear futuros empréstimos à Kiev através da não renegociação de sua dívida. Moscou alega que o dinheiro a ser pago é de Estado para Estado, ao passo que a Ucrânia considera esta mesma dívida relacionada a credores comerciais. Em suma, para os russos a dívida é "oficial", mas os ucranianos ela é "comercial". Com a recusa russa de sentar-se à mesa, o primeiro-ministro da Ucrânia ameaçou dar um calote na Rússia.

Sendo a Ucrânia pivô de uma crise mais ampla, o Ocidente reagiu por meio do FMI: o Fundo, cujos votos no Conselho Executivo é comandado principalmente por americanos e aliados, está buscando mudar as regras de empréstimo internacional para permitir que países endividados possam receber ajuda financeira. Desta forma a Ucrânia estaria livre para receber dinheiro do FMI mesmo com a dívida pendente com os russos. A expectativa é que as mudanças nas regras sejam anunciadas no encontro do G-20 na Turquia ainda neste mês.  

O FMI já havia perdoado U$ 3,8 bilhões da Ucrânia em 27 de agosto passado como forma de estimular as reformas internas para pagar sua dívida externa. Um corte bastante generoso numa época em que parte do Ocidente passa por uma crise econômica, mas que parece se justificar por razões geopolíticas, isto é, de afastar a Ucrânia da Rússia. Para Kiev foi um "ganho" maior do que o dinheiro depositado por Moscou na esteira de crise que derrubou Yanukovich.

A economia da Ucrânia não deve retomar seu desenvolvimento tão cedo. O relatório do FMI projeta que o PIB do país atingirá o patamar do final da era soviética só em 2019. Isto se tudo der certo, segundo o desejo do Fundo. Mas como a crise na Ucrânia provou, o jogo pesado da Rússia não está nas finanças, mas no seu hard power. O mecanismo financeiro é apenas um ponto menor de tensão para um país que está disposto, a julgar por seu revisionismo nacionalista, sua ação na Crimeia e na recente intervenção na Síria, de ir bem além do que os líderes ocidentais esperam. Isto apesar da crise econômica na própria Rússia. Ainda há muitos capítulos pela frente. Resta saber qual dos lados suportará o desgaste de longo prazo.

domingo, 14 de junho de 2015

Guerra de dutos

 (Putin e Endorgan no Azerbaijão)

O presidente da Rússia, Vladimir Putin, e o primeiro-ministro da Turquia, Recep Tayyip Endorgan, tiveram um encontro no dia 13 de junho em Baku, capital do Azerbaijão, para tratar de algumas questões pertinentes aos dois países. Uma delas foi a negociação para a construção conjunta do gasoduto Turkish Stream. Tal projeto vem a substituir o antigo, South Stream, que foi suspenso segundo a imprensa russa por pressão do Ocidente. O novo gasotudo está previsto para sair do litoral russo do Mar Negro até a Trácia, região que abrange a Turquia europeia e parte da Bulgária.

Sobre o projeto, o ministro da Energia e Recursos Naturais da Turquia, Taner Yildiz, afirmou que a posição dos países ocidentais a respeito do projeto do Turkish Stream é "estranha", "inconsequente" e "ilógica", já que a Europa necessita do gás russo. Era de se esperar que tal o projeto mencionado causasse desconforto aos ocidentais ou, pelo menos, que esse desconforto fosse destacado pelos veículos de comunicação russos.

A dependência da União Europeia do gás russo (ver pág. 35-38), especialmente dos países de sua porção oriental, é enorme. Em torno de 1/3 do suprimento do gás do bloco vem da Rússia. Sua principal empresa de fornecimento de gás, a Gazprom, comandada e financiada por lideranças do governo russo, tem mais da metade de suas vendas para o grupo europeu. Essa dependência é vista pela Europa e os EUA como um obstáculo ao aprofundamento das relações transatlânticas e uma trunfo político da Rússia sobre o Ocidente, que se utiliza do gás como forma de pressionar os governos dos países dependentes. Em 2006, por exemplo, uma crise política entre Rússia e Ucrânia à respeito de preços do produto deixaram países da Europa Oriental sem fornecimento por dois dias no inverno; em 2009 uma crise similar, também no inverno, atingiu duramente os países dos Balcãs, durante três semanas. Na ocasião, a crise foi resolvida por pressão da União Europeia, que ameaçou reavaliar os acordos comerciais com os dois países (ver pág. 10).

Há um projeto rival proposto pela União Europeia, chamado Southern Corridor, que é combatido politicamente pela Rússia. Tal projeto é visto por Moscou como uma ameaça à sua liderança de fornecimento energético para a Europa Oriental e países vizinhos da Ásia. Um dos planos europeus é o Projeto Trans-Caspiano e outros similares que preveem a construção de gasodutos da Ásia Central até a Europa através do Mar Cáspio. Na lógica do trunfo estratégico, a criação dessa infraestrutura daria ao Ocidente uma maior margem de manobra sobre a região e diminuiria o pressão da Rússia nas negociações de segurança energética e de preços (ver pág. 35-38).

Outra questão que envolve a segurança energética (e militar) é a aproximação entre o Azerbaijão e o Ocidente através de negociações com a OTAN, devido ao envolvimento desta última no Afeganistão, e de dois projetos de gasodutos que ligam o território azeri ao sul da Europa. A questão ganhou relevância com a crise na Ucrânia, já que a construção desses gasodutos passaria por este país sem adentrar o território russo, permitindo a venda de gás para os ucranianos. Esses projetos diminuiriam a pressão econômica de Moscou sobre Kiev.

Por fim, um acordo entre Rússia e Turquia a respeito do gasoduto pode ser sinal de uma inflexão turca para o norte. A crescente influência do governo russo através do Movimento Eurasiano Internacional é uma tentativa de fazer da Turquia um aliado de Moscou e um adversário do Ocidente, cortando-lhe o acesso ao restante da Ásia por terra. O fiel da balança, que fica naquilo que Samuel Huntington chamou de "esquina do mundo", têm sido alvo do assédio político e econômico da Rússia. Uma melhora nas relações entre a Turquia e os países ocidentais seria de fundamental importância segurar as pretensões de uma aliança eurasiana antiocidental liderada por Moscou.