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sexta-feira, 29 de abril de 2016

Concorrência ao gás russo vem do outro lado da Europa

(Navio da empresa americana Cheniere com tanques de gás natural liquefeito chegando ao porto de Sines, Portugal, dia 26 de abril. )

A revista bimensal New Eastern Europe, especializada em assuntos políticos, econômicos e sociais da Europa Central e Oriental, publicou um breve artigo sobre o fim do quase-monopólio da empresa russa Gazprom sobre o gás vendido à Europa. Segundo o texto, o aumento da produção de gás natural pelos Estado Unidos está estimulando a exportação do produto em forma líquida para a Europa Ocidental. O país já é o maior produtor de gás natural do mundo, ultrapassando a Rússia.

O evento que marcou esta empreitada norte-americana foi a chegada do primeiro carregamento de gás natural liquefeito ao porto de Sines, em Portugal, no dia 26 de abril passado. O navio pertence à empresa Chemiere, que pela primeira vez vende o produto à Europa depois de atender Brasil, Argentina e Índia.

Segundo o artigo da New Eastern a presidência da Gazprom recebeu com relativa indiferença a entrada do gás natural liquefeito na Europa por parte dos americanos, e anunciou que baixará o preço para a venda do gás natural para o continente numa clara tentativa de combater a nova concorrência. Mas se a Rússia, que vende 1/3 de todo o gás natural consumido pela Europa (ver pág. 35-38) tendo o monopólio da venda em alguns países de sua porção oriental, por que ela deveria temer a entrada dos EUA que está vendendo o gás em forma líquida, mais caro do que o russo? E por que o artigo aqui discutido está se apressando em falar do fim do quase-monopólio da Gazprom sobre a Europa?

(Preço do gás natural liquefeito: vendido à Ásia em vermelho; vendido à Europa em azul. Do início de 2014 até agora, a diferença de lucro na venda para os dois continentes é pequena.) 

A questão não é a situação atual, mas a perspectiva do mercado mundial de gás natural num futuro próximo. Segundo a New Eastern, dezenove países do mundo já são exportadores mundiais de gás natural liquefeito, o número de exportadores aumentará, o mercado continua em expansão e a tecnologia para a conversão e transporte do gás em forma líquida está barateando. Ademais, com a desaceleração da economia asiática, principalmente a China, e o aumento da produção americana o preço do produto está caindo em todo o planeta.

Isto trás duas consequências diretas para o mercado do gás: diminui a receita da Gazprom e a demanda do produto na Ásia, tornando a Europa mais atrativa para as exportações dos EUA. A previsão é de que 55% de todo o gás natural produzido pelos EUA seja destinado à Europa. Do lado europeu, a previsão é de que o continente aumente ainda mais a demanda pelo gás: em 2013, 65% do gás natural consumido pela União Europeia era importado. Este número deve subir para 77% em 2025. Mesmo que o aumento da demanda signifique a expansão do mercado tanto para os EUA como para a Rússia, o forte investimento americano na produção e no transporte do produto provocará um aumento da concorrência entre os dois países.

(Gasodutos para a Europa: projeto da Gazprom no pontilhado preto; projeto ocidental no pontilhado azul claro. Agora a concorrência amplia-se para o outro lado do continente europeu.)

Isto pode mudar a geopolítica energética da Europa num curto prazo, talvez mesmo de toda a Eurásia, já que a Rússia também abastece o mercado asiático e terá de reconsiderar sua estratégia de venda para outros países num contexto de queda no preço do produto e de busca por novos mercados.

O mais importante, porém, será a diminuição da capacidade da Rússia de usar o gás como arma política contra a Europa. A nova geopolítica terá impacto nos projetos já comentados neste blog, de gasodutos que interligam Rússia e Europa e de gasodutos conduzidos pelos países do Ocidente com a finalidade de competir com o gás russo extraindo o produto do Mar Cáspio pelo Cáucaso. A disputa, portanto, terá como consequência uma maior queda do preço do produto, o aumento das dificuldades econômicas da Rússia e menores investimentos nesta corrida vinda do leste. É um exagero falar no fim do monopólio da Gazprom sobre a venda do gás à Europa como um todo, mesmo porque a Rússia concede apenas 1/3 do gás consumido por todo o continente, sendo o restante vindo principalmente do Oriente Médio, Argélia e Noruega. O monopólio ameaçado está na parte oriental do continente. O que deve ocorrer, isto sim, é a ampliação da geopolítica energética e a oscilação de seu pêndulo para o Oceano Atlântico e a consequente diminuição da capacidade russa de influenciar a política europeia através da manipulação de preços e da oferta de gás, como ocorreu em 2006 e 2009 nas disputas envolvendo a Ucrânia. A nova preocupação da Rússia está do outro lado da Europa.

quarta-feira, 11 de novembro de 2015

O cavalo de Tróia russo e a ação do FMI na disputa pela Ucrânia



Quando o governo do ex-presidente da Ucrânia, Victor Yanukovich, suspendeu as negociações para avançar o Acordo de Associação com a União Europeia e firmou um acordo com a Rússia, estopim da crise que se abateu sobre o país a partir de novembro de 2013, uma das vantagens oferecidas pelo governo russo foi o empréstimo de U$ 15 bilhões a Kiev, além de desconto no preço do gás. Na ocasião, Moscou chegou a emprestar inicialmente U$ 3 bilhões, mas o governo Yanukovich foi derrubado e o empréstimo foi suspenso. A dívida dos U$ 3 bilhões ainda não foi paga, e seu vencimento ocorrerá mês que vem.

O empréstimo russo apenas fortaleceu a oposição que foi às ruas, que via neste laço financeiro uma dependência de Moscou. Com a crise provocada pelos protestos, a queda de Yanukovich, a ocupação da Crimeia pela Rússia e o conflito armado em andamento no leste do país, além do histórico de corrupção e má administração, a Ucrânia projeta uma queda de até 9,5% no seu PIB (o FMI fala em 11%) neste ano tendo caído mais de 12% no período 2014-15.

(O presidente da Ucrânia, Petro Poroshenko, e a diretora-geral do FMI, Christine Lagarde, num encontro em setembro deste ano.)

O FMI, como de costume, propõe uma série de reformas econômicas, administrativas e financeiras para conceder empréstimos ao país (detalhes dos ajustes e dados gerais da economia ucraniana de março/2015 aqui). Em julho o Fundo aprovou a liberação da primeira parcela no valor de U$ 1,7 bilhão de um total de U$ 17,5 bilhões em ajuda ao longo de quatro anos. Dentre as prerrogativas do empréstimo está a negociação das dívidas com credores internacionais que somam U$ 15 bilhões. E dentre eles está o empréstimo ainda não pago de U$ 3 bilhões à Rússia.

A dívida pendente com a Rússia é o calcanhar de aquiles do atual projeto de empréstimos do FMI à Ucrânia e, em última instância, um mecanismo arrasto da Ucrânia à órbita de Moscou ao mesmo tempo em que este busca cortar a influência do Ocidente sobre Kiev.



Como sugere uma reportagem da Rádio Europa Livre, o empréstimo rápido inicial da Rússia à Ucrânia foi o "cálice envenenado" que agora ameaça a capacidade do país que quitar suas dívidas, um cavalo de Tróia que garantiria influência de Moscou em Kiev. Com a economia em grave crise, altamente endividada e desorganizada, os ucranianos tendem a perder ainda mais confiança no mercado internacional e afugentar investimento estrangeiro, como coloca o relatório do FMI. Segundo as regras do Fundo, um país membro não pode receber empréstimos enquanto estiver endividado com países ou credores. A solução seria, ou o pagamento da dívida (o que não é possível até sua data limite, mês que vem), ou a sua reestruturação. A Rússia, porém, está buscando bloquear futuros empréstimos à Kiev através da não renegociação de sua dívida. Moscou alega que o dinheiro a ser pago é de Estado para Estado, ao passo que a Ucrânia considera esta mesma dívida relacionada a credores comerciais. Em suma, para os russos a dívida é "oficial", mas os ucranianos ela é "comercial". Com a recusa russa de sentar-se à mesa, o primeiro-ministro da Ucrânia ameaçou dar um calote na Rússia.

Sendo a Ucrânia pivô de uma crise mais ampla, o Ocidente reagiu por meio do FMI: o Fundo, cujos votos no Conselho Executivo é comandado principalmente por americanos e aliados, está buscando mudar as regras de empréstimo internacional para permitir que países endividados possam receber ajuda financeira. Desta forma a Ucrânia estaria livre para receber dinheiro do FMI mesmo com a dívida pendente com os russos. A expectativa é que as mudanças nas regras sejam anunciadas no encontro do G-20 na Turquia ainda neste mês.  

O FMI já havia perdoado U$ 3,8 bilhões da Ucrânia em 27 de agosto passado como forma de estimular as reformas internas para pagar sua dívida externa. Um corte bastante generoso numa época em que parte do Ocidente passa por uma crise econômica, mas que parece se justificar por razões geopolíticas, isto é, de afastar a Ucrânia da Rússia. Para Kiev foi um "ganho" maior do que o dinheiro depositado por Moscou na esteira de crise que derrubou Yanukovich.

A economia da Ucrânia não deve retomar seu desenvolvimento tão cedo. O relatório do FMI projeta que o PIB do país atingirá o patamar do final da era soviética só em 2019. Isto se tudo der certo, segundo o desejo do Fundo. Mas como a crise na Ucrânia provou, o jogo pesado da Rússia não está nas finanças, mas no seu hard power. O mecanismo financeiro é apenas um ponto menor de tensão para um país que está disposto, a julgar por seu revisionismo nacionalista, sua ação na Crimeia e na recente intervenção na Síria, de ir bem além do que os líderes ocidentais esperam. Isto apesar da crise econômica na própria Rússia. Ainda há muitos capítulos pela frente. Resta saber qual dos lados suportará o desgaste de longo prazo.