Mostrando postagens com marcador Gazprom. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Gazprom. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 11 de julho de 2016

Competition to Russian gas comes from the other side of Europe

(Ship of the US company Cheniere with liquid natural gas tanks arriving at the port of Sines, Portugal, April 26th.)

The bimonthly magazine New Eastern Europe, especializing in political, economic and social issues of Central and Eastern Europe, published a short article about the end of the near-monopoly of Russian company Gazprom over gas sold to Europe. According to the text, the increase of natural gas production by the United States is encouraging the product export on liquid form to Western Europe. The country is already the largest natural gas producer in the world, surpassing Russia.

The event that marked this American venture was the arrival of the first shipment of liquid natural gás to port of Sines, in Portugal, on April 26th. The ship belongs to Cheniere company, which first sell the product to Europe after meet Brazil, Agentina and India.

According to the New Eastern article the Gazprom chairmanship received with relative indefference the entrance of liquid natural gas in Europe by the Americans and announced that it will lower the price for the sale of natural gas to continent in a clear attempt to fight the new competition. But if Russia, which sells one third of natural gas comsumed in Europe (see p. 35-38) having a monopoly on sale in some countries for the eastern part, why it should fear the US entry if it´s selling gas in liquid form, more expensive than the Russian one? And why the article discussed here is rushing to talk about the end of the Gazprom near-monopoly in Europe?


(Price of liquefied natural gas: sold to Asia in red; sold to Europe in blue. From early 2014 untill now, the profit difference in sales for both continents is small.)

The issue isn´t the current situation, but the prospect of the natural gas global market in the near future. According to New Eastern, nineteen countries already are world exporter of liquefied natural gas, and the number of exporters increased, the market continues to expand and the technology for the conversion and transport of gas in liquid form is cheapening. Furthermore, with the slowdown of Asian economies, especially China, and the increasing of the American production the product price is falling all over the planet.

This brings two direct consequences for the gas market: reduces the Gazprom income and the product demand in Asia, making Europe more atractive for the US exports. The forecast is that 55% of all natural gas produced by the US is destinated to Europe. On the European side, the forecast is that the continent will further increase demand for gas: in 2013, 65% of natural gas consumed by the European Union was imported. This number should rise to 77% in 2025. Even if the increase of demand means the market expansion for both the US as to Russia, the strong American investiment in production and product transport will cause an increase competition between two countries.

(Pipeline gas for Europe: Gazprom´s project in black dotted; Western project in light blue dotted. Now competition extends to the other side of the European continent.)

This can change the energy geopolitics of Europe in the short time, perhaps troughouth Eurasia, as Russia also supplies the Asian market and will have to reconsider it´s sales strategy for other countries in a context of fall of the product price and the search for new markets.

Most importantly, however, will be the decline of Russia´s ability to use gas as a political weapon against Europe. The new geopolitics will have impact in projects already commented in this blog, pipelines that connect Russia and Europe and the pipelines led by Western countries in order to compet with Russian gas extracting the product from Caspian Sea through Caucasus. The competition, therefore, will result in a further price fall of the product, the increase in economic difficulties in Russia and smaller investiments in this competition coming from the east. It´s an exaggeration to speak at the end of Gazprom´s monopoly on the sale of gas to Europe as a whole, as Russia provides only one third of gas consumed by all continent, with the rest coming mainly from Middle East, Algeria and Norway. The threatened monopoly is in the eastern parte of the continent. What should happen, rather, is the expansion of energy geopolitics and the oscillation of it´s pendulum to the Atlantic Ocean and the consequent decrease of the Russian ability to influence European politics by manipulating prices and gas supply, as occurred in 2006 and 2009 in disputes involving Ukraine. The new Russia´s concern is in the other side of Europe.

* published in Portuguese on April 29th 2016.

sexta-feira, 29 de abril de 2016

Concorrência ao gás russo vem do outro lado da Europa

(Navio da empresa americana Cheniere com tanques de gás natural liquefeito chegando ao porto de Sines, Portugal, dia 26 de abril. )

A revista bimensal New Eastern Europe, especializada em assuntos políticos, econômicos e sociais da Europa Central e Oriental, publicou um breve artigo sobre o fim do quase-monopólio da empresa russa Gazprom sobre o gás vendido à Europa. Segundo o texto, o aumento da produção de gás natural pelos Estado Unidos está estimulando a exportação do produto em forma líquida para a Europa Ocidental. O país já é o maior produtor de gás natural do mundo, ultrapassando a Rússia.

O evento que marcou esta empreitada norte-americana foi a chegada do primeiro carregamento de gás natural liquefeito ao porto de Sines, em Portugal, no dia 26 de abril passado. O navio pertence à empresa Chemiere, que pela primeira vez vende o produto à Europa depois de atender Brasil, Argentina e Índia.

Segundo o artigo da New Eastern a presidência da Gazprom recebeu com relativa indiferença a entrada do gás natural liquefeito na Europa por parte dos americanos, e anunciou que baixará o preço para a venda do gás natural para o continente numa clara tentativa de combater a nova concorrência. Mas se a Rússia, que vende 1/3 de todo o gás natural consumido pela Europa (ver pág. 35-38) tendo o monopólio da venda em alguns países de sua porção oriental, por que ela deveria temer a entrada dos EUA que está vendendo o gás em forma líquida, mais caro do que o russo? E por que o artigo aqui discutido está se apressando em falar do fim do quase-monopólio da Gazprom sobre a Europa?

(Preço do gás natural liquefeito: vendido à Ásia em vermelho; vendido à Europa em azul. Do início de 2014 até agora, a diferença de lucro na venda para os dois continentes é pequena.) 

A questão não é a situação atual, mas a perspectiva do mercado mundial de gás natural num futuro próximo. Segundo a New Eastern, dezenove países do mundo já são exportadores mundiais de gás natural liquefeito, o número de exportadores aumentará, o mercado continua em expansão e a tecnologia para a conversão e transporte do gás em forma líquida está barateando. Ademais, com a desaceleração da economia asiática, principalmente a China, e o aumento da produção americana o preço do produto está caindo em todo o planeta.

Isto trás duas consequências diretas para o mercado do gás: diminui a receita da Gazprom e a demanda do produto na Ásia, tornando a Europa mais atrativa para as exportações dos EUA. A previsão é de que 55% de todo o gás natural produzido pelos EUA seja destinado à Europa. Do lado europeu, a previsão é de que o continente aumente ainda mais a demanda pelo gás: em 2013, 65% do gás natural consumido pela União Europeia era importado. Este número deve subir para 77% em 2025. Mesmo que o aumento da demanda signifique a expansão do mercado tanto para os EUA como para a Rússia, o forte investimento americano na produção e no transporte do produto provocará um aumento da concorrência entre os dois países.

(Gasodutos para a Europa: projeto da Gazprom no pontilhado preto; projeto ocidental no pontilhado azul claro. Agora a concorrência amplia-se para o outro lado do continente europeu.)

Isto pode mudar a geopolítica energética da Europa num curto prazo, talvez mesmo de toda a Eurásia, já que a Rússia também abastece o mercado asiático e terá de reconsiderar sua estratégia de venda para outros países num contexto de queda no preço do produto e de busca por novos mercados.

O mais importante, porém, será a diminuição da capacidade da Rússia de usar o gás como arma política contra a Europa. A nova geopolítica terá impacto nos projetos já comentados neste blog, de gasodutos que interligam Rússia e Europa e de gasodutos conduzidos pelos países do Ocidente com a finalidade de competir com o gás russo extraindo o produto do Mar Cáspio pelo Cáucaso. A disputa, portanto, terá como consequência uma maior queda do preço do produto, o aumento das dificuldades econômicas da Rússia e menores investimentos nesta corrida vinda do leste. É um exagero falar no fim do monopólio da Gazprom sobre a venda do gás à Europa como um todo, mesmo porque a Rússia concede apenas 1/3 do gás consumido por todo o continente, sendo o restante vindo principalmente do Oriente Médio, Argélia e Noruega. O monopólio ameaçado está na parte oriental do continente. O que deve ocorrer, isto sim, é a ampliação da geopolítica energética e a oscilação de seu pêndulo para o Oceano Atlântico e a consequente diminuição da capacidade russa de influenciar a política europeia através da manipulação de preços e da oferta de gás, como ocorreu em 2006 e 2009 nas disputas envolvendo a Ucrânia. A nova preocupação da Rússia está do outro lado da Europa.

segunda-feira, 22 de junho de 2015

Grécia e a penetração da Rússia na Europa

(Tsipras se encontra com Putin no Kremlin, em 08 de abril de 2015)

O atual primeiro-ministro da Grécia, Alexis Tsipras, esteve no último Fórum Econômico Internacional de São Petersburgo, na Rússia, ocorrido entre os dias 18 e 20 de junho passado. As lideranças russas e gregas tiveram encontros a respeito da relação energética entre os dois países, particularmente sobre a remessa de gás da Rússia para a Grécia.

Antes de comentar o acordo fechado entre Tsipras e Putin, eu gostaria de relembrar alguns fatos recentes que parecem indicar um comprometimento decisivo da Grécia para com a Rússia.

A relação entre os dois países depois do fim da Guerra Fria foi sempre fundamentada em interesses comuns nos Bálcãs, a integridade territorial dos países da região e nos fundamentos culturais e religiosos comuns (ambos têm população de maioria cristã ortodoxa). Mas desde o início do governo Putin, no último dia de 1999, e principalmente a partir do governo do primeiro-ministro Karamanlis, as relações greco-russas se aprofundaram muito. O grande motivador dessa aproximação está na estratégia energética da Rússia, carro-chefe de sua política externa, e na intenção grega de aproximar-se de seu parceiro histórico e de fazer um contrapeso geopolítico com sua rival na região, a Turquia, aproveitando-se das divergência entre turcos e russos sobre os conflitos no Cáucaso.

O principal elo concreto entre Grécia e Rússia são os projetos de gasodutos e oleodutos que atravessariam e também abasteceriam a população grega. Tais projetos funcionam como tentativas da Rússia de influenciar a política europeia através da Grécia.

Um desses projetos foi o Oleoduto Burgas-Alexandroupolis, planejado a partir de janeiro de 2005 e oficialmente colocado em prática a partir da assinatura dos acordos em março de 2007 em Atenas. Um dos seus construtores era a estatal russa de energia Gazprom, que controlava 51% dos recursos do projeto. Este gasoduto seria o primeiro na Europa controlado pela Rússia. A participação da Bulgária na construção do oleoduto, porém, foi suspensa em 2011 devido à alegação de problemas ambientais.

Uma alternativa russa ao projeto abortado seria transportar petróleo da região produtora do Mar Cáspio não mais por duto, mas por navio, através do Mar Negro, passando pelos Estreitos de Dardanelos e Bósforo, até chegar a Europa pelo Mar Mediterrâneo. Mas a Turquia, que também buscava rotas de distribuição de petróleo da mesma região passando pela Geórgia (país aliado do Ocidente), impediu que foi feito o trânsito de navios alegando razões ambientais.

Ao contrário do que o governo grego esperava, a construção do mencionado oleoduto não daria grandes vantagens geopolíticas ao país. Na época, a Rússia já negociava com a Sérvia a construção de um outro duto, dessa vez de gás, que atravessaria o Mar Negro em direção à Bulgária e, daí, para a Sérvia até a Áustria. O chamado South Stream colocaria a Grécia em segundo plano e diminuiria sua margem de negociação com a Rússia, tornando-a mais dependente desta. Ademais, como membro da União Europeia, a Grécia precisaria equilibrar suas políticas entre a Rússia e os acordos firmados com seus parceiros europeus dentro do bloco.

Somando a dependência energética da Grécia em relação a Rússia, os efeitos da crise financeira global de 2008 e a atual grave crise econômica grega chegamos ao panorama atual.

O primeiro-ministro Alexis Tsipras, vencedor das eleições gregas no final de janeiro deste ano, tem buscado uma maior aproximação com a Rússia apesar da profunda animosidade criada entre russos e europeus devido à crise na Ucrânia. Ainda em 2013 no governo Antonis Samaras, anterior a Tsipras, foi lançado um pacote de privatizações que incluía a venda da DEPA, empresa estatal grega de energia. A intenção inicial era levantar 2,6 bilhões de euros em vendas dessa e de outras estatais naquele ano (quase nada perto dos 240 bi de euros em dívidas). A Gazprom ofereceu pela DEPA 900 milhões de euros (U$ 1,2 bi), oferta muito acima das demais concorrentes. O problema é que no dia 10 de junho a empresa russa subitamente suspendeu a compra, provavelmente devido à pressão europeia e americana que temiam o envolvimento russo no mercado europeu.

Com a perda da venda da DEPA, continuaram as negociações para reduzir o preço do gás. A situação grega piorou muito em 2014: com a grave crise econômica a população e a já enfraquecida indústria pesada do país reduziram o de gás em 35%. Como o acordo entre os dois países exigia uma cota mínima de gás a ser comprada, a Grécia teria de pagar uma penalidade de 100 milhões de euros caso não cumprisse esta cláusula. Foi o que aconteceu. Durante as negociações, a cláusula "pegue-ou-pague" gerou uma batalha judicial entre o governo grego e a Gazprom. Mas um novo acordo em fevereiro de 2015 entre o recém eleito governo de Tsipras e a empresa russa, responsável pela venda de 90% do produto consumido na Grécia,  permitiu uma diminuição de 15% na compra do gás.

Na política, uma das primeiras ações de Alexis Tsipras como primeiro-ministro foi, além de anunciar a suspensão do programa de privatizações de Samaras, fazer uma visita de chefe de estado à Rússia. Tsipras e Putin se encontram no dia 8 de abril deste ano em Moscou. Na ocasião, ele buscou renegociar o preço do gás russo, e pediu para que se encerre o "ciclo vicioso de sanções" do Ocidente contra a Rússia na esteira da crise na Ucrânia argumentando que elas afetam a já debilitada economia grega. Mas as sanções também dizem respeito à Rússia, que se vê politicamente mais isolada devido ao envolvimento no conflito no país vizinho. Um levantamento das sanções beneficiaria tanto gregos quanto russos. O problema é que tal atitude não apenas agrada a Moscou como também cria preocupação na União Europeia.

O resultado da visita de Tsipras surgiu dia 19 de junho passado no recém realizado fórum econômico em São Petersburgo: um novo projeto de gasoduto, conhecido como Turkish Stream e assinado entre a Rússia e a Turquia seis dias antes, será estendido da Rússia à Grécia através do território turco. Esse acordo se tornou uma compensação pelo cancelamento da construção do oleoduto Burgas-Alexandroupolis em 2011 e também do gasoduto Southern Stream, que passaria da Rússia à Bulgária pelo Mar Negro sem chegar à Grécia.


Cabe notar que o Turkish Stream é o gasoduto rival do Southern Corridor apoiado pelos países ocidentais, que se origina no Azerbaijão até a Turquia. Neste país o projeto se bifurca com uma passagem pela Grécia até a Itália, e outra a qual se conecta com um projeto ocidental, o gasoduto Nabuco West, que corre desde a Bulgária até a Áustria.

A nova realidade política grega aprofunda o comprometimento do país com a Rússia e, por consequência, exige esforços políticos e diplomáticos maiores para não desagradar os parceiros europeus ou comprometer os acordos do bloco. A adesão da Grécia ao projeto de gasoduto russo-turco coloca o país num jogo duplo, porque, apesar de garantir combustível, cria uma parcial solução ao seu problema financeiro energético ao mesmo tempo em que abre um importante e decisivo mecanismo de influência da política externa russa dentro da União Europeia. Este projeto é maior evidência do comprometimento da Grécia com a Rússia, já que o governo grego adere a uma proposta energética rival a do Ocidente.

A influencia russa, porém, deve ser ainda mais profunda. Membros do partido Syriza mantém contato com oligarcas e ideólogos russos em reuniões secretas. Em 12 de abril de 2013, ideólogo russo Alexander Dugin realizou uma palestra sobre política internacional e eurasianismo na Universidade de Piraeus a convite de Nikos Kotzias, então professor de Ciência Política na Universidade e atual ministro das relações exteriores do governo Tsipras. Na ocasião, Dugin sugeriu que a Grécia deveria permanecer na União Europeia para promover a política externa russa no bloco. Uma outra palestra foi realizada no mesmo dia na Universidade Panteion sobre a geopolítica russa. Ainda em 2013, Dugin também trocou mensagens com um dos membros do Syriza onde ele mencionou o nome de Alexis Tsipras numa lista de membros que, nas suas palavras, poderiam participar de "iniciativas de natureza pró-russa" dentro da Grécia. Segundo o pesquisador Anton Shekovtsov, muitos dos contatos de Dugin na Grécia foram promovidos pelo oligarca Konstantin Malofeev, o mesmo que patrocinou um encontro secreto em Viena, na Áustria, entre Dugin, extremistas russos, líderes da extrema-direita e fascistas europeus em 31 maio de 2014. Por promover a ação de grupos extremista no conflito na Ucrânia, Malofeev foi alvo de sanções por parte da Europa e dos EUA.

(Kotzia na ponta esquerda; Dugin ao centro)

A penetração russa na Grécia provavelmente terá novos capítulos. É importante verificar com calma não apenas a influência geopolítica e estratégica da Rússia na Europa através da Grécia, mas principalmente a antessala dessa penetração organizada em de contatos pessoais e reuniões secretas. Voltarei a essas questões num momento oportuno.