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quinta-feira, 16 de março de 2017

Trump sobre a Ucrânia: ele sabia o que realmente estava dizendo?

(O então candidato Trump na entrevista com Stephanopoulos, em julho de 2016.)

Numa entrevista realizada pelo jornalista da rede americana ABC, George Stephanopoulos, o então candidato à presidência dos EUA, Donald Trump, foi confrontado a responder sobre sua possível relação pessoal com Vladimir Putin e como pretendia reagir à anexação da Crimeia pela Rússia e à crise que se seguiu. A entrevista foi realizada em julho de 2016 e causou muita controvérsia principalmente sobre as respostas de Trump sobre a Ucrânia.

No livro Who Lost Russia? How the World Entered a New Cold War, do jornalista britânico e editor internacional do The Sunday Times, Peter Conradi, há um parágrafo onde o autor resume as repostas de Trump sobre o tema:

"Dúvidas sobre Trump foram alimentadas por uma curiosa entrevista na televisão em julho de 2016 em que Trump declarou sobre Putin: 'Ele não está entrando na Ucrânia, ok, só para você entender. Ele não está entrando na Ucrânia, tudo bem?' Questionado por George Stephanopoulos se ele percebia que Putin 'já estava lá', Trump respondeu, 'Ok - bem, ele está lá de alguma forma.' Mais significativa foi a promessa de Trump de 'dar uma olhada' sobre o reconhecimento da tomada da Crimeia pela Rússia. 'Sabe, o povo da Crimeia, pelo o que eu tenho ouvido, gostaria mais de estar com a Rússia do que onde eles estavam', disse. Trump tentou esclarecer sua posição sobre o conflito entre a Ucrânia e a Rússia numa série de tweets na manhã seguinte, depois que ele foi criticado por sua resposta confusa, mas não voltou atrás na suas ideias sobre a Crimeia." (p. 316-317, tradução livre)

Observando a entrevista na íntegra e prestando atenção no trecho em que ele aborda o tema aqui discutido (entre 6:01 e 7:23 do vídeo), é possível perceber que Trump não é claro e mostra-se relativamente inseguro ao dar respostas rápidas sobre a Ucrânia. Depois de dizer claramente que Putin não estava penetrando no país vizinho e ser questionado diretamente por Stephanopoulos que, sim, ele estava entrando lá, Trump respondeu, de forma pouco convincente, que o presidente russo estava lá "de alguma forma", denotando não saber da questão ou evitar um confronto verbal com Putin e suas propostas de campanha. A presença russa na Ucrânia é amplamente reconhecida pela academia no Ocidente, como já comentei neste blog e como mostra a recente divulgação de telefonemas entre um assessor do Kremlin e aliados políticos na Ucrânia, além do próprio Conradi.

 (Trump tentando esclarecer suas declarações na entrevista: "Quando eu disse numa entrevista que Putin 'não está entrando na Ucrânia, você pode anotar,' eu estou dizendo se eu fosse presidente. [Putin] já está na Crimeia!" Sua explicação não convenceu os críticos.)

Ao dizer que iria "dar uma olhada" sobre o reconhecimento da anexação da Crimeia, Trump foi vago sobre a questão. No momento ele havia sido confrontado por Stephanopoulos, que lembrou sua posição sobre um possível reconhecimento da Crimeia como parte da Rússia. "Dar uma olhada" e afirmar por terceiros que a população da península preferiria estar com a Rússia do que com a Ucrânia denota possível falta de conhecimento sobre os detalhes e as reais implicações do problema. A anexação da Crimeia envolve direito internacional, desafio à ordem mundial pós-Segunda Guerra e também a opinião pública da península, majoritariamente habitada por russos étnicos e historicamente pró-Rússia. Apesar de Trump reconhecer a existência de uma opinião pública pró-Rússia, a equação não é simples, dado que o referendo realizado em 16 de março de 2014 e que oficializou a anexação da região ocorreu sob ocupação militar, colocando em cheque a legitimidade do referendo e abrindo um precedente para novas intervenções do tipo.


(Sergei Lavrov e a então Secretária de Estado de Obama, Hillary Clinton, num encontro em Genebra em 6 de março de 2009 com o objetivo de renovar as relações entre Moscou e Washington. O botão deveria ter a palavra "reset" escrita na caixa em inglês e russo. A tradução russa, porém, estava errada: escreveram "sobrecarga" no lugar de "reset", um prenúncio do que estava por vir.)

Conradi lembra no seu livro que o reset do governo Obama com a Rússia a partir de março de 2009 com o objetivo de melhorar as relações entre os dois países foi um desastre, e que a atitude de Washington de não confrontar diretamente a Rússia em crises internacionais como na Ucrânia e na Síria encorajou Moscou a seguir adiante com o projeto de restauração de seu status de superpotência, principalmente a partir do terceiro mandado de Putin (2012-2018). Trump foi claro e direto nas crítica à Obama e na "bagunça" em que se tornou a Ucrânia (termo usado por ele na entrevista) durante sua presidência, mesmo tendo a OTAN à sua disposição.

Trump também foi questionado por quê ele abrandou a política oficial do Partido Republicano sobre a Ucrânia, referindo-se à discussão sobre ajuda ao país com armas letais na guerra contra os separatistas pró-Rússia. O candidato respondendo diversas vezes que "não estava envolvido" nesta decisão e que apenas sabia deste abrandamento. Sua promessa era de "dar uma olhada" no seu conteúdo. A questão voltou à tona recentemente quando um dos membros da Convenção Nacional Republicana afirmou que Trump estava no evento e que teria pedido para que o partido não jogasse os EUA numa "Terceira Guerra Mundial" numa disputa pela Ucrânia. Este abrandamento também seria uma forma de alinhar o partido com a proposta do candidato de diminuir as tensões com a Rússia.


(O livro de Peter Conradi: a dúvida se a Rússia pós-URSS deveria ser tratada como uma potência vencida ou um parceiro em pé de igualdade, a persistência da mentalidade da Guerra Fria, a expansão da OTAN, a paranoia de Putin sobre as "Revolução Coloridas" e a falta de pulso do Ocidente frente às investidas de Moscou ocorreram devido ao que o autor chamou de "incompreensões fundamentais" de ambos os lados, resultando na situação atual.
Quadro difícil para Donald Trump.)

Esta entrevista ajuda a explicar as críticas e preocupações com Trump já que, na época, ele era o possível ocupante da Casa Branca, e que as relações com a Rússia estavam (e ainda estão) entre as prioridades do governo americano. Suas respostas sobre a Ucrânia apontam para duas questões: um relativo desconhecimento da crise neste país e a intenção de evitar críticas incisivas a Putin com o objetivo de evitar tensões com a Rússia e não entrar em contradição com suas propostas de campanha. Apesar das incertezas sobre o que faria na presidência, Trump deu claros sinais de compromisso com a OTAN e de apoio à Ucrânia com a nomeação de James Mattis como secretário de defesa, firme apoiador da organização, e a explícita condenação da anexação da Crimeia na ONU. Quanto às sanções à Rússia, estas foram renovadas em 2 de fevereiro, mas seu futuro ainda é discutível dado o pequeno alívio às sanções pelo Tesouro americano e às possíveis estratégias que Trump poderá adotar para aliviar as tensões com Moscou.

O governo Trump está recém no início e ainda é cedo para afirmar como lidará com a Rússia no longo prazo e como a Ucrânia se encaixará nesta equação.

terça-feira, 1 de novembro de 2016

O Movimento Eurasiano no Brasil: trajetória e prisão de Rafael Lusvarghi (parte 1)

(Lusvarghi no leste da Ucrânia no início de 2015.)

Na manhã do dia 6 de outubro, às 9 h, foi preso no Aeroporto Internacional de Boryspil, próximo de Kiev, o brasileiro Rafael Marques Lusvarghi, 32 anos, um dos combatentes estrangeiros ligados aos separatistas pró-Rússia na guerra na Ucrânia. A prisão foi realizada por agentes do Serviço de Inteligência da Ucrânia (SBU) sob acusação de formação de grupo terrorista segundo o artigo 253-8 do Código Penal do país. Lusvarghi é considera um mercenário estrangeiro. Com ele foram encontrados um documento de identidade da República Popular de Donetsk (RPD) contendo a assinatura de Igor Strelkov, militar russo e principal líder da Guerra em Donbass, um passaporte da RPD, um laptop com correspondências trocadas por grupos considerados terroristas e uma medalha como condecoração por serviços prestados em combate, possivelmente dado pelo próprio Strelkov.

(Vídeo no Youtube do Serviço de Inteligência da Ucrânia que mostra Rafael Lusvarghi detido por agentes ucranianos no Aeroporto de Boryspil, em 6 de outubro.)

A prisão do combatente brasileiro levantou questionamentos por parte de simpatizantes pró-Rússia. Lusvarghi foi preso porque o avião em que se encontrava, com rota para Moscou, foi desviado para aterrissar Boryspil. O avião seria da British Airways, levantando a suspeita de que haveria uma interferência do Reino Unido na sua prisão.

Neste mesmo dia uma reportagem do site da Opera, revista brasileira de esquerda simpática à pessoa de Lusvarghi, recebeu uma série de informações de "amigos e militantes da causa novorrusa" através de André Ortega, ex-correspondente da revista que está na Ucrânia. Segundo ele "internautas do mundo russo-ucraniano" desconfiaram que a prisão de Lusvarghi fosse uma armação. A justificativa era de que o vídeo divulgado pela SBU mostrava o rosto do brasileiro embaçado, e sua barba seria mais volumosa do que a apresentada em vídeos recentes. A reportagem diz que os "militantes solidários com a causa novorrusa" estariam preocupados com a segurança do brasileiro, já que o governo de Kiev, onde atuariam "grupos paramilitares neonazis", estaria utilizando tortura contra seus prisioneiros. O texto também acusa "radicais nacionalistas" e a paralisia do governo ucraniano de não cumprirem os Acordos de Minsk, dentre eles a anistia a prisioneiros de guerra.

(Rosto embaçado levantou a suspeita por defensores de Lusvarghi de que o homem preso em Boryspil não seria o brasileiro.)

No dia 9 de outubro a revista publicou outra reportagem com informações de Ortega comentando a trajetória de Lusvarghi até sua prisão. O combatente voltou ao Brasil no final de 2015, onde trabalhou num barco pesqueiro na costa. Ele teria saído da Ucrânia por estar "cansado da vivência na região", por ter vivido a guerra o suficiente e estaria frustrado com a paralisia do conflito e com o cessar-fogo incerto. Sua saída da Ucrânia seria condição para cumprimento do Acordo de Minsk, já que é combatente estrangeiro.

Lusvarghi havia recebido propostas de trabalho em outros lugares do mundo, dentre elas a da empresa Omega em agosto deste ano para atuar como segurança de um navio que sairia de Odessa, na Ucrânia, para Galle, no Sri Lanka. Ele aceitou a oferta, mas ao mesmo tempo reagiu com preocupação. O brasileiro entrou em contato com a empresa para saber dos riscos de passar pela Ucrânia depois de ter lutado em Donetsk e comunicou a respeito da anistia aos combatentes conforme os Acordos de Minsk. Ele também buscou orientação sobre sua situação junto ao Ministério das Relações Exteriores no Brasil. Segundo Ortega, Lusvarghi aceitou a oferta por ela oferecer apenas uma passagem só de ida, considerar Odessa uma cidade pró-Rússia e por confiar nos Acordos. A Omega teria entrado em contato com o escritório da Organização de Segurança e Cooperação na Europa (OSCE), localizado em Londres, que teria garantido não haver riscos para o brasileiro. Ele comprou passagem em 26 de setembro, embarcou para a Turquia dia 5 de outubro e no dia 6 voou para a Ucrânia. Segundo a reportagem, a Procuradoria de Kiev teria expedido mandato de prisão contra o brasileiro em 4 de outubro, um dia antes de sua saída do Brasil, e um "site pro-ucraniano" teria divulgado o trajeto de sua viagem. Estas informações seriam indicativos de que a SBU sabia da passagem de Lusvarghi pela Ucrânia.

Mesmo sem apresentar provas, a revista também sugere que a Omega teria contribuído para a prisão, já que entre seus clientes estaria o Diretório Máximo de Inteligência do Ministério da Defesa Ucraniano.

As informações disponíveis nos parágrafos acima levam a uma contradição: se Lusvarghi foi da Turquia para a Ucrânia, como afirma a Opera, como então seu voo, supostamente da British Airways, estaria indo para Moscou? Caso contrário o avião não teria sua rota desviada para pousar no aeroporto de Boryspil. Ou o brasileiro tinha a Rússia como destino para uma conexão, ou a revista errou (ou omitiu por razões desconhecidas) esta informação.

O site de notícias dos militantes pró-Rússia Slavyngrad.org afirma que o voo do brasileiro fazia a rota Dublin-Moscou. Ele iria à capital russa negociar a oferta de emprego da numa empresa de segurança de navios (não esclarece se da Omega). Lusvarghi teria sido enganado por agentes da SBU, que no contato para a oferta de trabalho teriam se passado por cidadãos russos. O site também levanta a hipótese de que haveria interferência no Reino Unido, questionando a imprudência do voo em fazer escala justamente na Ucrânia, que está em conflito com a Rússia.

A imprensa da RPD, como o esperado, também rejeitou a classificação do brasileiro como "mercenário estrangeiro", chamando-o de "guerreiro internacionalista".

No Brasil o Itamaraty (Ministério das Relações Exteriores) recebeu a notícia da prisão do brasileiro no dia 7 de outubro através de sua Embaixada em Kiev. O setor consular da Embaixada entrou em contato com as autoridades ucranianas para visitar Lusvarghi e ter mais notícias do que havia acontecido. A resposta veio dia 14 pelo Itamaraty: o brasileiro estaria bem com acesso a boa alimentação, não sofreu maus-tratos, possuía um advogado, e um procurador ucraniano estava acompanhando o caso. Essas informações foram divulgadas depois que a Embaixada fez uma visita consular a Lusvarghi.

Mas como o combatente brasileiro chegou à Ucrânia? E qual foi sua trajetória antes da prisão?

(Lusvarghi, ao centro, na Legião Estrangeira Francesa em 2006.)

Rafael Marques Lusvarghi nasceu em Jundiaí, no interior de São Paulo, numa família de classe média e descendente de húngaros. Sua trajetória foi descrita por ele mesmo numa entrevista concedida ao site História Militar Online (HMO) em setembro de 2015. Esta é a descrição mais completa de sua vida pública disponível nos meios de comunicação brasileiros:

"Meu nome é Rafael Marques Lusvarghi. Sou militar, oficial do quadro de combatentes, e um muito bom. Comecei minha carreira cedo, me alistando na Legião Estrangeira Francesa como paraquedista na Companhia de Montanha do 2REP [ 2eme Régiment de Étrancher Parachutistes) onde participei de algumas missões [que não pode revelar], e também fazendo alguns cursos. Fui dispensado por problema de saúde. Recuperado, de volta no Brasil, passei em concurso para Soldado da PM do Estado de São Paulo em fins de 2005.  
Lá meu serviço foi basicamente interno, com apenas algumas poucas rondas ostensivas e rádio patrulha. Mas mesmo assim aprendi muito sobre funcionamento da área administrativa, e a parte burocrática sem a qual é impossível gerar uma grande força. Apesar de não gostar deste papel, considero indispensável a burocracia e padronização de procedimentos e modos operantes. 
Claro que, ambicioso e orgulhoso, quis crescer e me tornar oficial. Passei no concurso para o CFO [Curso de Formação de Oficiais] no Pará, e fui cursar a Academia de Oficiais da Policia Militar Coronel Fontoura no IESP. Tradicionalista, decidi por me aperfeiçoar na cavalaria e estive presente no Regimento Montado Cassulo de Melo.  
Em 2010 cometi o grande erro de interromper minha carreira militar, pedindo baixa da corporação. Foi para ir viver na Rússia. Nunca tive paciência com a vida civil, a falta de disciplina e hierarquia, o preto no branco.  
De volta ao Brasil em 2014, tomei certas atitudes por motivos que hoje discordo, a maneira como as manifestações se desenrolam no Brasil não é adequado. Gostaria de salientar aqui que sobretudo hoje sou apolítico, até tenho minhas concepções, acima de tudo contra todo esse vitimismo que assola nossa nação, quem quer consegue, quem quer faz, quem chora é fraco, e como dizemos no meio militar, os fracos que se explodam. Logo, me arrependo dos motivos que me levaram as ruas (durante as manifestações da Copa do Mundo no Brasil), mas não me arrependo das lutas que me envolvi. Como cidadão livre e em momento de folga, posso fazer o que bem entender não infringindo a lei. Se eu quiser beber e parar no meio de uma rua sem tráfego, farei, se quiser beber de saia, farei também. E estando certo, luto até a morte pelos meu direitos. Como dizem os US Marines, uma das melhores forças do mundo: Semper Fi, do or die!  
Depois de solto retornei ao meu projeto de participar na guerra civil na Ucrânia, do lado pró-Rússia porque… Sou pró-Rússia incondicionalmente. Mas acontece que realmente são os pró-Rússia os certos nessa questão."

A viagem de Lusvarghi à Ucrânia recebeu significativa atenção da imprensa brasileira. Primeiro porque ele já era conhecido por participar de protestos de rua no Brasil em 2014; segundo, era curioso que um cidadão local fosse a um país tão distante para se envolver num conflito armado sem conexão direta com sua terra natal.

Apesar da sucinta descrição de sua carreira como militar, policial e combatente, Lusvarghi omite alguns detalhes que ajudam a entender a trajetória e as razões que o fizeram estas decisões.

As ações do brasileiro se tornam mais "radicais" depois de sua volta da Rússia em 2010, onde fez curso de administração em Kursk, trabalhou e aprendeu a língua russa. Um de seus professores lhe deu o apelido o apelido "Riurik Varyag Volkovich", numa referência à dinastia Rurik. Lusvarghi pretendia entrar no exército, mas não foi aceito por ser estrangeiro. Voltou para o Brasil em meados de 2013/14. Neste período de retorno ele afirma ter ido à Colômbia e entrado em contato Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC), a quem teria feito uma "visita" na cidade de Cartagena. Inclusive ele teria entrado na guerrilha, mas saiu porque os guerrilheiros "não têm cultura. (...) eles não têm preparo, não têm plano do que fazer", e se mostrou decepcionado com o processo de paz então em negociação entre o grupo e o governo de Bogotá que levaria à entrega das armas e a transformação guerrilha em partido político.

(À esquerda, detenção de Lusvarghi pela PM de São Paulo, em 12 de junho, cuja foto teve grande repercussão na imprensa brasileira; à direita, a prisão em 23 de junho vestindo kilt escocês.)

De volta ao Brasil, Lusvarghi conseguiu dois empregos em Indaiatuba, interior de São Paulo, um como professor de inglês e outro como assistente de helpdesk numa empresa de informática. Ele participou de protestos promovidos por movimentos e partidos de esquerda contra os gastos da realização da Copa do Mundo de 2014. Numa das manifestações realizadas na cidade de São Paulo em 12 de junho, dia da abertura do evento, ele foi detido depois de se colocar na frente do Batalhão de Choque da Polícia Militar. Recebeu vários tiros de balas de borracha e só foi contido por cinco policiais ao mesmo tempo. Foi nesta ocasião que ele ficou famoso: numa foto amplamente divulgada pela imprensa brasileira, ele aparece sendo estrangulado por um policial militar, cuja imagem virou um dos símbolos dos protestos contra a Copa.

(Cicatrizes que Lusvarghi mandou marcar no seu rosto num estúdio de tatuagem: etapa de criação de um combatente nórdico.)

Em 17 de junho Lusvarghi se submeteu a uma escarificação num estúdio de tatuagem, técnica utilizada para cortar a pele e deixar um cicatriz, enquanto a seleção do Brasil jogava contra o México na Copa do Mundo. A marca foi inspirada nos personagem Leônidas, do filme 300, Kratos, de um jogo eletrônico de luta, e num ex-colega da Legião Estrangeira. Em 23 de junho Lusvarghi esteve em outro protesto, agora na Avenida Paulista, a principal de São Paulo. Houve novos confrontos com a PM, mas desta vez ele e um amigo estudante de Jornalismo da USP, Fábio Hideki, foram presos acusados de serem black blocs e de portarem explosivos. O futuro combatente estava trajado conforme seus ideais de luta: rosto cicatrizado, cabelos e barbas compridas (numa alusão aos guerreiros nórdicos), kilt (vestimenta escocesa similar a uma saia) e sem camisa. Ele também carregava uma tatuagem no ombro direito com um símbolo e a palavra russa "biersierk", que seria uma referência aos guerreiros da mitologia nórdica.  

(Lusvarghi no dia de sua liberação da penitenciária de Tremembé, SP, em 7 de agosto, com tatuagem no ombro numa referência simbólica à mitologia nórdica.)

Lusvarghi também foi acusado de resistência, ação criminosa, incitação ao crime e desobediência. A Justiça de São Paulo liberou ele e o amigo 45 dias depois, em 7 de agosto, quando laudos do Instituto de Criminalística mostraram que o material que carregavam não era explosivo nem incendiário, e sim latas vazias de achocolatado e iogurte que, segundo a polícia, tinham "cheiro de combustível". O juiz, por sua vez, havia classificou os dois de "esquerda caviar", numa alusão ao fato de que seriam socialistas hipócritas. A prisão fez Lusvarghi perder os dois empregos e uma viagem à Ucrânia, para onde já tinha passagem comprada e deveria embarcar em 28 de junho. Liberto da penitenciária de Tremembé, onde estava preso, o futuro combatente buscou ajuda de "amigo politicamente engajados" (que, segundo ele, não seriam recrutadores) e reuniu documentação para viajar. Em 18 de setembro ele e Hedeki foram "sumariamente" absolvidos da acusação de porte de explosivos pelo Tribunal de Justiça de São Paulo. No dia seguinte, Lusvarghi já estava em Moscou, de onde postou um foto no Facebook em que aparece na Praça Vermelha. Ele chegou à Ucrânia dia 20 para atuar junto aos separatistas pró-Rússia.  

(Lusvarghi, à esquerda da bandeira do Brasil, com separatistas pró-Rússia no inverno 2014/15.)

Logo que chegou à Ucrânia, Lusvarghi entrou no Batalhão de Prisrak, em Donbass, onde a maioria dos integrantes eram voluntários. O conhecimento e experiência nas áreas militar, policial e em armamentos ajudaram-no a se firmar como combatente. Sua trajetória no primeiro ano de guerra foi intensa. O primeiro combate que participou foi em Vergulovka, em outubro de 2014. Em março de 2015 já comandava o próprio pelotão com cinco brasileiros denominado Unidade Internacionalista Ernesto "Che" Guevara, numa alusão ao guerrilheiro comunista argentino. O pelotão foi criado com autorização do batalhão ao qual fazia parte. Os integrantes vinham de diversas regiões do Brasil, possuíam perfis variados e tinham como função fazer reconhecimento do inimigo e praticar atos de sabotagem. Até este período Lusvarghi teria participado diretamente da morte de pelo menos quatro solados ucranianos, segundo sua própria declaração numa entrevista. Em 26 de abril ele ficou gravemente ferido nas pernas, tronco e braço ao ser atingido por tiros ou estilhaços de uma bomba na violenta batalha pelo Aeroporto Internacional de Donetsk. Recuperado no hospital da cidade, voltou à batalha mais de dois meses depois. Sua função militar durante quase todo este período foi de comandante de bateria de morteiros. 

Com a divulgação de suas fotos pelo Facebook onde aparece em combate, Lusvarghi tem atraído mais pessoas do Brasil para lutar do lado dos militantes pró-Rússia. Hoje há em torno de dez brasileiros no campo de batalha.

(Lusvarghi realizando manutenção da metralhadora DShK 12,7 mm, no Aeroporto de Donetsk, em abril de 2015, pouco antes de ficar gravemente ferido numa violenta batalha.)

A volta da Rússia, o contato com as FARC, a participação dos protestos de rua no Brasil (de cujas motivações declara arrependimento) e a ida definitiva à Ucrânia revelam uma insistente busca do brasileiro por atividades mais perigosas. Algumas de suas declarações ajudam a entender as motivações pessoais e políticas para tais atitudes.

Logo após ser liberado da prisão, em 7 de agosto de 2014, ele foi entrevistado pelo site G1 das Organizações Globo. Num dado momento o jornalista questionou sua ideologia, e teve a seguinte resposta:
"Esquerda. Eu diria anarquista, mas anarquista é uma utopia. Então eu ficaria no stalinismo. Eu diria anarquista se achasse que funciona, mas é utopia. Então eu me classifico como stalinista."

Na mesma entrevista o jornalista lembrou que Lusvarghi havia declarado anteriormente que era fã do ex-governador do Estado de São Paulo, Luiz Antônio Fleury Filho, por ser um nacionalista. Mas quando questionado se ele tinha simpatia pelo movimento integralista (movimento de direita fascista e nacionalista no Brasil dos anos 1930), ele mostrou rejeição ao espectro oposto da esquerda: "Eu não gosto de nada que tenha a ver com a direita", respondeu.

(Brasileiro com símbolos do comunismo: admiração às ideologias de esquerda e uma crescente adesão ao nacionalismo russo a partir de 2014.)

Nos últimos dias de setembro de 2014, pouco menos de dois meses depois da entrevista ao site G1, Lusvarghi, recém chegado à Ucrânia, trocou mensagens com o jornal O Estado de São Paulo onde mais uma vez respondeu às perguntas sobre suas posições políticas:


"Na parte política, eu me oponho ao avanço imperialista na Ucrânia, às garras do grande capital financeiro internacional, a uma base da Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte, liderado pelos EUA) apontando mísseis para a Rússia." 

 Na entrevista concedida à Istoé, uma das revistas de maior circulação do Brasil, em janeiro de 2015, o brasileiro já combatia em Donbass há quatro meses. Na ocasião ele revelou um pouco de sua motivação de ir participar da guerra na Ucrânia. Seu interesse pela Rússia é antigo, e acompanha tudo ligado ao país. "Além de também descender dos povos do Leste, meu interesse vem de infância, por tudo que é relacionado à Rússia, história, cultura, mentalidade do povo", diz, definindo-se como de esquerda e stalinista. Quando foi questionado por que ele acreditava que o leste da Ucrânia deveria se tornar independente, ele citou vários casos históricos de independência (inclusive o de Kosovo, criticado pela Rússia) e justificou o movimento separatista pelo "direito à autodeterminação dos povos". Noutra questão, lhe perguntaram a razão pela qual se alistou como voluntário num exército estrangeiro, e ele respondeu:

"...luto aqui exclusivamente pela Grande e Sagrada Mãe Rússia, a terra dos meus ancestrais, pois o sangue que corre na minha veia é o mesmo do povo daqui. Politicamente sou totalmente contra o liberalismo, a política atual da União Europeia e dos EUA. Mas minha luta é, acima de tudo, pela independência do povo russo e pela união desse povo sob égide de um só país e uma só liderança."

O irmão do combatente, Lucas Lusvarghi, conta que desde criança ele se interessa pelas questões militares, principalmente história da guerra, e estudava muito geografia, história e estratégia.

O brasileiro também deixa claro noutras declarações sua predileção pela luta armada e a preferência pela Rússia. Na entrevista concedida ao site HMO, em setembro do mesmo ano, perguntaram por que ele saiu do Brasil para se juntar aos separatistas. A resposta foi esta:

"1) Não vou negar. Gosto de guerra. Além do mais, não é mentira, só vive em paz quem aprende a lutar. 2) Sou pró-Rússia de carteirinha, foi só isso que me trouxe aqui, absolutamente nenhuma ideologia política." 

Ele também foi questionado por um leitor sobre como conseguia conciliar sua autodeclarada posição de "esquerda", divulgada na Revista Istoé, com a obediência a uma autoridade como Igor Strelkov, segundo o questionador um "monarquista de direita" e que "se declara abertamente czarista e nacionalista 'branco'" (numa referência às forças antibolcheviques na Guerra Civil Russa em 1917-1922). Eis o que o brasileiro respondeu:

"Quando eu disse stalinista, e me posicionei como de esquerda, a mais de um ano atrás, eu quis dizer que era um admirador, não um portador dessa bandeira. Várias vezes eu deixei claro ser uma pessoa prática, que não compra ideias em pacotes fechados, mas um pouco aqui, um pouco ali. Eu mesmo não carrego nenhuma bandeira... (...) Deve ser feito o melhor para a nação. Respondendo sua pergunta, não vejo problema em ser comandado por quem quer que seja... manda quem pode, obedece quem tem juízo." 

Outro leitor perguntou se, mesmo sendo "seguidor de ideologia de esquerda", ele acreditava na liberdade dos pró-Rússia depois do conflito:

"Não sou de esquerda, e nosso combate é justamente para que o governo de Kiev não proíba o idioma e cultura russa no leste do país." 

Numa de suas últimas entrevistas, concedida ao site Slavyngrad.org, Lusvarghi posicionou-se como um nacionalista de linha claramente eurasiana. O entrevistador lhe perguntou por que foi à guerra, já que, nas suas palavras, "amar a Rússia é uma coisa, mas morrer pelos russos é outra totalmente diferente". A resposta do brasileiro remete à linguagem típica do movimento eurasiano:

"Bem, em primeiro lugar, Brasil e Rússia estão muito proximamente alinhados pelos BRICS. Seja lá qual for o interesse da Rússia também favorece o Brasil de uma perspectiva geopolítica. Os BRICS podem se tornar um substituto da hegemonia dos EUA e da Europa no mundo - mas apenas de se as ações finalmente tomarem o lugar das palavras que ouvimos agora.
A influência dos EUA no Brasil é muito forte. Tudo o que os EUA tocam se apaga: valores familiares e religião, embora eu não seja muito religioso. Tudo se torna um tanto sem sentido."

Ainda em 2014 Lusvarghi havia se declarado abertamente de "esquerda", "stalinista" e mesmo "anarquista". Nas entrevistas concedidas ao final do mesmo ano quando já estava na Ucrânia, ele demonstra um relativo distanciamento de uma extrema-esquerda "pura" à qual simpatizava quando estava no Brasil. Ao compararmos as declarações sobre suas motivações políticas e sua ideologia, o brasileiro demonstra uma "evolução" de uma extrema-esquerda para o nacionalismo russo entre 2014 e 2015.

Lusvarghi vê a si mesmo com um militante e herdeiro legítimo da "causa" nacionalista da Rússia sob um viés de esquerda, antiamericano e antiocidental. Desde que chegou na Ucrânia sua posição política, a julgar pelas declarações à imprensa brasileira, se tornou mais pró-Rússia do que exclusivamente esquerdista. Diria que uma mescla de ambos, numa absorção da ideologia de esquerda no nacionalismo russo. Ele não declara abertamente se teve algum envolvimento pessoal com as ideias e o movimento político eurasiano, como o pensamento de Alexander Dugin ou a União de Juventude Eurasiana, que desde de pelo menos 2006 já preparava uma uma futura guerra na Ucrânia. Esta hipótese é levantada quando Lusvarghi recorre à mesma linguagem do movimento ao se declarar radicalmente contra o liberalismo ocidental, faz referências à geopolítica da Rússia e ao mesmo tempo demonstrar admiração a figuras aparentemente antagônicas no campo ideológico como Stálin e Strelkov. Outro indício, este mais evidente, é uma foto publicada em 18 de julho de 2015 na "Frente Brasileira de Solidariedade com a Ucrânia", grupo criado no Facebook em apoio aos separatistas pró-Rússia, onde Lusvarghi aparece segurando uma bandeira símbolo do Movimento Eurasiano. 

(Lusvarghi, à direita, com seu colega de combate Luizz Davi: Movimento Eurasiano na guerra na Ucrânia.)

O neoeurasianismo desenvolvido por Dugin tem como uma de suas principais características a combinação de elementos da extrema-esquerda e da extrema-direita num mesmo movimento político. Isto fica claro nas declarações do pensador russo durante o debate com o filósofo brasileiro Olavo de Carvalho, onde ele propõe uma aliança entre todos os elementos sociais capazes de fazer frente ao globalismo norte-americano. Carvalho, por sua vez, alerta exatamente a este aspecto do neoeurasianismo de Dugin, capaz de absorver os extremistas de ambos espectros e fazê-los trabalhar juntos em nome de uma ditadura global, como comenta no artigo Eurasianismo e Genocídio

A ligação de Lusvarghi ao movimento eurasiano fica mais clara na entrevista concedida à seção em português da Vice News e divulgada nove dias após chegar na Ucrânia. Ele afirma que "respondeu ao chamado da Frente Brasileira de Solidariedade com a Ucrânia" e da Brigada Continental, braço armado da Unidade Continental, nas suas palavras uma "síntese entre as FARC e o Hezbollah", para lutar no país. A Brigada, diz, é uma unidade dentro do batalhão Prisrak, do qual faz parte, e braço armado da Unidade, que teve origem em janeiro de 2014 em Belgrado, na Sérvia, e é composto principalmente por sérvios e franceses.

("Glória a Rafael Lusvarghi": capa estilizada de página no Facebook utilizada para trocar informações e recrutas combatentes brasileiros para a guerra exalta a figura de seu principal representante.)

Mas o mais importante aqui é a menção de Lusvarghi à "Frente Brasileira de Solidariedade com a Ucrânia". Ainda que não seja possível provar, este é possívelmente o grupo ao qual pertencem os "amigos politicamente engajados" que teriam ajudado Lusvarghi a ir para a Ucrânia depois de sair da cadeia. O grupo possui uma página no Facebook que é utilizada para recrutar futuros combatentes brasileiros para o separatistas pró-Rússia. Lá também são disponibilizadas informações sobre o conflito e notícias da imprensa russa ou pró-Rússia. Seus membros ativos fazem críticas aos países ocidentais e ao governo de Kiev, inclusive comemorando a morte de soldados mortos do lado ucraniano, e exibem símbolos e linguagem característicos da ideologia neoeurasiana. Muitos trocam mensagens pedindo informações de como chegar no campo de batalha. O grande símbolo da página, que até a presente data possui quase doze mil curtidas (muitos apenas como observadores), é o próprio Lusvarghi, pioneiro e referência para os brasileiros que querem lutar do lado russo da guerra. A capa da página apresenta uma imagem sua de forma estilizada com a saudação "Glória a Rafael Lusvarghi" em russo. 

Em 7 de outubro, um dia após a prisão, foi criado no Facebook uma página para pedir a libertação do brasileiro: "Free Rafael Lusvarghi". Até a presente data contava com mil curtidas.

(Imagem retirada da página do Facebook que pede a libertação de Lusvarghi: similaridade com a figura de Jesus Cristo - acrescentada a luz do alto que ilumina seu rosto - reforça uma imagem idealizada do brasileiro.)

No próximo texto veremos como é feito este recrutamento, a rede de contatos no Brasil e quem são os brasileiros que, além de Lusvarghi, estão lutando do lado dos separatistas pró-Rússia.

sexta-feira, 23 de setembro de 2016

A atuação da FSB na nova crise militar na Ucrânia

(Edifício Lubyanka, em Moscou, antiga sede da temida KGB e atual sede da FSB. O serviço passou por diversas nomenclaturas desde sua fundação em dezembro de 1917. É difícil saber onde termina sua atividade e começa a do Estado russo.)

No texto anterior comentei que o principal fator do aumento da tensão militar na Ucrânia e o cercamento do país pelas tropas russas foi a alegada tentativa de ataque terrorista por parte de membros da diretoria geral de inteligência do Ministério de Defesa Ucraniano. Segundo a FSB, serviço secreto russo, na noite de 6 para 7 de agosto um grupo de sete pessoas foi detida perto de Armyansk, na Crimeia, com vinte explosivos caseiros e munição pertencentes ao exército ucraniano. Seu objetivo seria sabotar a infraestrutura da península e prejudicar as eleições federais e regionais ocorridas em 18 de setembro. Na tentativa de prisão do grupo um agente da FSB foi morto e outros dois ficaram feridos. Cidadãos ucranianos e russos, que teriam colaborado com o grupo, também foram presos.

Ao final do meu comentário disse que era provável que a história divulgada pelo relatório da FSB não era verdadeira dado o histórico do serviço secreto russo, sucessor a famosa KGB soviética e da qual surgiu o próprio Vladimir Putin. Mas esta conclusão era genérica dado que conheço muito pouco sobre este órgão, que age, como diz seu nome, nos bastidores e é frequente objeto de discussão entre analistas que têm dificuldades em mensurar seu real poder na Rússia atual.

(Analista político ucraniano Anton Shekovtsov: um dos principais pesquisadores sobre a relação entre o Kremlin e a rede de contatos com a extrema-direita europeia.)

O analista político Anton Shekovtsov apresenta uma explicação plausível que enriquece minha análise anterior. Segundo o pesquisador, a acusação de que a Ucrânia seria responsável pela tentativa de terrorismo era altamente improvável porque, mesmo que o país tenha recebido muito ajuda do Ocidente na crise a ajuda militar com armas leitas era inexistente. Kiev não tem como lidar com um aumento da atividade militar russa. Neste aspecto, o país está sozinho e seria muito contraproducente levar à cabo um atentado terrorista que teria como consequência a intensificação da guerra.

Shekovtsov diz que a tentativa de ataque terrorista era uma operação psicológica (psyop) criada pela FSB no contexto da chamada "situação da Crimeia" cujo o objetivo era aumentar a pressão sobre a Ucrânia e os países ocidentais que impuseram sanções econômicas contra a Rússia. Ele explica que esta atuação tem paralelo com a "Operação Trust" da década de 1920 criada pela então serviço secreto soviético. Na época, a OGPU (futura KGB) criou um falso grupo de monarquistas e anticomunistas para atrair os reais militantes destas causas. Como resultado, os militantes foram reunidos, identificados e eliminados pelo regime, bem como desbaratado sua rede de contatos no país e no exterior.

(Agente identificados pela sigla "FSB", em russo, numa operação antiterrorista [seria na Crimeia?])

A FSB teria criado uma organização ucraniana dentro da Crimeia para atrair nacionalistas ucranianos e simpatizantes locais determinados a reestabelecer a união da península com o país ou pelo menos sabotar a ocupação russa. Os agentes teriam se colocados como membros do diretório geral de inteligência do Ministério da Defesa Ucraniano para que os reais militantes acreditassem da credibilidade da organização e providenciado as bombas e armas apreendidas. Como resultado da prisão dos supostos terroristas (enganados pela FSB), Moscou acusou a Ucrânia de ser autora do plano apresentando-os como agentes de Kiev e, de quebra, disse que era inútil estabelecer negociações para o cessar-fogo.

Cronologicamente esta operação faz sentido quando levamos em consideração que antes da prisão dos supostos terroristas, na noite de 7 para 8 de agosto, no dia 6 já havia grande movimentação de comboios russos na cidade de Kerch em direção à Crimeia. Uma guerra no campo de batalha vem sempre acompanhada de uma guerra de propaganda o que torna mais previsível a compreensão da estratégia, mas quando o serviço secreto entre em cena o cálculo do problema fica mais complicado. Caso contrário o serviço secreto não seria "secreto". Ele está lá para criar confusão, confundir o inimigo e armar a arapuca para os reais combatentes, como os militantes nacionalistas ucranianos que foram apresentados como reais mentores do terrorismo enquanto que a armadilha da guerra era planejada em escritórios na Rússia.

quinta-feira, 8 de setembro de 2016

A Rússia está cercando a Ucrânia. Por quê?

(Tanques dos separatistas pró-Rússia com bandeiras da República Popular de Donetsk: aumento do conflito na Ucrânia e cerco militar pela Rússia.)

Os Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro começaram oficialmente no dia 5 de agosto passado para onde se voltaram as atenções do mundo todo. Era uma sexta-feira. No mesmo final de semana, a tensão política e militar no conflito na Ucrânia cresceu perigosamente. Enquanto o mundo olhava para o Brasil, a Rússia iniciava sua escalada militar nas fronteiras do país vizinho. Mas por quê?

(Bombas caseiras que seriam dos supostos terroristas ucranianos. Foto da FSB.)

Segundo a Rússia, ações do serviço secreto e bombardeios do exército ucraniano seriam a causa da escalada. Na noite de sábado para domingo, 6 a 7 de agosto, um agente do serviço secreto russo (FSB) teria sido morto numa operação para prender um grupo de supostos terroristas membros da diretoria geral de inteligência do Ministério da Defesa Ucraniano perto da cidade de Armyansk. Eles teriam invadido a Crimeia com vinte explosivos caseiros e diversos armamentos (inclusive utilizados pelas forças ucranianas) que seriam usados para causar atentados e sabotar a infraestrutura local. O objetivo seria criar instabilidade política e prejudicar as eleições regionais e federais marcadas para o dia 18 de setembro. Moradores da região afirmaram terem ouvido tiros durante a operação, onde também foram presos alguns cidadãos russos e ucranianos que teriam colaborado com os invasores. As informações foi divulgadas num relatório da FSB dia 10.

Nas primeiras horas de segunda-feira, dia 8 (algumas fonte colocam noite do dia 7, o que sugere o período da madrugada seguinte), forças especiais da Ucrânia teriam tentado, por duas vezes, entrar na península utilizando forte ataque com veículos blindados do exército. Houve a morte de um militar russo. 
  
(Igor Plotnitsky, líder da autoproclamada República Popular de Luhansk desde agosto de 2014.)

Paralelamente às escaramuças na fronteira, outro acontecimento somou-se ao clima de tensão. Na manhã do dia 6 o líder da autoproclamada República Popular de Luhansk, Igor Plotnitsky, ficou gravemente ferido na explosão de uma bomba no carro em que estava na cidade de Luhansk. Um guarda-costas morreu e outros dois ficaram feridos, além de várias outras pessoas. O atentado foi confirmado pelo serviço de inteligência da Ucrânia, que disse haver uma luta pelo poder entre os militantes. A Rússia acusou a Ucrânia de realizar o ataque, e os militantes afirmaram que foi um "ato terrorista" de sabotadores ucranianos. Kiev negou a autoria e disse não ser a primeira vez que tentam assassinar um líder dos separatistas. 

O Kremlin tratou os casos como tentativas de ataque terrorista. Vladimir Putin realizou no dia 8 uma reunião com o Conselho de Segurança Russo com a presença de metade de seus doze membros, o que sugere a emergência do encontro. Segundo a imprensa russa, neste encontro as agências de governo foram preparadas para comunicar futuros acontecimentos e foram tomadas as primeiras medidas para reforçar o sistema de segurança da Crimeia. Nova reunião ocorreu no dia 11-feira com o objetivo de novamente melhorar a segurança na península, desta vez de seus habitantes e da infraestrutura, e tomar medidas "antiterroristas". O presidente russo disse, em sintonia com o relato da FSB, que a "Ucrânia está escolhendo o terror" e que não poderia deixar passar a morte de dois soldados seus. Já o primeiro-ministro Medvedev disse que a Rússia poderia cortar as relações com a Ucrânia caso as demais tentativas de resolver a nova crise falhassem. As fortes declarações de Putin serviram para aumentar a tensão na região e reafirmar que considera o governo de Kiev ilegítimo. 

Este dois eventos e a retórica agressiva do Kremlin são o ponto culminante do aumento da tensão na Ucrânia nos últimos meses. Desde maio o conflito tem se intensificado nas províncias de Donetsk e Luhansk, especialmente na porção sul destas localidades, apesar dos acordos de cessar-fogo realizados em Minsk em 2014 e 2015. Julho foi o mês mais violento em quase um ano, quando 42 soldados morreram e 181 ficaram feridos apenas do lado ucraniano. Tanto jornalistas quanto observadores da Organização para Cooperação e Segurança na Europa (OCSE), responsáveis por verificar o cumprimento dos acordos, relatam o bombardeio diário de morteiros e artilharia pesada que tem vitimado civis localizados em ambos os lados do combate. As violações viriam principalmente do lado russo.

A resposta da Rússia foi a escalada militar nas fronteiras da Ucrânia. Esta escalada não ocorreu apenas na Crimeia, mas ao redor de quase todo o país, à exceção das fronteira com a Bielorrússia e a Polônia. A movimentação russa pode ser conferida no mapa abaixo.  


A escalada militar russa começou dia 7 com o deslocamento de unidades aéreas e navais no Mar Negro, a movimentação de comboios, exercícios militares e um sistema de defesa aéreo na Crimeia.

Neste dia mais tropas e novos equipamentos militares da Rússia chegaram à Crimeia, e sua fronteira com a Ucrânia foi fechada. Entre os dias 8 e 9 tanques russos realizaram exercícios militares na Transnístria, região da Moldávia na fronteira sudoeste da Ucrânia, cujo movimento separatista é apoiado por Moscou. No dia 11 diversos comboios de caminhões, tanques e veículos russos entraram na Crimeia por terra através estreito de Kerch, como mostram imagens disponíveis na internet. Também foram colocadas novas tropas de apoios aos separatistas na região de Donbass (onde estão Donetsk e Luhansk) e novos navios de guerra e aviões de combate começaram a chegar no principal porto da península, Sebastopol, para se juntar à Frota do Mar Negro para a realização de exercícios militares. No dia 12 a Rússia instalou na Crimeia um sistema de mísseis terra-ar capaz de atingir uma distância estimada entre 250 e 400 km. Caso este alcance máximo seja verdadeiro, os russos podem abater qualquer avião que sobrevoe todo o sul da Ucrânia, região almejada pelos separatistas conhecida como Novorossya, até a divisa com Donbass onde o conflito está em andamento. 

Sem contar a Crimeia, a Rússia já mobilizou trinta e seis brigadas, infantarias e divisões num total de aproximadamente 100 mil homens nas fronteiras com a Ucrânia desde os últimos dias de julho.

(Comboio de caminhões em Kerch, província de Krasnodar, Rússia, em 8 de agosto indo em direção à Crimeia. Segundo o Grupo de Direitos Humanos da Crimeia, equipamento militar chegou à cidade já no dia 6, dia do atentado contra Plotnisky.)

Importante notar que toda esta mobilização russa em torno do território ucraniano já vinha em escalada desde julho, mas que havia grande mobilização de comboios no mesmo dia da tentativa de assassinato de Plonitsky o que pressupõe um planejamento prévio. A principal movimentação de tropas, exercícios militares, armamentos e a instalação do sistema de mísseis, começou no dia seguinte, dia da suposta invasão de "terroristas" na Crimeia que resultou na morte de um agente da FSB.  O tiroteio na fronteira que teria matado um soldado russo ocorreu um dia após o início da escalada. Esta movimentação foi acompanhada de uma retórica mais agressiva por parte do Kremlin dia 10, que prometeu reagir às supostas ações da Ucrânia. 

A resposta do governo ucraniano ocorreu no dia 11, dia da maior movimentação de tropas russas e da segunda reunião de Putin com seu Conselho de Segurança. O presidente Petro Poroshenko ordenou o aumento do nível de prontidão de todas as unidades militares posicionadas próximas à fronteira com a Crimeia e em Donbass. A decisão foi tomada com os principais oficiais de segurança para decidir o que fazer com a acusação de tentativa de "terrorismo" pela FSB. Ele também afirmou que a acusação de que Kiev teria feito os dois ataques são pretextos para ameaçar militarmente a Ucrânia.

Outras autoridade do país foram mais longe: acusaram o governo russo de "histeria", "cinismo" e "insanidade" e compararam os supostos dos ataques à Crimeia à estratégia de Hitler quando forjou um ataque militar polonês contra os nazistas em 1939 desencadeando a Segunda Guerra Mundial. Também compararam o apoio à guerra em Donbass ao Grande Terror de Stálin, período dos anos de 1930 em que o ditador soviético iniciou uma perseguição sistemática a supostos opositores do regime com julgamentos manipulados e execuções em massa. É interessante notar que mais uma vez autoridades e nacionalistas fazem um paralelo entre o atual conflito na Ucrânia e a experiência com o genocídio do povo ucraniano provocado deliberadamente por Stálin em 1932-33 e descrito com detalhes em O Livro Negro do Comunismo.    

(Yvhen Panov, ferido na testa, acompanhado por um agente russo: para a FSB um "terrorista".)

Uma das incógnitas em torno da tensão regional está na identidade do supostos terroristas. Os presos do grupo seriam sete, além de vários moradores locais, mas apenas um teve o nome divulgado. Chama-se Yevhen Panov. Segundo uma reportagem do jornal Ukraine Today, seu irmão, Igor Kotelyanets, deu uma entrevista à Rádio Europa Livre e disse que seu irmão teria sido sequestrado e levado à Crimeia, onde as ações terroristas teriam sido forjadas. Panov trabalhava como motorista de caminhão e entrou no exército assim que o conflito no leste do país iniciou em 2014 onde atuou como voluntário. Depois ele voltou para sua cidade natal, Zaporizhia, também no leste, onde trabalhava como técnico em uma usina nuclear. Igor disse que seu irmão "jamais iria para a Crimeia" e que era indiferente à questão da soberania da península. Antes de sua prisão ele iria encontrar amigos e voltaria para casa na segunda-feira, dia 8. Para Moscou, Panov era membro da inteligência militar ucraniana e teria "confessado" o suposto crime. Nas fotos divulgadas pela reportagem ele aparece preso e com o rosto machucado.

As movimentações da Rússia continuaram no dia 19. Nesta data Vladimir Putin fez uma visita surpresa à Crimeia, onde não ia desde agosto do ano passado. Na nova reunião com o Conselho de Segurança, realizada para adotar novas medidas de segurança na região, Putin voltou a acusar Kiev pela tentativa de "ataques terroristas" para inviabilizar o Acordo de Minsk e pela má vontade de manter boa relações com a Rússia. Mas estas duas declarações vieram num tom mais conciliador ao dizer que não havia qualquer plano de cortar relações com a Ucrânia, onde esperava que prevalecesse o bom senso, e ainda chamou seus oponentes de "nossos parceiros" possivelmente numa referência aos laços históricos entre os dois países. Nesta viagem o presidente russo também fez uma visita ao fórum educacional juvenil de Tavrida, realizado desde 2014 para formar uma comunidade de jovens artistas russos.

Desde então a situação mantém-se neste estado de tensão. As declarações de aparente conciliação de Putin na Crimeia não coincidem com a constante movimentação de tropas, exercícios militares, o aumento do número de soldados e munições e a continuidade dos combates no leste ucraniano. 

De acordo com a imprensa ucraniana, novos e amplos exercícios militares da Rússia iniciaram de forma rápida e simultânea em 26 de agosto com a mobilização de dezenas de milhares de homens das regiões militares Sul, Central, Ocidental e da frota marítima do Norte principalmente próximo das fronteiras com Ucrânia, Países Bálticos e na Crimeia. O objetivo era manter as tropas em prontidão para combate. Só na fronteira com a Ucrânia, em Donbass e na Crimeia foram alocados 41.600 homens de 24 grupos militares e 771 aviões e helicópteros. Enquanto isso os combates em Donbass continuaram. Apenas entre os dias e 4 de setembro houve pelo menos 27 ataques dos separatistas russos contra as tropas ucranianas, sendo 15 na região de Donetsk e 12 na de Mariupol, numa violação do Acordo de Minsk.   

(Separatistas pró-Rússia atuando na Ucrânia. Segundo as Forças Armadas ucranianas, seis mil recrutas russos atuam em Donbass e 35 mil separatistas são apoiados por Moscou.)

Analistas trazem diversas explicações para este aumento de temperatura. O pesquisador Aaron Lorewa diz que a principal razão desta nova tensão está nas eleições russas em setembro para a Duma e a crise no país combinada com as duas guerras em que Moscou está envolvida, na Síria e na Ucrânia. Para ele não teria como a Rússia sustentar ambos conflitos ao mesmo tempo, e justifica que a escalada nas fronteiras da Ucrânia serviriam para insuflar o nacionalismo e desviar a atenção para potenciais fraudes eleitorais. Mas Putin não precisaria disso, pois se o sistema eleitoral é dominado por membros do Kremlin não haveria necessidade gastar tantos recursos numa época de crise para mobilizar mais de cem mil homens e milhares de veículos e armamentos com o objetivo de desviar a atenção do público. Seria uma enorme mobilização desnecessária. Anders Asland, do Atlantic Council, faz um breve levantamento histórico dos grandes eventos que a Rússia esteve envolvida no mês de agosto: a ereção do Muro de Berlim em 1961, a Primavera de Praga em 1968, o golpe fracassado de 1991 e a Guerra da Geórgia em 2008. Neste último caso, Asland diz que o paralelo entre a atual tensão na Ucrânia e a guerra em 2008 são "chocantes". Ambos os casos ocorreram durante a escolha do presidente dos EUA, nos primeiros dias dos Jogos Olímpicos de Pequim e foram precedidos por grandes exercícios militares pelos russos. O histórico não garante a repetição dos fatos, mas a repetição do contexto da Guerra da Geórgia pode ser revelador de um modo de agir por parte do Kremlin.     

Penso que as breves análises de Noah Rothman e James Coyle chegam mais perto do problema ao destacarem o longo estancamento do conflito e a falta de reação dos países ocidentais às novas ações russas. Coyle destaca este estancamento e a crise econômica na Rússia, que combinados estariam forçando Moscou a intensificar o conflito. A questão parece mais complexa já que os russos têm poder para intensificar a guerra na Ucrânia, porém com o risco de uma possível reação do Ocidente. Apesar dos aliados de Kiev estarem cansados das sanções contra a Rússia e de sofrerem pressão de partidos aliados do Kremlin, isto são significa que estes países ficarão assistindo à escalada do conflito. Disto se deduz que Moscou está intensificando o conflito até o limite de uma reação ocidental e/ou da OTAN. É aí que entra a análise de Rothman (apesar de ter sido escrita cinco dias antes da de Coyle): Putin estaria forçando uma resposta do Ocidente, isto é, provocando para descobrir até onde é possível ir. Com as eleições americanas chegando, Obama sendo pressionado pelos colegas de partido a fazer frente às ações da Rússia e Trump declarando a possibilidade de relaxar as tensões com Moscou (além da Europa envolvida com o Brexit), o governo russo vai abrindo espaço numa Ucrânia cada vez mais enfraquecida e agora cercada. Isto abre a possibilidade, como diz um dos entrevistados pelo BBC, para que os separatistas consigam cumprir parte de sua agenda, que é legitimar politicamente as "repúblicas populares" de Donetsk e Luhansk, e levar o Acordo de Minsk ao fracasso. Não é interesse russo o cessar-fogo, ao menos não agora, já que isto diminuiria sua capacidade de barganha. Faltaria, portanto, uma reação dos países ocidentais para dificultar as pretensões da Rússia. É o que reclamou Yevhen Marchuk, membro do grupo Trilateral em Minsk, numa entrevista ao Ukraine Today:
 "Quando Putin disso isto [de acusar a Ucrânia de escolher táticas terroristas]?Depois de chegar a acordos com Erdogan. Qual era seu principal obstáculo no Mar Negro, no Bósforo e na Síria? A Turquia, e só então a OTAN. A visita de Putin a outro membro da OTAN, a Eslovênia, um sucesso? Foi. Ele e a primeira-ministra britânica concordaram em se encontrar? Isto pode não parecer significativo, mas eles entraram em concordo? Onde estava nosso presidente e diplomatas? Longe da Europa, mesmo embora sua visita fosse muito importante. Mas o que aconteceu durante a semana que ele estava ausente da Europa?"
A Ucrânia enquadra-se nos chamados frozen conflicts (conflitos congelados), que se caracterizam por não estarem necessariamente encerrados e não possuir um acordo paz definitivo. Eles são comuns nas repúblicas que compunham a antiga URSS e que hoje estão na esfera de influência da Rússia. Nestes países há territórios habitados por minorias étnicas com problemas de relacionamento com o governo central. Elas iniciam um movimento separatista que leva a um conflito armado. Este movimento vem acompanhado de ajuda militar russa, já que tais minorias ou são russas ou são simpáticas à Moscou, que intervém militarmente sob alegação de proteger russos no exterior ou aliados. São os casos da Transnístria na Moldávia, de Nagorno-Karabakh no Azerbaijão e da Abkházia e da Ossétia do Sul na Geórgia. O resultado é uma separação territorial de facto, mas sem o reconhecimento oficial de todo o mundo, à exceção da Rússia e pequenos aliados. Por não estarem definitivamente encerrados, estes conflitos podem reaquecer e dar início a novos confrontos armados.

(Territórios em disputa, local dos frozen conflicts, aparecem escurecidos no mapa. Em o todos os casos há atuação da Rússia. Somada à Síria, são uma anexação e seis intervenções simultâneas.)

Os frozen conflicts possuem quatro elementos que são determinantes para sua dinâmica: a instabilidade interna nos países onde ocorrem, o nível de estabilidade política da Rússia (o que influencia em sua política externa), a reação do Ocidente às ações russas e os objetivos do governo Putin. Esta análise foi feita por um grupo de especialistas da USIP (United States Institute for Peace) que propõe uma reavaliação da política externa americana na região. A mesma posição é defendida por Agnia Grigas, pesquisadora do Atlantic Council. Grigas afirma que os "conflitos congelados" estão interconectados e revelam "um padrão da política externa russa". A intervenção dá à Rússia o controle das regiões separatistas no longo prazo sem ter que necessariamente lidar com os custos de uma anexação (com exceção da Crimeia).  

O trabalho da USIP merece destaque porque mesmo tendo sido realizado no verão de 2014 (portanto há dois anos atrás) ele revela-se acertado sobre a dinâmica da atual tensão. Os especialistas dizem que Putin quer manter um "conflito constante", instabilizar a Ucrânia e "exibir a força russa frente à uma comedida resposta americana e europeia". É o que está acontecendo com as sucessivas violações dos Acordos de Minsk. A constante instabilidade regional e as falhas em estabelecer um cessar-fogo faz com que a crise se torne um "conflito congelado de facto". Ao mesmo tempo existe uma "falta de vontade e de habilidade dos EUA e das potências europeias (...) em apoiar a Ucrânia e motivar a Rússia a acabar com sua agressão". Além da guerra, o governo de Kiev mantém-se desgastado por pressão interna e externa por reformas políticas e financeiras que teriam como objetivo combater a corrupção e tornar o país apto a receber ajuda econômica ocidental. 

 (Dormindo no ponto: enquanto as potências ocidentais não reagem, a Rússia vai avançando no seu projeto eurasiano e vai incorporando a Ucrânia à sua esfera de influência.)

Conflito em andamento, envolvimento em duas guerras num momento de crise econômica, falta de reação do Ocidente e desgaste do governo ucraniano: é o cenário perfeito para Moscou agir. Com os EUA ocupado com as novas eleições, a Europa envolvida com o Brexit e o conflito se prolongando indefinidamente os russos encontraram mais espaço para intensificar sua atividade militar dentro e fora da Ucrânia. Não foi de graça que as novas ações começaram no final de semana de abertura dos Jogos do Rio, quando as atenções estavam voltadas ao Brasil. Mas isto já estava planejado antes dos conflitos na fronteira com a Crimeia (conflitos estes pouco convincentes dado o histórico de atuação do serviço secreto russo) como mostram as movimentações militares em Kerch no dia 6. Enquanto o Ocidente dorme no ponto sem dar sinais de uma reação efetiva, Moscou dá novos passos na implantação de seu projeto eurasiano.