Mostrando postagens com marcador Movimento Eurasiano. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Movimento Eurasiano. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 11 de junho de 2018

Alexander Dugin: uma versão russa da direita radical europeia? (por Marlène Laruelle) - parte 2

(A Estrela do Caos ao centro da Eurásia simboliza a geopolítica do neoeurasianismo.) 
        
Alexander Dugin: uma versão russa da direita radical europeia?  (parte 2)

          Após a primeira parte, apresento aqui a segunda parte (subcapítulo) do artigo de Marlène Laruelle sobre a trajetória e o pensamento do filósofo russo Alexander Dugin. Na primeira parte, a cientista política francesa apresenta a trajetória pessoal de Dugin; agora, seu estudo versa sobre o pensamento geopolítico do pensador russo.

          O artigo foi publicado pelo Instituto Kennan, divisão do Centro Internacional de Especialistas Woodrow Wilson, de Washington, EUA, e compõe o quarto capítulo do livro Russian Eurasianism: An Ideology of Empire, de autoria de Laruelle e publicado pelo mesmo Centro em 2008.

          Boa leitura!


UMA VERSÃO RUSSA DO ANTI-GLOBALISMO: TEORIAS GEOPOLÍTICAS DE DUGIN

          Todas as correntes neoeurasianas que emergiram na década de 1990 compartilham de uma concepção imperial da Rússia, mas todas elas se baseiam em diferentes pressupostos. Alexander Dugin ocupa uma posição particular neste grupo, e às vezes é virulentamente criticado por outros neoeurasianos. Na verdade, Dugin "distorce" a ideia de Eurásia, combinando-a com elementos emprestados de outras tradições intelectuais, como as teorias da revolução conservadora, a geopolítica alemã das décadas de 1920 e 1930, o tradicionalismo de René Guénon e a Nova Direita ocidental. No entanto, Dugin tem desfrutado do maior sucesso de público entre todos os neoeurasianos, e influencia mais diretamente certos círculos políticos que procuram por uma nova geopolítica para a Rússia pós-soviética.

          Dessa forma, Dugin supera em grande parte pequenos grupos intelectuais, que buscam suas próprias reflexões neoeurasianas sem terem qualquer acesso direto a um público maior. Ele pode ser considerado o principal teórico do neoeurasianismo, apesar de ter compartilhado este papel com Alexander Panarin nos anos 1990. Primeiro, os dois homens se opuseram um ao outro, e Panarin se recusou a ser assimilado à mesma corrente ideológica. Ele descreveu a geopolítica de Dugin como pagã por ver o homem como dependente da natureza e guiado por um destino cego e determinista,  e conceber o Estado como um organismo isolado e egoísta, não providenciando qualquer garantia à estabilidade global, confiando apenas na força. Na época, Panarin considerava essa visão como o estrito oposto da consciência "civilizadora" que o neoeurasianismo deveria ser. Os dois pensadores acabaram, entretanto, por compartilhar alguns pontos de vista como consequência da evolução intelectual de Panarin e não de Dugin. Assim, Panarin gradualmente veio a corroborar a supremacia pública de Dugin em questões neoeurasianas, comparecendo à fundação do movimento Evraziia em 2001 e se tornando membro do Conselho Central do partido em 2002. (27) De acordo com Dugin, Panarin chegou a concordar, antes de sua doença, em escrever um prefácio para um de seus últimos livros, Political Philosophy. (28) Entretanto, a repentina morte do filósofo tirou este aliado e competidor do cenário público.

          A atração de Dugin pelo eurasianismo desenvolvido por emigrantes russos dos anos 1920 e 1930 não é uma adição tardia às suas doutrinas. No final da década de 1980, enquanto ainda era próximo de certos grupos monarquistas, Dugin já tinha se tornado apóstolo de uma concepção eurasiana da Rússia e contribuiu para sua disseminação entre os círculos patrióticos ligados ao Den´. Hoje continua sendo uma influência dominante entre aqueles que tentam reabilitar os fundadores do eurasianismo: ele editou compilações dos principais textos dos principais teóricos do movimento - Pyotr N. Savitsky, Nikolay S. Trubetskoi, Nikolay N. Alekseev, etc - na Agraf, e depois através das publicações da Arctogaia. (29) Nas suas introduções a essas publicações, ele tenta sistematicamente vincular os ensinamentos eurasianos do entre-guerras o mais próximo possível de suas definições contemporâneas do neoeurasianismo. Entretanto, ele não se apropria das teorias altamente elaboradas dos fundadores sobre a legitimidade histórica, geográfica ou religiosa do Império Russo. Ele se satisfaz em tentar estabelecer uma geopolítica para a Rússia pós-soviética, ajudando o país a se tornar consciente de sua particular sensibilidade escatológica: "as atuais transformações no espaço geopolítico da Rússia e em toda a Eurásia são difíceis de entender a não ser que sejam interpretadas com sinais dos tempos, anunciando a proximidade do clímax." (30)

          Dugin chega a criticar os fundadores por terem sido excessivamente filosóficos e poéticos: segundo ele, o eurasianismo tinha as intuições certas (por exemplo, a ideia de um "terceiro continente" e a importância do período mongol na formação da identidade russa), mas foi mal sucedido em formalizá-los teoricamente. "No eurasianismo nós somos confrontados com uma dupla indeterminação: a indeterminação características do próprio pensamento russo e a tentativa de sistematizar essa indeterminação numa nova concepção indeterminada." (31) Sua atitude em relação a outros neoeurasianos é ainda mais negativa: além do historiador e etnólogo Lev Gumilev (1912-1992), cujas muitas concepções étnicas ele compartilha, Dugin considera seus competidores ideológicos inúteis, e afirma que suas concepções neoeurasianas são "pouco consistentes [e] representam apenas uma adaptação a uma realidade política em transformação de todo um complexo de ideias já enunciados." (32)           

          O eurasianismo de Dugin envolve um grande interesse em geopolítica, a principal disciplina na qual baseia suas teorias. Para ele, a geopolítica por definição serve ao Estado em que é elaborado. Dessa forma, a geopolítica russa só poderia ser eurasiana, já que é responsável pela restauração do status de grande potência da Rússia. Ela também é destinada exclusivamente às elites: de acordo com Dugin, a geopolítica se opõe ao princípio democrático porque a capacidade de conhecer o significado das coisas é inevitavelmente restrita ao líderes. É para este fim que Dugin se refere aos grandes nomes da disciplina, como os alemães Friedrich Ratzel (1844-1904), Karl Haushofer (1869-1946) e Friedrich Naumann (1860-1919), o sueco Rudolf Kjellen (1864-1922) e o britânico Sir Halford Mackinder (1861-1947). Na verdade, há pouco o que é russo na bagagem intelectual de Dugin. Além de Konstantin Leontyev (1831-91), (33) a quem Dugin às vezes menciona, ele é muito mais inspirado por autores ocidentais do que russos. Por exemplo, ele fala com admiração dos organicistas alemães, como Ernst Jünger (1985-1998), Oswald Spengler (1880-1936), Arthut Moeller van den Bruck (1876-1925), ou Ernst Niekisch (1889-1967) e Karl Schmitt (1888-1985). Ele toma de Schmitt sua concepção de nomos, a forma geral de organização dos fatores objetivos e subjetivos de um determinado território, e a teoria do Großraum, "grandes espaços".   

          Dugin dá grande valor à sua herança alemã e deseja ser visto como um geopolítico continental a par com Schmitt e Haushofer: a centralidade e continentalidade da Rússia, para ele, são comparáveis às da Alemanha nos anos 1920-30. Ele desenvolve então sua própria interpretação bipolar do mundo, opondo a "Heartland", que tende aos regimes autoritários, à "Ilha Mundo", a encarnação dos sistemas democrático e comercial. Ele combina as teorias eurasianas clássicas com esta divisão bipolar do mundo em sociedades marítimas e terrestres, ou talassocracias e telurocracias, e os vincula a vários duplos conceitos clássicos do "pensamento russo" (cristianismo ocidental/ortodoxia, Ocidente/Oriente, democracia/ideocracia, individualismo/coletivismo, sociedades marcadas pela mudança/sociedades marcadas pela continuidade). A oposição entre capitalismo e socialismo é vista como apenas um confronto histórico particular destinado a continuar de outras formas. "A Terra e o Mar disseminam suas oposições originais a todo o planeta. A história humana é nada mais do que a expressão dessa luta e o caminho da sua absolutização." (34)

          Dugin então divide o mundo em quatro zonas civilizacionais: a zona americana, a zona afroeuropeia, a zona Ásia-Pacífico e a zona eurasiana. A Rússia deve se esforçar para estabelecer várias alianças geopolíticas organizadas como círculos concêntricos. Na Europa, a Rússia deve, evidentemente, se aliar com a Alemanha, a qual Dugin dá atenção especial. Apresentada como o coração da Europa, a Alemanha deve dominar toda a Europa Central e a Itália de acordo com as teorias de "centralidade" desenvolvidas pelos geopolíticos nazistas, bem como pelo militarismo prussiano do século XIX. Na Ásia, a Rússia deve se aliar com o Japão, apreciado por sua ideologia pan-asiática e pelo eixo Berlim-Roma-Tóquio durante a Segunda Guerra Mundial. Dentro do mundo muçulmano, Dugin escolhe o Irã islâmico, admirado por seu rigorismo moral. Ele apresenta o Irã como uma das poucas forças reais de oposição à globalização americana e o convida a se unir a todo o mundo árabe, bem como o Paquistão e o Afeganistão, sob sua liderança. Dugin caracteriza essa quádrupla aliança Rússia-Alemanha-Japão-Irã, que reagiria às talassocracias (os EUA, a Grâ-Bretanha na Europa, a China na Ásia, a Turquia no mundo muçulmano), como uma "confederação de grandes espaços," (35) uma vez que cada aliado é ele mesmo um império que domina a área civilizacional correspondente. Ao contrário dos eurasianos da década de 1920, Dugin não fala de uma irredutível e romântica oposição entre o Oriente e o Ocidente; nas suas teorias, tanto a Ásia quanto a Europa estão destinadas a se colocar sob a dominação russo-eurasiana.

          Como o inimigo marítimo e democrático supostamente tem uma "quinta coluna" na Rússia, Dugin apela por uma restauração da União Soviética e uma reorganização da Federação Russa. Ele é o único neoeurasiano a incluir em seu projeto político não apenas os Estados Bálticos, mas todo o antigo bloco socialista. (36) Sua Eurásia deve se expandir para além do espaço soviético, pois propõe incorporar a Manchúria, o Xinjiang, o Tibet e a Mongólia, bem como o mundo ortodoxo dos Bálcãs: a Eurásia só alcançaria seus limites com a "expansão geopolítica até as margens do Oceano Índico," (37), uma ideia que foi tomada e popularizada por Zhirinovsky. Dugin também propõe uma repartição geral da Federação, e especialmente da Sibéria, que considera estar à beira da implosão há algum tempo. Ele pede a abolição das "repúblicas nacionais" a serem substituídas por regiões puramente administrativas subservientes a Moscou. Em The Foundations of Geopolitics, ele reconhece suas esperanças pela dissolução de Yakutia, Tatarstão, Bashkotorstão e Buriatia, condenadas por seu separatismos e sua capacidade de formar eixos budistas ou pan-turcos anti-russos com as regiões vizinhas. Ele deseja unificá-las com regiões industrializadas que possuem uma maioria russa, como os Urais ou a costa do Pacífico [Primorskii krai]. (38)

          Assim como no eurasianismo dos anos 1920-30, os povos não-russos, e particularmente as minorias turco-muçulmanas, são tratados de forma ambígua. Ele são admirados como elementos-chave que confirmam a distintividade da identidade eurasiana da Rússia, mas são também representados como concorrentes potenciais ou mesmo inimigos se decidirem não mais participar de uma Eurásia multinacional dominada pela Rússia. Os eventos internacionais dos últimos anos, especialmente o 11 de setembro, bem como a segunda guerra na Chechênia e os atos terroristas subsequentes que cobriram a Rússia com sangue, forçaram Dugin a refinar seu conceito de islam e a ser mais cauteloso em sua apreciação positiva de um certo tipo de radicalismo islâmico. Assim, num simpósio chamado "Ameaça Islâmica ou Ameaça contra o Islam?" organizado pelo Evraziia em 28 de junho de 2001, os membros do partido desaprovaram o fundamentalismo, apresentado como um perigo ao islam tradicional, e afirmaram o desejo de criar um Comitê Eurasiano de Parceria Estratégica Russo-Muçulmana. De acordo com o Evraziia, o islam tradicional, o sufismo, o xiismo e o cristianismo ortodoxo são espontaneamente eurasianos, enquanto que o catolicismo e o protestantismo, mas também o islamismo radical patrocinado pelos EUA, representam o atlanticismo. Portanto, Dugin tenta distinguir entre o fundamentalismo xiita, que considera positivo, do fundamentalismo sunita, que ele deprecia.

          O desejo de Dugin de dissociar o islam tradicional "bom" dos outros ramos da religião, os quais ele nivela ao wahabismo, é compartilhado por numerosos movimentos nacionalistas russos contemporâneos, que visam cortejar o islam russo oficial. Esse tipo de conversa permitiu que Dugin recrutasse os líderes do Diretório Espiritual Central dos Muçulmanos Russos para o seu movimento Evraziia. Dugin tenta impedir qualquer competição com o eurasianismo turco sobre a questão das minorias religiosas e nacionais do país. Ele conseguiu de forma brilhante apresentar seu movimento não apenas como um instrumento para defender o poder russo, mas também como uma solução pragmática às tensões internas da Rússia. Assim, desde sua criação em 2001, o Evraziia inclui representantes de regiões sensíveis como Yakutia-Sakha, o norte do Cáucaso e o Tatarstão, e teve o prazer de reunir todas as confissões da Rússia: diversos muftis do Diretório Espiritual Central dos Muçulmanos, incluindo seu líder, Talgat Tadzhuddin, mas também budistas (DordzhiLama, o co-fundador da União dos Budistas de Kalmyk) e membros do Movimento Sionista Radical, que aderiram ao partido e declararam seu desejo de combater a ascensão do extremismo religioso usando a estratégia de integração implícita na ideia eurasiana.

          Entretanto, Dugin não se limita a atualizar uma visão geopolítica eurasiana sobre a Rússia. Ele busca ancorá-la numa visão global e apresentá-la como uma forma relevante de análise que ajudaria a entender toda a evolução do mundo pós-Guerra Fria. Mais uma vez, Dugin está interpretando o "manual", usando os inumeráveis textos ocidentais com os quais está familiarizado para adaptar as ideias clássicas da história do pensamento russo ao debate contemporâneo. Portanto, há vários anos ele tem centrado seu argumento sobre a natureza eurasiana da Rússia inteiramente no tópico da globalização. De acordo com ele, a globalização apresenta como verdade óbvia o que na verdade é uma ideologia: a democracia representativa como o fim da história do desenvolvimento humano, a primazia do indivíduo sobre qualquer comunidade, a impossibilidade de escapar da lógica da economia liberal, etc. (39) Ele argumenta que apenas a solução eurasiana oferece uma alternativa viável com um forte potencial teórico que poderia fazer frente aos atuais processos de globalização instituído pelos Estados Unidos. "A Rússia é a encarnação da busca por uma alternativa histórica ao atlantismo. Aí reside sua missão global." (40)

          Assim como todos os neoeurasianos, Dugin é um defensor do argumento do "choque de civilizações" de Samuel Huntington, que está na moda na Rússia. O belicismo de Huntington permite a Dugin afirmar a necessidade da manutenção da estrutura imperial russa e rejeitar qualquer perspectiva de um equilíbrio global. De acordo com ele, a nação russa precisa estar preparada para "defender sua verdade nacional, não apenas contra seus inimigos, mas também contra seus aliados." (41) De fato, a doutrina geopolítica de Dugin não pode funcionar sem criar inimigos. Ele baseia sua ideologia em teorias da conspiração, apresentando a nova ordem mundial como uma "teia de aranha", na qual os atores globalizados se escondem com o objetivo de melhor cumprir sua missão. Dugin chegou a dedicar um livro inteiro (publicado em 1993 e republicado numa versão revisada em 2005) ao que ele chama de conspirologia. As ideias apresentadas nele são contraditórias. Ele critica duramente os pressupostos sobre conspirações judaicas, maçônicas, marxistas, etc, sustentados por numerosos grupos políticos de esquerda e de direita, mas também compartilha algumas de suas ideias. (42) Por exemplo, ele reconta uma história secreta da União Soviética na qual uma ordem eurasiana se opõe à sua contraparte atlantista. O golpe de 1991 é descrito como a culminação da guerra oculta entre essas duas ordens. De acordo com Dugin, entretanto, as alternativas à globalização permanecem limitadas: ou as ideologias de esquerda aplicadas no Ocidente, ou o liberalismo de direita e a estagnação típica dos países asiáticos. Dugin também percebe que essas duas alternativas são opostas uma a outra, embora compartilhem de um inimigo comum. Ele propõe, portanto, que a Rússia elabore uma combinação fértil, porque "todas as tendências anti-globalização são 'eurasianas' por definição." (43)

          Dugin não joga a carta da autarquia a qualquer custo: ele está convencido de que o modelo eurasiano de resistência à dominação americana é exportável para o resto do planeta. Ele a apresenta como o modo mais apropriado de resistir à chamada Nova Ordem Mundial. Um dos objetivos de seu pensamento é, portanto, como ele descreve, "transformar a distintividade russa numa modelo universal de cultura, numa visão de mundo que seja alternativa à globalização atlantista, mas também global à sua própria maneira." (44)

          Assim, a Rússia é chamada a participar dos assuntos mundiais enquanto constrói uma certa cultura autárquica eurasiana. Muito mais do que, por exemplo, Pyotr Savitsky e o conde Trubetskoi, Dugin parece ter internalizado completamente a contradição entre, por um lado, a exaltação da distintividade nacional e uma rejeição apaixonada de qualquer empréstimo que arriscasse "deformar"a Rússia e, por outro, um desejo pelo expansionismo geopolítico e ideológico e um novo messianismo. Longe de ser apenas um "sucessor" dos primeiros eurasianos, ele é o teórico que possui facetas múltiplas ou mesmo contraditórias: muitas outras doutrinas influenciaram sua evolução intelectual pelo menos tanto quanto, se não mais do que, o eurasianismo.

---

(27) Andreas Umland, “Toward an Uncivil Society? Contextualizing the Recent Decline of Extremely Right-Wing Parties in Russia,” Weatherhead Center for International Affairs Working Paper No. 02-03, 2002. 

(28) http://evrazia.org/modules.php?name =News&file=article&sid=1508. 

(29) Ele também republicou o "Evrei e Evraziia de Iakov Bromberg" e o "Rus’ mongol’skaia" de E. Khara-Davan em 2002. 

(30) Osnovy geopolitiki, p. 97. 

(31) “Evraziisky triumf,” in: P. Savitsky, Kontinent Evraziia, Moscow: Agraf, 1997, p. 434. 

(32) Osnovy geopolitiki, p. 159. 

(33) Leontyev representou uma grande mudança no pensamento russo. Ele argumentava que os russos não são realmente eslavos, mas acima de tudo um povo misturado com grupos turcos. De uma forma ambígua, ele antecipou a "virada para o leste" dos últimos eurasianos: abandonou o argumento linguístico sobre a identidade eslava e, por exemplo, reconheceu que preferia os gregos do que outros eslavos no reino religioso. Leontyev foi o primeiro a compreender o potencial do "argumento turaniano" para ajudar a Rússia a afirmar sua identidade contra a Europa. Ver: M. Laruelle, “Existe-t-il des précurseurs au mouvement eurasiste? L’obsession russe pour l’Asie à la fin du xixe siècle,” Revue des études slaves, Paris: Institut d’études slaves, vol. LXXV, no 3-4/2004, pp. 437–454. 34. 

(34) Misterii Evrazii, p. 19. 

(35) Osnovy geopolitiki, p. 247. 

(36) Entretanto, Dugin aceita o separatismo das áreas que considera não-russas (ele propõe devolver as Ilhas Kurilas ao Japão e Kaliningrado à Alemanha) contanto que se mantenham sob controle de aliados da Eurásia e do continentalismo.

(37) Osnovy geopolitiki, p. 341. 

(38) Ele também deseja o retorno da Ucrânia à esfera de influência russa e sua divisão de acordo com o que chama de realidade etno-culturais do país. Para mais destalhes, ver: Dunlop, op. cit., pp. 109–112. 

(39) “Evraziiskii otvet na vyzovy globalizacii,” Osnovy evraziistva, p. 541–563. 

(40) Nash put’, p. 47. 

(41) Osnovy geopolitiki, p. 261. 

(42) Konspirologiia, tambén online at www.arctogaia.com/public/consp. 

(43) Evraziia prevyshe vsego, p. 4. 

(44) Osnovy evraziistva, p. 762

sexta-feira, 2 de março de 2018

Alexander Dugin: uma versão russa da direita radical europeia? (por Marlène Laruelle) - parte 1

(Alexander Gelyevich Dugin)

          O artigo a seguir foi escrito em 2006 pela historiadora e cientista política francesa Marlène Laruelle, especialista em política e sociedade russas, através do Instituto Kennan, divisão do Centro Internacional de Especialistas Woodrow Wilson sediado em Washington, EUA. Vinculada a quatro institutos de pesquisa onde atua como pesquisadora, diretora e professora, Laruelle é uma das maiores especialistas sobre temas da Rússia no Ocidente. Seu artigo compõe o quarto capítulo de seu livro Russian Eurasianism: An Ideology of Empire, publicado pelo Centro Woodrow Wilson em 2008 e reeditado em 2012, onde ela introduz a trajetória e o pensamento de Dugin na história do eurasianismo.   

(Marlène Laruelle)

          Devido à extensão do artigo, decidi dividi-lo em sete partes conforme os subtítulos do texto. Apenas nesta primeira parte publico juntas a breve introdução e o primeiro subtítulo.

          Na tradução, mantive a grafia da autora para o nome de publicações e organizações. Traduzi apenas o nome das organizações públicas e estatais e adaptei o nome das personalidades à grafia em inglês para facilitar a identificação. A exceção é o nome de Dugin, que publiquei como "Alexander", grafia pela qual ele é mais conhecido,  ao contrário de "Alexandr" da autora ou o aportuguesado "Alexandre". As notas também são do artigo de Laruelle.

        Cabe lembrar que por ser de 2006, o artigo exclui a trajetória de Dugin a partir deste ano e, portanto, não analisa suas publicações desde então, suas declarações e envolvimento na Guerra da Geórgia em 2008 e na crise na Ucrânia a partir de 2014 e sua passagem pela prestigiada Universidade Estatal de Moscou.

          Boa leitura.


Alexander Dugin: uma versão russa da direita radical europeia? (parte 1)

          Ao estudar o eurasianismo russo contemporâneo - tanto como doutrina quanto como movimento político - alguém que aparece constantemente é Alexander Dugin. Um dos principais motivos pelos qual ele é relevante para qualquer tipo de estudo é o quase-monopólio que exerce sobre uma certa parte do atual espectro ideológico russo. Este espectro inclui uma infinidade de facções de direita, que produzem uma enorme quantidade de livros e uma impressionante quantidade de jornais de pequena circulação, mas que não são facilmente distinguíveis uns dos outros e apresentam pequena consistência e sofisticação teórica. Dugin é o único grande teórico nesta direita radical russa. Está simultaneamente na margem e no centro do fenômeno nacionalista russo. Ele fornece inspiração teórica a muitas correntes e dissemina preceitos que podem ser reciclados em diferentes níveis. Ele está, acima de tudo, se esforçando para ocupar cada nicho do atual mercado ideológico. Parte do pressuposto que a sociedade russa e o establishment político da Rússia estão em busca de uma nova ideologia: ele, portanto, incumbe a si mesmo exercitar sua influência sobre todas as opções ideológicas e suas possíveis formulações.

          Além das qualidade doutrinais que o fazem se destacar no espectro do nacionalismo russo, Dugin é digno de nota por sua produção frenética e prolífica de publicações que começam no início dos anos 1990. Ele publicou mais de uma dúzia de livros, além de textos originais ou artigos tematicamente reorganizados impressos inicialmente em várias revistas ou jornais. Ele também editou várias revistas: Elementy (nove publicações entre 1992 e 1998), Milyi Angel (quatro publicações entre 1991 e 1999), Evraziiskoe vtozhenie (publicado como um suplemento irregular para o semanal Zavtra, com seis publicações especiais em 2000) e Evraziikoe obozrenie (onze publicações de 2001 a 2004). (1) Em 1997, ele escreveu e apresentou uma transmissão de rádio semanal de uma hora, Finnis Mundi, que foi proibida depois que ele falou de forma favorável sobre o terrorista do início do século XX, Boris Savinkov. (2) Dugin também publica regularmente artigos em diversos diários e aparece em vários programas de televisão. Em 1998, ele participou da criação da "Nova Universidade", uma pequena instituição que fornece ensinamentos tradicionalistas e ocultistas para poucos selecionados, onde ensina ao lado de destacadas figuras literárias como Yevgeny Golovin e Yuri Mamleev. Desde 2005, ele tem aparecido no novo canal de TV ortodoxo Spas criado por Ivan Demidov, onde ancora um programa semanal sobre geopolítica chamado Landmarks [Vekhi]. (3) Ele também participa regularmente de mesas-redondas na televisão russa e ocupa um lugar de destaque na internet nacionalista da Rússia. (4)

          Várias tendências intelectuais se manifestam em seu pensamento: uma teoria política inspirada pelo tradicionalismo, (5) uma filosofia religiosa ortodoxa, (6) teorias arianas e ocultistas (7) e concepções geopolíticas e eurasianas. (8) Pode-se esperar que essa diversidade ideológica se reflita na longa evolução da vida intelectual de Dugin. Entretanto, todos estes temas não surgiram sucessivamente, mas coexistiram nos escritos de Dugin desde o início dos anos 1990. Enquanto o eurasianismo e a geopolítica são os mais clássicos e conhecidos "cartões de visita" de Dugin para a opinião pública e as autoridades políticas, suas doutrinas filosófica, religiosa e política são muito mais complexas e merecem uma análise cuidadosa. A diversidade de seu trabalho é pouco conhecida, e muito de suas ideias são frequentemente caracterizadas de forma precipitada e incompleta. Dessa forma, devemos investigar sua linhagem intelectual e tentar entender seu esforço para combinar diversas fontes ideológicas. Dugin é um dos poucos pensadores a considerar que o estoque doutrinal do nacionalismo russo se depreciou e deve ser revitalizado com a ajuda de insumos do Ocidente. Ele está, portanto, "ancorando" o nacionalismo russo em teorias mais globais e agindo como mediador do pensamento ocidental. É este aspecto de Dugin que será o foco deste artigo.

A TRAJETÓRIA SOCIAL DE DUGIN E SEU SIGNIFICADO

          É particularmente importante entender o complexo lugar de Dugin no neoeurasianismo, uma vez que, em certa medida, sua posição é representativa de certos fenômenos mais gerais e, portanto, ajuda a traçar a evolução das ideias nacionalistas russas no últimos vinte anos ou mais. Entre 1985 e 1990, Dugin era claramente a favor de um neoeurasianismo "de direita" e próximo de círculos conservadores ou mesmo monarquistas. Em 1988, ele entrou na organização ultranacionalista e anti-semita Pamiat, mas não se sentiu intelectualmente à vontade, uma vez que suas ideias para uma renovação doutrinária da direita eram inoportunas nesta organização fundamentalmente conservadora. Assim, deixou o Pamiat no ano seguinte condenando seu monarquismo nostálgico e anti-semitismo vulgar. Em 1990-1, ele fundou diversas instituições próprias: a Associação Arctogaia, bem como uma editora de mesmo nome, e o Centro para Estudos Meta-Estratégicos. Durante este período, Dugin se aproximou do Partido Comunista de Gennady Ziuganov e se tornou um dos mais prolíficos contribuintes do proeminente jornal patriótico Den (mais tarde renomeado Zavtra), que na época estava no auge de sua influência. Seus artigos publicados neste jornal contribuíram para a disseminação de teorias eurasianas nos círculos nacionalistas russos. No início ele foi apoiado pelo pensador nacionalista Alexander Prokhanov, que acreditava que apenas o eurasianismo poderia unificar os patriotas, que ainda estavam divididos entre "Brancos" e "Vermelhos", mas Prokhanov rapidamente se afastou e condenou o eurasianismo por ser muito turcocêntrico.  

          A partir de 1993-4, Dugin se afastou do espectro comunista e se tornou o ideólogo do novo Partido Nacional-Bolchevique (PNB). Nascido da convergência entre a antiga contracultura e grupos patrióticos soviéticos, o PNB estabeleceu com sucesso sua ideologia entre os jovens. A Arctogaia de Dugin serviu como think thank para as atividades políticas do líder do PNB, Eduard Limonov. Os dois homens compartilhavam do desejo de desenvolver laços íntimos com a esfera da contracultura, em particular com os músicos punk e rock de mentalidade nacionalista, como Yegor Letov, Sergei Troitsky, Roman Neumoev ou Sergei Kurekhin. (9) Em 1995, Dugin chegou a concorrer nas eleições da Duma sob a bandeira do PNB num distrito eleitoral suburbano perto de São Petersburgo, mas recebeu menos de um por centro dos votos. (10) Entretanto, este fracasso eleitoral não o prejudicou, pois ele estava simultaneamente ocupado escrevendo numerosos trabalhos filosóficos e esotéricos para desenvolver o que ele considerava ser a "ortodoxia" neoeurasiana. Limonov descreveria então Dugin como "o 'Cirilo e Metódio' do fascismo, uma vez que ele trouxe fé e conhecimento sobre isto do Ocidente para o nosso país". (11)    

          Dugin deixou o Partido Nacional-Bolchevique em 1998 devido a numerosos desacordos com Limonov, buscando como alternativa entrar em estruturas mais influentes. Ele esperava se tornar um "conselheiro do príncipe" e se apresentou para as autoridades como o think thank de um homem só. Ele conseguiu se estabelecer como conselheiros do porta-voz da Duma, o comunista Gennadiy Seleznyov e, em 1999, se tornou presidente da seção de geopolítica do Conselho Consultivo sobre Segurança Nacional da Duma, dominado pelo ultra-nacionalista Partido Liberal Democrático da Rússia, liderado por Vladimir Zhirinovsky. Na época, Dugin parecia exercer certa influência em Zhirinovsky, bem como em Alexander Rutskoy do Partido Social Democrata e Gennady Zyuganov do Partido Comunista. (12) O último, por exemplo, pegou de Dugin a ideia de que o nacionalismo russo não entra em conflito com a expressão de sentimentos nacionais de minorias. De fato, Zyuganov apresentou o PCFR como o principal defensor do nacionalismo tártaro e do budismo de Kalmyk. Seu livro  Russia after the Year 200: A Geopolitical Vision for a New State foi diretamente inspirado pelas ideias de Dugin sobre o caráter distintivo da "ciência" geopolítica russa e sua ideia de que a renovação da Rússia é a única garantia de estabilidade mundial. Dugin também publica regularmente em sites oficiais russos, como www.strana.ru, onde ele apresenta suas ideias sobre a oposição entre o império eurasiano reemergente e o modelo atlanticista.

          A entrada de Dugin nas estruturas parlamentares foi amplamente possível pela publicação (em 1997) da primeira versão do seu trabalho mais influente, The Foundations of Geopolítics: Russia´s Geopolitical Future. (13) Ele é considerado um importante estudo de geopolítica, e geralmente é apresentado como a obra fundadora da escola russa de geopolítica. Em 2000, o trabalho já havia sido reeditado quatro vezes, e se tornou uma importante publicação política desfrutando de um grande número de leitores nos círculos acadêmicos e políticos. Na verdade, Dugin sempre esperou influenciar jovens intelectuais promissores, bem como importantes círculos políticos e militares. Ele afirmou que seu Centro de Perícia Geopolítica* poderia rapidamente se tornar um "instrumento analítico que ajudasse a desenvolver a ideia nacional" (14) para os poderes executivo e legislativo.

          Desde o início dos anos 1990, Dugin esteve especialmente interessado em entrar em contato com oficiais militares ativos: vindo de uma família de militares, afirma regularmente que apenas o exército e os serviços secretos têm um verdadeiro senso de patriotismo. Dessa forma, em 1992, a primeira edição de Elementy trouxe textos de três generais que então eram os chefes de departamento na Academia do Estado-Maior. (15) Além disso, The Foundations of Geopolitics parece ter sido escrito com o apoio do general Igor Rodionov, que foi ministro da defesa em 1996-7. (16) Graças a este livro, Dugin foi convidado a ensinar na Academia do Estado-Maior, bem como no Instituto para Pesquisa Estratégica em Moscou. Ele lhes ofereceu uma certa visão da política internacional adornada por um "isolacionismo que serve apenas para disfarçar um projeto de expansão e conquista." (17) Após este bestseller, Dugin expandiu consideravelmente sua presença na principal mídia russa; para alguns, ele se tornou uma personalidade respeitável da vida pública. O sucesso de seu livro de geopolítica, agora usado como leitura em numerosas instituições de ensino superior, bem como suas aulas na Academia do Estado-Maior e na chamada Nova Universidade, satisfaz seu desejo de alcançar as elites políticas e intelectuais.

          Dessa forma, os anos 1998-2000 viram a transformação das tendências políticas de Dugin numa corrente específica que aplica múltiplas estratégias de penetração, visando a contracultura juvenil e as estruturas parlamentares. Dugin se afastou dos partidos de oposição, como o PCFR e o PLDR, e se aproximou de grupos centristas dando seu apoio ao então primeiro-ministro, Yevgeny Primakov. Em 2000, Dugin participou brevemente do movimento Rossiia liderado pelo comunista Gennadiy Seleznyov e escreveu seu manifesto, antes de sair devido a desentendimentos com sua liderança. A eleição de Putin como presidente em março de 2000 causou uma mudança ainda mais forte nas atitudes políticas de Dugin, quando começou a se aproximar do novo homem forte do país. 

          Em 21 de abril de 2001, ele resolveu colocar as cartas na mesa e criou um movimento chamado Evraziia, do qual foi eleito presidente. Durante sua convenção fundadora, o Evraziia - geralmente descrito como uma ideia do conselheiro presidencial Gleb Pavlovsky, que é próximo de Dugin - se reuniu oficialmente com Putin e propôs participar nas próximas eleições como parte de uma coalizão governamental. O objetivo do movimento, de acordo com a declarações de Dugin, é formular a "ideia nacional" que a Rússia necessita: "nosso objetivo não é chegar ao poder, nem lutar pelo poder, mas lutar por influência sobre ele. Essas são coisas diferentes." (18) Em 30 de maio de 2002, o Evraziia foi transformado em partido político, que Dugin define como "radicalmente centrista", uma formulação ambígua que decorre de sua atitude tradicionalista. Dugin aceita a combinação de "patriotismo e liberalismo", que afirma que Vladimir Putin propõe, com a condição de que o elemento liberal se mantenha subservientes aos interesses do Estado e aos imperativos da segurança nacional. Como ele diz, "nosso patriotismo não é apenas emocional, mas também científico, baseado na geopolítica e nos seus métodos," (19) uma afirmação clássica dos neoeurasianos. De acordo com seus próprios dados, o novo partido tem 59 agências regionais e mais de 10.000 membros. Sua criação foi saudada publicamente por Alexander Voloshin, então chefe da administração presidencial, e Alexander Kosopkin, chefe do Departamento de Assuntos Internos da administração.

          Dugin também recrutou o apoio de outro figura influente próxima ao presidente, Mikhail Leontev, o apresentador da Odnako (transmitido pelo Pervyi kanal, o primeiro canal da TV estatal russa), que se juntou o Comitê Central do partido. Fortalecido pelo seu sucesso depois das demostrações públicas de reconhecimento, Dugin esperava adquirir influência dentro de uma nova e promissora formação eleitoral, o bloco Rodina, e usá-la como plataforma para uma candidatura nas eleições parlamentares em dezembro de 2003. Entretanto, essa aliança era taticamente de curta duração e questionável no seu conteúdo ideológico. Dessa forma, Dugin nunca escondeu seus desdém pela nostalgia monarquista e a ortodoxia politizada representada pelos líderes do Rodina, como Dmitri Rogozin e Natalia Narochnitskaia. Na verdade, parece que Sergei Glazyev (20) foi o responsável pela aproximação de Dugin. Embora Glazyev não possa ser considerado um neoeurasiano, ele participou da convenção fundadora do Evraziia em 2002. Os dois homens compartilham um interesse em políticas econômicas pró-socialistas, e Dugin reconheceu sua simpatia pelas ideias econômicas de Glazyev (que ele chama de "saudáveis) mesmo depois deste último deixar o Rodina em março de 2004.

          Dugin e Glazyev se conheceram em fevereiro de 2003 para constituir um partido que definiram como "patriota de esquerda". Em julho, o Evraziia declarou-se pronto para apoiar a criação deste bloco eleitoral. Entretanto, ocorreram discussões internas sobre personalidades: o bloco precisava escolher três líderes que certamente se tornariam deputados se aprovados e se beneficiaria principalmente da publicidade da campanha. Dugin esperava ser escolhido, mas foi impedido por sua marginalidade política ligada à sua reputação como um teórico extravagante, cujas ideias são complexas demais para transmitir uma estratégia eleitoral. (21) No fim de setembro, o desapontado Dugin deixou o bloco Rodina explicando numa conferência à imprensa que o nacionalismo do Rodina era radical demais para ele - uma afirmação que deve tirar um sorriso daqueles mais familiarizados com seu trabalho. Este cenário nacionalista não o perturbou até então. Nem ele se aproximou do Rodina quando certos nacionalistas excessivamente virulentos como V. I. Didenko, líder do pequeno partido Spas, foram expulsos da lista de candidatos do bloco por pressão do Kremlin.  

          As acusações de Dugin contra o Rodina se dividem em duas categorias. Ele condena o bloco por ser muito próximo ao PCFR e sua oligarquia e critica seu "populismo irresponsável." Ele também se dirige aos que chama de "chauvinistas de direita": Sergei Baburin e o movimento Spas. (22) Por outro lado, Dugin insiste na missão conciliatória e multinacional do seu partido Evraziia, que "representa não apenas os interesses dos russos, mas também dos pequenos povos e das confissões tradicionais." (23) Dugin também acusou alguns membros do Rodina de racismo e anti-semitismo, destacando que o partido inclui ex-membros da Unidade Nacional Russa (24), bem como Andrei Savelyev, que traduziu Main Kampf para o russo. O primeiro conjunto de críticas é justificada pelas próprias convicções de Dugin: ele nunca escondeu seu desdém pelo atual Partido Comunista, não aprecia a atitude emocional dos ortodoxos em questões de política internacional, rejeita toda a nostalgia czarista, sempre denunciou o racialismo das teorias de Barkashov e condena o populismo eleitoral. O segundo conjunto de críticas parece mais oportunista: uma leitura atenta dos trabalho de Dugin releva claramente seu fascínio pela experiência nacional-socialista e seu ambíguo anti-semitismo. Hoje, Dugin está tentando minimizar esses aspectos do seu pensamento para se apresentar como um pensador "politicamente correto" esperando ser reconhecido pelo regime de Putin.

          Por ouro lado, conteúdos de Dugin emprestados ideologicamente do Rodina parecem bastante raros. Suas ideias tradicionalistas, nacional-bolchevistas e esotéricas, que constituem uma importante parte de seu pensamento, não são apreciadas pelo Rodina e não exerceram qualquer influência nas concepções do bloco. Na verdade, o Rodina é mais conservador do que revolucionário e não pode aceitar as sugestões provocativas de Dugin, que muitas vezes visam romper a ordem social. O aspecto estritamente neoeurasiano das ideias de Dugin - sua mais conhecida "marca registrada" na sociedade russa de hoje - está em sintonia com algumas concepções geopolíticas do Rodina, mas essa concordância é, na verdade, baseada no antiocidentalismo que é comum a ambos, e não numa visão compartilhada da Rússia como uma potência eurasiana. Por esta razão, apesar da tentativa de aliança, não se pode dizer que o Rodina tenha adotado elementos no pensamento neoeurasiano no sentido estrito do termo. Mesmo assim, essas relações difíceis não impediram Dugin de ficar entusiasmado com os resultados das eleições de dezembro de 2003, que levaram quatro partidos políticos (o partido presidencial Rússia Unida, o PCFR, o PLDR e o Rodina) para a Duma. Dugin tem conexões com cada um deles, e alguns membros de cada um destes partidos reconhecem abertamente terem sido inspirados por suas teorias. 

          Depois de seu fracasso pessoal no Rodina, Dugin reorientou suas estratégias para longe da esfera eleitoral, em direção à comunidade acadêmica. Daí a transformação do seu partido num "Movimento Eurasiano Internacional" (MEI), formalizado em 20 de novembro de 2003. O novo movimento inclui membros de cerca de vinte países, e seu principal apoio parece vir do Cazaquistão e da Turquia. Enquanto a organização original fundada em 2001 era composta principalmente de figuras da sociedade civil, (25) o Conselho Supremo do novo Movimento Eurasiano inclui representantes do governo e do parlamento: Mikhail Margelov, chefe do Comitê de Relações Internacionais do Conselho da Federação (a Câmara Alta do parlamento), Albert Chernyshev, embaixador da Rússia na Índia, Viktor Kalyuzhny, vice-ministro das Relações Exteriores, Aleksey Zhafyrov, chefe do Departamento de Partido Político e Organização Social no Ministério da Justiça, etc. O MEI chegou a pedir oficialmente que Vladimir Putin ou Nursultan Nazarbaev chefiassem o Conselho Supremo do movimento. Dugin felicita-se de ter ido além de um mero partido político para uma organização internacional. Ele agora cultiva sua imagem nos países vizinhos, divulgando fortemente suas viagens à Turquia, mas também para o Cazaquistão e à Bielorrúsia. Dugin se tornou um zeloso apoiador da União Econômica Eurasiana e tem o prazer de pensar que influenciou as decisões de Alexander Lukashenko e Nursultan Nazarbaev a favor de um integração mais próxima de seus países com a Rússia. Seu site também apresenta os diferentes grupos eurasianos em países ocidentais. A Itália está particularmente bem representada com numerosas traduções dos textos de Dugin, diversos sites inspirados pelo eurasianismo e uma revista, Eurasia. Rivista di studi geopolitici. A França é representada pela associação "Paris-Berlin-Moscou", enquanto a Grã-Bretanha há muito tempo possui um movimento eurasiano próprio. As associações austríaca, finlandesa, sérvia e búlgara e, claro, organizações em outras ex-repúblicas soviéticas, especialmente na Ucrânia e no Cazaquistão, são apresentadas como "partidos fraternais".          

          Tendo recebido entusiasticamente Vladimir Putin como o "homem eurasiano", (26) agora Dugin, desde 2005, parece estar profundamente desapontado com o presidente. De acordo com ele, Putin hesita em adotar um postura definitivamente eurasiana e sua comitiva é dominada pelo atlanticismo e por figuras excessivamente liberais. Nas relações atuais, Dugin está tentando jogar com a onda de antiocidentalismo que varreu parte da cena política russa depois das revoluções na Geórgia em 2003, na Ucrânia em 2004 e no Quirguistão em 2005. Ele assim estabeleceu a União da Juventude Eurasiana, liderada por Pavel Zarifullin, que se tornou bastante visível em setembro de 2005 com a criação amplamente divulgada de uma "frente anti-laranja." Dugin persegue, com relativo sucesso, seu objetivo de construir uma hegemonia cultural global: ele está tentando ganhar espaço nos movimentos de globalização alternativa (que promove alternativas à globalização liderada pelos EUA) e participar de reagrupamentos ideológicos internacionais. Essa direita, que Dugin moderniza e renova profundamente em suas teorias, parece assim ter sucesso em sua estratégia de entrar nas estruturas de esquerda, que estão mal informadas e buscam por todo e qualquer aliados na sua luta contra a dominação americana.

          Dessa forma, a presença regular, mas sempre temporária de Dugin no campo político não pode ser considerada uma nova fase de sua vida que se construiria sobre um corpo já completo de doutrinas. Embora Dugin esteja atualmente se concentrando no seu envolvimento com o movimento eurasiano e na publicações sobre o eurasianismo, não se deve esquecer que uma combinação similar ocorreu de 1994 a 1998, quando sua associação com o Partido Nacional-Bolchevique andou de mãos dadas com as publicações sobre o conceito de nacional-bolchevismo. Assim, Dugin parece ajustar sua estratégia de acordo com as oportunidades disponíveis para influenciar a opinião pública. Além do mais, ele continua ainda hoje a disseminar as ideais tradicionalistas, que têm sido seu pilar desde o início, apresentando um alto grau de consistência doutrinal. O que evoluiu é seu status público, marcado por seu desejo de não ser mais considerado um intelectual original e marginal, mas ser reconhecido como uma personalidade política respeitável próxima aos círculos de poder.

---

* Traduzido do nome em inglês, "Center for Geopolitical Expertise". Não há tradução do nome do centro em português.

(1) Para mais detalhes sobre a distribuição dessas publicações (impressões, reedições), ver: Andreas Umland, “Kulturhegemoniale Strategien der russischen extremen Rechten: Die Verbindung von faschistischer ideologie und metapolitischer Taktik im Neoeurasismus des Aleksandr Dugin,” Österreichische Zeitschrift für Politikwissenschaft, vol. 33, no. 2/2004, pp. 437–454.

(2) Vyacheslav Likhachev, Natsizm v Rossii, Moscow: Panorama, 2002, p. 103.

(3) O título deste show não é neutro. Se refere à famosa coleção de artigos de 1909 chamada Vekhi, considerado o manifesto contra a ideologia da intelligentsia radical. Os autores do Vekhi defendiam a primacia do espiritual e apelavam à intelligentsia revolucionária para que reconhecessem a origem espiritual da vida humana: para eles, apenas o idealismo concreto, manifesto no russo na forma de uma filosofia religiosa, permite objetivar o misticismo tradicional e fundir conhecimento e fé.

(4) Todas as suas publicações estão disponíveis na internet. Seus dois sites, Arctogaia (www.arcto.ru) e Evraziia (www.evrazia.org) também incluem links para a rede nacionalista que inclui sites como Novoe soprotivlenie (New Resistence), além de revistas disponíveis na internet como Lenin.

(5) The Ways of the Absolute (Puti absoliuta), escrito em 1989 e publicado em 1991, The Conservative Revolution (Konservativnaia revoliutsiia, 1994), Goals and Tasks of our Revolution (Tseli i zadachi nashei revoliutsii, 1995), Templars of the Proletariat (Tampliery proletariata, 1997), The Philosophy of Traditionalism (Filosofiia traditsionalizma) e The Evolution of the Paradigmatic Foundations of Science (Evoliuciia paradigmal’nykh osnovanii nauki, 2002), The Philosophy of Politics (Filosofiia politiki) e The Philosophy of War (Filosofiia voiny, 2004).

(6) The Metaphysics of the Gospel: Orthodox Esotericism (Metafizika Blagoi Vesti (Pravoslavnyi ezoterizm), 1996) e The End of the World. Eschatology and Tradition (Konets sveta: Eskhatologiia i tradiciia, 1997).

(7) The Mysteries of Eurasia (Misterii Evrazii) e The Hyperborean (Giperboreec, 1991), The Hyperborean Theory (1993).

(8) Conspirology (Konspirologiia, 1992, republicado em 2005), The Foundations of Geopolitics (Osnovy geopolitiki, 1996, quatro reedições), Our Way. Strategic Prospects for the Development of Russia in the 21st Century (Nash put’. Strategicheskie perspektivy razvitiia Rossii v XXI veke, 1998), The Russian Thing. Essays in National Philosophy (Russkaia veshch’. Ocherki natsional’noi filosofii, 2001), The Foundations of Eurasianism (Osnovy evraziistva), The Eurasianist Path (Evraziiskii put’) e The Eurasian Path as National Idea (Evraziiskii put’ kak natsional’naia ideia, 2002).

(9) Markus Mathyl, “The National-Bolshevik Party and Arctogaia: Two Neo-fascist Groupuscules in the Post-Soviet Political Space,” Patterns of Prejudice, vol. 36, no. 3/2003, pp. 62–76.

(10) Stephen Shenfield, Russian Fascism. Traditions, tendencies, movements, London: M. E. Sharpe, 2001, p. 194.

(11) Eduard Limonov, Moya politicheskaia biografiia, St. Petersburg: Amfora, 2002, p. 64.

(12) Andrei Tsygankov, “Hard-Line Eurasianism and Russia’s contending geopolitical perspectives,” East European Quaterly, no. 3, 1998, pp. 315–334.

(13) Osnovy geopolitiki: Geopoliticheskoe budushchee Rossii, Moscow: Arktogeya, 1997. Sobre esse livro, see J.B. Dunlop, “Aleksandr Dugin’s ‘Neo-Eurasian’ Textbook and Dmitrii Trenin’s Ambivalent Response,” Harvard Ukrainian Studies, vol. xxv, no. 1-2/2001, pp. 91–127. [

(14) Aleksandr Dugin, “Evraziiskaia platforma,” Zavtra, 21 January 2000.

(15) Wayne Allensworth, The Russia Question: Nationalism, Modernization, and PostCommunist Russia, Lanham, Md.: Rowman & Littlefield, 1998, e “The Eurasian Project: Russia-3, Dugin and Putin’s Kremlin,” artigo apresentado na Convenção Nacional da Associação Americana para o Avanço dos Estudos Eslavos, Salt Lake City, 4-6 November 2005.

(16) Para detalhes sobre as conexões de Dugin com círculos militares, ver: Dunlop, op. cit., pp. 94, 102.

(17) Françoise Thom, “Eurasisme et néoeurasisme,“ Commentaires, no. 66/1994, p. 304.

(18) “Evraziistvo: ot filosofii k politike,” artigo de Dugin no congresso de fundação do movimento Evraziia, 21 April 2001.

(19) “My—partiia natsional’noi idei,” artigo de Dugin na conferência ao preparar a transformação do Evraziia em partido político, 1 March 2002.

(20) Um economista por prática, Glazyev era conhecido desde o colapso da União Soviética como um partidário das reformas econômicas. Em 1991, ele foi nomeado vice-ministro (e, em dezembro de 1992, ministro) de Relações Econômicas Externas no governo de Egor Gaidar. Ele renunciou depois dos eventos de outubro de 1993, quando se recusou a apoiar Boris Yeltsin na sua luta contra a Casa Branca. Entre 1992 e 1995, foi deputado da Duma, presidindo o comitê do parlamento sobre políticas econômicas. Entre 1995 e 1999, ele trabalhou no Conselho da Federação e se aproximou de Alexander Lebed. Durante esses anos, Glazyev mudou de ideia sobre seus princípios econômicos liberais e se aproximou dos comunistas. Hoje ele é um intervencionista e estatista em questões econômicas, embora não advogue um retorno ao modelo soviético. Em 1999, foi eleito deputado pela lista do PCFR. Dentro do Rodina, Glazyev representou a ala esquerda. Apesar de sua repentina saída do bloco eleitoral, ele conseguiu se candidatar nas eleições presidenciais em março de 2004 e obteve 4,1% dos votos.

(21) Dunlop, op. cit., p. 104.

(22) “Partiia Evraziia vykhodit iz bloka Glaz’eva,” Km.Ru, 19 September 2003, http://www.km.ru/news/view.asp?id=7D D7770F40434412B24FDB116 DB19000.

(23) http://glazev.evrazia.org/news/190903- 1.html.

(24) A Unidade Nacional Russa (UNR), de Alexander Barkashov, foi um dos primeiros grupos a emergir depois do racha do Pamiat. Barkashov, que rejeita a nostalgia ortodoxa e czarista dos líderes do Pamiat, fundou seu próprio movimento, bem como o jornal do partido, Russkii poriadok. A UNR pegou uma parte significativa de seus símbolos do nazismo: a suástica, a saudação romana, as roupas paramilitares e partes do programa do PNSTA [Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães], incluindo uma economia mista e teorias eugênicas. O UNR afirma que a URSS implementou um programa de miscigenação racial entre eslavos e povos não-arianos com o objetivo de fazer os eslavos desaparecerem. O UNR diferiu de diversos outros grupos nacionalistas pós-soviéticos em sua definição racialista de nação russa. O movimento implodiu em 2000 e agora está dividido em numerosos pequenos grupos.

(25) A principal exceção era Dmitry Riurikov, um dos conselheiros de Boris Yeltsin sobre política internacional. Em 2001, ele se tornou membro do conselho central do Evraziia enquanto era embaixador da Rússia no Uzbequistão (mais tarde foi transferido para a Dinamarca).

(26) Em russo é impossível distinguir entre "eurasiano" e "eurasianista" (evraziiskii chelovek).

terça-feira, 1 de novembro de 2016

O Movimento Eurasiano no Brasil: trajetória e prisão de Rafael Lusvarghi (parte 1)

(Lusvarghi no leste da Ucrânia no início de 2015.)

Na manhã do dia 6 de outubro, às 9 h, foi preso no Aeroporto Internacional de Boryspil, próximo de Kiev, o brasileiro Rafael Marques Lusvarghi, 32 anos, um dos combatentes estrangeiros ligados aos separatistas pró-Rússia na guerra na Ucrânia. A prisão foi realizada por agentes do Serviço de Inteligência da Ucrânia (SBU) sob acusação de formação de grupo terrorista segundo o artigo 253-8 do Código Penal do país. Lusvarghi é considera um mercenário estrangeiro. Com ele foram encontrados um documento de identidade da República Popular de Donetsk (RPD) contendo a assinatura de Igor Strelkov, militar russo e principal líder da Guerra em Donbass, um passaporte da RPD, um laptop com correspondências trocadas por grupos considerados terroristas e uma medalha como condecoração por serviços prestados em combate, possivelmente dado pelo próprio Strelkov.

(Vídeo no Youtube do Serviço de Inteligência da Ucrânia que mostra Rafael Lusvarghi detido por agentes ucranianos no Aeroporto de Boryspil, em 6 de outubro.)

A prisão do combatente brasileiro levantou questionamentos por parte de simpatizantes pró-Rússia. Lusvarghi foi preso porque o avião em que se encontrava, com rota para Moscou, foi desviado para aterrissar Boryspil. O avião seria da British Airways, levantando a suspeita de que haveria uma interferência do Reino Unido na sua prisão.

Neste mesmo dia uma reportagem do site da Opera, revista brasileira de esquerda simpática à pessoa de Lusvarghi, recebeu uma série de informações de "amigos e militantes da causa novorrusa" através de André Ortega, ex-correspondente da revista que está na Ucrânia. Segundo ele "internautas do mundo russo-ucraniano" desconfiaram que a prisão de Lusvarghi fosse uma armação. A justificativa era de que o vídeo divulgado pela SBU mostrava o rosto do brasileiro embaçado, e sua barba seria mais volumosa do que a apresentada em vídeos recentes. A reportagem diz que os "militantes solidários com a causa novorrusa" estariam preocupados com a segurança do brasileiro, já que o governo de Kiev, onde atuariam "grupos paramilitares neonazis", estaria utilizando tortura contra seus prisioneiros. O texto também acusa "radicais nacionalistas" e a paralisia do governo ucraniano de não cumprirem os Acordos de Minsk, dentre eles a anistia a prisioneiros de guerra.

(Rosto embaçado levantou a suspeita por defensores de Lusvarghi de que o homem preso em Boryspil não seria o brasileiro.)

No dia 9 de outubro a revista publicou outra reportagem com informações de Ortega comentando a trajetória de Lusvarghi até sua prisão. O combatente voltou ao Brasil no final de 2015, onde trabalhou num barco pesqueiro na costa. Ele teria saído da Ucrânia por estar "cansado da vivência na região", por ter vivido a guerra o suficiente e estaria frustrado com a paralisia do conflito e com o cessar-fogo incerto. Sua saída da Ucrânia seria condição para cumprimento do Acordo de Minsk, já que é combatente estrangeiro.

Lusvarghi havia recebido propostas de trabalho em outros lugares do mundo, dentre elas a da empresa Omega em agosto deste ano para atuar como segurança de um navio que sairia de Odessa, na Ucrânia, para Galle, no Sri Lanka. Ele aceitou a oferta, mas ao mesmo tempo reagiu com preocupação. O brasileiro entrou em contato com a empresa para saber dos riscos de passar pela Ucrânia depois de ter lutado em Donetsk e comunicou a respeito da anistia aos combatentes conforme os Acordos de Minsk. Ele também buscou orientação sobre sua situação junto ao Ministério das Relações Exteriores no Brasil. Segundo Ortega, Lusvarghi aceitou a oferta por ela oferecer apenas uma passagem só de ida, considerar Odessa uma cidade pró-Rússia e por confiar nos Acordos. A Omega teria entrado em contato com o escritório da Organização de Segurança e Cooperação na Europa (OSCE), localizado em Londres, que teria garantido não haver riscos para o brasileiro. Ele comprou passagem em 26 de setembro, embarcou para a Turquia dia 5 de outubro e no dia 6 voou para a Ucrânia. Segundo a reportagem, a Procuradoria de Kiev teria expedido mandato de prisão contra o brasileiro em 4 de outubro, um dia antes de sua saída do Brasil, e um "site pro-ucraniano" teria divulgado o trajeto de sua viagem. Estas informações seriam indicativos de que a SBU sabia da passagem de Lusvarghi pela Ucrânia.

Mesmo sem apresentar provas, a revista também sugere que a Omega teria contribuído para a prisão, já que entre seus clientes estaria o Diretório Máximo de Inteligência do Ministério da Defesa Ucraniano.

As informações disponíveis nos parágrafos acima levam a uma contradição: se Lusvarghi foi da Turquia para a Ucrânia, como afirma a Opera, como então seu voo, supostamente da British Airways, estaria indo para Moscou? Caso contrário o avião não teria sua rota desviada para pousar no aeroporto de Boryspil. Ou o brasileiro tinha a Rússia como destino para uma conexão, ou a revista errou (ou omitiu por razões desconhecidas) esta informação.

O site de notícias dos militantes pró-Rússia Slavyngrad.org afirma que o voo do brasileiro fazia a rota Dublin-Moscou. Ele iria à capital russa negociar a oferta de emprego da numa empresa de segurança de navios (não esclarece se da Omega). Lusvarghi teria sido enganado por agentes da SBU, que no contato para a oferta de trabalho teriam se passado por cidadãos russos. O site também levanta a hipótese de que haveria interferência no Reino Unido, questionando a imprudência do voo em fazer escala justamente na Ucrânia, que está em conflito com a Rússia.

A imprensa da RPD, como o esperado, também rejeitou a classificação do brasileiro como "mercenário estrangeiro", chamando-o de "guerreiro internacionalista".

No Brasil o Itamaraty (Ministério das Relações Exteriores) recebeu a notícia da prisão do brasileiro no dia 7 de outubro através de sua Embaixada em Kiev. O setor consular da Embaixada entrou em contato com as autoridades ucranianas para visitar Lusvarghi e ter mais notícias do que havia acontecido. A resposta veio dia 14 pelo Itamaraty: o brasileiro estaria bem com acesso a boa alimentação, não sofreu maus-tratos, possuía um advogado, e um procurador ucraniano estava acompanhando o caso. Essas informações foram divulgadas depois que a Embaixada fez uma visita consular a Lusvarghi.

Mas como o combatente brasileiro chegou à Ucrânia? E qual foi sua trajetória antes da prisão?

(Lusvarghi, ao centro, na Legião Estrangeira Francesa em 2006.)

Rafael Marques Lusvarghi nasceu em Jundiaí, no interior de São Paulo, numa família de classe média e descendente de húngaros. Sua trajetória foi descrita por ele mesmo numa entrevista concedida ao site História Militar Online (HMO) em setembro de 2015. Esta é a descrição mais completa de sua vida pública disponível nos meios de comunicação brasileiros:

"Meu nome é Rafael Marques Lusvarghi. Sou militar, oficial do quadro de combatentes, e um muito bom. Comecei minha carreira cedo, me alistando na Legião Estrangeira Francesa como paraquedista na Companhia de Montanha do 2REP [ 2eme Régiment de Étrancher Parachutistes) onde participei de algumas missões [que não pode revelar], e também fazendo alguns cursos. Fui dispensado por problema de saúde. Recuperado, de volta no Brasil, passei em concurso para Soldado da PM do Estado de São Paulo em fins de 2005.  
Lá meu serviço foi basicamente interno, com apenas algumas poucas rondas ostensivas e rádio patrulha. Mas mesmo assim aprendi muito sobre funcionamento da área administrativa, e a parte burocrática sem a qual é impossível gerar uma grande força. Apesar de não gostar deste papel, considero indispensável a burocracia e padronização de procedimentos e modos operantes. 
Claro que, ambicioso e orgulhoso, quis crescer e me tornar oficial. Passei no concurso para o CFO [Curso de Formação de Oficiais] no Pará, e fui cursar a Academia de Oficiais da Policia Militar Coronel Fontoura no IESP. Tradicionalista, decidi por me aperfeiçoar na cavalaria e estive presente no Regimento Montado Cassulo de Melo.  
Em 2010 cometi o grande erro de interromper minha carreira militar, pedindo baixa da corporação. Foi para ir viver na Rússia. Nunca tive paciência com a vida civil, a falta de disciplina e hierarquia, o preto no branco.  
De volta ao Brasil em 2014, tomei certas atitudes por motivos que hoje discordo, a maneira como as manifestações se desenrolam no Brasil não é adequado. Gostaria de salientar aqui que sobretudo hoje sou apolítico, até tenho minhas concepções, acima de tudo contra todo esse vitimismo que assola nossa nação, quem quer consegue, quem quer faz, quem chora é fraco, e como dizemos no meio militar, os fracos que se explodam. Logo, me arrependo dos motivos que me levaram as ruas (durante as manifestações da Copa do Mundo no Brasil), mas não me arrependo das lutas que me envolvi. Como cidadão livre e em momento de folga, posso fazer o que bem entender não infringindo a lei. Se eu quiser beber e parar no meio de uma rua sem tráfego, farei, se quiser beber de saia, farei também. E estando certo, luto até a morte pelos meu direitos. Como dizem os US Marines, uma das melhores forças do mundo: Semper Fi, do or die!  
Depois de solto retornei ao meu projeto de participar na guerra civil na Ucrânia, do lado pró-Rússia porque… Sou pró-Rússia incondicionalmente. Mas acontece que realmente são os pró-Rússia os certos nessa questão."

A viagem de Lusvarghi à Ucrânia recebeu significativa atenção da imprensa brasileira. Primeiro porque ele já era conhecido por participar de protestos de rua no Brasil em 2014; segundo, era curioso que um cidadão local fosse a um país tão distante para se envolver num conflito armado sem conexão direta com sua terra natal.

Apesar da sucinta descrição de sua carreira como militar, policial e combatente, Lusvarghi omite alguns detalhes que ajudam a entender a trajetória e as razões que o fizeram estas decisões.

As ações do brasileiro se tornam mais "radicais" depois de sua volta da Rússia em 2010, onde fez curso de administração em Kursk, trabalhou e aprendeu a língua russa. Um de seus professores lhe deu o apelido o apelido "Riurik Varyag Volkovich", numa referência à dinastia Rurik. Lusvarghi pretendia entrar no exército, mas não foi aceito por ser estrangeiro. Voltou para o Brasil em meados de 2013/14. Neste período de retorno ele afirma ter ido à Colômbia e entrado em contato Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC), a quem teria feito uma "visita" na cidade de Cartagena. Inclusive ele teria entrado na guerrilha, mas saiu porque os guerrilheiros "não têm cultura. (...) eles não têm preparo, não têm plano do que fazer", e se mostrou decepcionado com o processo de paz então em negociação entre o grupo e o governo de Bogotá que levaria à entrega das armas e a transformação guerrilha em partido político.

(À esquerda, detenção de Lusvarghi pela PM de São Paulo, em 12 de junho, cuja foto teve grande repercussão na imprensa brasileira; à direita, a prisão em 23 de junho vestindo kilt escocês.)

De volta ao Brasil, Lusvarghi conseguiu dois empregos em Indaiatuba, interior de São Paulo, um como professor de inglês e outro como assistente de helpdesk numa empresa de informática. Ele participou de protestos promovidos por movimentos e partidos de esquerda contra os gastos da realização da Copa do Mundo de 2014. Numa das manifestações realizadas na cidade de São Paulo em 12 de junho, dia da abertura do evento, ele foi detido depois de se colocar na frente do Batalhão de Choque da Polícia Militar. Recebeu vários tiros de balas de borracha e só foi contido por cinco policiais ao mesmo tempo. Foi nesta ocasião que ele ficou famoso: numa foto amplamente divulgada pela imprensa brasileira, ele aparece sendo estrangulado por um policial militar, cuja imagem virou um dos símbolos dos protestos contra a Copa.

(Cicatrizes que Lusvarghi mandou marcar no seu rosto num estúdio de tatuagem: etapa de criação de um combatente nórdico.)

Em 17 de junho Lusvarghi se submeteu a uma escarificação num estúdio de tatuagem, técnica utilizada para cortar a pele e deixar um cicatriz, enquanto a seleção do Brasil jogava contra o México na Copa do Mundo. A marca foi inspirada nos personagem Leônidas, do filme 300, Kratos, de um jogo eletrônico de luta, e num ex-colega da Legião Estrangeira. Em 23 de junho Lusvarghi esteve em outro protesto, agora na Avenida Paulista, a principal de São Paulo. Houve novos confrontos com a PM, mas desta vez ele e um amigo estudante de Jornalismo da USP, Fábio Hideki, foram presos acusados de serem black blocs e de portarem explosivos. O futuro combatente estava trajado conforme seus ideais de luta: rosto cicatrizado, cabelos e barbas compridas (numa alusão aos guerreiros nórdicos), kilt (vestimenta escocesa similar a uma saia) e sem camisa. Ele também carregava uma tatuagem no ombro direito com um símbolo e a palavra russa "biersierk", que seria uma referência aos guerreiros da mitologia nórdica.  

(Lusvarghi no dia de sua liberação da penitenciária de Tremembé, SP, em 7 de agosto, com tatuagem no ombro numa referência simbólica à mitologia nórdica.)

Lusvarghi também foi acusado de resistência, ação criminosa, incitação ao crime e desobediência. A Justiça de São Paulo liberou ele e o amigo 45 dias depois, em 7 de agosto, quando laudos do Instituto de Criminalística mostraram que o material que carregavam não era explosivo nem incendiário, e sim latas vazias de achocolatado e iogurte que, segundo a polícia, tinham "cheiro de combustível". O juiz, por sua vez, havia classificou os dois de "esquerda caviar", numa alusão ao fato de que seriam socialistas hipócritas. A prisão fez Lusvarghi perder os dois empregos e uma viagem à Ucrânia, para onde já tinha passagem comprada e deveria embarcar em 28 de junho. Liberto da penitenciária de Tremembé, onde estava preso, o futuro combatente buscou ajuda de "amigo politicamente engajados" (que, segundo ele, não seriam recrutadores) e reuniu documentação para viajar. Em 18 de setembro ele e Hedeki foram "sumariamente" absolvidos da acusação de porte de explosivos pelo Tribunal de Justiça de São Paulo. No dia seguinte, Lusvarghi já estava em Moscou, de onde postou um foto no Facebook em que aparece na Praça Vermelha. Ele chegou à Ucrânia dia 20 para atuar junto aos separatistas pró-Rússia.  

(Lusvarghi, à esquerda da bandeira do Brasil, com separatistas pró-Rússia no inverno 2014/15.)

Logo que chegou à Ucrânia, Lusvarghi entrou no Batalhão de Prisrak, em Donbass, onde a maioria dos integrantes eram voluntários. O conhecimento e experiência nas áreas militar, policial e em armamentos ajudaram-no a se firmar como combatente. Sua trajetória no primeiro ano de guerra foi intensa. O primeiro combate que participou foi em Vergulovka, em outubro de 2014. Em março de 2015 já comandava o próprio pelotão com cinco brasileiros denominado Unidade Internacionalista Ernesto "Che" Guevara, numa alusão ao guerrilheiro comunista argentino. O pelotão foi criado com autorização do batalhão ao qual fazia parte. Os integrantes vinham de diversas regiões do Brasil, possuíam perfis variados e tinham como função fazer reconhecimento do inimigo e praticar atos de sabotagem. Até este período Lusvarghi teria participado diretamente da morte de pelo menos quatro solados ucranianos, segundo sua própria declaração numa entrevista. Em 26 de abril ele ficou gravemente ferido nas pernas, tronco e braço ao ser atingido por tiros ou estilhaços de uma bomba na violenta batalha pelo Aeroporto Internacional de Donetsk. Recuperado no hospital da cidade, voltou à batalha mais de dois meses depois. Sua função militar durante quase todo este período foi de comandante de bateria de morteiros. 

Com a divulgação de suas fotos pelo Facebook onde aparece em combate, Lusvarghi tem atraído mais pessoas do Brasil para lutar do lado dos militantes pró-Rússia. Hoje há em torno de dez brasileiros no campo de batalha.

(Lusvarghi realizando manutenção da metralhadora DShK 12,7 mm, no Aeroporto de Donetsk, em abril de 2015, pouco antes de ficar gravemente ferido numa violenta batalha.)

A volta da Rússia, o contato com as FARC, a participação dos protestos de rua no Brasil (de cujas motivações declara arrependimento) e a ida definitiva à Ucrânia revelam uma insistente busca do brasileiro por atividades mais perigosas. Algumas de suas declarações ajudam a entender as motivações pessoais e políticas para tais atitudes.

Logo após ser liberado da prisão, em 7 de agosto de 2014, ele foi entrevistado pelo site G1 das Organizações Globo. Num dado momento o jornalista questionou sua ideologia, e teve a seguinte resposta:
"Esquerda. Eu diria anarquista, mas anarquista é uma utopia. Então eu ficaria no stalinismo. Eu diria anarquista se achasse que funciona, mas é utopia. Então eu me classifico como stalinista."

Na mesma entrevista o jornalista lembrou que Lusvarghi havia declarado anteriormente que era fã do ex-governador do Estado de São Paulo, Luiz Antônio Fleury Filho, por ser um nacionalista. Mas quando questionado se ele tinha simpatia pelo movimento integralista (movimento de direita fascista e nacionalista no Brasil dos anos 1930), ele mostrou rejeição ao espectro oposto da esquerda: "Eu não gosto de nada que tenha a ver com a direita", respondeu.

(Brasileiro com símbolos do comunismo: admiração às ideologias de esquerda e uma crescente adesão ao nacionalismo russo a partir de 2014.)

Nos últimos dias de setembro de 2014, pouco menos de dois meses depois da entrevista ao site G1, Lusvarghi, recém chegado à Ucrânia, trocou mensagens com o jornal O Estado de São Paulo onde mais uma vez respondeu às perguntas sobre suas posições políticas:


"Na parte política, eu me oponho ao avanço imperialista na Ucrânia, às garras do grande capital financeiro internacional, a uma base da Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte, liderado pelos EUA) apontando mísseis para a Rússia." 

 Na entrevista concedida à Istoé, uma das revistas de maior circulação do Brasil, em janeiro de 2015, o brasileiro já combatia em Donbass há quatro meses. Na ocasião ele revelou um pouco de sua motivação de ir participar da guerra na Ucrânia. Seu interesse pela Rússia é antigo, e acompanha tudo ligado ao país. "Além de também descender dos povos do Leste, meu interesse vem de infância, por tudo que é relacionado à Rússia, história, cultura, mentalidade do povo", diz, definindo-se como de esquerda e stalinista. Quando foi questionado por que ele acreditava que o leste da Ucrânia deveria se tornar independente, ele citou vários casos históricos de independência (inclusive o de Kosovo, criticado pela Rússia) e justificou o movimento separatista pelo "direito à autodeterminação dos povos". Noutra questão, lhe perguntaram a razão pela qual se alistou como voluntário num exército estrangeiro, e ele respondeu:

"...luto aqui exclusivamente pela Grande e Sagrada Mãe Rússia, a terra dos meus ancestrais, pois o sangue que corre na minha veia é o mesmo do povo daqui. Politicamente sou totalmente contra o liberalismo, a política atual da União Europeia e dos EUA. Mas minha luta é, acima de tudo, pela independência do povo russo e pela união desse povo sob égide de um só país e uma só liderança."

O irmão do combatente, Lucas Lusvarghi, conta que desde criança ele se interessa pelas questões militares, principalmente história da guerra, e estudava muito geografia, história e estratégia.

O brasileiro também deixa claro noutras declarações sua predileção pela luta armada e a preferência pela Rússia. Na entrevista concedida ao site HMO, em setembro do mesmo ano, perguntaram por que ele saiu do Brasil para se juntar aos separatistas. A resposta foi esta:

"1) Não vou negar. Gosto de guerra. Além do mais, não é mentira, só vive em paz quem aprende a lutar. 2) Sou pró-Rússia de carteirinha, foi só isso que me trouxe aqui, absolutamente nenhuma ideologia política." 

Ele também foi questionado por um leitor sobre como conseguia conciliar sua autodeclarada posição de "esquerda", divulgada na Revista Istoé, com a obediência a uma autoridade como Igor Strelkov, segundo o questionador um "monarquista de direita" e que "se declara abertamente czarista e nacionalista 'branco'" (numa referência às forças antibolcheviques na Guerra Civil Russa em 1917-1922). Eis o que o brasileiro respondeu:

"Quando eu disse stalinista, e me posicionei como de esquerda, a mais de um ano atrás, eu quis dizer que era um admirador, não um portador dessa bandeira. Várias vezes eu deixei claro ser uma pessoa prática, que não compra ideias em pacotes fechados, mas um pouco aqui, um pouco ali. Eu mesmo não carrego nenhuma bandeira... (...) Deve ser feito o melhor para a nação. Respondendo sua pergunta, não vejo problema em ser comandado por quem quer que seja... manda quem pode, obedece quem tem juízo." 

Outro leitor perguntou se, mesmo sendo "seguidor de ideologia de esquerda", ele acreditava na liberdade dos pró-Rússia depois do conflito:

"Não sou de esquerda, e nosso combate é justamente para que o governo de Kiev não proíba o idioma e cultura russa no leste do país." 

Numa de suas últimas entrevistas, concedida ao site Slavyngrad.org, Lusvarghi posicionou-se como um nacionalista de linha claramente eurasiana. O entrevistador lhe perguntou por que foi à guerra, já que, nas suas palavras, "amar a Rússia é uma coisa, mas morrer pelos russos é outra totalmente diferente". A resposta do brasileiro remete à linguagem típica do movimento eurasiano:

"Bem, em primeiro lugar, Brasil e Rússia estão muito proximamente alinhados pelos BRICS. Seja lá qual for o interesse da Rússia também favorece o Brasil de uma perspectiva geopolítica. Os BRICS podem se tornar um substituto da hegemonia dos EUA e da Europa no mundo - mas apenas de se as ações finalmente tomarem o lugar das palavras que ouvimos agora.
A influência dos EUA no Brasil é muito forte. Tudo o que os EUA tocam se apaga: valores familiares e religião, embora eu não seja muito religioso. Tudo se torna um tanto sem sentido."

Ainda em 2014 Lusvarghi havia se declarado abertamente de "esquerda", "stalinista" e mesmo "anarquista". Nas entrevistas concedidas ao final do mesmo ano quando já estava na Ucrânia, ele demonstra um relativo distanciamento de uma extrema-esquerda "pura" à qual simpatizava quando estava no Brasil. Ao compararmos as declarações sobre suas motivações políticas e sua ideologia, o brasileiro demonstra uma "evolução" de uma extrema-esquerda para o nacionalismo russo entre 2014 e 2015.

Lusvarghi vê a si mesmo com um militante e herdeiro legítimo da "causa" nacionalista da Rússia sob um viés de esquerda, antiamericano e antiocidental. Desde que chegou na Ucrânia sua posição política, a julgar pelas declarações à imprensa brasileira, se tornou mais pró-Rússia do que exclusivamente esquerdista. Diria que uma mescla de ambos, numa absorção da ideologia de esquerda no nacionalismo russo. Ele não declara abertamente se teve algum envolvimento pessoal com as ideias e o movimento político eurasiano, como o pensamento de Alexander Dugin ou a União de Juventude Eurasiana, que desde de pelo menos 2006 já preparava uma uma futura guerra na Ucrânia. Esta hipótese é levantada quando Lusvarghi recorre à mesma linguagem do movimento ao se declarar radicalmente contra o liberalismo ocidental, faz referências à geopolítica da Rússia e ao mesmo tempo demonstrar admiração a figuras aparentemente antagônicas no campo ideológico como Stálin e Strelkov. Outro indício, este mais evidente, é uma foto publicada em 18 de julho de 2015 na "Frente Brasileira de Solidariedade com a Ucrânia", grupo criado no Facebook em apoio aos separatistas pró-Rússia, onde Lusvarghi aparece segurando uma bandeira símbolo do Movimento Eurasiano. 

(Lusvarghi, à direita, com seu colega de combate Luizz Davi: Movimento Eurasiano na guerra na Ucrânia.)

O neoeurasianismo desenvolvido por Dugin tem como uma de suas principais características a combinação de elementos da extrema-esquerda e da extrema-direita num mesmo movimento político. Isto fica claro nas declarações do pensador russo durante o debate com o filósofo brasileiro Olavo de Carvalho, onde ele propõe uma aliança entre todos os elementos sociais capazes de fazer frente ao globalismo norte-americano. Carvalho, por sua vez, alerta exatamente a este aspecto do neoeurasianismo de Dugin, capaz de absorver os extremistas de ambos espectros e fazê-los trabalhar juntos em nome de uma ditadura global, como comenta no artigo Eurasianismo e Genocídio

A ligação de Lusvarghi ao movimento eurasiano fica mais clara na entrevista concedida à seção em português da Vice News e divulgada nove dias após chegar na Ucrânia. Ele afirma que "respondeu ao chamado da Frente Brasileira de Solidariedade com a Ucrânia" e da Brigada Continental, braço armado da Unidade Continental, nas suas palavras uma "síntese entre as FARC e o Hezbollah", para lutar no país. A Brigada, diz, é uma unidade dentro do batalhão Prisrak, do qual faz parte, e braço armado da Unidade, que teve origem em janeiro de 2014 em Belgrado, na Sérvia, e é composto principalmente por sérvios e franceses.

("Glória a Rafael Lusvarghi": capa estilizada de página no Facebook utilizada para trocar informações e recrutas combatentes brasileiros para a guerra exalta a figura de seu principal representante.)

Mas o mais importante aqui é a menção de Lusvarghi à "Frente Brasileira de Solidariedade com a Ucrânia". Ainda que não seja possível provar, este é possívelmente o grupo ao qual pertencem os "amigos politicamente engajados" que teriam ajudado Lusvarghi a ir para a Ucrânia depois de sair da cadeia. O grupo possui uma página no Facebook que é utilizada para recrutar futuros combatentes brasileiros para o separatistas pró-Rússia. Lá também são disponibilizadas informações sobre o conflito e notícias da imprensa russa ou pró-Rússia. Seus membros ativos fazem críticas aos países ocidentais e ao governo de Kiev, inclusive comemorando a morte de soldados mortos do lado ucraniano, e exibem símbolos e linguagem característicos da ideologia neoeurasiana. Muitos trocam mensagens pedindo informações de como chegar no campo de batalha. O grande símbolo da página, que até a presente data possui quase doze mil curtidas (muitos apenas como observadores), é o próprio Lusvarghi, pioneiro e referência para os brasileiros que querem lutar do lado russo da guerra. A capa da página apresenta uma imagem sua de forma estilizada com a saudação "Glória a Rafael Lusvarghi" em russo. 

Em 7 de outubro, um dia após a prisão, foi criado no Facebook uma página para pedir a libertação do brasileiro: "Free Rafael Lusvarghi". Até a presente data contava com mil curtidas.

(Imagem retirada da página do Facebook que pede a libertação de Lusvarghi: similaridade com a figura de Jesus Cristo - acrescentada a luz do alto que ilumina seu rosto - reforça uma imagem idealizada do brasileiro.)

No próximo texto veremos como é feito este recrutamento, a rede de contatos no Brasil e quem são os brasileiros que, além de Lusvarghi, estão lutando do lado dos separatistas pró-Rússia.