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sexta-feira, 13 de outubro de 2017

Fórum Conservador Russo: a tradição messiânica da Rússia e a estratégia conservadora


          A imagem acima é o logotipo do Fórum Conservador Russo Internacional, um evento que reuniu lideranças políticas europeias na Rússia em 2014 e 2015. Ao centro Nossa Senhora traz o Menino Jesus nos braços sobre o símbolo bizantino da águia bicéfala. A águia foi adotada pelo Grão-Duque de Moscóvia, Ivan III, e representa a união entre o poder espiritual e temporal da Rússia. O reino, que viria a se tornar Império Russo no reinado de Ivan IV, o Terrível, atribuía a si o legado do Império Bizantino. Os bizantinos desenvolveram o conceito de harmonia, o casamento perfeito entre Igreja e Estado, representada pelas duas cabeças da águia unidas a um mesmo corpo. Na proclamação e coroação de Ivan IV como czar em 1547, o rito declarou abertamente que a Rússia era a "Terceira Roma", transformando a doutrina que circulava entre os reinos eslavos pelo menos um século antes em elemento do poder de Estado. E era necessário que um "autocrata eleito por Deus" governasse com firmeza seu reino para que este cumprisse seu papel escatológico. A Rússia estava destinada por Deus a proteger e guiar a Cristandade, que teria sido traída pela heresia de Roma com o cisma de 1054 e derrotada em Constantinopla pelos muçulmanos em 1453. A única forma do czar cumprir tão grandiosa tarefa era ser divinamente inspirado. Deus era a fonte de sua legitimidade, que se sustentaria até a Revolução de 1917.

          Aos pés da águia bicéfala estão de um lado o cetro, símbolo de autoridade, e do outro o globo terrestre. A alusão é clara: a Rússia tem a função divina não apenas de guiar a Cristandade, mas o mundo todo, toda a criação. Daí a figura do sol ao fundo, a luz, Deus, fonte de todas as coisas e sob qual todas as coisas se submetem. O sol abraça e abençoa toda a criação, tendo a Rússia a autoridade sobre o mundo como protetora e guia da Cristandade. Por fim, Nossa Senhora, que é a principal intercessora junto à Deus no cristianismo e a quem o cristianismo ortodoxo russo possui particular e profunda devoção, apresenta-se como elo entre a Rússia que está representada pela a águia detrás dela e Deus que está em seus braços na Pessoa de Jesus.  

          A síntese da imagem é a liderança mundial pela Rússia, autoridade política e espiritual do mundo, guiada por Deus através das mãos de Nossa Senhora.

          O Fórum Conservador Russo Internacional já traz no nome sua pretensão: ser russo e internacional ao mesmo tempo, dando destaque ao papel da Rússia na liderança de uma nova ordem mundial construída sobre os escombros da atual. Ao sediar um evento deste tipo, o país está assumindo este papel, ao exemplo do que diz o comunicado sobre a missão do Fórum:

"Vemos quantos países euro-atlânticos realmente tomaram o caminho para rejeitar suas raízes, incluindo os valores cristãos que constituem a base da civilização ocidental. Princípios morais contrários a qualquer identidade tradicional - nacional, cultural, religiosa ou mesmo sexual. Existe uma política que coloca uma família e uma união homossexual no mesmo nível, [como se] a fé em Deus ou a fé em Satanás [fossem equivalentes]. Os excessos do politicamente correto vão tão longe que estão discutindo seriamente em criar eventos que visam propagar a pedofilia. As pessoas em muitos países europeus estão envergonhadas e com medo de falar sobre sua filiação religiosa. Os feriados podem ser cancelados ou são apresentados como algo vergonhoso, escondendo a essência desses feriados, sua base moral. E este modelo está tentando se impor agressivamente a todos, o mundo inteiro. Estamos convencidos de que este é um caminho direto para a degradação e a primitivização, uma profunda crise demográfica e moral. O que mais pode ser evidente de uma crise moral se não a perda da capacidade [da população] de auto-reprodução [?]. E hoje quase todos os países desenvolvidos não conseguem crescer mesmo com a ajuda da migração. Sem os valores estabelecidos no cristianismo e em outras religiões mundiais, sem as normais morais que foram formadas por milhares de anos, as pessoas inevitavelmente perderão a dignidade humana. E consideramos natural e corretos proteger esses valores." *

          Em seguida a esta declaração, o site do Fórum segue com um discurso de Vladimir Putin aos participantes do Clube Valdai, em setembro de 2013, onde o presidente defende os valores tradicionais, afirma que o Estado poderia ser um parceiro nesta defesa e alerta para a ameaça da perda de soberania dos países ocidentais. O Clube Valdai é um think thank vinculado ao Kremlin e voltado à pesquisa de política externa da Rússia, e todos os anos recebe a participação de Putin.


(Um dos eventos do Fórum em São Petersburgo, Rússia, 21-22 de março de 2015. Esta foi a foto do Fórum mais divulgada pela imprensa ocidental.)

          O Fórum tem como missão criar um novo conceito de desenvolvimento humano em resposta ao liberalismo do Ocidente, integrar as organizações políticas conservadoras e fortalecer os vínculos comerciais, culturais e espirituais estabelecidos historicamente entre a Rússia e a Europa. Tomado como um congresso científico, seu público-alvo são as organizações públicas, políticas e patriotas russas e estrangeiras, representantes dos governos regionais, nacional e de universidades, cientistas russos, especialistas em História, Sociologia, Demografia, Direito, Economia, Finanças e membros da indústria. A intenção é influenciar organizações políticas e sociais da Rússia e do exterior, além de figuras públicas das áreas citadas anteriormente, escritores e personalidades públicas.

          O evento de 2015 ocorreu entre os dias 21 e 22 de março no Hotel Holiday Inn, em São Petersburgo, e foi organizado pelo Centro Cultural Nacional Russo - Casa do Povo, organização voltada à promoção da cultura russa. A iniciativa veio do partido Rodina, do vice-primeiro-ministro russo Dmitry Rogozin. Segundo um comunicado oficial do governo britânico, participaram membros da direita e da extrema-direita da Alemanha, Bélgica, Bulgária, Dinamarca, Espanha, Grécia, Itália, Reino Unido e Suécia. Não houve, porém, a participação de políticos do governo russo. Os participantes são principalmente partidos políticos e lideranças políticas e militares que se alinham à proposta do Fórum, como os partidos Ataka da Bulgária, Golden Dawn da Grécia, Fuerza Nuova da Itália e a organização política europeia Aliança pela Paz e Liberdade. (O Partido da Liberdade da Áustria, que havia firmado um acordo de cooperação com o Rússia Unida, partido de Putin, e havia confirmado a presença no Fórum, decidiu de última hora não ir.) Estes partidos possuem simpatia à Rússia e à liderança do Kremlin. Dentre os participantes do Fórum havia também pessoas de perfil neo-nazista e antissemita.

          Ao final do encontro foi divulgada a Resolução dos Participantes, que inicia com a declaração de lamento à destruição dos "valores morais europeus". O texto apresenta sete pontos defendidos pelo membros: 1) a criação uma "nova ordem livre, multipolar e progressista" (principal objetivo do Fórum), a defesa a soberania dos países e o conservadorismo como a melhor forma de atividade social existente; 2) a promoção, através dos partidos e do Parlamento Europeu, dos valores cristãos e propagá-los às massas, a melhora das relações com o Ocidente e o fim da "Guerra Fria" promovida contra a Rússia; 3) a criação um sistema de segurança coletivo na Europa alheio à OTAN, que se transformou em instrumento de uma ditadura, a saída das tropas americanas do continente e a rejeição das intervenções das forças ocidentais em outros países; 4) a Rússia é sucessora legítima da União Soviética e do Império Russo e agora é parte integral das tradições europeias e de sua família estendida; 5) Europa e Rússia possuem um caminho próprio e devem ser libertos do poder americano. O principal exemplo disto é o conflito da Ucrânia, que vê como um problema interno, mas considera que parte de seu território foi artificialmente separado da Rússia, é habitado por russos e pede que o Ocidente pare de apoiar o governo de Kiev; 6) a condenação das sanções contra a Rússia e que prejudicam também a Europa, e o desejo de estimular o comércio entre as duas regiões para transformá-las novamente no centro de progresso da humanidade; 7) por fim, a tarefa mais importante é estimular o crescimento demográfico através do retorno da população aos valores tradicionais, e também intervir mais rapidamente para melhorar a vida urbana e a saúde das pessoas. A Resolução encerra pedindo que as organizações participantes ajam de forma coordenada para atingir estes objetivos.

          O documento repete algumas vezes que os membros do Fórum são "conservadores" e nos objetivos ficam evidentes as referências ao papel especial da Rússia no mundo (a dualidade Rússia-Europa mencionada repetidamente reforça esta ideia).

          O fato do Fórum utilizar um logotipo de forte carga religiosa não significa necessariamente a divinização do evento nem sua pretensão messiânica (o mesmo poderia ser dito, por exemplo, da bandeira do Brasil, cujo lema positivista "Ordem em Progresso" nela inscrito não faz deste país um agente ativo na promoção da filosofia positivista pelo mundo, que promete uma nova era de paz e progresso para a humanidade). Porém, sua simbologia e atuação inserem-se na tradição messiânica da Rússia. A exemplo do que comentei em uma outra postagem neste blog, a Rússia de hoje continua a reproduzir esta tradição com o objetivo de criar uma nova ordem mundial sob os escombros da atual. Seja sob a autoridade divina dos czares, seja sob a divinização do Partido e do triunfalismo comunista, seja sob a escatologia do atual Movimento Eurasiano, o messianismo russo mantém vivo em projetos políticos planetários voltados à formação de uma nova humanidade, um novo mundo criado à imagem e semelhança de seus planejadores sociais.

          O Fórum Conservador Russo Internacional é apenas uma das diversas investidas do Kremlin para alcançar este objetivo. Sua estratégia é revelada na narrativa conservadora e nacionalista onde se misturam elementos de tradição revolucionária (anti-conservadora, portanto), como fascistas, neo-nazistas e extremistas de direita, cujo ponto em comum não está tanto nos valores, mas no sentimento pró-Rússia e anti-EUA. O desconhecimento da missão deste evento pela grande maioria das pessoas mostra que este não é um plano com consentimento dos povos, muito menos de consentimento divino.

* Traduzido do russo pelo Google Tradutor e adaptado pelo autor.

quarta-feira, 2 de março de 2016

Theotokos e o mito da "Terceira Roma"


(Theotokos de Vladimir. Há inúmeras cópias da original por todo o mundo.)

               Nossa Senhora é muito venerada no cristianismo ortodoxo e sua presença na fé e cultura entre os povos desta religião é muito marcante.

               O ícone mais comum de Nossa Senhora na ortodoxia é Theotokos, que em grego significa "Mãe de Deus". A Rússia, país com maior população ortodoxa do mundo, recebeu da antiga Bizâncio esta vertente do cristianismo, bem como tradições artísticas, a forma de governo e muitos elementos que regem a ordem social. Historicamente os russos chamavam a sua terra de "Lar da Santíssima Mãe de Deus", numa referência da nação como detentora de uma herança cristã, ao seu ver legítima, e expressa no mito da "Terceira Roma" desenvolvido a partir do final do século XV. Theotokos é a padroeira protetora da Rússia.

               Mas qual é a relação entre a figura da Mãe de Deus e a "Terceira Roma"?

               Theotokos é um dos elementos, entre crônicas históricas e textos filosóficos, que ajudaram a criar ou foram utilizados para legitimar a ideia de que a Rússia era herdeira legítima de Bizâncio, a "Segunda Roma" (sendo a cidade de Roma a "primeira"). 

               Segundo o historiador Andrew Wilson no seu livro The Ukranians. Unexpected Nation, o ícone de Theotokos que está relacionado à legitimação do poder dos reis da antiga Rus de Kiev foi trazida da então Constantinopla para a região de Kiev em 1134, tendo sido fabricado em torno de 1120. A Virgem de Vyshhorod (cidade próxima a Kiev), como ficou conhecida na época, era um dos principais símbolos da autoridade divina dos reis kievanos. Este mesmo ícone é hoje conhecido como Nossa Senhora de Vladimir, ou Theotokos de Vladimir.

(Monastério de Pechersk, em Kiev, um dos principais centros religiosos de todo o mundo ortodoxo, museu do Estado e sede da Igreja Ortodoxa Russa na Ucrânia.)

               Depois do cisma entre a Roma e Constantinopla em 1054 que deu origem à divisão católicos-ortodoxos, houve algumas tentativas de estabelecer autocefalia, isto é, autonomia das igrejas ortodoxas locais em relação ao patriarcado de Kiev. Estas iniciativas surgiram ainda no mesmo século do cisma quando iniciaram divergências entre os chefes ortodoxos regionais e aqueles mais fiéis à Kiev.

(Catedral de Dormição em Vladimir, Rússia, para onde foi levada Theotokos de Vladimir.)

               Um dos marcos da divisão entre um ramo setentrional e outro meridional da ortodoxia (e que futuramente ajudaria a moldar a distinção identitária entre Rússia e Ucrânia) foi a captura do ícone de Nossa Senhora de Vyshhorod pelo príncipe kievano Bogoliubski, em 1155, e sua deslocamento para a Catedral da Dormição na cidade de Vladimir, que daria o novo nome ao ícone. Bogoliubski tentou empossar um protegido seu, Feodor, como metropolita da cidade aprofundando as divergências norte-sul. Mais tarde, Feodor foi capturado e levado para Kiev, sendo executado em 1169 provavelmente por divergências políticas e/ou religiosas. O roubo do ícone e a tentativa do príncipe  de empossar um aliado seu como líder ortodoxo local foi uma tentativa de legitimar Vladimir, ao norte, como sucessora legítima do legado histórico da Rus às custas de Kiev, transformando a cidade no centro da ortodoxia eslava.

(Príncipe Bogoliubski, venerado na Igreja Ortodoxa como santo.)

               O ícone foi transferido para o Kremlin de Moscou em 1395, e atribui-se a ele a vitória do principado de Moscóvia na detenção do ataque mongol liderado por Tarmelão. A cidade de Moscou, que deu origem ao principado, havia sido fundada por um "nortista", Yurii Dolgorukii, em 1147, o que mostra que desde sua origem esta cidade e Kiev estiveram em polos opostos sobre legitimidade do legado da antiga Rus.

               O choque da queda de Constantinopla em 1453 e a consequente tentativa de legitimar o novo papel de Moscóvia foram os principais acontecimentos que outorgaram à Rússia o título de "Terceira Roma" e sua pretensão de liderança da ortodoxia. Segundo Wilson, a soberania da Rússia sobre "toda a Rus" seria uma "tradição inventada", tese também sustentada a respeito da doutrina da Terceira Roma pelo historiador de Harvard, Marshall Tillbrook Poe.

               Wilson afirma que esta tradição tem raíz na transferência do ícone de Nossa Senhora de Vladimir para Moscou em 1395 e a primeira tentativa por parte do rei Simeon, o Orgulhoso, de tomar controle total sobre a Igreja Ortodoxa da Rus. O objetivo era tornar o reino guardião da ortodoxia e do legado da Rus de Kiev sob a presença da Theotokos. O historiador também enumera que alguns eventos históricos foram determinantes para o crescimento do poder de Moscóvia a partir do século XV: a autocefalia da Igreja Ortodoxa Russa em 1448, temendo a queda de Constantinopla para os muçulmanos; a consequente ascensão das pretensões do reino moscovita em função desta queda; e a expulsão definitiva dos mongóis da região em 1480. Logo após a criação da Igreja na Rússia, o Estado passou a divulgar uma série de crônicas que legitimavam a nova autoridade religiosa de Moscóvia.


(Príncipe Ivan III, primeiro dos monarcas russos a receber as cartas de Filofei.)

               Em fins do século XV a doutrina da Terceira Roma já circulava em cidades russas como Tver e Novgorod, sendo nesta última o primeiro registro expresso deste termo. Foi a partir do reinado do Grão Duque de Moscóvia, Vasili III (1505-1533), que começou a penetração do mito nos círculos oficiais do reino. O primeiro registro que chega às autoridades ocorre com Filofei, monge de Pskov, próximo a Moscou, que em 1523-24 escreve uma série de cartas para um representante de Vasili III na sua cidade, para o próprio Vasili e depois para seu sucessor, Ivan IV, o Terrível. Para o monge, Roma havia caído em heresia, e Constantinopla havia sido punida por Deus com o domínio muçulmano pela tentativa de se reunir com Roma no Concílio de Florença (1439). Desta forma, Moscóvia era o único reino herdeiro legítimo do cristianismo e o sucessor natural de Bizâncio, já que todos os demais reinos cristãos haviam caído nas mãos dos inimigos. O lugar de um novo império cristão estava vazio, e cabia aos russos ocupar este espaço. Segundo Filofei, profecias (as quais ele não indica a fonte) afirmavam que não havia de existir uma "Quarta Roma", estando Moscóvia com a missão de edificar um império com o objetivo de proteger e divulgar a verdadeira fé cristã até o fim dos tempos. Assim, o Estado moscovita tornava-se o protetor do cristianismo. Para cumprir este papel, o líder deveria ser excepcionalmente hábil e com inteligência capaz de guiar o reino numa missão universal e escatológica. O rei, portanto, agia sob inspiração do próprio Deus, sendo sua autoridade sobre o império e seu papel como protetor da igreja divinamente conferido. Moscóvia legava a "autoridade divina" de Bizâncio, então protetora de Constantinopla.

               A ideia da "Terceira Roma" aparece pela primeira vez num texto oficial em 1547 na  coroação de Ivan IV como Czar da Rússia, cujo significado remonta à "César", conferindo ao líder projeção imperial. O texto da coroação foi escrito ou inspirado pelo então metropolita Makary, um dos formuladores da doutrina da Terceira Roma na época. Em 1589, cinco anos após a morte de Ivan, a Igreja Ortodoxa Russa foi elevada a patriarcado.  Nesta data, Constantinopla esta estava sob ocupação muçulmana há quase 150 anos e dependia de recursos dos russos para se manter. Esta dependência de Moscou favoreceu a elevação da cidade ao seu novo status eclesial.

(Catedral de São Basílio na Praça Vermelha em Moscou, símbolo máximo da Rússia, ao lado da Spasskaya, a principal torre dos muros do Kremlin.)

               Com a tomada de Kazan, capital do kanato adversário da Rússia, Ivan IV ordenou a construção da Catedral de São Basílio, em Moscou, hoje principal símbolo do país. Os oitos dias do cerco de Kazan são representados pelas oito igrejas que formam a estrutura da catedral, tendo uma nova igreja ao centro. Apesar do nome São Basília, a nomenclatura oficial é uma referência à Theotokos: Catedral da Intercessão da Santíssima Mãe de Deus. As oito igrejas também formam uma estrela de oito pontas, número símbolo da ressurreição de Cristo, e faz referência à estrela de Belém que guiou os reis magos até Jesus. A urbanização da cidade centrada na Praça Vermelha e no Kremlin mostra claramente, no plano arquitetônico, Moscou como guia da Rússia e de todo o cristianismo (ver pág. 95). A ideia de Moscou como guia da fé é fortalecida quando o mito da Terceira Roma sacraliza a cidade ao chamá-la de Nova Jerusalém. Moscou é a nova terra prometida.

               Após o reinado de Ivan, o mito da Terceira Roma circulou apenas entre religiosos ortodoxos, mais especificamente os staroveri, ou "velhos crentes", grupo religioso que nega como heréticas as reformas modernizantes da Igreja Russa no século XVIII, não havendo menção da doutrina em documentos de Estado. O reino (e depois império) russo se expandiu sem referências oficiais ao messianismo original. Apenas na metade do século XIX a "Terceira Roma" voltou às vozes dos intelectuais, especialmente a partir da década de 1860 com as publicação das cartas de Filofei. Não por acaso, Alexander Dugin, principal ideólogo do Kremlin e responsável pela reformulação da geopolítica russa sobre bases messiânicas, considera os velhos crentes o depositário da verdadeira tradição ortodoxa e, portanto, da legítima tradição espiritual do povo russo.

             A grande popularização do mito da Terceira Roma levou muitos intelectuais a promoverem uma missão nacional, um messianismo propriamente russo, a exemplo do universalismo cristão de Soloviev. A disseminação e ascensão do comunismo encontrou ressonância de sua missão escatológica entre os intelectuais da época, e até as décadas recentes outros movimentos surgiram propondo à Rússia uma nova missão para o mundo, a de conquista da Eurásia, do Ártico e mesmo do espaço.

               Após habitar por séculos a Catedral da Dormição dentro do Kremlin de Moscou, Theotokos foi retirada para restauração no período bolchevique e hoje está guardada na Galeria Estatal de Tretyakov. Apesar de não estar mais dentro dos muros do Kremlin, ela ainda goza de proteção do Estado. Legítimo ou não, a imagem da Mãe de Deus, Nossa Senhora de Vladimir, continua vinculada ao poder russo, que ainda acredita ter de cumprir no mundo uma missão, seja ela divina ou humana.


quinta-feira, 18 de junho de 2015

Sonhos messiânicos: a conquista da Eurásia, do espaço e do Ártico



A Rússia é o maior país do mundo em extensão territorial e inclui, além dos russos étnicos, muitas dezenas de etnias organizadas em uma grande federação, ao menos oficialmente.

A vastidão geográfica da Rússia é objeto de muitos estudos e reflexões dos intelectuais de seu país. Desde o século XIX, foram desenvolvidas algumas correntes de ideias que relacionam a geografia da Rússia e o seu destino enquanto povo. Marlene Laruelle, professora e pesquisadora do Instituto para Estudos Europeus, Russo e Euroasiáticos da Universidade George Washington, nos EUA, publicou em 2012 um artigo que trata das chamadas metanarrativas, discursos que anunciam a predestinação do povo russo à conquista territorial e à realização de um ideal futuro.

Esses discursos permeiam atualmente a cultura russa e expressam o senso messiânico de sua elite intelectual. No artigo de Laruelle, as metanarrativas destacadas baseiam-se na expansão geográfica da Rússia em três vetores distintos: para a Eurásia, para o espaço e para o Ártico. São vetores de expansão para além de suas fronteiras atuais em direção aos povos vizinhos, ao alto e ao norte. São os chamados eurasianismo, cosmismo e articismo.

Os três discursos se difundiram de forma discreta durante o período soviético e ganharam forte impulso no período pós-comunista, quando se multiplicaram estudos que passaram a explicar as questões políticas não mais pela ótica do materialismo marxista, mas pela cultura e a civilização. Esses conceitos trouxeram à tona novas análises sobre a relação dos povos da Eurásia com sua geografia local. Seria a relação entre o povo e seu meio físico causa de sua cultura única. Além do livro O Choque de Civilizações, do americano Samuel Huntington, que foi grande sucesso de vendas na Rússia, duas obras do cientista político Alexander Panarin, The Revenge of History e The Ortodox Civilization in Globalized World se tornaram referência no estudo da cultura/civilização. A perspectiva civilizacional afirma que as diferenças entre os povos são, em última instância, culturais, e que suas culturas são incompatíveis umas com as outras. Os conflitos, portanto, têm raíz cultural, e não política ou econômica. Da mesma forma os modelos políticos e econômicos não poderiam ser implantados de forma unívoca em culturas diferentes.



Na metanarrativa eurasiana, cabe à Rússia rejeitar o modelo ocidental e criar o seu meio de desenvolvimento através da integração dos territórios vizinhos "destinados" a pertencer à esfera russa. O modelo russo seria "imperial", de ênfase aos direitos coletivos (das nações), ao passo que o modelo ocidental é "republicano", baseado nos direitos individuais. O eurasianismo ganha um discurso mais agressivo com Alexander Dugin, que remodela os fundamentos do eurasianismo clássico dos russos emigrados da década de 1920. Sua afirmativa é de que não é a geografia, mas  a geopolítica que determina o papel da Rússia no mundo. Utilizando os clássicos da geopolítica europeia, correntes nazifascistas, estudos das religiões e ocultismo, Dugin afirma que a Rússia é o "centro" do mundo, o núcleo civilizacional das potências terrestres (terulocracias) em oposição às potências marítimas (talassocracias), cuja disputa remonta à Antiguidade. A missão da Rússia seria vencer as potências marítimas, comandadas pelos EUA, e assumir a liderança do mundo a partir da Eurásia.



Na metanarrativa cósmica, o futuro da Rússia estaria não na Terra, mas na conquista do espaço. O cosmismo combina predestinação com tecnologia e imortalidade. Ao invés da ascensão do homem para o Céu, onde há vida eterna, é na ascensão e na conquista do espaço físico que o ser humano, através do apoio tecnológico e em novas condições de vida, teria capacidade de se livrar do sofrimento e alcançar a imortalidade. Segundo alguns de seus ideólogos, os russos são um povo profundamente espiritual e tendem à verticalidade, na busca de Deus, às coisas Alto, em contraste com os ocidentais, muito materialistas e com tendência à horizontalidade. O cosmismo se caracteriza, portanto, por uma projeção de missão religiosa dos russos no mundo imanente. Essa mentalidade permeou os meios científicos soviéticos que buscaram realizar a utopia da conquista espacial e ao mesmo tempo vencer os EUA nessa corrida. Atualmente, o cosmismo é presença marcante no imaginário social do povo russo, como nas obras da literatura.



Na metanarrativa articista cabe à Rússia a conquista do Ártico. Tal perspectiva é comum entre os nacionalistas russos, que herdaram a concepção de Ártico Vermelho dos tempos soviéticos, e que marcou profundamente a cultura popular. O sonho messiânico é conquistar um região hostil, utilizando recursos e meios que só os russos seriam capaz de mobilizar. Os nacionalistas consideram o domínio da região ártica como necessária para reestabelecer a grandeza da Rússia e compensar a perda territorial do sul com o fim da URSS. Outro fundamento para o articismo está no ocultismo e no racialismo. Dugin, por exemplo, afirma que o povo russo é o descendente mais puro dos arianos e atualmente estariam formando uma nova civilização cujo destino é o domínio do Ártico. A disseminação do arianismo e do neo-paganismo contribuem para reforçar a marcha para o norte já que consideram os eslavos e sua antiga cultura pagã descendente dos arianos. Após o fim da URSS, a historiografia russa, a educação e o imaginário popular foram inundados pela concepção racial e neo-pagã da história antiga, e seu conteúdo têm sido utilizado por movimentos nacionalistas de corte racial e xenófobo para fazer oposição à presença dos "povos de cor" na Rússia, como os habitantes do Cáucaso e os chineses.

Por fim, é importante frisar que as três metanarrativas aqui descritas estão relacionadas à modernidade, mais especificamente ao avanço técnico: à integração econômica no eurasianismo, ao avanço aero-espacial no cosmismo e a utilização de recursos naturais no articismo. Laurelle não menciona explicitamente, mas convém notar que os três movimentos buscaram se concretizar na antiga URSS. Os comunistas realizaram, ao mesmo tempo, a expansão territorial pelo planeta, a conquista do espaço e a exploração do Ártico. Se o messianismo comunista falhou nos seus objetivos finais e na realização plena de uma "sociedade ideal", a Rússia parece que continua impreganada e determinada a fazer valer a missão que diz pertencer a ela. Agora é o eurasianismo que busca afirmar-se, mas numa Rússia em crise econômica e cada vez mais hostil ao restante do mundo.