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terça-feira, 26 de fevereiro de 2019

Como a Rússia reagirá à fundação da nova Igreja Ucraniana?

(Bartolomeu I e Putin)

          Com o anúncio oficial da criação da Igreja Ortodoxa Ucraniana do Patriarcado de Kiev em 5 de janeiro deste ano, a Igreja Ortodoxa Russa perdeu jurisdição canônica (religiosa) sobre o território ucraniano depois de 332 anos. Em 1686, o Patriarcado Ecumênico de Constantinopla havia colocado o então Patriarcado de Kiev sob a autoridade de Moscou, expandindo o território canônico deste último. Na época, o que se conhece hoje como "Ucrânia" possuía um território muito diferente da atual. Constantinopla revogou esta inclusão no Anúncio de 11 de outubro do ano passado.

          Sem uma influência religiosa direta, tanto a Igreja Russa com o governo russo perderam grande capacidade de influenciar cultural e politicamente a população ucraniana. Como vemos recorrentemente, o Patriarca Kirill e o presidente Putin costumam aparecer juntos em público e possuem um discurso muito similar quando se trata de definir a identidade do país, tarefa que o Kremlin tomou para si e utiliza como um de seus fundamentos políticos e ideológicos.

          Este vínculo político e cultural entre Igreja e Estado na Rússia faz do poder um elemento de ação e reação aos acontecimentos que envolvem a esfera religiosa.

          De acordo com Paul Goble, os países do Ocidente não compreendem a reação da Rússia a acontecimentos da amplitude como a da atual querela religiosa. Para Moscou, isto significa abdicar de seu histórico papel imperial. A criação da Igreja Ucraniana desmembrada da Igreja Russa significa a retração do papel da Rússia no mundo, e de forma direta sobre os povos vizinhos. Como Putin não pode fazer nada a respeito, ao menos não diretamente, a expectativa de Goble é uma ação muito mais negativa do que a esperada pelo Ocidente e países vizinhos, que geralmente subestimam uma reação russa. A tomada da Crimeia e o início da guerra na Ucrânia em resposta aos protestos de 2013-14 que derrubaram Yanukovich, aliado político de Moscou, é o exemplo mais evidente disto.

(Captura dos marinheiros ucranianos, nos barcos menores, em 25 de novembro passado, no Mar Negro.)

          Há outros elementos que podem contribuir para uma reação agressiva da Rússia e que aparentemente nada têm a ver com a questão religiosa. O conflito na Ucrânia pode ser o ambiente e a justificativa desta reação. Num paper publicado em 1º de fevereiro, o cientista político Andreas Umland aponta um possível desenrolar do conflito, que tem potencial de se deslocar da região de Donbas para o Mar de Azov, que banha os portos de Mariupol e Berdyansk, importantes para o leste ucraniano. A captura dos 24 marinheiros ucranianos pela marinha russa no Estreito de Kerch em 25 de novembro passado sinaliza esta possibilidade. Umland cita quatro fatores para essa possível mudança geográfica do conflito: a falta de reação do Ocidente à crise do Estreito de Kerch (12 dias depois do artigo, uma comissão bipartidária do Senado americano formatou uma legislação para aplicar novas sanções sobre Moscou devido, entre outras coisas, a esta crise), a ausência de organizações internacionais de monitoramento no Mar de Azov, a viabilidade da nova Ponte do Estreito de Kerch inaugurada pela Rússia em maio de 2018 (muito cara e subutilizada) e o precário serviço de água potável na Crimeia.

          Se Goble estiver correto, o forte desagravo da Rússia com relação à criação da nova Igreja Ucraniana pode ser um quinto fator, não propriamente geopolítico, mas como um motivador para uma ação agressiva por parte do Kremlin.

          Mas algumas ações estariam em andamento. Segundo o Serviço de Segurança da Ucrânia (SBU) (divulgado também pelo Serviço de Informações Religiosas da Ucrânia, uma agência de perfil inter-religioso), espiões russos e serviços de segurança de Donbas estariam recrutando ucranianos para incendiar igrejas administradas por padres ortodoxos que saíram da Igreja Ucraniana do Patriarcado de Moscou para ingressar na nova Igreja do Patriarcado de Kiev. Em troca, receberiam U$ 2000 pelo serviço. O agente deveria filmar a ação para comprovar o ataque e então teria o dinheiro depositado em sua conta bancária. A SBU firma ter abortado o recrutamento de um ucraniano. Esta seria uma ação não apenas para intimidar a expansão territorial da Igreja de Kiev, como também para punir os que seriam "traidores" segundo o Kremlin.   

          O país herdou da União Soviética a instrumentalização da Igreja Russa para sua política externa. Igreja e Estado trabalham juntos neste aspecto, na qual a Igreja se torna beneficiária da ordem política criada pelo Estado. Um exemplo é a própria Crimeia, onde a única paróquia da Igreja Ucraniana, localizada em Simferopol, corre o risco de perder permissão de funcionamento por não se adaptar à legislação russa. De acordo com a lei, grupos religiosos só podem possuir propriedades com um registro junto ao Estado, o que a Igreja Ucraniana não poderia fazer, dado que o país que ela representa não reconhece a Crimeia como parte da Rússia. Outro caso foi a posse da Catedral São Nicolas em Nice, na França, pelo Estado russo, em janeiro de 2010. Em 2007, o Kremlin havia entrado com um processo na justiça francesa alegando que a posse  a catedral pela comunidade exilada da Revolução de 1917 havia expirado após 99 anos. Com a causa ganha, a Rússia recebeu, além do edifício, em torno de 300 ícones religiosos raros. Esta transferência de propriedade é uma forma de promoção da cultura russa no exterior e de expansão do que Moscou chama de "mundo russo".

(Rara igreja de madeira em chamas em Gorlovka, leste da Ucrânia, em 8 de agosto de 2014. Representativo dos efeitos religiosos do conflito e da tensão entre igrejas e governos.)

          Outra ação possível da Rússia seria por via judicial, não na Ucrânia, mas na Turquia. O doutor em direito e diretor de um instituto de pesquisa em Moscou, Igor Ponkin, lista uma série de crimes que Bartolomeu I, Patriarca Ecumênico de Constantinopla, teria cometido ao anular a decisão da Carta Sinodal de 1686 (e divulgado o Tomos de autocefalia da Igreja Ucraniana em 5 de janeiro, que o autor não analisa). Bartolomeu (que Ponkin chama pelo nome civil Dimitrios Arhondis, desqualificando-o para o cargo), teria feito uma falsa anulação da antiga decisão, afirmando que a linguagem jurídica atual é inócua em relação à terminologia da época. A Ucrânia, que na época não existia enquanto tal, também possuía um território muito diferente. Ponkin acusa o Patriarca de crimes graves segundo o Tratado de Lausanne, de 1923, e a Constituição e o Código Penal da Turquia, onde reside, sugerindo uma ação criminal contra ele. Bartolomeu estaria violando nove artigos destas três leis, entre eles a promoção de uma convulsão social em país estrangeiro a partir da Turquia, a incitação ao ódio inter-religioso (na Ucrânia e na Turquia) e a promoção de uma guerra entre Rússia e Ucrânia. A posição de Ponkin é clara: Bartolomeu não seria um Patriarca legítimo, e caberia à Turquia (em consonância com a Rússia) tomar as medidas judiciais cabíveis.

          Enquanto a Rússia não age de forma explícita na questão religiosa, os analistas ficam especulando suas possíveis reações. Com base na história recente, ainda veremos o que o Kremlin fará para compensar a posição perdida.

terça-feira, 5 de fevereiro de 2019

Kirill, Putin e a perda da Ucrânia

(Kirill no seu discurso de 10 anos como Patriarca da Igreja Ortodoxa Russa.)

          Neste 1º de fevereiro, o Patriarca Kirill celebrou seus 10 anos à frente da Igreja Ortodoxa Russa. O evento de comemoração foi realizado no Palácio do Estado no Kremlin de Moscou na presença de Vladimir Putin, presidente da Rússia, Igor Dodon, presidente da Moldávia, e autoridades políticas e religiosas.

          Em seu discurso, Kirill afirmou que os dois grandes desafios do cristianismo nos dias de hoje são a reintegração da Igreja na sociedade, cobrindo o hiato entre ambos e reintroduzindo nas pessoas os valores defendidos pela fé cristã, e a pretensa autoridade absoluta da ciência, que propõe o progresso técnico às custas de princípios éticos e a disseminação do transhumanismo, filosofia que aposta no "melhoramento" da natureza humana. Boa parte de seu discurso foi dedicado a estes temas.

          No início de sua explanação, porém, o Patriarca deu atenção à situação da Ucrânia. Afirmou que a estrutura da nova Igreja Ortodoxa Ucraniana do Patriarcado de Kiev (sem citá-la diretamente), oficializada no último dia 5 de janeiro, consistia numa "estrutura de pseudo-igreja formada por cismáticos". Responsabilizou as autoridades ucranianas e o Patriarcado de Constantinopla pela intrusão no território canônico da Igreja Ucraniana do Patriarcado de Moscou, e o governo de Kiev de discriminar os fiéis russos, tomar suas igrejas e incentivar o ódio inter-religioso. 

          As declarações sobre a Ucrânia repetiram a acusação de perseguição aos ortodoxos da Igreja Russa pelo governo ucraniano que Kirill divulgou numa carta enviada em 14 de dezembro de 2018 a diversas lideranças políticas e religiosas do mundo, como o Papa Francisco, o Arcebispo de Canterbury Justin Welby, o líder do Conselho Mundial de Igrejas Olav Fyske Tveit, o secretário-geral da ONU Antonio Guterres, Angela Merkel, Emmanuel Macron, entre outros.

          A presença de Putin e Dodon (aliado do presidente russo) na comemoração de sua entronização, o tema político e a carta aos líderes civis e religiosos mostram a atuação política de Kirill em temas nacionais e estrangeiros. Kirill é muito mais do que "apenas" o líder religioso da Igreja Ortodoxa Russa. Ele é também o disseminador de ideias que são compartilhadas pelo Estado russo, com quem trabalha em consonância.

(Discurso de Putin. Palácio do Estado no Kremlin lotado.)

          Antes do Patriarca, Vladimir Putin fez um discurso de aproximadamente dez minutos. Parabenizou Kirill pela data, elogiou seu trabalho e exaltou as ações da Igreja Ortodoxa Russa em diversos campos da sociedade, tanto dentro como fora do país, estabelecendo relações com outros povos e igrejas. Foi aí que Putin lembrou a questão da Ucrânia, fazendo afirmações incisivas e condenando duramente o que considerou como uma "parasitação" da vida religiosa do país pelo governo de Kiev, cujo projeto "não é relacionado à fé, mas a uma falsa fé". Ele foi mais duro ao comparar a ação de Kiev que, em abril, através do Parlamento, pediu a criação de uma Igreja Ortodoxa Ucraniana autocéfala, aceita em 11 de outubro por Constantinopla, aos bolcheviques, que perseguiram, controlaram e mataram quase a totalidade dos religiosos ortodoxos na antiga URSS, principalmente entre 1918 e 1939.

"Em essência, há uma grosseira interferência na vida da Igreja. Seus iniciadores pareciam ter aprendido com os sem-Deus do último século, que expulsaram os fiéis das igrejas e envenenaram e perseguiram o clero."

          A frase foi seguida por aplausos do público.

          O presidente afirmou que as autoridades russas jamais aceitarão a interferência do Estado nos assuntos da Igreja, principalmente no exterior, e que "se reservam o direito de reagir e fazer tudo para proteger os direitos humanos, incluindo a liberdade de religião".

          A Constituição da Rússia de 1993 garante a separação Igreja-Estado (Artigo 14) desde a efetiva separação realizada pela Lei sobre Liberdade de Consciência e Associações Religiosas assinada em 1º de outubro de 1990 por Mikhail Gorbachev e reafirmada em nova lei em 26 de setembro de 1997, onde reconhece o papel especial no país da Igreja Ortodoxa Russa e dá reconhecimento especial ao islam, o judaísmo e o budismo, as chamadas "religiões tradicionais".

          A liberdade religiosa, porém, tem sofrido restrições na Rússia, principalmente após a introdução de uma série de emendas às leis de combate ao terrorismo conhecida como Lei Yarovaya, aprovada em 24 de junho de 2016. Sob pretexto de combate ao extremismo, a lei dificultou o registro, a posse de propriedades e a ação missionária de grupos religiosos, principalmente das religiões consideradas "não tradicionais" e que se recusam a se registrar oficialmente junto ao Estado. Os grupos mais afetados foram minorias cristãs e religiões orientais. Uma das consequências mais visíveis foi o banimento do Centro Administrativo das Testemunhas de Jeová na Rússia em 20 de abril de 2017. Todas suas instalações passaram às mãos do Estado e as atividades religiosas foram proibidas. Cristãos batistas também foram perseguidos, e até há poucos meses havia em torno de vinte de seus membros na cadeia. Apesar de ser grandemente privilegiada por majoritária, ser considerada uma das religiões tradicionais e gozar de acordos com instituições públicas como universidades, alguns religiosos da Igreja Ortodoxa Russa têm reclamado das restrições imposta pelo governo a grupos minoritários.

          As acusações de Putin sobre o governo de Kiev também servem à região de Donbass numa guerra promovida por combatentes pró-Rússia com apoio de Moscou. Há diversas denúncias de violação da liberdade religiosa, inclusive com o assassinato de quatro religiosos protestantes, como apontou um documento da organização IPHR da Bélgica em parceria com a CCL da Ucrânia ainda em abril de 2015. Essas perseguições são promovidas por batalhões como A Legião Mais Gloriosa do Don, formado por cossacos autoproclamados defensores da fé ortodoxa, e o Exército Ortodoxo Russo, liderado pelo principal combatente russo, Igor Strelkov. Alguns religiosos e sacerdotes da Igreja Russa, ainda que não em sua maioria, têm dado apoio a esses combatentes. A Ucrânia seria o único país do mundo onde há conflito armado de cristãos contra cristãos.

(Da esquerda para a direita: Igor Dodon, Kirill e Putin.)

          Há especulações de como Putin reagirá à perda do território canônico da Ucrânia. Alguns analistas consideram que o Kremlin poderia reagir militarmente no sentido de dar novo fôlego à guerra no país vizinho. Neste contexto, a crise do Estreito de Kerch poderia ser uma isca para desencadear uma nova ação militar.

          Em 22 de dezembro, cinco dias após o Concílio da Unificação em Kiev escolher Epifânio como líder da nova Igreja Ortodoxa Ucraniana, o Patriarca Kirill afirmou que a Igreja Russa deveria analisar a possibilidade de uma nova concordata com o Estado russo no sentido de aprofundar a cooperação entre as partes; deveria repensar sua ação em prol da unidade da Ortodoxia, rompida em 15 de outubro, e buscar no Vaticano um aliado neste sentido (e, dada a postura de Francisco, a Igreja Católica fará o possível para não desagradar Moscou em nome do diálogo ecumênico); e deverá trabalhar para expandir sua influência no exterior. Estas diretrizes apontam diretamente para a necessidade de reverter a perda territorial na Ucrânia, o prestígio da Igreja na Ortodoxia e da Rússia no cenário mundial.

          Conforme Yuri Ruban, alto funcionário do Gabinete Presidencial do governo de Kiev, Kirill pretende ir à Ucrânia e visitar Pechersk Lavra (Monastério das Cavernas), um dos grandes centros espirituais do mundo ortodoxo e onde, segundo a carta de 14 de dezembro, as autoridades ucranianas estariam tentando privar seu uso por monges da Igreja Russa. A viagem teria como objetivo, entre outras coisas, apoiar os candidatos pró-Rússia à presidência do país, cuja eleição será em 31 de março. Para Yuri, o Kremlin está usando a fé para influenciar politicamente os eleitores ucranianos.

          Mesmo que Kirill vá à Ucrânia sem qualquer pretensão política, sua simples presença exigiria um enorme esquema de segurança e uma complicada negociação entre dois países cujas relações pioraram muito desde 2014. É de se esperar, também, reação de grupos nacionalistas, inclusive de extremistas anti-Rússia. Não é necessário dizer que isto provocaria mais tensão na região. Isto daria à Rússia pretextos para retaliar qualquer ação ucraniana, a exemplo da suposta invasão das águas territoriais russas no caso do estreito de Kerch.

          Por mais que uma visita do Patriarca seja religiosamente legítima (e mesmo que Kirill e Putin não adotassem o mesmo tom nos seus discursos como na ocasião da comemoração de dez anos de entronização do Patriarca, ou que a separação Igreja-Estado na Rússia constituísse uma laicidade estrita), esta seria a ocasião para Moscou arranjar pretextos e agir política e militarmente na Ucrânia.

          Além da das fortes divergências políticas que explodiram com a Euromaidan no final de 2013, a tomada da Crimeia e a guerra que se seguiu em 2014, para o analista Taras Kuzio a formação da Igreja Ortodoxa Ucraniana é mais um capítulo (talvez definitivo) da perda da Ucrânia pela Rússia. Este é o mais duro golpe na pretensão de Putin de restaurar o Império Russo.

          Enquanto a viagem mantém-se no plano das possibilidades, os ucranianos esperam uma reação russa à perda da Ucrânia. Putin, por enquanto, continua apenas na retórica.   

segunda-feira, 21 de janeiro de 2019

O desejo de uma Igreja Cristã na Ucrânia entre Moscou, Constantinopla e o Vaticano.

(Epifânio I e Sviatoslav)

          Nos últimos dias, o líder da Igreja Greco-Católica Ucraniana, o Metropolita Sviatoslav Shevchuk, fez diversas declarações no sentido de promover a unidade entre católicos e ortodoxos e a possibilidade, no longo prazo, de que sua igreja e a recém criada Igreja Ortodoxa Ucraniana se fundam numa só. Coisa muito complicada, já que os dois grupos têm dogmas diferentes e santos canonizados pela defesa de suas respectivas tradições. 

          Em entrevista dada no dia do Natal ortodoxo, em 7 de janeiro, Sviatoslav (chamado pelo Serviço de Informações Religiosas da Ucrânia de "Patriarca") declarou que é possível uma unidade entre as igrejas Greco-Católica e Ortodoxa na Ucrânia tendo como base a herança comum do Batismo da Rus de Kiev em 988, que deu início à cristianização dos eslavos. Os aspectos comuns da cultura como liturgia, língua e tradições certamente contribuem para a unidade, já que cristãos ucranianos da diáspora utilizam a língua materna no rito litúrgico, comum às duas igrejas, por vezes alternado o ucraniano com a língua da comunidade receptora. Esta união poderia ser  a criação de um Patriarcado de Kiev reconhecido tanto por Roma quanto Constantinopla através de uma comunhão eucarística.

          Sviatoslav também citou o diálogo católico-ortodoxo a nível universal. O ecumenismo da Igreja Católica teve início com o decreto Unitatis Redintegratio, do Papa Paulo VI, publicado em 21 de novembro de 1964, ao final do Concílio Vaticano II, e foi reforçado pela encíclica Ut Unum Sint, de João Paulo II, de 25 de maio de 1995. Nestes documentos, a Santa Sé reconhece a realidade do sacramento da comunhão ortodoxa (permitida aos católicos em circunstâncias específicas) e coloca a eucaristia, o batismo e a sucessão apostólica como os principais pontos de unidade entre as igrejas Católica e Ortodoxa. 

        Outro ponto de direto interesse aos ucranianos é a rejeição do "uniatismo", ou seja, da conversão de uma comunidade à outra, como ocorreu com a União de Brest de 1596, quando bispos ortodoxos no reino católico da Comunidade Lituano-Polonesa acertaram com Roma a união e deram origem à Igreja Greco-Católica Ucraniana de Sviatoslav. 

(Patriarca Ecumênico Bartolomeu I assinando o Tomos - documento de declaração - que oficializou a criação da Igreja Ortodoxa Ucraniana, em 5 de janeiro de 2019, na Catedral São Jorge, em Istambul. Epifânio I está à direita.) 

          Na visita que fez ao Papa Francisco no Vaticano em 3 de julho de 2018, o Metropolita conversou sobre a relação com os ortodoxos na Ucrânia, que então discutiam a criação de uma única igreja, e reafirmou o compromisso de rejeição do uniatismo. Saviatoslav reiterou, assim, outro elemento importante do ecumenismo, citado na entrevista de Natal, que é o estabelecimento de um diálogo constante com os ortodoxos através da Comissão Mista Internacional para o Diálogo Teológico entre a Igreja Católica Romana e a Igreja Ortodoxa. O organismo foi criado pelo Patriarca de Constantinopla Dimítrios I e Joao Paulo II, quando este viajou à Istambul, em 30 de novembro de 1979. O objetivo final da Comissão é o reestabelecimento da unidade da Igreja Cristã existente antes do cisma de 1054. Desde então, ela vem realizando diversas reuniões no sentido de buscar as bases comuns das duas igrejas para depois tratar das divergências. A rejeição conjunta do uniatismo veio na Declaração de Balamand (Líbano) na reunião de junho de 1993.  

          O desafio e o desejo do Metropolita ucraniano não são nada fáceis, com pressão por parte dos russos e orientações da Santa Sé. Com o Anúncio de Constantinopla, em 11 de outubro de 2018, da criação de uma Igreja Ucraniana, o Patriarcado de Moscou rompeu relações com o Patriarcado Ecumênico quatro dias depois. Isto colocou a Santa Sé numa posição ainda mais delicada. Em 31 de julho de 2018, o Papa Francisco havia recebido no Vaticano uma delegação liderada pelo Metropolita Hilarion, chefe do Departamento para Relações Exteriores da Igreja do Patriarcado de Moscou. No encontro, o Papa firmou que a Igreja Católica (e as "Igrejas Católicas", uma indireta à Igreja Greco-Católica Ucraniana) não deveria interferir na relação entre os ortodoxos e na Igreja Russa, desautorizando que outros líderes católicos influenciassem ou opinassem sobre o tema. Desta forma, a Santa Sé também pressiona para que os católicos ucranianos não influenciem a questão ortodoxa na Ucrânia, tornando mais sensível o desejo de unidade de Sviatoslav. Moscou se retirou na Comissão Mista Internacional, da qual o Patriarcado Ecumênico faz parte, e optou por manter com o papado apenas relações bilaterais.

          Desde pelo menos a década de 1960, há um movimento de católicos ucranianos para a elevação da Igreja Greco-Católica à condição de Patriarcado. Isto resultaria num fortalecimento da unidade nacional e, por consequência, de uma aproximação entre católicos e ortodoxos no país, aumentado as chances de uma unidade entre as igrejas. Isto às custas da Igreja Russa que, com a criação em 5 de janeiro da Igreja Ortodoxa Ucraniana unificada, perdeu a jurisdição religiosa sobre o país depois de 332 anos. Portanto, um Patriarcado católico afastaria ainda mais a Ucrânia da Rússia que, com a tomada da Crimeia e a promoção de uma guerra no país vizinho em 2014, está perdendo a batalha pela restauração de um Império Russo com sua Igreja oficial.

(Ícone da Unidade pintado por um monge ortodoxo do Monte Athos, na Grécia, em 1968.)

          Dadas as disposições, ainda que cautelosas, do novo Patriarca ucraniano Epifânio I (a ser entronizado em 3 de fevereiro) de colaborar com o diálogo com os católicos, o empenho entusiasmado de Sviatoslav e do Patriarca Ecumênico Bartolomeu I no diálogo ecumênico e o desejo de décadas dos católicos ucranianos de elevar sua igreja à condição de Patriarcado pode abrir as portas para uma unidade das igrejas. Caso isto venha a ocorrer no futuro, as consequências serão avassaladoras (no bom sentido), dado que a civilização ortodoxa foi construída sobre a propagação do cristianismo no mundo eslavo, o que arrastaria centenas de milhões de pessoas à unidade com o Ocidente. Isto ajudaria diretamente na promoção da paz no mundo inteiro.

          Esta é uma missão difícil que, de acordo com a tradição católica, só poderá ser realizada pela ação do Espírito Santo.         

quinta-feira, 27 de dezembro de 2018

Lituânia: arquivos da KGB revelam ligação com a Igreja Russa

(Kirill, Patriarca da Igreja Ortodoxa Russa, Putin e Medvedev.) 

          No último dia 20, a Lituânia divulgou alguns arquivos da antiga KGB (o país ficou sob domínio soviético de 1944 a 1991) que mostram o vínculo da instituição com o Patriarcado de Moscou. Atualmente, há membros da alta hierarquia da Igreja Ortodoxa Russa que estiveram (ou estão) envolvidos com o serviço secreto russo, hoje chamado FSB, entre eles o Metropolita Alexandr de Riga, líder da Igreja Ortodoxa Lituana vinculada a Moscou.

          Paul Goble afirma que na era Putin a penetração do serviço secreto na Igreja Russa aumentou com o objetivo, comenta, de utilizar as propriedades eclesiais para encobrir seus negócios. A igreja também é uma das bases ideológicas do governo, que se coloca como defensor dos valores tradicionais e do cristianismo, buscando expandir sua influência fora da Rússia.

          Há de se considerar que a divulgação do arquivo veio justamente no período de tensão entre Moscou, Kiev e Constantinopla em torno da formação de uma nova Igreja Ortodoxa Ucraniana, atingindo a imagem da Igreja Russa e, portanto, ajudando na sua desmoralização entre os fiéis ortodoxos. Dado o histórico de oposição que a Lituânia faz à Rússia, a abertura dos arquivos neste momento não parece uma coincidência.

quarta-feira, 13 de abril de 2016

Mártires, heróis e outros não tão santos: a construção da nova identidade russa

(Cidade de Kaluga, Rússia)

A antropóloga e professora da Nova Universidade Búlgara, Milena Benovska-Sabkova, realizou um trabalho a respeito da política de memória implementada na Rússia no contexto de reavivamento religioso. Sua atividade teve como referência a cidade de Kaluga, com 350 mil habitantes a 150 km a sudoeste de Moscou, e foi publicado em diversas revistas acadêmicas (aqui - pág. 95-98, aqui e, o mais completo, aqui).

Com o fim da União Soviética, iniciou-se uma série de atividades de pesquisa com a finalidade de reconstituir e reconstruir as comunidades religiosas, igrejas e monastérios destruídos na Rússia. Muito deste trabalho foi realizado pelos chamados kraevedenie, pesquisadores especializados em história local como herança cultural, biografias e origem das famílias. Tal tipo de pesquisador surgiu ainda no tempo da União Soviética e atualmente possui um status semi-oficial, atuando de forma independente e também junto a centros de pesquisas, escolas, igrejas e autoridades locais. Dentro deste ramo estão os kraevedenie de igreja, que realizam o mesmo trabalho, mas voltado especificamente às questões de ordem religiosa, com destaque ao levantamento das igrejas demolidas, pesquisa em arquivos religiosos e levantamento biográfico de clérigos e religiosos, principalmente os desaparecidos no período comunista.

A partir do ano 2000, com a chegada de Vladimir Putin à presidência da Rússia, a atividade dos kraevedenie ganhou grande estímulo oficial: eles passaram a ser cooptados pelas autoridades para trabalhar em pesquisas de resgate da história russa atuando em escolas, museus e em atividades locais como congressos e lançamentos de livros. Assim estes pesquisadores passaram a constituir um grupo semiprofissional relacionado a) ao projeto nacional de política de memória, b) aos projetos regionais vinculados à política de memória a nível nacional, e c) à atividade espontânea de pesquisa realizada por seus membros. Os kraevedenie de igreja também entraram neste processo, e passaram a trabalhar próximo às autoridades da Igreja Ortodoxa Russa. Desta forma, eles consolidaram o papel de intermediários entre o clero ortodoxo e o cidadão comum fazendo uma "ponte" de conhecimento entre os dois grupos sociais.

(Monastério Optina Pustyn, na cidade de Koselsk a 60 km de Kaluga. Fundado no século XV o monastério é um dos principais da Rússia e centro religioso da região. Foi transformado pelos bolcheviques no Museu Kraevedenie em 1917-29, e depois recebeu um departamento de um museu de Koselsk em 1957) 

É através da relação íntima entre os kraevedenie e a Igreja Ortodoxa Russa que ocorre parte do reavivamento religioso na Rússia. Eles trabalham juntos tanto à nível nacional na Comissão Sinodal de Canonização dos Santos como a nível regional, a exemplo da Comissão de Canonização da Eparquia de Kaluga, onde a antropóloga Milena realizou sua pesquisa. Portanto, estes pesquisadores não apenas resgatam a memória passada da ortodoxia como também integram o plano desta Igreja de reconstituir uma identidade religiosa nacional.

Deste 1989 a Igreja Ortodoxa tem realizado uma série de canonizações, dentre eles os confessores e "novos mártires", isto é, os religiosos assassinados ou mortos durante o regime comunista. Os kraevedenie de igreja são de fundamental importância principalmente por resgatar arquivos, memórias de sobreviventes e descobrir cemitérios abandonados nas antigas igrejas. Junto a eles atuam os chamados "empreendedores religiosos" que empenham parte de seu tempo e recursos pessoais para realizar e organizar procissões religiosas, restaurar ícones, recuperar e reconstruir igrejas destruídas e criar os chamados "locais sagrados" para visitação, como o novo memorial projetado em Kaluga para a veneração dos novos mártires.

A política de memória na Rússia também procura reabilitar a memória de civis e militares, principalmente dos soldados mortos na Segunda Guerra Mundial. A chamada "Grande Guerra Patriótica" é considerada, como comenta Angelo Segrillo em "Os Russos" , um momento de enorme trauma, significando praticamente uma refundação do país. Calcula-se que sete mil cidades tenham sido destruídas e até 27 milhões de pessoas tenham morrido neste evento, sendo 100 mil apenas no pequeno distrito de Kaluga.

Os kraevedenie também estão envolvidos neste resgate histórico secular, principalmente na descoberta e catalogação das covas coletivas, atividade que envolve principalmente grupos militares e veteranos. Milena comenta que é através da identificação dos mortos e de um novo funeral digno que ocorre uma "sacralização" dos soldados, vistos como heróis, "mártires" civis da Rússia. "Os mortos anônimos", comenta a antropóloga, "são transformados em heróis via personificação e o 'enterro apropriado'" (p. 20).

A canonização dos novos mártires e principalmente a identificação de heróis nacionais funcionam como uma forma de lidar com o passado traumático, não só da guerra como também da perseguição antirreligiosa. Alguns dos kraevedenie que formaram sua vida acadêmica durante a União Soviética hoje têm de lidar com arquivos da KGB, onde estão documentados muitos dos crimes cometidos contra religiosos como assassinatos, prisões e perseguições. O legado aparentemente irreconciliável do terror comunista contra religiosos e cidadãos comuns é transformado num passado "positivo" através da veneração dos heróis e a canonização dos mártires.

(Catedral de Cristo o Salvador, em Moscou, Sede do Patriarcado de Moscou da Igreja Ortodoxa Russa. Foi destruída pelos bolcheviques a mando de Stálin, em 1931, e reconstruída a partir de 1990 durante o governo Yeltsin. Foi consagrada em 19 de agosto de 2000.) 

No atual governo de Vladimir Putin (2013-2018), existe uma clara tentativa por parte do Kremlin de se aproximar e instrumentalizar ideologicamente os discursos do alto clero da Igreja Ortodoxa sobre a história do país. Esta instrumentalização, que aparece inclusive em declarações públicas de Putin, fomenta a ideia da Rússia como civilização distinta das demais, única e original, em oposição ao Ocidente. Seria através do retorno às suas raízes culturais e o resgate da tradição que a Rússia conseguiria cumprir seus papel como potência a qual está destinada a ser. Desta forma, toda a história russa, inclusive o período comunista, é considerada "sagrada" e necessária como parte de uma experiência única de um povo distinto dos demais. Nas palavras do próprio Putin:

"Muita gente comenta sobre o Túmulo de Lênin, dizendo que ele não corresponde à tradição. O que não corresponde à tradição? Visite apenas o Pechersk Lavra de Kiev ou vá ao Monastério de Pskov, ou ao Monte Athos. Você verá halos de pessoas santas lá. Vá em frente, você pode ver isto tudo lá. Portanto, os comunistas continuaram a tradição mesmo a respeito disto e continuaram competentemente, de acordo com as demandas daqueles tempos." [tradução livre]

(Parada militar em Moscou no Dia da Vitória, comemorado em 9 de maio: o período comunista reabilitado como parte da história "sagrada" da Rússia.)

É possível ver claramente na declaração de Putin a política de memória levada à cabo no seu governo. Por isso o estímulo oficial de um resgate histórico e uma transformação valorativa do período comunista, de onde foram resgatados os novos mártires e heróis da Rússia. Esta política abrange parte do alto clero da Igreja Ortodoxa Russa, além de lideranças e fiéis ortodoxos chamados de "fundamentalistas" e grupos nacionalistas. Estes dois últimos nutrem uma extrema rejeição a todas as influências do Ocidente e reivindicam a canonização de figuras civis de destaque na história russa, inclusive o ditador Josef Stálin. O pesquisador Igor Torbakov, da Universidade de Uppsala, na Suécia, comenta esta tentativa do governo russo de sintetizar as contradições da história russa numa única narrativa:

"Nas palavras de Frederick Corney: 'Putin estava oferecendo uma narrativa da história moderna russa nas quais as turbulências do passado da Rússia serviram meramente como um pano de fundo do progresso recente, e oferece uma reconciliação de verdade' [destaque do autor]. Assim como sua base de apoio consiste de uma ampla coalizão compondo grupos sociais heterogêneos, o regime, na sua questão de legitimidade histórica, busca sintetizar elementos dispersos dos diferentes 'passados' da Rússia numa espécie de fusão eclética. 'Ele tenta unir, ainda que desconfortavelmente, vários aspectos idealizados dos passados czarista, soviético e dos emigrados' e apresenta esta mistura como 'história sem culpa ou dor'". [tradução livre]

A busca por uma verdade indivisível, o fascínio com o irracional, a esperança por encontrar um caminho especial, um destino, uma missão concedida por Deus e/ou pela História são discursos recorrentes entre os intelectuais russos da era pós-soviética, amalgamando todas os acontecimentos e correntes ideológicas num corpo único. Nada mais exemplar destas características do que o pensamento neo-eurasiano de Alexandr Dugin, tantas vezes mencionado neste blog, ou a composição extremamente heterogênea dos membros e grupos ligados ao Partido Rússia Unida de Putin.

A Rússia busca por uma unidade absoluta, uma totalidade que unifique tudo e todos num nova identidade nacional. A política de memória de Moscou é um aspecto desta tentativa de resgatar ou criar uma nova identidade russa, unificando sucessos e traumas, heróis e mártires, crimes e atos de santidade e "santos" de todos os espectros da sociedade russa, mesmo que não sejam tão santos assim.

quarta-feira, 2 de março de 2016

Theotokos e o mito da "Terceira Roma"


(Theotokos de Vladimir. Há inúmeras cópias da original por todo o mundo.)

               Nossa Senhora é muito venerada no cristianismo ortodoxo e sua presença na fé e cultura entre os povos desta religião é muito marcante.

               O ícone mais comum de Nossa Senhora na ortodoxia é Theotokos, que em grego significa "Mãe de Deus". A Rússia, país com maior população ortodoxa do mundo, recebeu da antiga Bizâncio esta vertente do cristianismo, bem como tradições artísticas, a forma de governo e muitos elementos que regem a ordem social. Historicamente os russos chamavam a sua terra de "Lar da Santíssima Mãe de Deus", numa referência da nação como detentora de uma herança cristã, ao seu ver legítima, e expressa no mito da "Terceira Roma" desenvolvido a partir do final do século XV. Theotokos é a padroeira protetora da Rússia.

               Mas qual é a relação entre a figura da Mãe de Deus e a "Terceira Roma"?

               Theotokos é um dos elementos, entre crônicas históricas e textos filosóficos, que ajudaram a criar ou foram utilizados para legitimar a ideia de que a Rússia era herdeira legítima de Bizâncio, a "Segunda Roma" (sendo a cidade de Roma a "primeira"). 

               Segundo o historiador Andrew Wilson no seu livro The Ukranians. Unexpected Nation, o ícone de Theotokos que está relacionado à legitimação do poder dos reis da antiga Rus de Kiev foi trazida da então Constantinopla para a região de Kiev em 1134, tendo sido fabricado em torno de 1120. A Virgem de Vyshhorod (cidade próxima a Kiev), como ficou conhecida na época, era um dos principais símbolos da autoridade divina dos reis kievanos. Este mesmo ícone é hoje conhecido como Nossa Senhora de Vladimir, ou Theotokos de Vladimir.

(Monastério de Pechersk, em Kiev, um dos principais centros religiosos de todo o mundo ortodoxo, museu do Estado e sede da Igreja Ortodoxa Russa na Ucrânia.)

               Depois do cisma entre a Roma e Constantinopla em 1054 que deu origem à divisão católicos-ortodoxos, houve algumas tentativas de estabelecer autocefalia, isto é, autonomia das igrejas ortodoxas locais em relação ao patriarcado de Kiev. Estas iniciativas surgiram ainda no mesmo século do cisma quando iniciaram divergências entre os chefes ortodoxos regionais e aqueles mais fiéis à Kiev.

(Catedral de Dormição em Vladimir, Rússia, para onde foi levada Theotokos de Vladimir.)

               Um dos marcos da divisão entre um ramo setentrional e outro meridional da ortodoxia (e que futuramente ajudaria a moldar a distinção identitária entre Rússia e Ucrânia) foi a captura do ícone de Nossa Senhora de Vyshhorod pelo príncipe kievano Bogoliubski, em 1155, e sua deslocamento para a Catedral da Dormição na cidade de Vladimir, que daria o novo nome ao ícone. Bogoliubski tentou empossar um protegido seu, Feodor, como metropolita da cidade aprofundando as divergências norte-sul. Mais tarde, Feodor foi capturado e levado para Kiev, sendo executado em 1169 provavelmente por divergências políticas e/ou religiosas. O roubo do ícone e a tentativa do príncipe  de empossar um aliado seu como líder ortodoxo local foi uma tentativa de legitimar Vladimir, ao norte, como sucessora legítima do legado histórico da Rus às custas de Kiev, transformando a cidade no centro da ortodoxia eslava.

(Príncipe Bogoliubski, venerado na Igreja Ortodoxa como santo.)

               O ícone foi transferido para o Kremlin de Moscou em 1395, e atribui-se a ele a vitória do principado de Moscóvia na detenção do ataque mongol liderado por Tarmelão. A cidade de Moscou, que deu origem ao principado, havia sido fundada por um "nortista", Yurii Dolgorukii, em 1147, o que mostra que desde sua origem esta cidade e Kiev estiveram em polos opostos sobre legitimidade do legado da antiga Rus.

               O choque da queda de Constantinopla em 1453 e a consequente tentativa de legitimar o novo papel de Moscóvia foram os principais acontecimentos que outorgaram à Rússia o título de "Terceira Roma" e sua pretensão de liderança da ortodoxia. Segundo Wilson, a soberania da Rússia sobre "toda a Rus" seria uma "tradição inventada", tese também sustentada a respeito da doutrina da Terceira Roma pelo historiador de Harvard, Marshall Tillbrook Poe.

               Wilson afirma que esta tradição tem raíz na transferência do ícone de Nossa Senhora de Vladimir para Moscou em 1395 e a primeira tentativa por parte do rei Simeon, o Orgulhoso, de tomar controle total sobre a Igreja Ortodoxa da Rus. O objetivo era tornar o reino guardião da ortodoxia e do legado da Rus de Kiev sob a presença da Theotokos. O historiador também enumera que alguns eventos históricos foram determinantes para o crescimento do poder de Moscóvia a partir do século XV: a autocefalia da Igreja Ortodoxa Russa em 1448, temendo a queda de Constantinopla para os muçulmanos; a consequente ascensão das pretensões do reino moscovita em função desta queda; e a expulsão definitiva dos mongóis da região em 1480. Logo após a criação da Igreja na Rússia, o Estado passou a divulgar uma série de crônicas que legitimavam a nova autoridade religiosa de Moscóvia.


(Príncipe Ivan III, primeiro dos monarcas russos a receber as cartas de Filofei.)

               Em fins do século XV a doutrina da Terceira Roma já circulava em cidades russas como Tver e Novgorod, sendo nesta última o primeiro registro expresso deste termo. Foi a partir do reinado do Grão Duque de Moscóvia, Vasili III (1505-1533), que começou a penetração do mito nos círculos oficiais do reino. O primeiro registro que chega às autoridades ocorre com Filofei, monge de Pskov, próximo a Moscou, que em 1523-24 escreve uma série de cartas para um representante de Vasili III na sua cidade, para o próprio Vasili e depois para seu sucessor, Ivan IV, o Terrível. Para o monge, Roma havia caído em heresia, e Constantinopla havia sido punida por Deus com o domínio muçulmano pela tentativa de se reunir com Roma no Concílio de Florença (1439). Desta forma, Moscóvia era o único reino herdeiro legítimo do cristianismo e o sucessor natural de Bizâncio, já que todos os demais reinos cristãos haviam caído nas mãos dos inimigos. O lugar de um novo império cristão estava vazio, e cabia aos russos ocupar este espaço. Segundo Filofei, profecias (as quais ele não indica a fonte) afirmavam que não havia de existir uma "Quarta Roma", estando Moscóvia com a missão de edificar um império com o objetivo de proteger e divulgar a verdadeira fé cristã até o fim dos tempos. Assim, o Estado moscovita tornava-se o protetor do cristianismo. Para cumprir este papel, o líder deveria ser excepcionalmente hábil e com inteligência capaz de guiar o reino numa missão universal e escatológica. O rei, portanto, agia sob inspiração do próprio Deus, sendo sua autoridade sobre o império e seu papel como protetor da igreja divinamente conferido. Moscóvia legava a "autoridade divina" de Bizâncio, então protetora de Constantinopla.

               A ideia da "Terceira Roma" aparece pela primeira vez num texto oficial em 1547 na  coroação de Ivan IV como Czar da Rússia, cujo significado remonta à "César", conferindo ao líder projeção imperial. O texto da coroação foi escrito ou inspirado pelo então metropolita Makary, um dos formuladores da doutrina da Terceira Roma na época. Em 1589, cinco anos após a morte de Ivan, a Igreja Ortodoxa Russa foi elevada a patriarcado.  Nesta data, Constantinopla esta estava sob ocupação muçulmana há quase 150 anos e dependia de recursos dos russos para se manter. Esta dependência de Moscou favoreceu a elevação da cidade ao seu novo status eclesial.

(Catedral de São Basílio na Praça Vermelha em Moscou, símbolo máximo da Rússia, ao lado da Spasskaya, a principal torre dos muros do Kremlin.)

               Com a tomada de Kazan, capital do kanato adversário da Rússia, Ivan IV ordenou a construção da Catedral de São Basílio, em Moscou, hoje principal símbolo do país. Os oitos dias do cerco de Kazan são representados pelas oito igrejas que formam a estrutura da catedral, tendo uma nova igreja ao centro. Apesar do nome São Basília, a nomenclatura oficial é uma referência à Theotokos: Catedral da Intercessão da Santíssima Mãe de Deus. As oito igrejas também formam uma estrela de oito pontas, número símbolo da ressurreição de Cristo, e faz referência à estrela de Belém que guiou os reis magos até Jesus. A urbanização da cidade centrada na Praça Vermelha e no Kremlin mostra claramente, no plano arquitetônico, Moscou como guia da Rússia e de todo o cristianismo (ver pág. 95). A ideia de Moscou como guia da fé é fortalecida quando o mito da Terceira Roma sacraliza a cidade ao chamá-la de Nova Jerusalém. Moscou é a nova terra prometida.

               Após o reinado de Ivan, o mito da Terceira Roma circulou apenas entre religiosos ortodoxos, mais especificamente os staroveri, ou "velhos crentes", grupo religioso que nega como heréticas as reformas modernizantes da Igreja Russa no século XVIII, não havendo menção da doutrina em documentos de Estado. O reino (e depois império) russo se expandiu sem referências oficiais ao messianismo original. Apenas na metade do século XIX a "Terceira Roma" voltou às vozes dos intelectuais, especialmente a partir da década de 1860 com as publicação das cartas de Filofei. Não por acaso, Alexander Dugin, principal ideólogo do Kremlin e responsável pela reformulação da geopolítica russa sobre bases messiânicas, considera os velhos crentes o depositário da verdadeira tradição ortodoxa e, portanto, da legítima tradição espiritual do povo russo.

             A grande popularização do mito da Terceira Roma levou muitos intelectuais a promoverem uma missão nacional, um messianismo propriamente russo, a exemplo do universalismo cristão de Soloviev. A disseminação e ascensão do comunismo encontrou ressonância de sua missão escatológica entre os intelectuais da época, e até as décadas recentes outros movimentos surgiram propondo à Rússia uma nova missão para o mundo, a de conquista da Eurásia, do Ártico e mesmo do espaço.

               Após habitar por séculos a Catedral da Dormição dentro do Kremlin de Moscou, Theotokos foi retirada para restauração no período bolchevique e hoje está guardada na Galeria Estatal de Tretyakov. Apesar de não estar mais dentro dos muros do Kremlin, ela ainda goza de proteção do Estado. Legítimo ou não, a imagem da Mãe de Deus, Nossa Senhora de Vladimir, continua vinculada ao poder russo, que ainda acredita ter de cumprir no mundo uma missão, seja ela divina ou humana.