segunda-feira, 5 de fevereiro de 2018

O filósofo mais perigoso do mundo (por Paul Ratner)

(Dugin manejando um lançador de foguetes na Ossétia do Sul, Geórgia, pouco antes da Guerra Russo-Georgiana em agosto de 2008.)

         O texto a seguir foi escrito em 2016 pelo escritor e cineasta Paul Ratner, contribuinte do site Big Think, e discute as ideias do filósofo russo Alexander Dugin. A importância do texto está no destaque que Ratner dá ao conteúdo escatológico da filosofia de Dugin e os paralelos entre seu pensamento e os últimos acontecimentos da política russa. Segundo o autor, o governo Putin está colocando em prática as ideias do filósofo, razão pela qual considera que "é difícil não levar as ideias de Dugin a sério".

          Mantive os links de referência e as fotos originais publicadas no texto e fiz alguns observações no final. A tradução é minha. 

          Boa leitura.

       O filósofo mais perigoso do mundo

        As relevações sobre o envolvimento da Rússia no hackeamento dos funcionários do Partido Democrata, com a intenção de fazer Trump vencer Hillary, adicionou mais combustível a um ciclo eleitoral já exaustivo e extenuante. Por que a Rússia faria isso, especialmente já que se revelou que o presidente russo Vladimir Putin provavelmente estava dirigindo pessoalmente a operação? Entre com Alexander Dugin, o cientista político conhecido como "Rapustin de Putin" ou "Cérebro de Putin", bem como um fascista ocultista. Ele é também um professor de sociologia na prestigiosa Universidade Estatal de Moscou*, um escritor prolífico, um assessor de figuras-chave de membros política e do meio militar e um articulador de uma filosofia nacionalista sancionada pelo Kremlin
          
          Ele também esteve na lista de sanções americanas após a aquisição da Crimeia pela Rússia, por defender o assassinato de ucranianos, entre outras coisas.**

        Não que Dugin seja pessoalmente responsável pelos hackeamentos, que atualmente são explicados como uma vendeta pessoal de Putin contra Clinton. Mas a influente filosofia de Dugin se alinha muito bem com o que parece ter acontecido e oferece uma excelente abordagem sobre o tema e em futuros conflitos com a Rússia. Provavelmente há motivos muito mais profundos por trás das ações russas.

          Alexander Dugin é ao mesmo tempo sociólogo, historiador e filósofo. Você pode encontrar várias de suas exposições on-line no Youtube, embora ajudaria se você soubesse russo. Ele mesmo fala dez línguas. Entre suas muitas opiniões controversas, ele expressou visões profundamente anti-científicas, pedindo a proibição da química e da física. Ele também se livraria da internet***, uma visão anti-tecnológica que, em última análise, decorre do seu desejo de dar um fim no mundo como o conhecemos.  

(Crédito: Dugin.ru)

        O que ele propõe é que havia três principais teorias políticas que impactaram o mundo no passado relativamente recente - o capitalismo liberal ou "liberalismo", o comunismo e o fascismo. De acordo com Dugin, os EUA são o líder do liberalismo, o qual oferece liberdade, uma abordagem racionalista e uma concorrência de mercado.

        Embora o liberalismo tenha sido a ideologia vitoriosa até agora, triunfando sobre o fascismo em 1945 e o comunismo em 1991 (quando a URSS se dissolveu), Dugin pensa que agora ele também experimenta uma crise fatal. Ele acredita que os próprios liberais seriam os primeiros a afirmar isto. Dugin considera que o liberalismo está próximo de um beco sem saída, atolado atualmente num "estágio pós-moderno niilista" porque está tentando se libertar do pensamento racional e da opressão do cérebro, que para um liberal é "algo fascista em si". Dugin dá um passo além, afirmando o liberalismo de hoje como algo que está tentando libertar os órgãos do corpo do controle do cérebro, aludindo à sua aceitação pela comunidade LGBT. 

          Aqui está como ele explica esse racioncínio:
"O liberalismo insiste na liberdade e na libertação de qualquer forma de identidade coletiva. Esta é a própria essência do liberalismo. Os liberais tem libertado o ser humano da identidade nacional, da identidade religiosa e assim por diante. O último tipo de identidade coletiva é o gênero. Então, há tempo de aboli-lo fazendo-o arbitrário e opcional".
          O que Dugin propõe em vez do que ele vê como três ideologias mortas e moribundas é sua "Quarta Teoria Política". Ela criaria um modelo político totalmente alternativo, contra o "progresso" da história mundial tal como é. Não seria baseada nas questões de individualismo, nação ou nacionalismo. Dugin vê essa teoria como parcialmente baseada no trabalho do filósofo existencial alemão Martin Heidegger, controverso com sua associação com o nazismo. Sua filosofia apresenta uma raiz da autoconsciência humana (chamado por Heidegger de dasein) a ser salva no mundo, já que tem sido diluída pelo espaço moderno pela tecnologia essencialmente desumanizadora.

          Já que essa raiz do ser difere de pessoa a pessoa e de cultura para cultura, o mundo deveria ser caracterizado por uma divisão de poder multipolar, ao contrário de uma superpotência nos EUA. Encontrar uma maneira de implementar uma forma tão nova de ver o mundo, segundo Dugin, seria retornar a um senso de identidade que os humanos têm perdido em todo o mundo.

          Dugin contrasta sua teoria de um mundo multipolar com o que ele (e teóricos da conspiração no mundo inteiro) vê como uma movimento em direção à criação de um "governo mundial" liderado por "elites globalistas" dissimuladas, que estão dispostas a privar as pessoas de um senso de identidade e subjugá-las às suas necessidades corporativas.

          Neste mundo de um certo número de superpotências regionais, qual seria o papel da Rússia? Dugin vê a Rússia como a nação líder na União Eurasiana e fundou o Movimento Eurasiano Internacional para alcançar este objetivo.

          O que é a Eurásia? Basicamente, é o território da antiga União Soviética. Dugin pensa que a União Soviética apenas tomou de volta as fronteiras de uma histórica união de povos e etnias que estavam lá desde o Império Russo. Como a Rússia é um país de cultura e destino únicos, é sua missão criar um centro de poder que tenha elementos da Europa da Ásia, os dois continentes abraçados pela expansividade do país.
"O Ocidente sabe pouco ou nada sobre a real história da Rússia. Às vezes eles pensam que a União Soviética era puramente uma criação comunista e estados como Ucrânia, Cazaquistão ou Azerbaijão eram independentes antes da URSS e foram conquistados pelos bolcheviques ou forçados a entrar no estado soviético," diz Dugin. "O fato é que eles nunca existiram ou representaram como tais, mas como distritos administrativos sem qualquer significado político ou cultural dentro do Império Russo, bem como dentro da URSS. Estes países foram criados artificialmente em suas atuais fronteiras apenas depois do colapso da URSS e como resultado deste colapso".  
          Assim, o objetivo do estabelecimento da União Eurasiana seria essencialmente corrigir um erro histórico e trazer de volta um império bem sucedido que existiu ainda antes da União Soviética. A recente aquisição da Crimeia pela Rússia e demais projetos na Ucrânia parecem ser uma parte lógica de tal plano.

          Dugin vai ainda mais fundo em sua muito controversa análise histórica, afirmando que o atual oponente da Eurásia não é apenas os Estados Unidos, mas o Atlanticismo, o eixo de cooperação entre Europa, EUA e Canadá que cruza o Oceano Atlântico. Essas nações marítimas e liberais valorizam a individualidade e as forças de mercado.         

          A Eurásia, por outro lado, representa a filosofia conservadora do continentalismo terrestre, que de acordo com os eurasianistas tem entre seus valores a estrutura hierárquica, a lei e a ordem, o tradicionalismo e a religião.

          Portanto nós temos Atlantis versus Eurásia. De fato, Dugin afirma que toda a história pode ser vista como uma batalha entre as nações marítimas e terrestres.     

        O que Dugin pensa sobre a vitória de Trump? Ele esteve muito entusiasmado com Trump ao longo de todo o processo eleitoral, para dizer o mínimo, descrevendo-o desta forma para destacar porque Trump é uma "sensação" que pode enfrentar as elites globalistas:
"[Donald Trump] é difícil, grosseiro, fala o que pensa, rude, emocional e, aparentemente, sincero. O fato de que ele é bilionário não importa. Ele é diferente. Ele é um americano comum extremamente bem sucedido..."  

          Dugin acha que a vitória de Trump é um golpe monumental contra os "globalistas", cuja candidata era Hillary Clinton - a mesma linguagem que você pode facilmente encontrar em apimentados sites americanos conservadores como Breitbart News, Drudge Report e o rei da conspiração Alex Jones (um dos favoritos de Dugin). Ele acha que a vitória de Trump foi um tipo de "revolução" iniciada pelo povo americano e deve levar a derrotas mundiais da agenda globalista, drenando o proverbial "pântano" em todo o mundo.   

          Entretanto, Dugin não para aí. Suas visões sobre qual é o significado da vitória de Trump implicam em mergulhar numa mudança apocalíptica e civilizacional:
"Nós precisado retornar ao Ser, ao Logos, à ontologia fundamental (de Heidegger), ao Sagrado, à Nova Idade Média - e portanto ao Império, à religião e às instituições da sociedade tradicional (hierarquia, culto, domínio do espírito sobre a matéria e assim por diante). Todo o conteúdo da modernidade é Satanismo e degeneração. Nada tem valor, tudo está para ser eliminado. A Modernidade está absolutamente errada - ciência, valores, filosofia, arte, sociedade, modas, modelos, 'verdades', compreensão do Ser, do tempo e do espaço. Tudo está morto com a Modernidade. Portanto ela deve acabar. Nós vamos acabar com isso."
          Está certamente não seria a primeira vez na história recente que um russo pensou que tudo está errado e que o mundo precisa ser completamente purgado. Nós sabemos como isso terminou. E os elementos sobrenaturais de algumas coisas que Dugin está dizendo, junto com sua barba, talvez mereçam a comparação com Rasputin. Mas Dugin acredita que medidas concretas deveriam ser tomadas para realizar sua visão de mundo? 

          Curiosamente, antes da vitória de Trump, influentes porta-vozes conservadores americanos, como a National Review, estavam alertando para as intenções da Rússia, destacando especificamente a ameaça que a ideologia de Dugin representava, chamando o eurasianismo de "um culto satânico". Agora que Trump venceu e que a Rússia estava implicada na interferência eleitoral, eles não estão tão interessados em abordar esta questão.

          Será que Putin realmente ouve Dugin. Acadêmicos e comentaristas dizem que sua ideias são levadas à sério por pessoas no círculo de Putin e sua crescente popularidade coincide com o autoritarismo e as ações em andamento de Putin. Notavelmente, em 2008 Dugin veio em apoio à tomada da Geórgia pelas tropas russas e se inflamou durante o conflito Rússia-Ucrânia de 2014, pedindo pelo massacre de ucranianos e a anexação de terras ucranianas que eram parte do antigo Império Russo.

          Para saber o que Dugin deve especificamente defender, podemos olhar seu livro mais vendido "O Fundamento da Geopolítica" de 1997, que teve particular sucesso entre os militares russos e de acordo com a Foreign Policy (e as próprias palavras de Dugin) é designado para leitura nas universidades militares russas.       

          O livro descreve uma perspectiva para a Rússia no século XXI que levaria à formação da Eurásia, mas também inclui estratégias específicas para derrotar ou neutralizar os EUA. Estas incluem campanhas de desestabilização e desinformação utilizando as forças especiais russas e a guerra assimétrica, dividindo as alianças entre os EUA e países como Alemanha e França, bem como a fermentação da divisão dentro do próprio país, destacando especialmente as relações raciais. Na página 367 da primeira edição do livro, Dugin explica:     
"É especialmente importante introduzir desordem geopolítica dentro da atividade interna americana, encorajando todos os tipos de separatismos e conflitos étnicos, sociais e raciais, apoiando ativamente todos os movimentos dissidentes - grupos extremistas, racistas e sectários, desestabilizando, portanto, os processos políticos internos nos EUA. Também fazeria sentido apoiar simultaneamente as tendências isolacionistas na política americana..." 
          Depois de nossas eleições hiper-divisivas, cheia das calamidades descritas acima, diante de uma investigação cada vez mais aberta sobre interferência russa em nossa mais estimada instituição democrática, é difícil não levar à sério as ideias de Dugin. Com a vitória de Trump, Dugin recuou um pouco em pintar os EUA como inimigo número um. Também foi relatado que o relacionamento entre Dugin e Putin pode ter esfriado recentemente, com Dugin criticando Putin por ser "muito lento" em realizar sua visão de mundo. Mas, olhando os fatos com os pés no chão, é possível concluir que Putin ainda pode estar jogando um longo jogo orientado à Eurásia, que não vai se encerrar apenas nos embaraçosos e-mails do Wikileaks. Especialmente à luz do fato de que agora os EUA se encontram numa posição vulnerável, buscando por uma filosofia unificadora e por um caminho a seguir.

          Aqui está um artigo sobre Dugin e seu livro feito por John B. Dunlop do Hoover Institution. Se você sabe russo, você pode ler o livro aqui.     

* No site Academia.edu, Dugin apresenta-se como membro da universidade.

** Também consta na lista ampliada de sanções do Canadá publicada em 2015. Em maio de 2016, ele chegou a ser barrado de entrar na Grécia, território da União Europeia, a pedido de autoridades húngaras, mas logo foi liberado. Dugin não está na lista de sanções do bloco.

*** De acordo com uma reportagem publicada pela agência de notícias BalticInfo através de sua filial em São Petersburgo, numa palestra realizada nesta cidade em junho de 2012 Dugin declarou, para espanto da platéia, que "se nós quisermos dar um fim no Ocidente, temos que dar um fim nos textos de química e física". Sobre a internet, o filósofo russo afirmou que "uma pessoa envolvida numa rede, e não numa organização territorial, torna-se um cidadão do mundo depois de usar a internet". De acordo com o jornalista Vladislav Golyanov, autor da reportagem, a palestra de Dugin versou sobre o confronto entre o Ocidente e os Estado nacionais, e suas declarações sobre as ciências e a internet ocorreu dentro de uma perspectiva religiosa. Disso se deduz que as ciências química e física e a internet devem ser combatidas no contexto da guerra contra o Ocidente. (O texto do link está traduzido do russo para o inglês pelo Google Translator.)  

terça-feira, 2 de janeiro de 2018

The "unknown woman" and the search for Russia´s national identity

(Painting "Portrait of an Unknown Woman", by Ivan Kramskoi. The painting is exposed at Tretyakov Gallery, in Moscow.)

          A few weeks ago I´ve got very impressed when I saw the image in the painting reproduced above. It´s name is "Portrait of an Unknown Woman" by the Russian painter Ivan Kramskoi, 1883. When I opened the screen it seemed I was in front of a real woman. Her deep gaze blends arrogance with seduction, and it´s further pronunced by the contrast of the face with the dark dress and the snowy enviroment in the background. It seemed the woman would jump off the painting to talk with me or go beyond a mere conversation.

          Kramskoi was part of "The Itinerants" (Peredvyhznyky), group of Russian painters who sought to educate the people throught art, travelling and holding exhitions of their works in the Russia´s interior. According to Orlando Figes in the book Natasha´s Dance: A Cultural History of Russia, in the early 1860´s these painters moved away from the Academy of Arts of Saint Petersburg (today Imperial Academy of Arts) and, rejecting the European classicism of this school, they began to work with what the author calls "Russian style", inspiring themselves in the people´s folkloric and religious traditions. The withdraw happened with the rebellion of fourteens students of the academy who was known as "Wanderers", led by Kramskoi, who demanded freedom of choice in the paintings content. Many artist of this trend worked at the Stroganov School of Arts (today Stroganov Moscow State University of Industry and Arts), which received people of vairous social classes and who, therefore, knew the diversity of Russian society. They were sponsored by the great merchants of emergent Moscow, among them Pavel Tretyakov, railroads magnate and Russian arts collector who names the gallery where Kramskoi´s painting stands. The Russian painter was one of those sponsored by Tretyakov and was an important portraitist of the time, having reproduced people of the cultural milleu such as the Russian writer Lev Tostoy and Ukrainian poet Taras Shevchenko. In Figes´ words, Kramskoi "painted against a simple background and concentrated on the face, attracting the spectators to the eyes and forcing them to penetrante in the inner world of the people whom they had treated as slaves until yesterday"* (Chatper 4, part 2). The author referes to the servitude regime which was in effect in Russia until it´s abolition by Tzar Alexander II in 1861. 

          In Kramskoi´s time all the Russian intelligentsia was obsessed in understanding the peasant, discovering their people´s identity and answering the question: "who are we?" The question crossed the whole 19th century and, despite the supression of the Soviet regime throughout the 20th century, the search for an answer continued with Slavophiles and Eurasianist and continuous to this day. This doubt came to light strenghtly with the invasion of Russia by Napoleon in 1812, crushing the idea of an Europe as source of civilization, which led the first Russian artists and intellectuals to question the true identity of their people and the path that Russia should follow in the future. But the issue had already began to emerge a little earlier, around 1800, when it was flourishing a Russian "national" culture still dominated by an idealized image of Europe. In the view of the early artists, the imperial court and it´s Europenized city, Saint Petersburg, were artifical and strange to the Russian culture. Satires and plays sought to identify who was the "Russian" in contrast to the European inhabitant. In Orlando Figes´ words:

"Against the background of this domination by Europe, satires (...) began to define the Russian character in distintive terms other than Western values. These writers established the antithesis between the foreign artifice and the native truth, European reason and heart of the Russian soul which would be the basis of the national narrative of the 19th century. At the heart of this discourse was the ancient romantic ideal of the native soil - an 'organic'  and pure Russia, not corrupted by civilization. Saint Petersburg was just deceit and vanity, a narcissistic dandy watching all the time his reflection on the Neva River. The real Russia was in the provinces, a place without pretensions or foreign conventions where the simple 'Russian' virtues were preserved."* (Chapter 1, part 5)   

          The figure of the unknown woman wasn´t a peasant, not even a common "citizen" as we conceive in the modern society. Judging by the time and the bakcground of the picture, the woman resembles a noble or member of the emerging merchant class. But this is part of "real" Russia, to use a word that can define the ideal sought by the Russian artists of the 19th century. Despite not beeing a peasant, the unkonown woman composes part of the national synthesis dreamed by these artists and, more especifically, by movements like the populist and "native soil". The first appeared 1874 and worked with the peasants promoting education, arts and political activism of socialist profile and aimed to lead Russia to development combining the European way with the people´s traditions; the second, which emerged at the same time, was a cultural movement composed of writers which published texts that extolled national unity and appealed to the artists to portray the people´s life and bring them the Western culture. The populists and members of the "native soil" wanted to unite the different parts of society into a single nation, to realize the national synthesis between the noble and the peasant.

          The Kramkoi´s painting offers a plunge into the Russian soul through the beautiful and seductive look of the unknown woman, face which offers to us a facet of a multifaceted nation. It´s an attempt to translate what Kramskoi saw at the streets while probing the question "who are we?" Art has this strength, of seeing the reality of the other, of a distant people, as if we were there and we were part of their identity.

* Free translation of the author.
** Published in Portuguese on December, 24th 2017.

domingo, 24 de dezembro de 2017

A "mulher desconhecida" e a busca pela identidade nacional da Rússia

(Quadro "Retrato de Uma Mulher Desconhecida", de Ivan Kramskoi. Pintura está exposta na Galeria Tretyakov, em Moscou.)

Há algumas semanas atrás fiquei muito impressionado quando via a imagem do quadro reproduzido acima. Seu nome é "Retrato de uma Mulher Desconhecida", do pintor russo Ivan Kramskoi, de 1883. Quando abri a tela parecia que estava em frente a uma mulher de verdade. Seu olhar profundo mistura arrogância com sedução, e ficam mais acentuados pelo contraste do rosto com a vestimenta escura e o ambiente nivoso ao fundo. Parecia que a mulher saltaria do quadro para falar comigo ou ir além de uma mera conversa.

          Kramskoi fazia parte de "Os Itinerantes", grupo de pintores russos que buscava educar o povo pela arte, viajando e realizando exposições de suas obras no interior da Rússia. Segundo Orlando Figes no livro Uma história cultural da Rússia, no início da década de 1860 estes pintores se afastaram da Academia de Artes de São Petersburgo (hoje academia Imperial de Artes) e, rejeitando o classicismo europeu desta escola, passaram a trabalhar com aquilo que o autor chama de "estilo russo", inspirando-se nas tradições folclórica e religiosa do povo. A retirada ocorreu com a rebelião de catorze estudantes da academia que ficaram conhecidos como "Vagantes", liderados com Kramskoi, que exigiam liberdade de escolha no conteúdo das pinturas. Muitos artistas desta corrente trabalharam na Escola de Artes Stroganov (hoje Universidade Estatal de Moscou de Artes e Indústria Stroganov), que recebia pessoas de variadas classes sociais e que, portanto, conheciam a diversidade da sociedade russa. Eles eram patrocinados pelos grandes mercadores da emergente Moscou, entre eles Pavel Tretyakov, magnata do setor de ferrovias e colecionador de arte russa que dá nome à galeria onde está o quadro de Kramskoi. O pintor russo foi um dos patrocinados por Tretyakov e era importante retratista da época, tendo reproduzido personalidades do meio cultural como o escritor russo Lev Tostoy e poeta ucraniano Taras Shevchenko, além do czar Alexandre III. Nas palavras de Figes, Kromskoi "pintava contra um pano de fundo simples e se concentrava no rosto, atraindo os espectadores para os olhos e forçando-os a penetrar no mundo interior das pessoas que ontem mesmo tinha tratado como escravas" (p. 296). O autor faz referência ao regime de servidão que vigorou na Rússia até sua abolição pelo czar Alexandre II em 1861.

          Na época de Kramskoi toda a intelectualidade russa estava obcecada por compreender o camponês, descobrir a identidade de seu povo e responder à questão: "quem somos nós?". A pergunta atravessou a totalidade do século XIX e, apesar da supressão do regime soviético ao longo do século XX, a busca por uma resposta continuou com os eslavófilos e eurasianistas e se mantém até hoje. Esta dúvida veio com força à tona com a invasão da Rússia por Napoleão em 1812, fazendo desmoronar a ideia de uma Europa como fonte de civilização, o que levou os primeiros artistas e intelectuais russos a questionar a verdadeira identidade de seu povo e o caminho que a Rússia deveria seguir no futuro. Mas a questão já começara a aflorar um pouco antes, em torno de 1800, época em que germinava uma cultura "nacional" russa ainda dominada pela imagem idealizada da Europa. Na visão dos primeiros artistas, a corte imperial e sua cidade europeizada, São Petersburgo, eram artificiais e estranhas à cultura russa. Sátiras e peças teatrais buscavam identificar quem era o "russo" em contraste com o habitante europeu. Nas palavras de Orlando Figes:

"Contra o pano de fundo dessa dominação pela Europa, sátiras (...) começaram a definir o caráter russo em termos distintos dos valores do Ocidente. Esses escritores estabeleceram a antítese entre o artifício estrangeiro e a verdade nativa, razão europeia e coração da 'alma' russa que seria base da narrativa nacional do século XIX. No âmago desse discurso estava o antigo ideal romântico do solo nativo - de uma Rússia 'orgânica' e pura, e não corrompida pela civilização. São Petersburgo era apenas engano e vaidade, um dândi narcisista a observar o tempo todo o seu reflexo no rio Neva. A Rússia real ficava nas províncias, um lugar sem pretensões nem convenções estrangeiras onde as simples virtudes 'russas' se mantinham preservadas." (p. 96)

          A figura da mulher desconhecida não era uma camponesa, nem mesmo uma "cidadã" comum como concebemos na sociedade moderna. A julgar pela época e o pano de fundo do quadro, a mulher lembra uma nobre ou membro da classe emergente de comerciantes. Mas esta é parte da Rússia "verdadeira", para utilizar uma palavra que possa definir o ideal almejado pelos artistas russos do século XIX. Apesar de não ser camponesa, a mulher desconhecida compõe parte da síntese nacional sonhada por estes artistas e, mais especificamente, por movimentos como o populista e o "solo nativo". O primeiro surgiu em 1874 e atuou junto aos camponeses promovendo a educação, as artes e o ativismo político de perfil socialista e tinha como objetivo levar a Rússia ao desenvolvimento combinando uma via europeia com as tradições do povo; o segundo, surgido na mesma época, era um movimento cultural composto por escritores que publicavam textos onde exaltavam a unidade nacional e apelavam aos artistas para que retratassem a vida do povo e levassem a eles a cultura do Ocidente. Os populistas e membros do "solo nativo" queriam unir as diferentes partes da sociedade numa única nação, realizar a síntese nacional entre o nobre e o camponês.

          O quadro de Kramskoi oferece um mergulho na alma russa através do olhar belo e sedutor da mulher desconhecida, rosto este que nos oferece uma faceta de uma nação multifacetada. É uma tentativa de traduzir o que Kramskoi viu nas ruas ao sondar a pergunta "quem somos nós?" A arte tem esta força, de vermos a realidade do outro, de um povo distante, como se lá estivéssemos e fizéssemos parte de sua identidade.

terça-feira, 17 de outubro de 2017

Russian Conservative Forum: Russia´s messianic tradition and conservative estrategy


          The picture above is the logo of the International Russian Conservative Forum, an event that brought together European political leaders in Russia in 2014 and 2015. At the center Our Lady carries Baby Jesus in her arms over the Bizantine symbol of the two-headed eagle. The eagle was adopted by the Grand Duke of Moscovy, Ivan III, and represents the union between spiritual and temporal power of Russia. The kingdom, which would become the Russian Empire during the reign of Ivan IV, the Terrible, atributted to itself the Bizantine Empire´s legacy. The Bizantines developed the harmony concept, the perfect marriage between Church and State, represented by the eagle´s two head united to the same body. At the proclamation and coronation of Ivan IV as czar in 1547, the rite openly declared that Russia was the "Third Rome", transforming the doctrine which circulated among Slavic kingdoms at least a century before as an element of the State power. And it was necessary that a "God-elected autocrat" to firmly govern his kingdom to fulfill it´s eschatological role. Russia was destined by God to protect and guide Christendom, which would have been betrayed by Rome´s heresy with the 1054 schism and defeated at Constantinople by the Muslims in 1453. God was source of his legitimicy, which would be susteined until the Revolution of 1917.

          To the feet of the two-headed eagle there are on one side the scepter, symbol of authority, and on the other the globe. The allusion in clear: Russia has the divine role not only to guide Christendom, but the whole world, the whole creation. Hence the figure of the sun background, the light, God, source of all things and under which all things submit. The sun holds and bless whole creation, having Russia the authority over the world as protector and guide of the Christendom. Lastly, Our lady, who is the main intercessor to God in Christianity and for whom the Russian Orhodox Christianity has particular and deep devotion, presents herself as the link between Russia represented by the eagle behind her and God who is in her arms in the Person of Jesus          

          The sinthesys of the picture is the world leadership by Russia, political and espiritual authority of the world, guided by God through the hands of Our Lady. 

          The International Russian Conservative Forum already has in his name it´s claim: to be Russian and international at the same time, highlighting the Russia´s role in leading a new world order built over the debris of the current order. When hosting an event of this, the country is assuming this role, following the example of the statement on the Forum´s mission:

"We see how many Euro-Atlantic countries really took the way of rejecting theirs roots, including Christian values which form the basis of Western civilization. Moral principles against any tradition identity - national, cultural, religious or even sexual. There is a policy that places a family and a homosexual union on the same level, [as if] faith in God or faith in Satan [were equivalent]. The excesses of the politically correct go so far that they are seriously discussing the creation of events aimed in propagating pedophilia. In many European countries people are ashamed or afraid to talk about their religious affiliation. The holidays can be cancelled or are presented as something embarrasing, hiding the essence of these holidays, their moral basis. And this model is trying to impose itself aggressively to everyone, the whole world. We are convinced that this is a straight path to degradation and primitivization, a deep demographic and moral crisis. What else can be evidence of a moral crisis if not the loss [of the population´s] capacity for self-reproduction [?]. An today almost all depeloped countries cannot grow even with the help of migration. Without the values established in Christianity and other world religions, without the moral norms that have been formed through thousands of years, people will inevitably lose human dingity. And we consider natural and correct to protect these values."* 

          Following this statement, the Forum´s website continues with a Vladimir Putin´s speech to the participants of the Valdai Club, in September 2013, where the President defends traditional values, says the State could be a partner in this defense and alerts to the threat of the loss of Western countries´ sovergnity. The Valdai Club is a think-thank linked to the Kremlin and turned to Russia´s foreign policy research, and every year it receives Putin´s participation.

(A meeting of the Forum in Saint Petersburg, Russia, March 21-22, 2015. This was the most publicized Forum´s photo by Western media.)

          The Forum´s mission is to create a new concept of human development in response to Western liberalism, integrate conservative political organizations and to strenghten comercial, cultural and spiritual ties historically established between Russia and Europe. Taken as a scientific congress, it´s target audience are Russian and foreign public, political and patriotic organizations, representatives of regional, national governents and universities, Russian scientists, experts in History, Sociology, Demography, Law, Economics, Finances and members of industry. The intention is to influence political and social organizations in Russia and abroad, as well as public figures from the areas mentioned above, writers and public personalities.

          The 2015 event took place on March 21-22th at Holiday Inn Hotel, in Saint Petersburg, and was organized by the Russian National Cultural Center - People´s House, organization dedicated in promoting Russian culture. The initiative came from Rodina party, of Russian Deputy Prime Minister Dmitry Rogozin. According to an official statement from the British government, members of right and far-right from Germany, Belgium, Bulgaria, Denmark, Spain, Greece, Italy, United Kingdom and Sweden has attended the meeting. There wasn´t, however, participation of politicians of the Russian government. Participants were mainly political parties and military and political leaders who align themselves with the Forum´s proposal, such as Ataka from Bulgaria, Golden Dawn from Greece, Fuerza Nuova from Italy and the European political organization Alliance for Peace and Freedom. (Freedom Party from Austria, which had signed a cooperation agreement with Putin´s United Russia and had confirmed it´s presence at the Forum decided at last minute not to go.) These parties have simpathy for Russia and the Kremlin´s leadership. Among the Forum´s participants there was also people of neo-Nazi and antissemitic profile.

          In the end of the meeting was published the Participant´s Resolution, that begins with the declaration of regret to the destruction of "tradition European values". The text presents seven points defended by the members: 1) the creation of a "free, multipolar, progressive world order" (main Forum´s objective), the defense of the countries´ sovereignty and conservatism as the best form of existing social activity; 2) promoting, through the parties and the European Parliament, Christian values and propagate them to the masses, improving relations with the West and the end of the "Cold War" promoted against Russia; 3) the creation of a collective security system in Europe outside NATO, which became a tool of a dictadorship, departure of US troops from the continent and rejection of interventions by Western forces in other countries; 4) Russia is the legitimate successor of the Soviet Union and Russian Empire and now it´s integral part of the European traditions and it´s extended family; 5) Europe and Russia have their own path and must be freed from the US power. The main example of this is the conflict in Ukraine, that Forum sees as an internal problem, but considers that part of it´s territory was artificially separeted from Russia, is inhabited by Russians and asks the West to stop supporting Kiev gonverment; 6) the condenation of the sanctions against Russia and that also undermines Europe, and the desire to estimulate trade between the two regions to turn them back again into the center of humanity´s progress; 7) finally, the most important task is to estimulate the population growth by returning population to traditional values, and also intervene more rapidly to improve people´s urban life and health. The Resolution ends by asking participant organizations to act in a coordinated way to achieve these goals.

          The document sometimes repetes that the Forum´s members are "conservatives" and in the objectives it´s clear the references to the Russia´s special role in the world (the Russia-Europe duality repeatedly mentionated reinforce this idea).

          The fact that the Forum use a logo of strong religious load doesn´t necessarely means the divinization of the event or it´s messianic pretension (the same could be said, for example, about the flag of my country, Brazil, whose Positivist motto "Ordem e Progresso" - Order and Progress - inscribed in it doens´t makes this country and active agent in promoting Positivist philosophy through world, which promisses a new age of peace and progress for mankind). However, it´s symbology and performance is inserted into Russia´s messianic tradition. As I´ve commented in other post in this blog, today´s Russia continues to reproduce this tradition aiming to create a new world order over the rubble of the actual one. Whether under tzars´ divine authority, under the divinization of the Party and Communist triunphalism or under eschatology of the present Eurasian Movement, Russian messianism remains alive in planetary political projects focused in the formation of a new humanity, a new world created in the image and likeness of it´s social planners

          The International Russian Conservative Forum is only one of the Kremlin´s various investiments to achive this goal. It´s strategy is revealed in the conservative and nationalist narrative where elements of revolutionary tradition (anti-conservative, therefore) are mixed up, such as fascists, neo-Nazis and right-wing extremist, whose common point isn´t exaclty in values, but pro-Russia and anti-US feeling. The ignorance of this event´s mission by the great majority of people shows that this isn´t a plan with peoples´ consent, muche less of divine one.

* Translated from Russian to Portuguese with Google Tradutor with adpatations by the author, and to English by the author.

** Published in Portuguese on October 13th, 2017.

sexta-feira, 13 de outubro de 2017

Fórum Conservador Russo: a tradição messiânica da Rússia e a estratégia conservadora


          A imagem acima é o logotipo do Fórum Conservador Russo Internacional, um evento que reuniu lideranças políticas europeias na Rússia em 2014 e 2015. Ao centro Nossa Senhora traz o Menino Jesus nos braços sobre o símbolo bizantino da águia bicéfala. A águia foi adotada pelo Grão-Duque de Moscóvia, Ivan III, e representa a união entre o poder espiritual e temporal da Rússia. O reino, que viria a se tornar Império Russo no reinado de Ivan IV, o Terrível, atribuía a si o legado do Império Bizantino. Os bizantinos desenvolveram o conceito de harmonia, o casamento perfeito entre Igreja e Estado, representada pelas duas cabeças da águia unidas a um mesmo corpo. Na proclamação e coroação de Ivan IV como czar em 1547, o rito declarou abertamente que a Rússia era a "Terceira Roma", transformando a doutrina que circulava entre os reinos eslavos pelo menos um século antes em elemento do poder de Estado. E era necessário que um "autocrata eleito por Deus" governasse com firmeza seu reino para que este cumprisse seu papel escatológico. A Rússia estava destinada por Deus a proteger e guiar a Cristandade, que teria sido traída pela heresia de Roma com o cisma de 1054 e derrotada em Constantinopla pelos muçulmanos em 1453. A única forma do czar cumprir tão grandiosa tarefa era ser divinamente inspirado. Deus era a fonte de sua legitimidade, que se sustentaria até a Revolução de 1917.

          Aos pés da águia bicéfala estão de um lado o cetro, símbolo de autoridade, e do outro o globo terrestre. A alusão é clara: a Rússia tem a função divina não apenas de guiar a Cristandade, mas o mundo todo, toda a criação. Daí a figura do sol ao fundo, a luz, Deus, fonte de todas as coisas e sob qual todas as coisas se submetem. O sol abraça e abençoa toda a criação, tendo a Rússia a autoridade sobre o mundo como protetora e guia da Cristandade. Por fim, Nossa Senhora, que é a principal intercessora junto à Deus no cristianismo e a quem o cristianismo ortodoxo russo possui particular e profunda devoção, apresenta-se como elo entre a Rússia que está representada pela a águia detrás dela e Deus que está em seus braços na Pessoa de Jesus.  

          A síntese da imagem é a liderança mundial pela Rússia, autoridade política e espiritual do mundo, guiada por Deus através das mãos de Nossa Senhora.

          O Fórum Conservador Russo Internacional já traz no nome sua pretensão: ser russo e internacional ao mesmo tempo, dando destaque ao papel da Rússia na liderança de uma nova ordem mundial construída sobre os escombros da atual. Ao sediar um evento deste tipo, o país está assumindo este papel, ao exemplo do que diz o comunicado sobre a missão do Fórum:

"Vemos quantos países euro-atlânticos realmente tomaram o caminho para rejeitar suas raízes, incluindo os valores cristãos que constituem a base da civilização ocidental. Princípios morais contrários a qualquer identidade tradicional - nacional, cultural, religiosa ou mesmo sexual. Existe uma política que coloca uma família e uma união homossexual no mesmo nível, [como se] a fé em Deus ou a fé em Satanás [fossem equivalentes]. Os excessos do politicamente correto vão tão longe que estão discutindo seriamente em criar eventos que visam propagar a pedofilia. As pessoas em muitos países europeus estão envergonhadas e com medo de falar sobre sua filiação religiosa. Os feriados podem ser cancelados ou são apresentados como algo vergonhoso, escondendo a essência desses feriados, sua base moral. E este modelo está tentando se impor agressivamente a todos, o mundo inteiro. Estamos convencidos de que este é um caminho direto para a degradação e a primitivização, uma profunda crise demográfica e moral. O que mais pode ser evidente de uma crise moral se não a perda da capacidade [da população] de auto-reprodução [?]. E hoje quase todos os países desenvolvidos não conseguem crescer mesmo com a ajuda da migração. Sem os valores estabelecidos no cristianismo e em outras religiões mundiais, sem as normais morais que foram formadas por milhares de anos, as pessoas inevitavelmente perderão a dignidade humana. E consideramos natural e corretos proteger esses valores." *

          Em seguida a esta declaração, o site do Fórum segue com um discurso de Vladimir Putin aos participantes do Clube Valdai, em setembro de 2013, onde o presidente defende os valores tradicionais, afirma que o Estado poderia ser um parceiro nesta defesa e alerta para a ameaça da perda de soberania dos países ocidentais. O Clube Valdai é um think thank vinculado ao Kremlin e voltado à pesquisa de política externa da Rússia, e todos os anos recebe a participação de Putin.


(Um dos eventos do Fórum em São Petersburgo, Rússia, 21-22 de março de 2015. Esta foi a foto do Fórum mais divulgada pela imprensa ocidental.)

          O Fórum tem como missão criar um novo conceito de desenvolvimento humano em resposta ao liberalismo do Ocidente, integrar as organizações políticas conservadoras e fortalecer os vínculos comerciais, culturais e espirituais estabelecidos historicamente entre a Rússia e a Europa. Tomado como um congresso científico, seu público-alvo são as organizações públicas, políticas e patriotas russas e estrangeiras, representantes dos governos regionais, nacional e de universidades, cientistas russos, especialistas em História, Sociologia, Demografia, Direito, Economia, Finanças e membros da indústria. A intenção é influenciar organizações políticas e sociais da Rússia e do exterior, além de figuras públicas das áreas citadas anteriormente, escritores e personalidades públicas.

          O evento de 2015 ocorreu entre os dias 21 e 22 de março no Hotel Holiday Inn, em São Petersburgo, e foi organizado pelo Centro Cultural Nacional Russo - Casa do Povo, organização voltada à promoção da cultura russa. A iniciativa veio do partido Rodina, do vice-primeiro-ministro russo Dmitry Rogozin. Segundo um comunicado oficial do governo britânico, participaram membros da direita e da extrema-direita da Alemanha, Bélgica, Bulgária, Dinamarca, Espanha, Grécia, Itália, Reino Unido e Suécia. Não houve, porém, a participação de políticos do governo russo. Os participantes são principalmente partidos políticos e lideranças políticas e militares que se alinham à proposta do Fórum, como os partidos Ataka da Bulgária, Golden Dawn da Grécia, Fuerza Nuova da Itália e a organização política europeia Aliança pela Paz e Liberdade. (O Partido da Liberdade da Áustria, que havia firmado um acordo de cooperação com o Rússia Unida, partido de Putin, e havia confirmado a presença no Fórum, decidiu de última hora não ir.) Estes partidos possuem simpatia à Rússia e à liderança do Kremlin. Dentre os participantes do Fórum havia também pessoas de perfil neo-nazista e antissemita.

          Ao final do encontro foi divulgada a Resolução dos Participantes, que inicia com a declaração de lamento à destruição dos "valores morais europeus". O texto apresenta sete pontos defendidos pelo membros: 1) a criação uma "nova ordem livre, multipolar e progressista" (principal objetivo do Fórum), a defesa a soberania dos países e o conservadorismo como a melhor forma de atividade social existente; 2) a promoção, através dos partidos e do Parlamento Europeu, dos valores cristãos e propagá-los às massas, a melhora das relações com o Ocidente e o fim da "Guerra Fria" promovida contra a Rússia; 3) a criação um sistema de segurança coletivo na Europa alheio à OTAN, que se transformou em instrumento de uma ditadura, a saída das tropas americanas do continente e a rejeição das intervenções das forças ocidentais em outros países; 4) a Rússia é sucessora legítima da União Soviética e do Império Russo e agora é parte integral das tradições europeias e de sua família estendida; 5) Europa e Rússia possuem um caminho próprio e devem ser libertos do poder americano. O principal exemplo disto é o conflito da Ucrânia, que vê como um problema interno, mas considera que parte de seu território foi artificialmente separado da Rússia, é habitado por russos e pede que o Ocidente pare de apoiar o governo de Kiev; 6) a condenação das sanções contra a Rússia e que prejudicam também a Europa, e o desejo de estimular o comércio entre as duas regiões para transformá-las novamente no centro de progresso da humanidade; 7) por fim, a tarefa mais importante é estimular o crescimento demográfico através do retorno da população aos valores tradicionais, e também intervir mais rapidamente para melhorar a vida urbana e a saúde das pessoas. A Resolução encerra pedindo que as organizações participantes ajam de forma coordenada para atingir estes objetivos.

          O documento repete algumas vezes que os membros do Fórum são "conservadores" e nos objetivos ficam evidentes as referências ao papel especial da Rússia no mundo (a dualidade Rússia-Europa mencionada repetidamente reforça esta ideia).

          O fato do Fórum utilizar um logotipo de forte carga religiosa não significa necessariamente a divinização do evento nem sua pretensão messiânica (o mesmo poderia ser dito, por exemplo, da bandeira do Brasil, cujo lema positivista "Ordem em Progresso" nela inscrito não faz deste país um agente ativo na promoção da filosofia positivista pelo mundo, que promete uma nova era de paz e progresso para a humanidade). Porém, sua simbologia e atuação inserem-se na tradição messiânica da Rússia. A exemplo do que comentei em uma outra postagem neste blog, a Rússia de hoje continua a reproduzir esta tradição com o objetivo de criar uma nova ordem mundial sob os escombros da atual. Seja sob a autoridade divina dos czares, seja sob a divinização do Partido e do triunfalismo comunista, seja sob a escatologia do atual Movimento Eurasiano, o messianismo russo mantém vivo em projetos políticos planetários voltados à formação de uma nova humanidade, um novo mundo criado à imagem e semelhança de seus planejadores sociais.

          O Fórum Conservador Russo Internacional é apenas uma das diversas investidas do Kremlin para alcançar este objetivo. Sua estratégia é revelada na narrativa conservadora e nacionalista onde se misturam elementos de tradição revolucionária (anti-conservadora, portanto), como fascistas, neo-nazistas e extremistas de direita, cujo ponto em comum não está tanto nos valores, mas no sentimento pró-Rússia e anti-EUA. O desconhecimento da missão deste evento pela grande maioria das pessoas mostra que este não é um plano com consentimento dos povos, muito menos de consentimento divino.

* Traduzido do russo pelo Google Tradutor e adaptado pelo autor.

sábado, 7 de outubro de 2017

The language as link of a nation: Russia and the Russian world.

(T-shirt with Byzantine symbol of the two-headed eagle, the Russia´s map with the national flag and the country´s name written in Russian: unifying symbols of the nation.)

          Last July 20th, Russian president Vladimir Putin made a pronouncement at the Presidential Council on Inter-Ethnical Issues in Yoshkar-Ola, capital of the small republic of Mari El, about the inter-ethnic relations in the country. The republic has about 700 thousand people, being around 47% of Russians and 43% of the mari ethnic group, whose descendentes belongs to the Finno-Ugric people originating from the Northern and Eastern Europe and that have interaction with Russian ethnicity.         

(Putin at the Presidential Council on Inter-Ethnical Issues meeting, in Yoshkar-Ola, July 20th, 2017.)

          According to the US analyst Paul A. Golbe, expert on ethnic and religious issues of Eurasia, in his speech Putin stated that all ethnic non-Russians should learn the Russian language, while ethnic Russians shouldn´t be forced to learn the language of the republics in which they live and which are culturally characterized by the predominant ethnic group. Goble takes a critical stance on this speech stating it applies two-and-a-half measures with regard to the ethnic status of the groups that make up Russia, privileging ethnic Russians to the detriment of other ethnic groups and stimulating the national passions of both sides.

          Golbe transcripts the Putin´s commentary, who says: “Russian language forus is the state language, the language of inter-ethnic communication, and it cannot be replaced by anything else. It is the natural spiritual skeleton of all our multi-national country. Everyone msut know it … The languages of the peoples of Russia are also an inalienable aspect of the unique culture of the peoples of Russia.” The speech is clear: Russia has a peculiar, unique culture whose multinational unity is woven by the language, the center, the main structure of it´s culture. According to Putin, the non-Russians languages are not property of the State as the Russian language is, but belong to their respective peoples. The Constitution guarantees their study, but voluntarily and not mandatory like the mother tongue. “To force someone to study a language which is not his native tongue is impermissible”, said the President. The exception is the Russian, mandatory in all whole country.

          According to Golbe, Putin treated non-Russians cultures from the perspective of turism and public events, so that the Russians could get to know another cultures, noting that the development and popularization of these regions are of extremely importace given that Russia "is unique in the multiplicity of it´s nature and national traditions". It turns out that the President made reference only to the extraterritorial national communities, municipalities and regional officials, but not to the ethnic groups which have their own republics with their own laws according to their culture. In Golbe´s view, this is a "silence that spoke more loudly" given  the importance of these regions in the formation and structure of the country.

          The emphasys in the peculiarity of the Russian culture is a recurrent narrative in Putin´s speeches, who usually evokes espiritual and civilizational issues when he addresses this theme. It clear in his speech of the July 20th that the Russian culture is the link that unites the multiethnic nation, a prevailing culture.

(São Paulo, the largest city of Brazil and the Americas, with 11 million inhabitants, the scene of Svetlana Ruseishvili´s research: the researcher considered as Russians the people in the city based on the linguistic unity.)

          This Putin´s view can be better understood by distinguishing the role of each national group within Russia, historically constructed as a multinational empire. In her PhD thesis in Sociology at the University of São Paulo Ser russo em São Paulo ("To be Russian in São Paulo"), Russian-born Svetlana Ruseishvili, based in Brazil, seeks to answer the question: "What is to be Russian?" to mark her field approach. Ruseishvili reminds us that Russia must be understood according to the imperialistic nature of it´s state, where the ethnical and civic dimensios of being Russian aren´t totally separeted (all ethnic Russians are Russian citizens, as well as all non-ethnic Russian who lives within the country´s border).

          Ruseishvili explains that as the Empire expanded from the 16th century onwards, various ethnic groups were incorporated into it´s domain, creating different citizens categories according to their ethnic identity. The assimilation obeyed geographical and cultural criteria, and the people "with little degree of citizenship" received a inferior administritve and political status. The author says:        
"The concern of an Empire in organizing it´s conquered territories in a segregated way, giving to some greater cultural and political weight than to others, created a conception of ethnical belonging as an inherent attribute of each individual, being imutable and inherited." (p. 179)
          The sociologist uses the idea of common language to explain the so-called "Russian world". Understanding the Russian world through the ideia of common language, the term acquires a conception that is similar to that of the Russian Academy, conceptualized as:
"...a transnational cultural space whose main element is the Russian language. With no doubt, the ideological dimension of this concept cannot be ignored: the Russian world is first and foremost a world of Russian colonization, with it´s history of 'russificiation' of the new territories as the main strategy of cultural assimilation." (p. 182)
          And she continues:
"However, the result of these policies has become a conception of ethnic nationality based primarily on linguistic belonging. In this way, the Russian language, a language difficult for non-native speakers, has become the univeral common denominator for a multilingual and multinational country like Russia. Paraphrasing Elias, the Russian language effectively changed in an institution that allows to speak of the existence of a national habitus in Russia" (p. 182) 
          Before this part, Ruseishvili reproduces passages written by the German sociologist Norbert Elias, for whom the national counscience, the personality of a people, "cristallize in institutions that have the responsability of ensuring" that several different people acquire the same national habitus. For him, the common language is the "most immediate" example of this habitus

          It was on the basis on the common usage of the anguage which the Russian sociologist defined who the Russians and their descendents are in São Paulo. The language "is the central element of understanding of what I have called here 'to be Russian'". This is the delimiting factor of this social group´s bounderies capable of giving it internal cohesion and that allows people of different ethnicities to present themselves as Russians without exposing their original identity. In this way, Ruseishvili delimited her field research where, in addition to ethnic Russians, she approached Jews, Ukrainians, Bessarabians and Lithuanians all as Russians.
  
          For Russians, therefore, the Russian language is the national habitus and element of the culture that manifest itsefl more directly in national institutions. In this case, the school would be the main vehicle and disseminator of the language. Goble doesn´t speak about the school in Putin´s speech, but this can be implied given it´s role as propagator of the civic and national values. For the Portuguese historian Fernando Catroga, in the book "Between God and Ceasers", the school is responsible for instilling civic values in people:
"In appealing to the needing of education to provide a common moral and social education, it demanded the sharing of common values and ideas about the world and life (...), worldliness that the action of the political power (...) would have to become hegemonic in order to 'create' rationalistic and patriotic citizens. What, as we saw, didn´t exempt the socializing role, if not from a civil religion (...), at least some kind of 'secular' or 'civic religion'" (p. 302-303)
(View of the Kremlin: in Russia the state has strong presence within society, including as promoter of the Russian culture throughout the centuries, like the mother tongue.)

               The Catroga´s quotation occurs within his analysis of the Church-State relationship in an historical perspective to highlight the school´s role in propagation of values. This is particularly relevant in Russia because of the strong state´s role in social life, where even the church was under it´s direct influence. For centuries the political authority was above the religious authorities with several moments of tension. The church was submissive to political power not only during the Soviet period, as Ruseishvili relates, but throughout all period since the reign of Peter, the Great. According to the British historianl Benedict H. Sumner, in 1721 the emperor abolished the Patriarchate of the Russian Orthodox Church and replaced it by an administrative board, the Holy Synod. The emperor Alexander I went further: in 1824 he appointed a chief prosecutor (in practice a minister of state) to lead the Synod. This situations lasted until the Russian Revolution in 1917. With the restauration of the Patriarchate in 1918, however, came it´s submition to a body directly linked to the CPSU and the massive anti-religious persecution, particularly in 1929 and 1937. Today, even though Church and State are oficially separeted, in practice there´s a relation of dependence and mutual support: the church is tied to the ctate and depends on it for it´s revival and maintenance (the reconstruction of churches and monasteries detroyed during the Soviet period was supported and financed by the Kremlin and the new oligarchs); on the other hand the state seeks support and legitimacy in the church as way of uniting the country and exalting nation sentiment.

               From this we can conclude that the Russian state isn´t only an administrator of the public affairs, but above all a structure which seeks to embrace the whole of society and, therefore, to define the role and values that it must bear. Looking at the country´s history described by Sumner, as the Russian state expands, it also expands it´s activities within various domains of public life, particularly since the Peter the Great administration. In Russia, State and society walk thogether or, to be more exact, the State walks above the society and even the Church.   

          When Golbe says that Putin didn´t make reference to non-Russian republics, but only the nations without their own territory, it´s implied that the priority of the Russian language over all others goes beyond the school and embrace the entire state apparatus. This doesn´t means that these groups don´t have their own state apparatus capable of propagating the mother tongue, but rather that these languages are of secundary importance to the national project of promotion of the Russia´s mother tongue.             

          I don´t intend here to qualify what Putin said, but to conclude this brief analysis by stating that for what we call Russia, the Russian ethnicity doens´t prevail over the others only in number (equivalent to 82% of the country´s population), but also formally through official promotion of their mother tongue. In this way, the state acts to promote national and territorial unity through a specific culture, but without necessarily depreciate other cultures, since there´s no legally prohibition of teaching the language of the non-Russian ethnicity.

(Map of the ethnic group of the former USSR: the mother tongue generally goes along to the corresponding ethnic groups. The Russian language - whose ethnic group appears in red - is the most widespread in the region, and goes beyond the ethnic and national borders of present-day Russia.)

          Meanwhile the evocation of the "Russian world" along with ethnic and linguistic contours as a vector of the Moscow´s foreign policy is a concern for neighbours like Ukraine, Georgia and Moldova, which have military presence of Russia, as well as for other countries of the former USSR, which witness the "multiplication" of Russian citizens by granting citizenship to it´s inhabitants. In this way the Russian world enlarges legally and Moscow starts to claim the right over these populations. But this already is another problem.

* Published in Portuguese on July 24th, 2017.

segunda-feira, 24 de julho de 2017

A língua como elo de uma nação: a Rússia e o mundo russo

(Camiseta com os símbolo bizantino da águia bicéfala, o mapa da Rússia com as bandeira nacional e o nome do país escrito em russo: símbolos unificadores da nação.) 

          No último dia 20 de julho, o presidente da Rússia Vladimir Putin fez um pronunciamento no Conselho Presidencial sobre Assuntos Interétnicos na cidade de Yoshkar-Ola, capital da pequena república de Mari El, sobre as relações interétnicas no país. A república possui em torno de 700 mil habitantes, sendo em torno de 47% de russos e 43% da etnia mari, cuja descendência pertence aos povo fino-úgricos, originários do norte e leste europeu e que possuem interação com a etnia russa.

(Putin na reunião do Conselho Presidencial sobre Assuntos Interétnicos, em Yoshkar-Ola, 20 de julho de 2017.)

          De acordo com o analista americano Paul A. Goble, especialista em questões étnicas e religiosas da Eurásia, em seu discurso Putin afirmou que todos os não-russos étnicos deveriam aprender a língua russa, ao passo que os russos não étnicos não deveriam ser obrigados a aprender a língua das repúblicas em que habitam e que são caracterizadas culturalmente pelo grupo étnico predominante. Goble adota um postura crítica a este discurso afirmando que ele aplica dois pesos e duas medidas no que se refere ao status étnicos dos grupos que compõe a Rússia, privilegiando os russos étnicos em detrimento das demais etnias e estimulando as paixões nacionais de ambos os lados.

          Golbe transcreve o comentário de Putin, que diz: “A língua russa para nós é uma língua estatal, a língua da comunicação interétnica, e ela não pode ser substituída por nada. É o esqueleto espiritual natural de todo o nosso país multinacional. Todos devem saber isto... As línguas dos povos da Rússia são também o aspecto inalienável da cultura única dos povos da Rússia". O discurso é claro: a Rússia possui uma cultura peculiar, única, cuja unidade multinacional é tecida pela língua, o centro, a estrutura principal de sua cultura. Segundo Putin, as línguas não russas não são propriedade do Estado como é a língua russa, mas pertence aos seus respectivos povos. A Constituição garante o estudo delas, mas de forma voluntária, e não obrigatória como a língua pátria. "É inadmissível forçar alguém a estudar uma língua que não e sua língua nativa", disse o presidente. A exceção cabe ao russo, obrigatório em todo o país.

          Segundo Golbe, Putin tratou das culturas não russas sob a ótica do turismo e eventos públicos, de forma que os russos pudessem conhecer outras culturas, destacando que o desenvolvimento e a popularização destas regiões é de extrema importância dado que a Rússia "é única na multiplicidade de sua natureza e tradições nacionais". Acontece que o presidente fez referência unicamente às comunidades nacionais extraterritoriais, aos municípios e aos oficiais regionais, mas não às etnias que possuem repúblicas próprias com leis próprias conforme sua cultura. Na visão de Golbe, isto é um "estrondoso silêncio" dada a importância dessas regiões na formação e estrutura do país.

          A ênfase na peculiaridade da cultura russa é uma narrativa recorrente nos discursos de Putin, que normalmente evoca questões de ordem espiritual e civilizacional quando aborda este tema. Fica claro no seu discurso do dia 20 que a língua russa é o elo que une toda a nação multiétnica, uma cultura prevalecente.

(São Paulo, maior cidade do Brasil e das Américas, com 11 milhões de habitantes, palco da pesquisa de Svetlana Ruseishvili: a pesquisadora considerou como russos os habitantes da cidade com base na unidade linguística.)

          Esta visão de Putin pode ser melhor compreendida com a distinção dos papéis de cada grupo nacional dentro da Rússia, construída historicamente como um império multinacional. Em sua tese de doutorado em Sociologia pela Universidade de São Paulo Ser russo em São Paulo, a russa Svetlana Ruseishvili, radicada no Brasil, procura responder  à pergunta "o que é ser russo?" para balizar sua abordagem de campo. Ruseishvili lembra que a Rússia deve ser compreendida segundo a natureza imperialista de seu Estado, onde as dimensões étnicas e cívicas de ser russo não estão totalmente separadas (todo o russo étnico é cidadão russo, bem como todo o não russo étnico que vive dentro das fronteiras do país é também um cidadão russo).

          Ruseishvili explica que na medida em que o Império se expandia a partir do século XVI, diversas etnias foram incorporadas ao seu domínio, criando diferentes categorias de cidadãos segundo sua identidade étnica. A assimilação obedecia critérios geográficos e culturais, e os povos "com pouco grau de cidadania" recebiam um status administrativo e político inferior. Diz a autora:
"A preocupação de um Império em organizar seus territórios conquistados de modo segregado, conferindo-se a alguns peso cultural e político maior que a outros, criou uma concepção de pertencimento étnico como atributo inerente a cada indivíduo, sendo ele imutável e herdado" (p. 179)
          A socióloga utiliza-se da ideia de língua comum para explicar o chamado "mundo russo". Ao compreender o mundo russo através da ideia de língua comum, o termo adquire uma concepção que é similar à da Academia russa, conceituado como: 
"...um espaço cultural transnacional cujo elemento principal é a língua russa. Sem dúvida, a dimensão ideológica desse conceito não pode ser ignorada: mundo russo é antes de tudo um mundo de colonização russa, com sua longa história de 'russificação' dos novos territórios como a principal estratégia de assimilação cultural." (p. 182)
E continua:
"Contudo, o resultado dessas políticas se transformou um concepção de nacionalidade étnica que se baseia, sobretudo, no pertencimento linguístico. Dessa maneira, a língua russa, uma língua de difícil acesso para os não nativos, tornou-se denominador comum universal para um país multilinguístico e multinacional como a Rússia. Parafraseando Elias, a língua russa se modificou efetivamente em uma instituição que permite falar da existência de um habitus nacional na Rússia." (p. 182)  
          Antes desta parte, Ruseishvili reproduz passagens escritas pelo sociólogo alemão Norbert Elias, para quem a consciência nacional, a personalidade de um povo, "cristaliza-se em instituições que têm a responsabilidade de assegurar" que várias pessoas diferentes adquiram o mesmo habitus nacional. Para ele, a língua comum é o exemplo "mais imediato" deste habitus.

          Foi com base na uso comum da língua que a socióloga russa definiu quem são os russos e seus descendentes em São Paulo. A língua é "o elemento central de compreensão daquilo que chamei aqui de 'ser russo'". Este é o fator delimitador das fronteiras deste grupo social capaz de dar-lhe coesão interna e  que permite que pessoas de diferentes etnias se apresentem como russos sem expor sua identidade original. Desta forma, Ruseishvili delimitou sua pesquisa de campo onde, além de russos étnicos, abordou judeus, ucranianos, bessarábios e lituanos todos como russos.

          Para os russos, portanto, é a língua russa o habitus nacional e o elemento da cultura que se manifesta de forma mais direta nas instituições nacionais. Neste caso, a escola seria o principal veículo e divulgador da língua. Goble não fala da escola no discurso de Putin, mas isto pode ser subentendido devido ao seu papel como propagador de valores cívicos e nacionais. Para o historiador português Fernando Catroga, é a escola a responsável por inculcadora de valores cívicos nas pessoas: 

"Ao apelar para a necessidade de o ensino ministrar uma educação moral e social comum, ele exigia a partilha de ideias e valores comuns acerca do mundo e da vida (...) mundividência que a ação ativa do poder político (...) teria de tornar hegemônica para se poder 'fazer' cidadãos patriotas e racionalistas. O que, como se viu, não dispensava o papel socializador, se não de uma religião civil (...), pelo menos uma espécie de 'religião laica' ou 'cívica'" (p. 302-303)
(Vista do Kremlin: na Rússia o Estado tem forte presença na sociedade, inclusive como promotor da cultura russa ao longo dos séculos, como a língua pátria.)

          A citação de Catroga ocorre dentro da análise que o ele faz da relação Igreja-Estado numa perspectiva histórica para destacar o papel da escola na propagação de valores. Isto é particularmente relevante na Rússia devido ao forte papel do Estado na vida social, onde até mesmo a Igreja esteve sob sua influência direta. Por séculos a autoridade política esteve acima das autoridades religiosas, com diversos momentos de tensão. A Igreja esteve submissa ao poder político não apenas durante o período soviético, como relata Ruseishvili, mas durante todo o período desde o reinado de Pedro, o Grande. Segundo o historiador britânico Benedict H. Sumner, em 1721 o imperador aboliu o Patriarcado da Igreja Ortodoxa Russa e o substituiu por uma junta administrativa, o Santo Sínodo. O imperador Alexandre I foi mais longe: em 1824 nomeou um procurador chefe (na prática um ministro de Estado) para dirigir o Sínodo. Esta situação perdurou até a Revolução Russa em 1917. Com a restauração do Patriarcado em 1918, porém, veio sua submissão a um órgão vinculado diretamente ao PCUS e a massiva perseguição antirreligiosa, particularmente em 1929 e 1937. Hoje, mesmo que Igreja e Estado sejam oficialmente separados, na prática há uma relação de dependência e apoio mútuo: a Igreja está atrelada ao Estado e deste depende para seu reavivamento e manutenção (a reconstrução de igrejas e monastérios destruídos durante o período soviético foi apoiada e financiada pelo Kremlin e os novo oligarcas); por outro lado e o Estado busca apoio e legitimidade na Igreja como forma de unir o país e exaltar o sentimento nacional.

          Disto podemos concluir que o Estado russo não é apenas um administrador das questões públicas, mas acima de tudo uma estrutura que procura abraçar toda a sociedade e, portanto, definir o papel e os valores que ela deve carregar. Observando a história do país descrita por Sumner, na medida em que o Estado russo se expande, expande também sua atuação nos diversos domínios da vida pública, particularmente a partir da gestão de Pedro, o Grande. Na Rússia, Estado e sociedade caminham juntos ou, para ser mais exato, o Estado caminha acima da sociedade e mesmo da Igreja.

          Quando Golbe afirma que Putin não fez referência às repúblicas não russas, mas apenas às nações sem território próprio, fica subentendido que a prioridade da língua russa sobre as demais vai além da escola e abraça todo o aparato estatal. Isto não significa que estes grupos não possuam um aparelho estatal próprio capaz de propagar a língua materna, e sim que estas línguas têm importância secundária frente ao projeto nacional de promoção da língua pátria da Rússia

          Não pretendo aqui qualificar o que Putin disse, mas concluir esta breve análise afirmando que para o que chamamos de Rússia, a etnia russa não prevalece sobre as demais apenas em número (equivalente a 82% da população do país), mas também formalmente através da promoção oficial de sua língua materna. Desta forma o Estado age para promover a unidade nacional e territorial através de uma cultura específica, mas sem necessariamente depreciar outras culturas, dado que legalmente não há proibição do ensino das línguas de etnias não russas.


(Mapa dos grupos étnicos da antiga URSS: a língua materna geralmente acompanha os grupos étnicos correspondentes. A língua russa - cujo grupo étnico aparece em vermelho - é a mais difundida na região, e vai além das fronteiras étnicas e nacionais da Rússia atual.)

          Já a evocação do "mundo russo" conforme contornos étnicos e linguísticos como vetor da política externa de Moscou é uma preocupação para vizinhos como Ucrânia, Geórgia e Moldávia, que possuem presença militar da Rússia, bem como para outros países da antiga URSS, que assistem à "multiplicação" de cidadãos russos através da concessão de cidadania aos seus habitantes. Desta forma o mundo russo se amplia legalmente e Moscou passa a reivindicar o direito sobre estas populações. Mas este já é outro problema.