quarta-feira, 2 de março de 2016

Theotokos e o mito da "Terceira Roma"


(Theotokos de Vladimir. Há inúmeras cópias da original por todo o mundo.)

Nossa Senhora é muito venerada no cristianismo ortodoxo e sua presença na fé e cultura nestes
povos é muito marcante.

O ícone mais comum de Nossa Senhora na ortodoxia é Theotokos, que em grego significa "Mãe de Deus". A Rússia, país com maior população ortodoxa do mundo, recebeu da antiga Bizâncio esta vertente do cristianismo, bem como tradições artísticas, a forma de governo e muitos elementos que regem a ordem social. Historicamente os russos chamavam a sua terra de "Lar da Santíssima Mãe de Deus", numa clara referência da nação como detentora de uma herança cristã, ao seu ver legítima, e expressa de forma clara no mito da "Terceira Roma" desenvolvido a partir do final do século XV. Theotokos é a padroeira protetora da Rússia.

Mas qual é a relação entre a figura da Mãe de Deus e a "Terceira Roma"?

Na verdade Theotokos é um dos elementos entre crônicas históricas e textos filosóficos que ajudaram a criar ou foram utilizados para legitimar a ideia de que a Rússia era herdeira legítima de Bizâncio, a "Segunda Roma" (sendo a cidade de Roma a "primeira"). 

Segundo o historiador Andrew Wilson no seu livro The Ukranians. Unexpected Nation, o ícone de Theotokos que está relacionado à legitimação do poder dos reis da antiga Rus Kievana foi trazida da então Constantinopla para a região de Kiev em 1134, tendo sido fabricado em torno de 1120. A Virgem de Vyshhorod (cidade próxima a Kiev), como ficou conhecida na época, era um dos principais símbolos da autoridade divina dos reis kievanos. Este mesmo ícone é hoje conhecido como Nossa Senhora de Vladimir, ou Theotokos de Vladimir.

(Monastério de Pechersk, em Kiev, um dos principais centros religiosos de todo o mundo ortodoxo, museu do Estado e sede da Igreja Ortodoxa Russa na Ucrânia.)

Depois do cisma entre a Roma e Constantinopla em 1054 que deu origem à divisão católicos-ortodoxos houve algumas tentativas de estabelecer autocefalia, isto é, autonomia das igrejas ortodoxas locais em relação ao patriarcado de Kiev. Estas iniciativas surgiram já no mesmo século do cisma quando iniciaram divergências entre os chefes ortodoxos "regionais" e aqueles mais fiéis à Kiev.

(Catedral de Dormição em Vladimir, Rússia, para onde foi levada Theotokos de Vladimir.)

Um dos marcos da divisão entre um ramo setentrional e outro meridional da ortodoxia (e que futuramente ajudaria a moldar a distinção identitária entre Rússia e Ucrânia) foi a captura do ícone de Nossa Senhora de Vyshhorod pelo príncipe kievano Bogoliubski em 1155 para a Catedral da Dormição na cidade de Vladimir (e que daria o novo nome ao ícone). Bogoliubski tentou empossar um protegido seu, Feodor, como metropolita da cidade aprofundando as divergências norte-sul. Mais tarde Feodor foi capturado e levado para Kiev, sendo executado em 1169 provavelmente por divergências políticas e/ou religiosas. O roubo do ícone e a tentativa do príncipe  de empossar um aliado seu como líder ortodoxo local é uma aposta para legitimar Vladimir, ao norte, como sucessora legítima do legado histórico da Rus retirando estas atribuições de Kiev e tornando a cidade centro da ortodoxia eslava.

(Príncipe Bogoliubski, venerado na Igreja Ortodoxa como santo.)

O ícone foi transferido para o Kremlin de Moscou em 1395, e atribui-se a ele a vitória do principado de Moscóvia na detenção do ataque mongol liderado por Tarmelão. A cidade de Moscou, que deu origem ao principado, havia sido fundada por um "nortista", Yurii Dolgorukii, em torno de 1150, o que mostra que desde sua origem esta cidade e Kiev estiveram em polos opostos sobre legitimidade do legado da Rus Kievana.

O choque da queda de Constantinopla em 1453 e a consequente tentativa de legitimar o novo papel de Moscóvia foram os principais acontecimentos que outorgaram à Rússia o título de "Terceira Roma" e sua pretensão de liderança da ortodoxia. Segundo Wilson, a soberania da Rússia sobre "toda a Rus" seria uma "tradição inventada", tese também sustentada a respeito da doutrina da Terceira Roma pelo historiador de Harvard, Marshall Tillbrook Poe.

Wilson afirma que esta tradição tem raíz na transferência do ícone de Nossa Senhora de Vladimir para Moscou em 1395 e a primeira tentativa por parte do rei, Simeon, o Orgulhoso, de tomar controle total sobre a Igreja Ortodoxa da Rus. Estes acontecimentos tinham como objetivo tornar o reino guardião da ortodoxia e do legado da Rus Kievana sob a presença da Theotokos. O historiador também enumera que alguns eventos históricos foram determinantes para o crescimento do poder de Moscóvia a partir do século XV: a autocefalia da Igreja Ortodoxa Russa em 1448 temendo a queda de Constantinopla para os muçulmanos, a consequente ascensão das pretensões do reino moscovita em função desta queda, e a expulsão definitiva dos mongóis da região em 1480. Logo após a criação da Igreja na Rússia, o Estado passou a divulgar uma série de crônicas que legitimavam a nova autoridade religiosa de Moscóvia.


(Príncipe Ivan III, primeiro dos monarcas russos a receber as cartas de Filofei.)

Em fins do século XV a doutrina da Terceira Roma já circulava em cidades russas como Tver e Novgorod, sendo nesta última o primeiro registro expresso deste termo. Foi a partir do reinado do Grão Duque de Moscóvia, Vasili III (1505-1533), que começou a penetração do mito nos círculos oficiais do reino. O primeiro registro que chega às autoridades ocorre com Filofei, monge de Pskov, próximo a Moscou, que escreve uma série de cartas para um representante de Vasili III na sua cidade, em 1523-24, para o próprio Vasili e depois para seu sucessor, Ivan IV, o Terrível. Para o monge, Roma havia caído em heresia, e Constantinopla havia sido punida por Deus com o domínio muçulmano por sua tentativa de unir os ortodoxos com Roma no Concílio de Florença (1439). Desta forma Moscóvia era o único reino herdeiro legítimo do cristianismo e o sucessor natural de Bizâncio, já que todos os demais reinos cristãos haviam caído nas mãos dos inimigos. O lugar de um novo império cristão estava vazio, e cabia aos russos ocupar este espaço. Segundo Filofei, profecias (as quais ele não indica a fonte) afirmam que não havia de existir uma "Quarta Roma", estando Moscóvia com a missão de edificar um império com o objetivo de proteger e divulgar a verdadeira fé cristã até o fim dos tempos. Desta forma o Estado moscovita tornava-se o protetor do cristianismo. Para cumprir este papel, o líder deveria ser excepcionalmente hábil e inteligente capaz de guiar o reino numa missão universal e escatológica. O rei, portanto, agia sob inspiração do próprio Deus, sendo sua autoridade sobre o império e seu papel de protetor da igreja divinamente conferido. Moscóvia legava a "autoridade divina" de Bizâncio, então protetora de Constantinopla.

A ideia da "Terceira Roma" aparece pela primeira vez num texto oficial em 1547 na  coroação de Ivan IV como Czar da Rússia, cujo significado remonta à "César", o que conferia ao líder projeção imperial. O texto da coroação foi escrito ou inspirado pelo então metropolita Makary, um dos formuladores da doutrina da Terceira Roma na época. Em 1589, cinco anos após a morte de Ivan, a Igreja Ortodoxa Russa foi elevada a patriarcado num acordo onde Moscou saía prevalecida sobre Constantinopla, já que esta estava sob ocupação muçulmana e dependia de recursos dos russos.

(Catedral de São Basílio na Praça Vermelha em Moscou, símbolo máximo da Rússia, ao lado da Spasskaya, a principal torre dos muros do Kremlin.)

Com a tomada de Kazan, capital do kanato adversário da Rússia, Ivan IV ordenou a construção da Catedral de São Basílio, em Moscou, hoje principal símbolo do país. Seu nome oficial carrega o nome de Theotokos: chama-se de Catedral da Proteção da Santíssima Mãe de Deus do Fosso*. Sua estrutura forma uma estrela de oito pontas, número símbolo da ressurreição de Cristo. A estrela também é uma referência à estrela de Belém que guiou os reis magos até Jesus e à Nova Jerusalém como guia da humanidade. O mito da Terceira Roma também chama Moscou de Nova Jerusalém, uma referência à sua sacralidade. A urbanização da cidade centrada na Praça Vermelha e no Kremlin mostra claramente, no plano arquitetônico, Moscou como guia da Rússia e de toda a ortodoxia (ver pág. 95).

Após o reinado de Ivan, o mito da Terceira Roma circulou apenas entre religiosos ortodoxos, mais especificamente os staroveri, ou "velhos crentes", grupo religioso que nega como heréticas as reformas modernizantes da Igreja Russa no século XVIII, não havendo menção da doutrina em documentos de Estado. O reino (e depois império) russo se expandiu sem referências oficiais ao messianismo original. Apenas na metade do século XIX a "Terceira Roma" voltou às vozes dos intelectuais, especialmente a partir da década de 1860 com as publicação das cartas de Filofei. Não por acaso Alexander Dugin, principal ideólogo do Kremlin e responsável pela reformulação da geopolítica russa sobre bases messiânicas, considera os velhos crentes o depositário da verdadeira tradição ortodoxa e, portanto, da legítima tradição espiritual do povo russo.

A grande popularização do mito da Terceira Roma levou muitos intelectuais a promoverem uma missão nacional, um messianismo propriamente russo, a exemplo do universalismo cristão de Soloviev. A disseminação e ascensão do comunismo encontrou ressonância de sua missão escatológica entre os intelectuais da época, e até as décadas recentes outros movimentos surgiram propondo à Rússia uma nova missão para o mundo, a de conquista da Eurásia, do Ártico e mesmo do espaço.

Após habitar por séculos a Catedral da Dormição dentro do Kremlin de Moscou, Theotokos foi retirada para restauração no período bolchevique e hoje está guardada na Galeria Estatal de Tretyakov. Apesar de não estar mais dentro dos muros do Kremlin, ela ainda goza de proteção do Estado. Legítimo ou não, a imagem da Mãe de Deus, Nossa Senhora de Vladimir, continua vinculada ao poder russo, que ainda acredita ter de cumprir no mundo uma missão, seja ela divina ou humana.

*Em inglês Cathedral of the Most Holy Theotokos of the Moat.


Um comentário:

  1. A versão aqui exposta é a da história eurasiana observada por lentes ocidentais, de historiadores pertencentes à cultura conservadora anglo-americano.
    Há este investimento por parte do conluio oligarca ocidental sob a (suposta) capa moral judaico-cristão para barrar ideários de origem oriental, principalmente as que fundamentaram de certa forma a experiência soviética.
    Infelizmente hoje, Putin, com com sua oligarquia e Dulgin também fazem uso de uma capa moral, de terceira Roma, para justificarem suas estratégias geopolíticas, que por outro lado são mais regionais do que globalistas, ao contrário do que diz o tradutor Olavo de Carvalho.

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