sexta-feira, 2 de março de 2018

Alexander Dugin: uma versão russa da direita radical europeia? (por Marlène Laruelle) - parte 1

(Alexander Gelyevich Dugin)

          O artigo a seguir foi escrito em 2006 pela historiadora e cientista política francesa Marlène Laruelle, especialista em política e sociedade russas, através do Instituto Kennan, divisão do Centro Internacional de Especialistas Woodrow Wilson sediado em Washington, EUA. Vinculada a quatro institutos de pesquisa onde atua como pesquisadora, diretora e professora, Laruelle é uma das maiores especialistas sobre temas da Rússia no Ocidente. Seu artigo compõe o quatro capítulo de seu livro Russian Eurasianism: An Ideology of Empire, publicado pelo Centro Woodrow Wilson em 2008 e reeditado em 2012, onde ela introduz a trajetória e o pensamento de Dugin na história do eurasianismo.   

(Marlène Laruelle)

          Devido à extensão do artigo, decidi dividi-lo em sete partes conforme os subtítulos do texto. Apenas nesta primeira parte publico juntas a breve introdução e o primeiro subtítulo.

          Na tradução, mantive a grafia da autora para o nome de publicações e organizações. Traduzi apenas o nome das organizações públicas e estatais e adaptei o nome das personalidades à grafia em inglês para facilitar a identificação. A exceção é o nome de Dugin, que publiquei como "Alexander", grafia pela qual ele é mais conhecido,  ao contrário de "Alexandr" da autora ou o aportuguesado "Alexandre". As notas também são do artigo de Laruelle.

        Cabe lembrar que por ser de 2006, o artigo exclui a trajetória de Dugin a partir deste ano e, portanto, não analisa suas publicações desde então, suas declarações e envolvimento na Guerra da Geórgia em 2008 na crise na Ucrânia a partir de 2014 e sua passagem pela prestigiada Universidade Estatal de Moscou.

          Boa leitura.


Alexander Dugin: uma versão russa da direita radical europeia? (parte 1)

          Ao estudar o eurasianismo russo contemporâneo - tanto como doutrina quanto como movimento político - alguém que aparece constantemente é Alexander Dugin. Um dos principais motivos pelos qual ele é relevante para qualquer tipo de estudo é o quase-monopólio que exerce sobre uma certa parte do atual espectro ideológico russo. Este espectro inclui uma infinidade de facções de direita, que produzem uma enorme quantidade de livros e uma impressionante quantidade de jornais de pequena circulação, mas que não são facilmente distinguíveis uns dos outros e apresentam pequena consistência e sofisticação teórica. Dugin é o único grande teórico nesta direita radical russa. Está simultaneamente na margem e no centro do fenômeno nacionalista russo. Ele fornece inspiração teórica a muitas correntes e dissemina preceitos que podem ser reciclados em diferentes níveis. Ele está, acima de tudo, se esforçando para ocupar cada nicho do atual mercado ideológico. Parte do pressuposto que a sociedade russa e o establishment político da Rússia estão em busca de uma nova ideologia: ele, portanto, incumbe a si mesmo exercitar sua influência sobre todas as opções ideológicas e suas possíveis formulações.

          Além das qualidade doutrinais que o fazem se destacar no espectro do nacionalismo russo, Dugin é digno de nota por sua produção frenética e prolífica de publicações que começam no início dos anos 1990. Ele publicou mais de uma dúzia de livros, além de textos originais ou artigos tematicamente reorganizados impressos inicialmente em várias revistas ou jornais. Ele também editou várias revistas: Elementy (nove publicações entre 1992 e 1998), Milyi Angel (quatro publicações entre 1991 e 1999), Evraziiskoe vtozhenie (publicado como um suplemento irregular para o semanal Zavtra, com seis publicações especiais em 2000) e Evraziikoe obozrenie (onze publicações de 2001 a 2004). (1) Em 1997, ele escreveu e apresentou uma transmissão de rádio semanal de uma hora, Finnis Mundi, que foi proibida depois que ele falou de forma favorável sobre o terrorista do início do século XX, Boris Savinkov. (2) Dugin também publica regularmente artigos em diversos diários e aparece em vários programas de televisão. Em 1998, ele participou da criação da "Nova Universidade", uma pequena instituição que fornece ensinamentos tradicionalistas e ocultistas para poucos selecionados, onde ensina ao lado de destacadas figuras literárias como Yevgeny Golovin e Yuri Mamleev. Desde 2005, ele tem aparecido no novo canal de TV ortodoxo Spas criado por Ivan Demidov, onde ancora um programa semanal sobre geopolítica chamado Landmarks [Vekhi]. (3) Ele também participa regularmente de mesas-redondas na televisão russa e ocupa um lugar de destaque na internet nacionalista da Rússia. (4)

          Várias tendências intelectuais se manifestam em seu pensamento: uma teoria política inspirada pelo tradicionalismo, (5) uma filosofia religiosa ortodoxa, (6) teorias arianas e ocultistas (7) e concepções geopolíticas e eurasianas. (8) Pode-se esperar que essa diversidade ideológica se reflita na longa evolução da vida intelectual de Dugin. Entretanto, todos estes temas não surgiram sucessivamente, mas coexistiram nos escritos de Dugin desde o início dos anos 1990. Enquanto o eurasianismo e a geopolítica são os mais clássicos e conhecidos "cartões de visita" de Dugin para a opinião pública e as autoridades políticas, suas doutrinas filosófica, religiosa e política são muito mais complexas e merecem uma análise cuidadosa. A diversidade de seu trabalho é pouco conhecida, e muito de suas ideias são frequentemente caracterizadas de forma precipitada e incompleta. Dessa forma, devemos investigar sua linhagem intelectual e tentar entender seu esforço para combinar diversas fontes ideológicas. Dugin é um dos poucos pensadores a considerar que o estoque doutrinal do nacionalismo russo se depreciou e deve ser revitalizado com a ajuda de insumos do Ocidente. Ele está, portanto, "ancorando" o nacionalismo russo em teorias mais globais e agindo como mediador do pensamento ocidental. É este aspecto de Dugin que será o foco deste artigo.

A TRAJETÓRIA SOCIAL DE DUGIN E SEU SIGNIFICADO

          É particularmente importante entender o complexo lugar de Dugin no neoeurasianismo, uma vez que, em certa medida, sua posição é representativa de certos fenômenos mais gerais e, portanto, ajuda a traçar a evolução das ideias nacionalistas russas no últimos vinte anos ou mais. Entre 1985 e 1990, Dugin era claramente a favor de um neoeurasianismo "de direita" e próximo de círculos conservadores ou mesmo monarquistas. Em 1988, ele entrou na organização ultranacionalista e anti-semita Pamiat, mas não se sentiu intelectualmente à vontade, uma vez que suas ideias para uma renovação doutrinária da direita eram inoportunas nesta organização fundamentalmente conservadora. Assim, deixou o Pamiat no ano seguinte condenando seu monarquismo nostálgico e anti-semitismo vulgar. Em 1990-1, ele fundou diversas instituições próprias: a Associação Arctogaia, bem como uma editora de mesmo nome, e o Centro para Estudos Meta-Estratégicos. Durante este período, Dugin se aproximou do Partido Comunista de Gennady Ziuganov e se tornou um dos mais prolíficos contribuintes do proeminente jornal patriótico Den (mais tarde renomeado Zavtra), que na época estava no auge de sua influência. Seus artigos publicados neste jornal contribuíram para a disseminação de teorias eurasianas nos círculos nacionalistas russos. No início ele foi apoiado pelo pensador nacionalista Alexander Prokhanov, que acreditava que apenas o eurasianismo poderia unificar os patriotas, que ainda estavam divididos entre "Brancos" e "Vermelhos", mas Prokhanov rapidamente se afastou e condenou o eurasianismo por ser muito turcocêntrico.  

          A partir de 1993-4, Dugin se afastou do espectro comunista e se tornou o ideólogo do novo Partido Nacional-Bolchevique (PNB). Nascido da convergência entre a antiga contracultura e grupos patrióticos soviéticos, o PNB estabeleceu com sucesso sua ideologia entre os jovens. A Arctogaia de Dugin serviu como think thank para as atividades políticas do líder do PNB, Eduard Limonov. Os dois homens compartilhavam do desejo de desenvolver laços íntimos com a esfera da contracultura, em particular com os músicos punk e rock de mentalidade nacionalista, como Yegor Letov, Sergei Troitsky, Roman Neumoev ou Sergei Kurekhin. (9) Em 1995, Dugin chegou a concorrer nas eleições da Duma sob a bandeira do PNB num distrito eleitoral suburbano perto de São Petersburgo, mas recebeu menos de um por centro dos votos. (10) Entretanto, este fracasso eleitoral não o prejudicou, pois ele estava simultaneamente ocupado escrevendo numerosos trabalhos filosóficos e esotéricos para desenvolver o que ele considerava ser a "ortodoxia" neoeurasiana. Limonov descreveria então Dugin como "o 'Cirilo e Metódio' do fascismo, uma vez que ele trouxe fé e conhecimento sobre isto do Ocidente para o nosso país". (11)    

          Dugin deixou o Partido Nacional-Bolchevique em 1998 devido a numerosos desacordos com Limonov, buscando como alternativa entrar em estruturas mais influentes. Ele esperava se tornar um "conselheiro do príncipe" e se apresentou para as autoridades como o think thank de um homem só. Ele conseguiu se estabelecer como conselheiros do porta-voz da Duma, o comunista Gennadiy Seleznyov e, em 1999, se tornou presidente da seção de geopolítica do Conselho Consultivo sobre Segurança Nacional da Duma, dominado pelo ultra-nacionalista Partido Liberal Democrático da Rússia, liderado por Vladimir Zhirinovsky. Na época, Dugin parecia exercer certa influência em Zhirinovsky, bem como em Alexander Rutskoy do Partido Social Democrata e Gennady Zyuganov do Partido Comunista. (12) O último, por exemplo, pegou de Dugin a ideia de que o nacionalismo russo não entra em conflito com a expressão de sentimentos nacionais de minorias. De fato, Zyuganov apresentou o PCFR como o principal defensor do nacionalismo tártaro e do budismo de Kalmyk. Seu livro  Russia after the Year 200: A Geopolitical Vision for a New State foi diretamente inspirado pelas ideias de Dugin sobre o caráter distintivo da "ciência" geopolítica russa e sua ideia de que a renovação da Rússia é a única garantia de estabilidade mundial. Dugin também publica regularmente em sites oficiais russos, como www.strana.ru, onde ele apresenta suas ideias sobre a oposição entre o império eurasiano reemergente e o modelo atlanticista.

          A entrada de Dugin nas estruturas parlamentares foi amplamente possível pela publicação (em 1997) da primeira versão do seu trabalho mais influente, The Foundations of Geopolítics: Russia´s Geopolitical Future. (13) Ele é considerado um importante estudo de geopolítica, e geralmente é apresentado como a obra fundadora da escola russa de geopolítica. Em 2000, o trabalho já havia sido reeditado quatro vezes, e se tornou uma importante publicação política desfrutando de um grande número de leitores nos círculos acadêmicos e políticos. Na verdade, Dugin sempre esperou influenciar jovens intelectuais promissores, bem como importantes círculos políticos e militares. Ele afirmou que seu Centro de Perícia Geopolítica* poderia rapidamente se tornar um "instrumento analítico que ajudasse a desenvolver a ideia nacional" (14) para os poderes executivo e legislativo.

          Desde o início dos anos 1990, Dugin esteve especialmente interessado em entrar em contato com oficiais militares ativos: vindo de uma família de militares, afirma regularmente que apenas o exército e os serviços secretos têm um verdadeiro senso de patriotismo. Dessa forma, em 1992, a primeira edição de Elementy trouxe textos de três generais que então eram os chefes de departamento na Academia do Estado-Maior. (15) Além disso, The Foundations of Geopolitics parece ter sido escrito com o apoio do general Igor Rodionov, que foi ministro da defesa em 1996-7. (16) Graças a este livro, Dugin foi convidado a ensinar na Academia do Estado-Maior, bem como no Instituto para Pesquisa Estratégica em Moscou. Ele lhes ofereceu uma certa visão da política internacional adornada por um "isolacionismo que serve apenas para disfarçar um projeto de expansão e conquista." (17) Após este bestseller, Dugin expandiu consideravelmente sua presença na principal mídia russa; para alguns, ele se tornou uma personalidade respeitável da vida pública. O sucesso de seu livro de geopolítica, agora usado como leitura em numerosas instituições de ensino superior, bem como suas aulas na Academia do Estado-Maior e na chamada Nova Universidade, satisfaz seu desejo de alcançar as elites políticas e intelectuais.

          Dessa forma, os anos 1998-2000 viram a transformação das tendências políticas de Dugin numa corrente específica que aplica múltiplas estratégias de penetração, visando a contracultura juvenil e as estruturas parlamentares. Dugin se afastou dos partidos de oposição, como o PCFR e o PLDR, e se aproximou de grupos centristas dando seu apoio ao então primeiro-ministro, Yevgeny Primakov. Em 2000, Dugin participou brevemente do movimento Rossiia liderado pelo comunista Gennadiy Seleznyov e escreveu seu manifesto, antes de sair devido a desentendimentos com sua liderança. A eleição de Putin como presidente em março de 2000 causou uma mudança ainda mais forte nas atitudes políticas de Dugin, quando começou a se aproximar do novo homem forte do país. 

          Em 21 de abril de 2001, ele resolveu colocar as cartas na mesa e criou um movimento chamado Evraziia, do qual foi eleito presidente. Durante sua convenção fundadora, o Evraziia - geralmente descrito como uma ideia do conselheiro presidencial Gleb Pavlovsky, que é próximo de Dugin - se reuniu oficialmente com Putin e propôs participar nas próximas eleições como parte de uma coalizão governamental. O objetivo do movimento, de acordo com a declarações de Dugin, é formular a "ideia nacional" que a Rússia necessita: "nosso objetivo não é chegar ao poder, nem lutar pelo poder, mas lutar por influência sobre ele. Essas são coisas diferentes." (18) Em 30 de maio de 2002, o Evraziia foi transformado em partido político, que Dugin define como "radicalmente centrista", uma formulação ambígua que decorre de sua atitude tradicionalista. Dugin aceita a combinação de "patriotismo e liberalismo", que afirma que Vladimir Putin propõe, com a condição de que o elemento liberal se mantenha subservientes aos interesses do Estado e aos imperativos da segurança nacional. Como ele diz, "nosso patriotismo não é apenas emocional, mas também científico, baseado na geopolítica e nos seus métodos," (19) uma afirmação clássica dos neoeurasianos. De acordo com seus próprios dados, o novo partido tem 59 agências regionais e mais de 10.000 membros. Sua criação foi saudada publicamente por Alexander Voloshin, então chefe da administração presidencial, e Alexander Kosopkin, chefe do Departamento de Assuntos Internos da administração.

          Dugin também recrutou o apoio de outro figura influente próxima ao presidente, Mikhail Leontev, o apresentador da Odnako (transmitido pelo Pervyi kanal, o primeiro canal da TV estatal russa), que se juntou o Comitê Central do partido. Fortalecido pelo seu sucesso depois das demostrações públicas de reconhecimento, Dugin esperava adquirir influência dentro de uma nova e promissora formação eleitoral, o bloco Rodina, e usá-la como plataforma para uma candidatura nas eleições parlamentares em dezembro de 2003. Entretanto, essa aliança era taticamente de curta duração e questionável no seu conteúdo ideológico. Dessa forma, Dugin nunca escondeu seus desdém pela nostalgia monarquista e a ortodoxia politizada representada pelos líderes do Rodina, como Dmitri Rogozin e Natalia Narochnitskaia. Na verdade, parece que Sergei Glazyev (20) foi o responsável pela aproximação de Dugin. Embora Glazyev não possa ser considerado um neoeurasiano, ele participou da convenção fundadora do Evraziia em 2002. Os dois homens compartilham um interesse em políticas econômicas pró-socialistas, e Dugin reconheceu sua simpatia pelas ideias econômicas de Glazyev (que ele chama de "saudáveis) mesmo depois deste último deixar o Rodina em março de 2004.

          Dugin e Glazyev se conheceram em fevereiro de 2003 para constituir um partido que definiram como "patriota de esquerda". Em julho, o Evraziia declarou-se pronto para apoiar a criação deste bloco eleitoral. Entretanto, ocorreram discussões internas sobre personalidades: o bloco precisava escolher três líderes que certamente se tornariam deputados se aprovados e se beneficiaria principalmente da publicidade da campanha. Dugin esperava ser escolhido, mas foi impedido por sua marginalidade política ligada à sua reputação como um teórico extravagante, cujas ideias são complexas demais para transmitir uma estratégia eleitoral. (21) No fim de setembro, o desapontado Dugin deixou o bloco Rodina explicando numa conferência à imprensa que o nacionalismo do Rodina era radical demais para ele - uma afirmação que deve tirar um sorriso daqueles mais familiarizados com seu trabalho. Este cenário nacionalista não o perturbou até então. Nem ele se aproximou do Rodina quando certos nacionalistas excessivamente virulentos como V. I. Didenko, líder do pequeno partido Spas, foram expulsos da lista de candidatos do bloco por pressão do Kremlin.  

          As acusações de Dugin contra o Rodina se dividem em duas categorias. Ele condena o bloco por ser muito próximo ao PCFR e sua oligarquia e critica seu "populismo irresponsável." Ele também se dirige aos que chama de "chauvinistas de direita": Sergei Baburin e o movimento Spas. (22) Por outro lado, Dugin insiste na missão conciliatória e multinacional do seu partido Evraziia, que "representa não apenas os interesses dos russos, mas também dos pequenos povos e das confissões tradicionais." (23) Dugin também acusou alguns membros do Rodina de racismo e anti-semitismo, destacando que o partido inclui ex-membros da Unidade Nacional Russa (24), bem como Andrei Savelyev, que traduziu Main Kampf para o russo. O primeiro conjunto de críticas é justificada pelas próprias convicções de Dugin: ele nunca escondeu seu desdém pelo atual Partido Comunista, não aprecia a atitude emocional dos ortodoxos em questões de política internacional, rejeita toda a nostalgia czarista, sempre denunciou o racialismo das teorias de Barkashov e condena o populismo eleitoral. O segundo conjunto de críticas parece mais oportunista: uma leitura atenta dos trabalho de Dugin releva claramente seu fascínio pela experiência nacional-socialista e seu ambíguo anti-semitismo. Hoje, Dugin está tentando minimizar esses aspectos do seu pensamento para se apresentar como um pensador "politicamente correto" esperando ser reconhecido pelo regime de Putin.

          Por ouro lado, conteúdos de Dugin emprestados ideologicamente do Rodina parecem bastante raros. Suas ideias tradicionalistas, nacional-bolchevistas e esotéricas, que constituem uma importante parte de seu pensamento, não são apreciadas pelo Rodina e não exerceram qualquer influência nas concepções do bloco. Na verdade, o Rodina é mais conservador do que revolucionário e não pode aceitar as sugestões provocativas de Dugin, que muitas vezes visam romper a ordem social. O aspecto estritamente neoeurasiano das ideias de Dugin - sua mais conhecida "marca registrada" na sociedade russa de hoje - está em sintonia com algumas concepções geopolíticas do Rodina, mas essa concordância é, na verdade, baseada no antiocidentalismo que é comum a ambos, e não numa visão compartilhada da Rússia como uma potência eurasiana. Por esta razão, apesar da tentativa de aliança, não se pode dizer que o Rodina tenha adotado elementos no pensamento neoeurasiano no sentido estrito do termo. Mesmo assim, essas relações difíceis não impediram Dugin de ficar entusiasmado com os resultados das eleições de dezembro de 2003, que levaram quatro partidos políticos (o partido presidencial Rússia Unida, o PCFR, o PLDR e o Rodina) para a Duma. Dugin tem conexões com cada um deles, e alguns membros de cada um destes partidos reconhecem abertamente terem sido inspirados por suas teorias. 

          Depois de seu fracasso pessoal no Rodina, Dugin reorientou suas estratégias para longe da esfera eleitoral, em direção à comunidade acadêmica. Daí a transformação do seu partido num "Movimento Eurasiano Internacional" (MEI), formalizado em 20 de novembro de 2003. O novo movimento inclui membros de cerca de vinte países, e seu principal apoio parece vir do Cazaquistão e da Turquia. Enquanto a organização original fundada em 2001 era composta principalmente de figuras da sociedade civil, (25) o Conselho Supremo do novo Movimento Eurasiano inclui representantes do governo e do parlamento: Mikhail Margelov, chefe do Comitê de Relações Internacionais do Conselho da Federação (a Câmara Alta do parlamento), Albert Chernyshev, embaixador da Rússia na Índia, Viktor Kalyuzhny, vice-ministro das Relações Exteriores, Aleksey Zhafyrov, chefe do Departamento de Partido Político e Organização Social no Ministério da Justiça, etc. O MEI chegou a pedir oficialmente que Vladimir Putin ou Nursultan Nazarbaev chefiassem o Conselho Supremo do movimento. Dugin felicita-se de ter ido além de um mero partido político para uma organização internacional. Ele agora cultiva sua imagem nos países vizinhos, divulgando fortemente suas viagens à Turquia, mas também para o Cazaquistão e à Bielorrúsia. Dugin se tornou um zeloso apoiador da União Econômica Eurasiana e tem o prazer de pensar que influenciou as decisões de Alexander Lukashenko e Nursultan Nazarbaev a favor de um integração mais próxima de seus países com a Rússia. Seu site também apresenta os diferentes grupos eurasianos em países ocidentais. A Itália está particularmente bem representada com numerosas traduções dos textos de Dugin, diversos sites inspirados pelo eurasianismo e uma revista, Eurasia. Rivista di studi geopolitici. A França é representada pela associação "Paris-Berlin-Moscou", enquanto a Grã-Bretanha há muito tempo possui um movimento eurasiano próprio. As associações austríaca, finlandesa, sérvia e búlgara e, claro, organizações em outras ex-repúblicas soviéticas, especialmente na Ucrânia e no Cazaquistão, são apresentadas como "partidos fraternais".          

          Tendo recebido entusiasticamente Vladimir Putin como o "homem eurasiano", (26) agora Dugin, desde 2005, parece estar profundamente desapontado com o presidente. De acordo com ele, Putin hesita em adotar um postura definitivamente eurasiana e sua comitiva é dominada pelo atlanticismo e por figuras excessivamente liberais. Nas relações atuais, Dugin está tentando jogar com a onda de antiocidentalismo que varreu parte da cena política russa depois das revoluções na Geórgia em 2003, na Ucrânia em 2004 e no Quirguistão em 2005. Ele assim estabeleceu a União da Juventude Eurasiana, liderada por Pavel Zarifullin, que se tornou bastante visível em setembro de 2005 com a criação amplamente divulgada de uma "frente anti-laranja." Dugin persegue, com relativo sucesso, seu objetivo de construir uma hegemonia cultural global: ele está tentando ganhar espaço nos movimentos de globalização alternativa (que promove alternativas à globalização liderada pelos EUA) e participar de reagrupamentos ideológicos internacionais. Essa direita, que Dugin moderniza e renova profundamente em suas teorias, parece assim ter sucesso em sua estratégia de entrar nas estruturas de esquerda, que estão mal informadas e buscam por todo e qualquer aliados na sua luta contra a dominação americana.

          Dessa forma, a presença regular, mas sempre temporária de Dugin no campo político não pode ser considerada uma nova fase de sua vida que se construiria sobre um corpo já completo de doutrinas. Embora Dugin esteja atualmente se concentrando no seu envolvimento com o movimento eurasiano e na publicações sobre o eurasianismo, não se deve esquecer que uma combinação similar ocorreu de 1994 a 1998, quando sua associação com o Partido Nacional-Bolchevique andou de mãos dadas com as publicações sobre o conceito de nacional-bolchevismo. Assim, Dugin parece ajustar sua estratégia de acordo com as oportunidades disponíveis para influenciar a opinião pública. Além do mais, ele continua ainda hoje a disseminar as ideais tradicionalistas, que têm sido seu pilar desde o início, apresentando um alto grau de consistência doutrinal. O que evoluiu é seu status público, marcado por seu desejo de não ser mais considerado um intelectual original e marginal, mas ser reconhecido como uma personalidade política respeitável próxima aos círculos de poder.

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* Traduzido do nome em inglês, "Center for Geopolitical Expertise". Não há tradução do nome do centro em português.

(1) Para mais detalhes sobre a distribuição dessas publicações (impressões, reedições), ver: Andreas Umland, “Kulturhegemoniale Strategien der russischen extremen Rechten: Die Verbindung von faschistischer ideologie und metapolitischer Taktik im Neoeurasismus des Aleksandr Dugin,” Österreichische Zeitschrift für Politikwissenschaft, vol. 33, no. 2/2004, pp. 437–454.

(2) Vyacheslav Likhachev, Natsizm v Rossii, Moscow: Panorama, 2002, p. 103.

(3) O título deste show não é neutro. Se refere à famosa coleção de artigos de 1909 chamada Vekhi, considerado o manifesto contra a ideologia da intelligentsia radical. Os autores do Vekhi defendiam a primacia do espiritual e apelavam à intelligentsia revolucionária para que reconhecessem a origem espiritual da vida humana: para eles, apenas o idealismo concreto, manifesto no russo na forma de uma filosofia religiosa, permite objetivar o misticismo tradicional e fundir conhecimento e fé.

(4) Todas as suas publicações estão disponíveis na internet. Seus dois sites, Arctogaia (www.arcto.ru) e Evraziia (www.evrazia.org) também incluem links para a rede nacionalista que inclui sites como Novoe soprotivlenie (New Resistence), além de revistas disponíveis na internet como Lenin.

(5) The Ways of the Absolute (Puti absoliuta), escrito em 1989 e publicado em 1991, The Conservative Revolution (Konservativnaia revoliutsiia, 1994), Goals and Tasks of our Revolution (Tseli i zadachi nashei revoliutsii, 1995), Templars of the Proletariat (Tampliery proletariata, 1997), The Philosophy of Traditionalism (Filosofiia traditsionalizma) e The Evolution of the Paradigmatic Foundations of Science (Evoliuciia paradigmal’nykh osnovanii nauki, 2002), The Philosophy of Politics (Filosofiia politiki) e The Philosophy of War (Filosofiia voiny, 2004).

(6) The Metaphysics of the Gospel: Orthodox Esotericism (Metafizika Blagoi Vesti (Pravoslavnyi ezoterizm), 1996) e The End of the World. Eschatology and Tradition (Konets sveta: Eskhatologiia i tradiciia, 1997).

(7) The Mysteries of Eurasia (Misterii Evrazii) e The Hyperborean (Giperboreec, 1991), The Hyperborean Theory (1993).

(8) Conspirology (Konspirologiia, 1992, republicado em 2005), The Foundations of Geopolitics (Osnovy geopolitiki, 1996, quatro reedições), Our Way. Strategic Prospects for the Development of Russia in the 21st Century (Nash put’. Strategicheskie perspektivy razvitiia Rossii v XXI veke, 1998), The Russian Thing. Essays in National Philosophy (Russkaia veshch’. Ocherki natsional’noi filosofii, 2001), The Foundations of Eurasianism (Osnovy evraziistva), The Eurasianist Path (Evraziiskii put’) e The Eurasian Path as National Idea (Evraziiskii put’ kak natsional’naia ideia, 2002).

(9) Markus Mathyl, “The National-Bolshevik Party and Arctogaia: Two Neo-fascist Groupuscules in the Post-Soviet Political Space,” Patterns of Prejudice, vol. 36, no. 3/2003, pp. 62–76.

(10) Stephen Shenfield, Russian Fascism. Traditions, tendencies, movements, London: M. E. Sharpe, 2001, p. 194.

(11) Eduard Limonov, Moya politicheskaia biografiia, St. Petersburg: Amfora, 2002, p. 64.

(12) Andrei Tsygankov, “Hard-Line Eurasianism and Russia’s contending geopolitical perspectives,” East European Quaterly, no. 3, 1998, pp. 315–334.

(13) Osnovy geopolitiki: Geopoliticheskoe budushchee Rossii, Moscow: Arktogeya, 1997. Sobre esse livro, see J.B. Dunlop, “Aleksandr Dugin’s ‘Neo-Eurasian’ Textbook and Dmitrii Trenin’s Ambivalent Response,” Harvard Ukrainian Studies, vol. xxv, no. 1-2/2001, pp. 91–127. [

(14) Aleksandr Dugin, “Evraziiskaia platforma,” Zavtra, 21 January 2000.

(15) Wayne Allensworth, The Russia Question: Nationalism, Modernization, and PostCommunist Russia, Lanham, Md.: Rowman & Littlefield, 1998, e “The Eurasian Project: Russia-3, Dugin and Putin’s Kremlin,” artigo apresentado na Convenção Nacional da Associação Americana para o Avanço dos Estudos Eslavos, Salt Lake City, 4-6 November 2005.

(16) Para detalhes sobre as conexões de Dugin com círculos militares, ver: Dunlop, op. cit., pp. 94, 102.

(17) Françoise Thom, “Eurasisme et néoeurasisme,“ Commentaires, no. 66/1994, p. 304.

(18) “Evraziistvo: ot filosofii k politike,” artigo de Dugin no congresso de fundação do movimento Evraziia, 21 April 2001.

(19) “My—partiia natsional’noi idei,” artigo de Dugin na conferência ao preparar a transformação do Evraziia em partido político, 1 March 2002.

(20) Um economista por prática, Glazyev era conhecido desde o colapso da União Soviética como um partidário das reformas econômicas. Em 1991, ele foi nomeado vice-ministro (e, em dezembro de 1992, ministro) de Relações Econômicas Externas no governo de Egor Gaidar. Ele renunciou depois dos eventos de outubro de 1993, quando se recusou a apoiar Boris Yeltsin na sua luta contra a Casa Branca. Entre 1992 e 1995, foi deputado da Duma, presidindo o comitê do parlamento sobre políticas econômicas. Entre 1995 e 1999, ele trabalhou no Conselho da Federação e se aproximou de Alexander Lebed. Durante esses anos, Glazyev mudou de ideia sobre seus princípios econômicos liberais e se aproximou dos comunistas. Hoje ele é um intervencionista e estatista em questões econômicas, embora não advogue um retorno ao modelo soviético. Em 1999, foi eleito deputado pela lista do PCFR. Dentro do Rodina, Glazyev representou a ala esquerda. Apesar de sua repentina saída do bloco eleitoral, ele conseguiu se candidatar nas eleições presidenciais em março de 2004 e obteve 4,1% dos votos.

(21) Dunlop, op. cit., p. 104.

(22) “Partiia Evraziia vykhodit iz bloka Glaz’eva,” Km.Ru, 19 September 2003, http://www.km.ru/news/view.asp?id=7D D7770F40434412B24FDB116 DB19000.

(23) http://glazev.evrazia.org/news/190903- 1.html.

(24) A Unidade Nacional Russa (UNR), de Alexander Barkashov, foi um dos primeiros grupos a emergir depois do racha do Pamiat. Barkashov, que rejeita a nostalgia ortodoxa e czarista dos líderes do Pamiat, fundou seu próprio movimento, bem como o jornal do partido, Russkii poriadok. A UNR pegou uma parte significativa de seus símbolos do nazismo: a suástica, a saudação romana, as roupas paramilitares e partes do programa do PNSTA [Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães], incluindo uma economia mista e teorias eugênicas. O UNR afirma que a URSS implementou um programa de miscigenação racial entre eslavos e povos não-arianos com o objetivo de fazer os eslavos desaparecerem. O UNR diferiu de diversos outros grupos nacionalistas pós-soviéticos em sua definição racialista de nação russa. O movimento implodiu em 2000 e agora está dividido em numerosos pequenos grupos.

(25) A principal exceção era Dmitry Riurikov, um dos conselheiros de Boris Yeltsin sobre política internacional. Em 2001, ele se tornou membro do conselho central do Evraziia enquanto era embaixador da Rússia no Uzbequistão (mais tarde foi transferido para a Dinamarca).

(26) Em russo é impossível distinguir entre "eurasiano" e "eurasianista" (evraziiskii chelovek).

quinta-feira, 22 de fevereiro de 2018

O cérebro de Putin (Foreign Affairs)

(Presidente russo Vladimir Putin em 2007 - Reuters)

          O artigo a seguir foi publicado em 31 de março de 2014 no site da Foreign Affairs, a principal revista de relações internacionais no mundo e editada pelo Conselho de Relações Exteriores (CFR, en inglês) dos EUA. Ele aborda a trajetória pessoal do filósofo e ideólogo russo Alexander Dugin no contexto do fim da URSS até os dias de hoje, o desenvolvimento de sua filosofia e a formulação do neoeurasianismo, ideologia combina o eurasianismo clássico do início do século XX e a geopolítica com elementos nazi-fascistas, religiosos, místicos e ocultistas. Por fim, o texto encerra com o uso pelo governo Putin de seu pensamento e a estrutura criada por Dugin para divulgar suas ideias, como o Movimento Eurasiano.

          A publicação do artigo visava compreender as motivações das ações da Rússia na Ucrânia e no mundo. De 25 para 26 de fevereiro de 2014, forças militares russas iniciaram a tomada da Crimeia, e seguida por um referendo em 16 de março que aprovou a anexação pela Rússia, ratificada por Putin no dia 18. Uma semana depois do artigo, em 7 de abril, se iniciaria o levante armado pró-Rússia nas regiões de Donetsk e Luhansk, cujo conflito matou pouco mais de 10 mil pessoas até o momento.

          Mantive a foto original (acima) e os links de referência publicados no texto e fiz algumas observações no final. A tradução é minha. 

          Boa leitura.

          O cérebro de Putin
       
          Alexander Dugin e a filosofia por trás da invasão da Crimeia de Putin.

          Por Hannah Thoburn e Anton Barbashin (1)

          Desde o colapso na União Soviética, a Rússia tem buscado infrutiferamente por uma nova grande estratégia - algo que defina quem são os russos e para onde eles estão indo. "Na história russa durante o século XX, houve vários períodos - monarquismo, totalitarismo, perestroika e, finalmente, um caminho democrático de desenvolvimento," disse o presidente russo Boris Yeltsin dois anos após o colapso da União Soviética. "Cada estágio tem sua própria ideologia," continuou, mas agora "nós não temos." 

          Para preencher este vazio, em 1996 Yeltsin designou um time de acadêmicos para trabalharem juntos para encontrar o que os russos chamam de Russkaya ideya ("ideia russa"), mas eles voltaram de mãos vazias. Ao mesmo tempo, vários outros grupos também assumiram a tarefa, incluindo uma coleção de políticos e pensadores russos conservadores que chamavam a si mesmos de Soglasiye vo imya Rossiya ("Acordo em Nome da Rússia"). Juntamente com muitos outros intelectuais russos da época, eles estavam profundamente perturbados com a fraqueza do estado russo, algo que acreditavam que precisava ser arrumado para que  a Rússia retornasse à sua glória legítima. E para eles, isso implicava no retorno à tradição russa de um governo central poderoso. Como isso poderia ser realizado era uma questão para outra ocasião.

          Putin, com quem muitos dos Soglasiye ainda têm laços, concordou com seus ideais e objetivos gerais. Ele chegou ao poder em 1999 com um mandato nacional para estabilizar a economia e o sistema político russos. Graças ao aumento dos preços globais de energia, ele rapidamente atingiu este objetivo. No final dos anos 2000, ele tinha espaço para retornar à questão da ideia russa. A Rússia, começou a argumentar, era uma civilização única própria. Ela não poderia ser feita para se encaixar confortavelmente nos blocos europeu e asiático e tinha que viver por suas próprias e exclusivas leis e moral russas. E, com a ajuda da Igreja Ortodoxa Russa, Putin começou uma batalha contra os elementos liberais (ocidentais) que alguns segmentos da sociedade russa começaram a adotar. As atitudes dele que receberam condenação no Ocidente - como a criminalização da "propaganda homossexual" e a sentença de membros da Pussy Riot, um coletivo feminista de punk-rock, a dois anos de prisão foi vandalismo - eram populares na Rússia.

          Fiel à insistência de Putin de que a Rússia não pode ser julgada em termos Ocidentais, seu novo conservadorismo não se encaixa nas definições americana e europeia. Na verdade, a principal característica que eles compartilham é a oposição ao liberalismo. Enquanto que os conservadores nessas partes do mundo são temerosos do governo grande e põe o indivíduo em primeiro lugar, os conservadores russos advogam pelo poder do Estado e veem os indivíduos como servindo esse Estado. Eles se baseiam na longa tradição do conservadorismo imperial russo e, em particular, no eurasianismo. Esta corrente é autoritária em essência, tradicional, antiamericana e antieuropeia; valoriza a religião e a submissão pública. E, mais importante para os noticiários de hoje, é expansionista.

          As raízes do eurasianismo residem na Revolução Bolchevique da Rússia, embora muitas das ideias que contém têm histórias muito mais antigas. Depois da Revolução de Outubro de 1917 e da guerra civil que se seguiu, dois milhões de russos anti-bolcheviques fugiram do país. De Sofia para Berlim e então Paris, alguns desses intelectuais russos exilados trabalharam para criar uma alternativa ao projeto bolchevique. Uma dessas alternativas eventualmente se tornou a ideologia eurasiana. Os proponentes desta ideia postularam que os ocidentalizadores e os bolcheviques da Rússia estavam errados; os ocidentalizadores por acreditarem que a Rússia era uma parte (atrasada) da civilização europeia e por pedirem pelo desenvolvimento democrático; os bolcheviques por presumirem que todo o país precisava de uma reestruturação através do confronto de classe e de uma revolução global da classe trabalhadora.

          Em vez disso, os eurasianos destacavam que a Rússia era uma civilização única com seu caminho e missão histórica próprios: criar um centro de poder e cultura diferentes que não fosse nem europeu, nem asiático mas que tenha traços de ambos. Os eurasianos acreditavam na eventual queda do Ocidente e que era hora da Rússia ser o principal exemplo do mundo.

          Em 1921, os pensadores exilados George Florovsky, Nikolai Trubetzkoy, Petr Savitskii e Petr Suvchinsky publicaram uma coleção de artigos intitulados Exodus to the East, que marcou o nascimento oficial da ideologia eurasiana. O livro centrou-se na ideia de que a geografia da Rússia é seu destino e que não há nada que qualquer governante possa fazer para se libertar das necessidades de defender suas terras. Devido à vastidão da Rússia, eles acreditavam, seus líderes precisam pensar imperialmente, consumindo e assimilando as populações perigosas em todas as fronteiras. Enquanto isso, eles consideravam qualquer forma de democracia, economia aberta, governança local ou liberdade secular como altamente perigosa e inaceitável.

          Neste sentido, os eurasianos consideravam Pedro, o Grande - que tentou europeizar a Rússia no século XVIII - um inimigo e um traidor. Em vez disso, ele viam favoravelmente o domínio tártaro-mongol, entre os séculos XIII e XV, quando o império de Genghis Khan havia ensinado os russos ensinamentos cruciais sobre a construção de um estado forte e centralizado e um sistema piramidal de submissão e controle.

          As crenças eurasianas ganharam um forte seguimento na parte politicamente ativa da comunidade emigrante, ou Russos Brancos, que estavam ansiosos para promover qualquer alternativa ao bolchevismo. Entretanto, a filosofia foi totalmente ignorada, e mesmo suprimida pela União Soviética, e praticamente morreu com seus criadores. Ou seja, até a década de 1990, quando a União Soviética desmoronou e a atmosfera ideológica da Rússia estava vazia.

A EVOLUÇÃO DE UM REVOLUCIONÁRIO

          Depois do colapso da União Soviética, ideologias ultranacionalistas estavam decididamente fora de moda. Em vez disso, a maioria dos russos aguardava ansiosamente a democratização e a reintegração da Rússia com o mundo. Ainda assim, restaram poucos elementos profundamente patrióticos que se opunham à dessovietização e acreditavam - como Putin hoje acredita - que o colapso da União Soviética foi a maior catástrofe geopolítica do século. Entre eles estava o ideólogo Alexander Dugin, que era um contribuinte regular do centro analítico ultranacionalista e jornal Den´ (mais tarde conhecido como Zavtra). Sua primeira aparição à fama foi um panfleto de 1991, A Guerra dos Continentes (2), no qual ele descrevia uma permanente luta geopolítica entre dois tipos de poderes globais: os poderes terrestres, ou "Roma Eterna", que são baseados nos princípios de estatismo, comunalidade, idealismo e a superioridade do bem comum, e as civilizações do mar, ou "Cartago Eterna", que são baseadas no individualismo, no comércio e no materialismo. No entendimento de Dugin, a "Cartago Eterna" era historicamente representada pela democracia ateniense e pelos impérios holandês e britânico. Agora, ela é representada pelos Estados Unidos. A "Roma Eterna" é representada pela Rússia. Para Dugin, o conflito entre os dois continuará até que um deles seja completamente destruído - nenhum tipo de regime político e nenhuma quantidade de comércio pode parar isto. E para que o "bom" (Rússia) acabe por derrotar o "mau" (Estados Unidos), escreveu ele, deve haver uma revolução conservadora. 

          Suas ideias de uma revolução conservadora são adaptadas dos pensadores alemães do entreguerras, que promoveram a destruição da ordem liberal individualista e a cultura comercial da civilização industrial e urbana em favor de uma nova ordem baseada em valores conservadores como a submissão das necessidades e dos desejos individuais às necessidades de muitos, uma economia organizada pelo Estado e valores tradicionais para a sociedade baseadas numa visão quase religiosa do mundo. Para Dugin, o principal exemplo de uma revolução conservadora foi a radical República Social Italiana de Salò (1943-45) apoiada pelos nazistas no norte da Itália. Na verdade, Dugin retornou  continuamente ao que viu como virtudes das práticas nazistas e expressou apreço pela SS e o grupo ocultista Ahnerbe de Herman Wirth. Em particular, Dugin elogiou os projetos conservadores-revolucionários ortodoxos que a SS e o Ahnerbe desenvolveram para a Europa do pós-guerra, nos quais imaginavam uma Europa nova e unificada, regulada pelo sistema feudal de regiões etnicamente separadas que serviriam de vassalos aos suseranos alemães. É importante destacar que, entre outros projetos, o Ahnerbe era responsável por todos os experimentos com seres humanos no campos de concentração de Auschwitz e Dachau.

          Entre 1993 e 1998, Dugin se juntou à lenda nacionalista russa Eduard Limonov na criação do agora banido Movimento Nacional-Bolchevique (mais tarde o Partido Nacional-Bolchevique, ou PNB), onde eles se tornou o principal ideólogo de uma estranha síntese de socialismo e ideologia ultradireitista. No final dos anos 1990, ele foi reconhecido com o líder intelectual de todo o movimento ultradireitista da Rússia. Ele tinha sua própria editora, Arktogeya ("País do Norte"), vários sites, uma série de jornais e revistas, e publicou As Fundações da Geopolítica (3), um súbito bestseller que se tornou particularmente popular entre os militares.

          A introdução de Dugin na política convencional veio em 1999, quando ele se tornou conselheiro do parlamentar russo Gennadii Seleznev, um dos políticos mais conservadores da Rússia, por duas vezes presidente do parlamento russo, membro do Partido Comunista e fundador do Partido do Renascimento da Rússia. Neste mesmo ano, com a ajuda de Vladimir Zhirinovsky, líder nacionalista da Rússia e do muito mal nomeado Partido Democrático Liberal da Rússia, Dugin se tornou presidente da seção geopolítica do Conselho Consultivo sobre Seguração Nacional da Duma.

          Mas sua inclusão na política não se traduz necessariamente num maior apelo nas políticas da elite. Para isso, Dugin teve de transformar sua ideologia em algo mais - algo singularmente russo. Ou seja, ele eliminou os elementos mais escandalosos, esotéricos e radicais de sua ideologia, incluindo seu misticismo, e em vez disso se baseou no eurasianismo clássico de Trubetzkoy e Savitskii. Ele começou a trabalhar criando o Movimento Eurasiano Internacional, um grupo que viria a envolver acadêmicos, políticos, parlamentares, jornalistas e intelectuais da Rússia, de seus vizinhos e do Ocidente.

PARA A EUROPA E ALÉM

          Como os eurasianos clássicos das décadas de 1920 e 1930, a ideologia de Dugin é antiocidental, anti-liberal, totalitária, ideocrática e socialmente tradicional. Seu nacionalismo não é eslavo-orientado (embora os russos tenham uma missão especial de unir e liderar), mas também se aplica às outras nações da Eurásia. E rotula o racionalismo como ocidental e assim promove uma visão de mundo mística, espiritual, emocional e messiânica.

          Mas o neoeurasianismo de Dugin difere significativamente do antigo pensamento eurasiano. Primeiro, Dugin concebe a Eurásia como sendo muito maior do que seus predecessores jamais imaginaram. Por exemplo, enquanto Savitskii acreditava que o estado russo-eurasiano deveria se estender da Grande Muralha da China no leste até os Montes Cárpatos no oeste, Dugin acredita que o estado eurasiano deve incorporar todo os antigos estados soviéticos, membros do bloco socialista e talvez mesmo estabelecer um protetorado sobre todos os membros da UE (4). No leste, Dugin propõe ir até a Manchúria, o Xinjiang, o Tibet e a Mongólia. Ele ainda propõe eventualmente que se volte ao sudoeste em direção ao Oceano Índico.

          Para incluir a Europa na Eurásia, Dugin teve de retrabalhar o inimigo. No pensamento eurasiano clássico, o inimigo era a Europa romano-germânica. Na versão de Dugin, o inimigo é os Estados Unidos. Como escreve: "Os EUA são uma cultural quimérica, anti-orgânica e transplantada que não possui as tradições do estado sacro e do solo cultural, mas, no entanto, tenta impor nos outros continentes seu modelo anti-étnico, anti-tradicional [e] babilônico." Os eurasianos clássicos, ao contrário, favoreciam os Estados Unidos e o consideravam até mesmo um modelo, elogiando especialmente seu nacionalismo econômico, a Doutrina Monroe e a sua não associação na Liga das Nações.

          Outro pronto crucial de diferença é sua atitude em relação ao fascismo e a Alemanha nazista. Mesmo antes da Segunda Guerra Mundial, os eurasianos clássicos se opunham ao fascismo e se posicionaram contra o antissemitismo racial. Dugin elogiou o Estado de Israel por aderir aos princípios do conservadorismo, mas também falou de uma conexão entre o sionismo e o nazismo e sugeriu que os judeus só mereceram seu Estado devido ao Holocausto. Ele também divide os judeus em "maus" e "bons". Os bons são ortodoxos e vivem em Israel; os maus vivem fora de Israel e tentam assimilar. Obviamente, nos dias hoje, estes são pontos de vista aos quais ele raramente alude em público.

JOGO DE PUTIN

          Desde o início dos anos 2000, as ideias de Dugin apenas têm ganho popularidade. Sua ascensão reflete a própria transição de Putin de aparente democrata para autoritário. Na verdade, a virada conservadora de Putin deu a Dugin uma chance perfeita de "ajudar" o líder russo com explicações históricas, geopolíticas e culturais apropriadas às suas políticas. Reconhecendo o quão atraentes são as ideias de Dugin para alguns russos, Putin tomou algumas delas para promover seu próprios objetivos.

          Embora de tempos em tempos Dugin tenha criticado Putin por seu liberalismo econômico e sua cooperação com o Ocidente, ele geralmente tem sido o firme aliado do presidente. Em 2002, ele criou o Partido Eurásia, que foi bem recebido por muitos na administração de Putin. O Kremlin há muito tolerou, e mesmo encorajou, a criação de pequenos partidos políticos aliados menores, que dão aos eleitores russos a sensação de que eles realmente vivem numa democracia. O partido de Dugin, por exemplo, fornece um espaço para aqueles com inclinações chauvinistas e nacionalistas, mesmo que o partido permaneça controlado pelo Kremlin. Ao mesmo tempo, Dugin criou fortes laços com Sergei Glazyev, co-líder do bloco patriótico Rodina e atualmente conselheiro de Putin sobre a integração eurasiana. Em 2003, Dugin tentou se tornar deputado parlamentar pelo bloco Rodina, mas falhou.

          Embora sua incursão eleitoral tenha sido um fracasso, a recepção positiva de alguns eleitores a seus projetos antiocidentais encorajou Dugin a prosseguir com o movimento eurasiano. Depois do impacto da Revolução Laranja da Ucrânia em 2004, ele criou a União da Juventude Eurasiana, que promove educação patriótica e antiocidental. Ela possui 47 escritórios de coordenação por toda a Rússia e nove em países da Comunidade do Estados Independentes, Polônia e Turquia. Seu alcance é muito superior ao de qualquer outro movimento pró-democrático existente.

          Em 2008, Dugin se tornou um professor da melhor universidade da Rússia, a Universidade Estatal de Moscou, e chefe da organização sociológica nacional Centro de Estudos Conservadores. Ele também aparece regularmente em todos os principais canais de TV da Rússia, comentando sobre questões domésticas e estrangeiras. Sua exposição só aumentou desde os protestos pró-democracia do inverno 2011-12 e da ação de Putin em torno da mesma época ao criar a União Eurasiana. Sua presença generalizada na vida pública russa é um sinal da aprovação de Putin: a mídia russa, particularmente a televisão, é quase totalmente controlada pelo Kremlin. Se o Kremlin desaprova (ou não utiliza mais) uma pessoa em particular, ele o removerá das transmissões televisivas.

          Dugin e outros pensadores com ideias semelhantes apoiaram de todo o coração a ação do governo russo na Ucrânia, pedindo para ir além e tomar o leste e sul ucraniano, que, escreve ele, "congratula-se com a Rússia, espera por ela, pede para que a Rússia venha." O povo russo concorda. Os índices de aprovação de Putin saltaram no último mês [março de 2014], e 65 por cento dos russos acreditam que a Crimeia e as regiões orientais da Ucrânia são "territórios essencialmente russos" e que a "Rússia está certa em utilizar a força militar para defender a população." Dugin, então, provou ser um ótimo recurso para Putin. Ele popularizou a posição do presidente em questões como os limites à liberdade pessoal, uma compreensão tradicional da família, a intolerância à homossexualidade e a centralidade do cristianismo ortodoxo no renascimento da Rússia como uma grande potência. Mas a sua maior criação é o neoeurasianismo.

          A ideologia de Dugin influenciou toda uma geração de ativistas conservadores e radicais e políticos, que, se tivessem a chance, lutariam para adaptar seus princípios fundamentais à política de Estado. Considerando a pobre situação da democracia russa e o contínuo afastamento do país de ideias e ideais ocidentais, pode-se dizer que as chances de ver o neoeurasianismo conquistar novo terreno está crescendo. Embora a fórmula de Dugin seja altamente teórica e profundamente mística, ela está provando ser uma forte concorrente para o papel de principal ideologia da Rússia. Se Putin pode controlá-la, assim como controlou muitas outras fórmulas, é uma questão que pode determinar sua durabilidade.

* Traduzi o adjetivo "eurasianist" como "eurasiano" para simplificar a tradução. 
(1) Analistas do Eurasia, da Foreign Policy Initiative
(2) O panfleto virou livro com o título A Grande Guerra dos Continentes.
(3) Não há o livro em português. Em inglês está pelo título Foundations of Geopolitics.
(4) O vídeo que estava marcado neste trecho foi retirado do Youtube. Mas neste outro vídeo Dugin afirma, de forma direta, que a Rússia deveria anexar a Europa. Diz ele, a partir de 1:06: "...nós precisamos ocupar a Europa, conquistar e anexar." 


segunda-feira, 5 de fevereiro de 2018

O filósofo mais perigoso do mundo (por Paul Ratner)

(Dugin manejando um lançador de foguetes na Ossétia do Sul, Geórgia, pouco antes da Guerra Russo-Georgiana em agosto de 2008.)

         O texto a seguir foi escrito em 2016 pelo escritor e cineasta Paul Ratner, contribuinte do site Big Think, e discute as ideias do filósofo russo Alexander Dugin. A importância do texto está no destaque que Ratner dá ao conteúdo escatológico da filosofia de Dugin e os paralelos entre seu pensamento e os últimos acontecimentos da política russa. Segundo o autor, o governo Putin está colocando em prática as ideias do filósofo, razão pela qual considera que "é difícil não levar as ideias de Dugin a sério".

          Mantive os links de referência e as fotos originais publicadas no texto e fiz alguns observações no final. A tradução é minha. 

          Boa leitura.

       O filósofo mais perigoso do mundo

        As relevações sobre o envolvimento da Rússia no hackeamento dos funcionários do Partido Democrata, com a intenção de fazer Trump vencer Hillary, adicionou mais combustível a um ciclo eleitoral já exaustivo e extenuante. Por que a Rússia faria isso, especialmente já que se revelou que o presidente russo Vladimir Putin provavelmente estava dirigindo pessoalmente a operação? Entre com Alexander Dugin, o cientista político conhecido como "Rapustin de Putin" ou "Cérebro de Putin", bem como um fascista ocultista. Ele é também um professor de sociologia na prestigiosa Universidade Estatal de Moscou*, um escritor prolífico, um assessor de figuras-chave de membros política e do meio militar e um articulador de uma filosofia nacionalista sancionada pelo Kremlin
          
          Ele também esteve na lista de sanções americanas após a aquisição da Crimeia pela Rússia, por defender o assassinato de ucranianos, entre outras coisas.**

        Não que Dugin seja pessoalmente responsável pelos hackeamentos, que atualmente são explicados como uma vendeta pessoal de Putin contra Clinton. Mas a influente filosofia de Dugin se alinha muito bem com o que parece ter acontecido e oferece uma excelente abordagem sobre o tema e em futuros conflitos com a Rússia. Provavelmente há motivos muito mais profundos por trás das ações russas.

          Alexander Dugin é ao mesmo tempo sociólogo, historiador e filósofo. Você pode encontrar várias de suas exposições on-line no Youtube, embora ajudaria se você soubesse russo. Ele mesmo fala dez línguas. Entre suas muitas opiniões controversas, ele expressou visões profundamente anti-científicas, pedindo a proibição da química e da física. Ele também se livraria da internet***, uma visão anti-tecnológica que, em última análise, decorre do seu desejo de dar um fim no mundo como o conhecemos.  

(Crédito: Dugin.ru)

        O que ele propõe é que havia três principais teorias políticas que impactaram o mundo no passado relativamente recente - o capitalismo liberal ou "liberalismo", o comunismo e o fascismo. De acordo com Dugin, os EUA são o líder do liberalismo, o qual oferece liberdade, uma abordagem racionalista e uma concorrência de mercado.

        Embora o liberalismo tenha sido a ideologia vitoriosa até agora, triunfando sobre o fascismo em 1945 e o comunismo em 1991 (quando a URSS se dissolveu), Dugin pensa que agora ele também experimenta uma crise fatal. Ele acredita que os próprios liberais seriam os primeiros a afirmar isto. Dugin considera que o liberalismo está próximo de um beco sem saída, atolado atualmente num "estágio pós-moderno niilista" porque está tentando se libertar do pensamento racional e da opressão do cérebro, que para um liberal é "algo fascista em si". Dugin dá um passo além, afirmando o liberalismo de hoje como algo que está tentando libertar os órgãos do corpo do controle do cérebro, aludindo à sua aceitação pela comunidade LGBT. 

          Aqui está como ele explica esse racioncínio:
"O liberalismo insiste na liberdade e na libertação de qualquer forma de identidade coletiva. Esta é a própria essência do liberalismo. Os liberais tem libertado o ser humano da identidade nacional, da identidade religiosa e assim por diante. O último tipo de identidade coletiva é o gênero. Então, há tempo de aboli-lo fazendo-o arbitrário e opcional".
          O que Dugin propõe em vez do que ele vê como três ideologias mortas e moribundas é sua "Quarta Teoria Política". Ela criaria um modelo político totalmente alternativo, contra o "progresso" da história mundial tal como é. Não seria baseada nas questões de individualismo, nação ou nacionalismo. Dugin vê essa teoria como parcialmente baseada no trabalho do filósofo existencial alemão Martin Heidegger, controverso com sua associação com o nazismo. Sua filosofia apresenta uma raiz da autoconsciência humana (chamado por Heidegger de dasein) a ser salva no mundo, já que tem sido diluída pelo espaço moderno pela tecnologia essencialmente desumanizadora.

          Já que essa raiz do ser difere de pessoa a pessoa e de cultura para cultura, o mundo deveria ser caracterizado por uma divisão de poder multipolar, ao contrário de uma superpotência nos EUA. Encontrar uma maneira de implementar uma forma tão nova de ver o mundo, segundo Dugin, seria retornar a um senso de identidade que os humanos têm perdido em todo o mundo.

          Dugin contrasta sua teoria de um mundo multipolar com o que ele (e teóricos da conspiração no mundo inteiro) vê como uma movimento em direção à criação de um "governo mundial" liderado por "elites globalistas" dissimuladas, que estão dispostas a privar as pessoas de um senso de identidade e subjugá-las às suas necessidades corporativas.

          Neste mundo de um certo número de superpotências regionais, qual seria o papel da Rússia? Dugin vê a Rússia como a nação líder na União Eurasiana e fundou o Movimento Eurasiano Internacional para alcançar este objetivo.

          O que é a Eurásia? Basicamente, é o território da antiga União Soviética. Dugin pensa que a União Soviética apenas tomou de volta as fronteiras de uma histórica união de povos e etnias que estavam lá desde o Império Russo. Como a Rússia é um país de cultura e destino únicos, é sua missão criar um centro de poder que tenha elementos da Europa da Ásia, os dois continentes abraçados pela expansividade do país.
"O Ocidente sabe pouco ou nada sobre a real história da Rússia. Às vezes eles pensam que a União Soviética era puramente uma criação comunista e estados como Ucrânia, Cazaquistão ou Azerbaijão eram independentes antes da URSS e foram conquistados pelos bolcheviques ou forçados a entrar no estado soviético," diz Dugin. "O fato é que eles nunca existiram ou representaram como tais, mas como distritos administrativos sem qualquer significado político ou cultural dentro do Império Russo, bem como dentro da URSS. Estes países foram criados artificialmente em suas atuais fronteiras apenas depois do colapso da URSS e como resultado deste colapso".  
          Assim, o objetivo do estabelecimento da União Eurasiana seria essencialmente corrigir um erro histórico e trazer de volta um império bem sucedido que existiu ainda antes da União Soviética. A recente aquisição da Crimeia pela Rússia e demais projetos na Ucrânia parecem ser uma parte lógica de tal plano.

          Dugin vai ainda mais fundo em sua muito controversa análise histórica, afirmando que o atual oponente da Eurásia não é apenas os Estados Unidos, mas o Atlanticismo, o eixo de cooperação entre Europa, EUA e Canadá que cruza o Oceano Atlântico. Essas nações marítimas e liberais valorizam a individualidade e as forças de mercado.         

          A Eurásia, por outro lado, representa a filosofia conservadora do continentalismo terrestre, que de acordo com os eurasianistas tem entre seus valores a estrutura hierárquica, a lei e a ordem, o tradicionalismo e a religião.

          Portanto nós temos Atlantis versus Eurásia. De fato, Dugin afirma que toda a história pode ser vista como uma batalha entre as nações marítimas e terrestres.     

        O que Dugin pensa sobre a vitória de Trump? Ele esteve muito entusiasmado com Trump ao longo de todo o processo eleitoral, para dizer o mínimo, descrevendo-o desta forma para destacar porque Trump é uma "sensação" que pode enfrentar as elites globalistas:
"[Donald Trump] é difícil, grosseiro, fala o que pensa, rude, emocional e, aparentemente, sincero. O fato de que ele é bilionário não importa. Ele é diferente. Ele é um americano comum extremamente bem sucedido..."  

          Dugin acha que a vitória de Trump é um golpe monumental contra os "globalistas", cuja candidata era Hillary Clinton - a mesma linguagem que você pode facilmente encontrar em apimentados sites americanos conservadores como Breitbart News, Drudge Report e o rei da conspiração Alex Jones (um dos favoritos de Dugin). Ele acha que a vitória de Trump foi um tipo de "revolução" iniciada pelo povo americano e deve levar a derrotas mundiais da agenda globalista, drenando o proverbial "pântano" em todo o mundo.   

          Entretanto, Dugin não para aí. Suas visões sobre qual é o significado da vitória de Trump implicam em mergulhar numa mudança apocalíptica e civilizacional:
"Nós precisado retornar ao Ser, ao Logos, à ontologia fundamental (de Heidegger), ao Sagrado, à Nova Idade Média - e portanto ao Império, à religião e às instituições da sociedade tradicional (hierarquia, culto, domínio do espírito sobre a matéria e assim por diante). Todo o conteúdo da modernidade é Satanismo e degeneração. Nada tem valor, tudo está para ser eliminado. A Modernidade está absolutamente errada - ciência, valores, filosofia, arte, sociedade, modas, modelos, 'verdades', compreensão do Ser, do tempo e do espaço. Tudo está morto com a Modernidade. Portanto ela deve acabar. Nós vamos acabar com isso."
          Está certamente não seria a primeira vez na história recente que um russo pensou que tudo está errado e que o mundo precisa ser completamente purgado. Nós sabemos como isso terminou. E os elementos sobrenaturais de algumas coisas que Dugin está dizendo, junto com sua barba, talvez mereçam a comparação com Rasputin. Mas Dugin acredita que medidas concretas deveriam ser tomadas para realizar sua visão de mundo? 

          Curiosamente, antes da vitória de Trump, influentes porta-vozes conservadores americanos, como a National Review, estavam alertando para as intenções da Rússia, destacando especificamente a ameaça que a ideologia de Dugin representava, chamando o eurasianismo de "um culto satânico". Agora que Trump venceu e que a Rússia estava implicada na interferência eleitoral, eles não estão tão interessados em abordar esta questão.

          Será que Putin realmente ouve Dugin. Acadêmicos e comentaristas dizem que sua ideias são levadas à sério por pessoas no círculo de Putin e sua crescente popularidade coincide com o autoritarismo e as ações em andamento de Putin. Notavelmente, em 2008 Dugin veio em apoio à tomada da Geórgia pelas tropas russas e se inflamou durante o conflito Rússia-Ucrânia de 2014, pedindo pelo massacre de ucranianos e a anexação de terras ucranianas que eram parte do antigo Império Russo.

          Para saber o que Dugin deve especificamente defender, podemos olhar seu livro mais vendido "O Fundamento da Geopolítica" de 1997, que teve particular sucesso entre os militares russos e de acordo com a Foreign Policy (e as próprias palavras de Dugin) é designado para leitura nas universidades militares russas.       

          O livro descreve uma perspectiva para a Rússia no século XXI que levaria à formação da Eurásia, mas também inclui estratégias específicas para derrotar ou neutralizar os EUA. Estas incluem campanhas de desestabilização e desinformação utilizando as forças especiais russas e a guerra assimétrica, dividindo as alianças entre os EUA e países como Alemanha e França, bem como a fermentação da divisão dentro do próprio país, destacando especialmente as relações raciais. Na página 367 da primeira edição do livro, Dugin explica:     
"É especialmente importante introduzir desordem geopolítica dentro da atividade interna americana, encorajando todos os tipos de separatismos e conflitos étnicos, sociais e raciais, apoiando ativamente todos os movimentos dissidentes - grupos extremistas, racistas e sectários, desestabilizando, portanto, os processos políticos internos nos EUA. Também fazeria sentido apoiar simultaneamente as tendências isolacionistas na política americana..." 
          Depois de nossas eleições hiper-divisivas, cheia das calamidades descritas acima, diante de uma investigação cada vez mais aberta sobre interferência russa em nossa mais estimada instituição democrática, é difícil não levar à sério as ideias de Dugin. Com a vitória de Trump, Dugin recuou um pouco em pintar os EUA como inimigo número um. Também foi relatado que o relacionamento entre Dugin e Putin pode ter esfriado recentemente, com Dugin criticando Putin por ser "muito lento" em realizar sua visão de mundo. Mas, olhando os fatos com os pés no chão, é possível concluir que Putin ainda pode estar jogando um longo jogo orientado à Eurásia, que não vai se encerrar apenas nos embaraçosos e-mails do Wikileaks. Especialmente à luz do fato de que agora os EUA se encontram numa posição vulnerável, buscando por uma filosofia unificadora e por um caminho a seguir.

          Aqui está um artigo sobre Dugin e seu livro feito por John B. Dunlop do Hoover Institution. Se você sabe russo, você pode ler o livro aqui.     

* No site Academia.edu, Dugin apresenta-se como membro da universidade.

** Também consta na lista ampliada de sanções do Canadá publicada em 2015. Em maio de 2016, ele chegou a ser barrado de entrar na Grécia, território da União Europeia, a pedido de autoridades húngaras, mas logo foi liberado. Dugin não está na lista de sanções do bloco.

*** De acordo com uma reportagem publicada pela agência de notícias BalticInfo através de sua filial em São Petersburgo, numa palestra realizada nesta cidade em junho de 2012 Dugin declarou, para espanto da platéia, que "se nós quisermos dar um fim no Ocidente, temos que dar um fim nos textos de química e física". Sobre a internet, o filósofo russo afirmou que "uma pessoa envolvida numa rede, e não numa organização territorial, torna-se um cidadão do mundo depois de usar a internet". De acordo com o jornalista Vladislav Golyanov, autor da reportagem, a palestra de Dugin versou sobre o confronto entre o Ocidente e os Estado nacionais, e suas declarações sobre as ciências e a internet ocorreu dentro de uma perspectiva religiosa. Disso se deduz que as ciências química e física e a internet devem ser combatidas no contexto da guerra contra o Ocidente. (O texto do link está traduzido do russo para o inglês pelo Google Translator.)  

terça-feira, 2 de janeiro de 2018

The "unknown woman" and the search for Russia´s national identity

(Painting "Portrait of an Unknown Woman", by Ivan Kramskoi. The painting is exposed at Tretyakov Gallery, in Moscow.)

          A few weeks ago I´ve got very impressed when I saw the image in the painting reproduced above. It´s name is "Portrait of an Unknown Woman" by the Russian painter Ivan Kramskoi, 1883. When I opened the screen it seemed I was in front of a real woman. Her deep gaze blends arrogance with seduction, and it´s further pronunced by the contrast of the face with the dark dress and the snowy enviroment in the background. It seemed the woman would jump off the painting to talk with me or go beyond a mere conversation.

          Kramskoi was part of "The Itinerants" (Peredvyhznyky), group of Russian painters who sought to educate the people throught art, travelling and holding exhitions of their works in the Russia´s interior. According to Orlando Figes in the book Natasha´s Dance: A Cultural History of Russia, in the early 1860´s these painters moved away from the Academy of Arts of Saint Petersburg (today Imperial Academy of Arts) and, rejecting the European classicism of this school, they began to work with what the author calls "Russian style", inspiring themselves in the people´s folkloric and religious traditions. The withdraw happened with the rebellion of fourteens students of the academy who was known as "Wanderers", led by Kramskoi, who demanded freedom of choice in the paintings content. Many artist of this trend worked at the Stroganov School of Arts (today Stroganov Moscow State University of Industry and Arts), which received people of vairous social classes and who, therefore, knew the diversity of Russian society. They were sponsored by the great merchants of emergent Moscow, among them Pavel Tretyakov, railroads magnate and Russian arts collector who names the gallery where Kramskoi´s painting stands. The Russian painter was one of those sponsored by Tretyakov and was an important portraitist of the time, having reproduced people of the cultural milleu such as the Russian writer Lev Tostoy and Ukrainian poet Taras Shevchenko. In Figes´ words, Kramskoi "painted against a simple background and concentrated on the face, attracting the spectators to the eyes and forcing them to penetrante in the inner world of the people whom they had treated as slaves until yesterday"* (Chatper 4, part 2). The author referes to the servitude regime which was in effect in Russia until it´s abolition by Tzar Alexander II in 1861. 

          In Kramskoi´s time all the Russian intelligentsia was obsessed in understanding the peasant, discovering their people´s identity and answering the question: "who are we?" The question crossed the whole 19th century and, despite the supression of the Soviet regime throughout the 20th century, the search for an answer continued with Slavophiles and Eurasianist and continuous to this day. This doubt came to light strenghtly with the invasion of Russia by Napoleon in 1812, crushing the idea of an Europe as source of civilization, which led the first Russian artists and intellectuals to question the true identity of their people and the path that Russia should follow in the future. But the issue had already began to emerge a little earlier, around 1800, when it was flourishing a Russian "national" culture still dominated by an idealized image of Europe. In the view of the early artists, the imperial court and it´s Europenized city, Saint Petersburg, were artifical and strange to the Russian culture. Satires and plays sought to identify who was the "Russian" in contrast to the European inhabitant. In Orlando Figes´ words:

"Against the background of this domination by Europe, satires (...) began to define the Russian character in distintive terms other than Western values. These writers established the antithesis between the foreign artifice and the native truth, European reason and heart of the Russian soul which would be the basis of the national narrative of the 19th century. At the heart of this discourse was the ancient romantic ideal of the native soil - an 'organic'  and pure Russia, not corrupted by civilization. Saint Petersburg was just deceit and vanity, a narcissistic dandy watching all the time his reflection on the Neva River. The real Russia was in the provinces, a place without pretensions or foreign conventions where the simple 'Russian' virtues were preserved."* (Chapter 1, part 5)   

          The figure of the unknown woman wasn´t a peasant, not even a common "citizen" as we conceive in the modern society. Judging by the time and the bakcground of the picture, the woman resembles a noble or member of the emerging merchant class. But this is part of "real" Russia, to use a word that can define the ideal sought by the Russian artists of the 19th century. Despite not beeing a peasant, the unkonown woman composes part of the national synthesis dreamed by these artists and, more especifically, by movements like the populist and "native soil". The first appeared 1874 and worked with the peasants promoting education, arts and political activism of socialist profile and aimed to lead Russia to development combining the European way with the people´s traditions; the second, which emerged at the same time, was a cultural movement composed of writers which published texts that extolled national unity and appealed to the artists to portray the people´s life and bring them the Western culture. The populists and members of the "native soil" wanted to unite the different parts of society into a single nation, to realize the national synthesis between the noble and the peasant.

          The Kramkoi´s painting offers a plunge into the Russian soul through the beautiful and seductive look of the unknown woman, face which offers to us a facet of a multifaceted nation. It´s an attempt to translate what Kramskoi saw at the streets while probing the question "who are we?" Art has this strength, of seeing the reality of the other, of a distant people, as if we were there and we were part of their identity.

* Free translation of the author.
** Published in Portuguese on December, 24th 2017.

domingo, 24 de dezembro de 2017

A "mulher desconhecida" e a busca pela identidade nacional da Rússia

(Quadro "Retrato de Uma Mulher Desconhecida", de Ivan Kramskoi. Pintura está exposta na Galeria Tretyakov, em Moscou.)

Há algumas semanas atrás fiquei muito impressionado quando via a imagem do quadro reproduzido acima. Seu nome é "Retrato de uma Mulher Desconhecida", do pintor russo Ivan Kramskoi, de 1883. Quando abri a tela parecia que estava em frente a uma mulher de verdade. Seu olhar profundo mistura arrogância com sedução, e ficam mais acentuados pelo contraste do rosto com a vestimenta escura e o ambiente nivoso ao fundo. Parecia que a mulher saltaria do quadro para falar comigo ou ir além de uma mera conversa.

          Kramskoi fazia parte de "Os Itinerantes", grupo de pintores russos que buscava educar o povo pela arte, viajando e realizando exposições de suas obras no interior da Rússia. Segundo Orlando Figes no livro Uma história cultural da Rússia, no início da década de 1860 estes pintores se afastaram da Academia de Artes de São Petersburgo (hoje academia Imperial de Artes) e, rejeitando o classicismo europeu desta escola, passaram a trabalhar com aquilo que o autor chama de "estilo russo", inspirando-se nas tradições folclórica e religiosa do povo. A retirada ocorreu com a rebelião de catorze estudantes da academia que ficaram conhecidos como "Vagantes", liderados com Kramskoi, que exigiam liberdade de escolha no conteúdo das pinturas. Muitos artistas desta corrente trabalharam na Escola de Artes Stroganov (hoje Universidade Estatal de Moscou de Artes e Indústria Stroganov), que recebia pessoas de variadas classes sociais e que, portanto, conheciam a diversidade da sociedade russa. Eles eram patrocinados pelos grandes mercadores da emergente Moscou, entre eles Pavel Tretyakov, magnata do setor de ferrovias e colecionador de arte russa que dá nome à galeria onde está o quadro de Kramskoi. O pintor russo foi um dos patrocinados por Tretyakov e era importante retratista da época, tendo reproduzido personalidades do meio cultural como o escritor russo Lev Tostoy e poeta ucraniano Taras Shevchenko, além do czar Alexandre III. Nas palavras de Figes, Kromskoi "pintava contra um pano de fundo simples e se concentrava no rosto, atraindo os espectadores para os olhos e forçando-os a penetrar no mundo interior das pessoas que ontem mesmo tinha tratado como escravas" (p. 296). O autor faz referência ao regime de servidão que vigorou na Rússia até sua abolição pelo czar Alexandre II em 1861.

          Na época de Kramskoi toda a intelectualidade russa estava obcecada por compreender o camponês, descobrir a identidade de seu povo e responder à questão: "quem somos nós?". A pergunta atravessou a totalidade do século XIX e, apesar da supressão do regime soviético ao longo do século XX, a busca por uma resposta continuou com os eslavófilos e eurasianistas e se mantém até hoje. Esta dúvida veio com força à tona com a invasão da Rússia por Napoleão em 1812, fazendo desmoronar a ideia de uma Europa como fonte de civilização, o que levou os primeiros artistas e intelectuais russos a questionar a verdadeira identidade de seu povo e o caminho que a Rússia deveria seguir no futuro. Mas a questão já começara a aflorar um pouco antes, em torno de 1800, época em que germinava uma cultura "nacional" russa ainda dominada pela imagem idealizada da Europa. Na visão dos primeiros artistas, a corte imperial e sua cidade europeizada, São Petersburgo, eram artificiais e estranhas à cultura russa. Sátiras e peças teatrais buscavam identificar quem era o "russo" em contraste com o habitante europeu. Nas palavras de Orlando Figes:

"Contra o pano de fundo dessa dominação pela Europa, sátiras (...) começaram a definir o caráter russo em termos distintos dos valores do Ocidente. Esses escritores estabeleceram a antítese entre o artifício estrangeiro e a verdade nativa, razão europeia e coração da 'alma' russa que seria base da narrativa nacional do século XIX. No âmago desse discurso estava o antigo ideal romântico do solo nativo - de uma Rússia 'orgânica' e pura, e não corrompida pela civilização. São Petersburgo era apenas engano e vaidade, um dândi narcisista a observar o tempo todo o seu reflexo no rio Neva. A Rússia real ficava nas províncias, um lugar sem pretensões nem convenções estrangeiras onde as simples virtudes 'russas' se mantinham preservadas." (p. 96)

          A figura da mulher desconhecida não era uma camponesa, nem mesmo uma "cidadã" comum como concebemos na sociedade moderna. A julgar pela época e o pano de fundo do quadro, a mulher lembra uma nobre ou membro da classe emergente de comerciantes. Mas esta é parte da Rússia "verdadeira", para utilizar uma palavra que possa definir o ideal almejado pelos artistas russos do século XIX. Apesar de não ser camponesa, a mulher desconhecida compõe parte da síntese nacional sonhada por estes artistas e, mais especificamente, por movimentos como o populista e o "solo nativo". O primeiro surgiu em 1874 e atuou junto aos camponeses promovendo a educação, as artes e o ativismo político de perfil socialista e tinha como objetivo levar a Rússia ao desenvolvimento combinando uma via europeia com as tradições do povo; o segundo, surgido na mesma época, era um movimento cultural composto por escritores que publicavam textos onde exaltavam a unidade nacional e apelavam aos artistas para que retratassem a vida do povo e levassem a eles a cultura do Ocidente. Os populistas e membros do "solo nativo" queriam unir as diferentes partes da sociedade numa única nação, realizar a síntese nacional entre o nobre e o camponês.

          O quadro de Kramskoi oferece um mergulho na alma russa através do olhar belo e sedutor da mulher desconhecida, rosto este que nos oferece uma faceta de uma nação multifacetada. É uma tentativa de traduzir o que Kramskoi viu nas ruas ao sondar a pergunta "quem somos nós?" A arte tem esta força, de vermos a realidade do outro, de um povo distante, como se lá estivéssemos e fizéssemos parte de sua identidade.

terça-feira, 17 de outubro de 2017

Russian Conservative Forum: Russia´s messianic tradition and conservative estrategy


          The picture above is the logo of the International Russian Conservative Forum, an event that brought together European political leaders in Russia in 2014 and 2015. At the center Our Lady carries Baby Jesus in her arms over the Bizantine symbol of the two-headed eagle. The eagle was adopted by the Grand Duke of Moscovy, Ivan III, and represents the union between spiritual and temporal power of Russia. The kingdom, which would become the Russian Empire during the reign of Ivan IV, the Terrible, atributted to itself the Bizantine Empire´s legacy. The Bizantines developed the harmony concept, the perfect marriage between Church and State, represented by the eagle´s two head united to the same body. At the proclamation and coronation of Ivan IV as czar in 1547, the rite openly declared that Russia was the "Third Rome", transforming the doctrine which circulated among Slavic kingdoms at least a century before as an element of the State power. And it was necessary that a "God-elected autocrat" to firmly govern his kingdom to fulfill it´s eschatological role. Russia was destined by God to protect and guide Christendom, which would have been betrayed by Rome´s heresy with the 1054 schism and defeated at Constantinople by the Muslims in 1453. God was source of his legitimicy, which would be susteined until the Revolution of 1917.

          To the feet of the two-headed eagle there are on one side the scepter, symbol of authority, and on the other the globe. The allusion in clear: Russia has the divine role not only to guide Christendom, but the whole world, the whole creation. Hence the figure of the sun background, the light, God, source of all things and under which all things submit. The sun holds and bless whole creation, having Russia the authority over the world as protector and guide of the Christendom. Lastly, Our lady, who is the main intercessor to God in Christianity and for whom the Russian Orhodox Christianity has particular and deep devotion, presents herself as the link between Russia represented by the eagle behind her and God who is in her arms in the Person of Jesus          

          The sinthesys of the picture is the world leadership by Russia, political and espiritual authority of the world, guided by God through the hands of Our Lady. 

          The International Russian Conservative Forum already has in his name it´s claim: to be Russian and international at the same time, highlighting the Russia´s role in leading a new world order built over the debris of the current order. When hosting an event of this, the country is assuming this role, following the example of the statement on the Forum´s mission:

"We see how many Euro-Atlantic countries really took the way of rejecting theirs roots, including Christian values which form the basis of Western civilization. Moral principles against any tradition identity - national, cultural, religious or even sexual. There is a policy that places a family and a homosexual union on the same level, [as if] faith in God or faith in Satan [were equivalent]. The excesses of the politically correct go so far that they are seriously discussing the creation of events aimed in propagating pedophilia. In many European countries people are ashamed or afraid to talk about their religious affiliation. The holidays can be cancelled or are presented as something embarrasing, hiding the essence of these holidays, their moral basis. And this model is trying to impose itself aggressively to everyone, the whole world. We are convinced that this is a straight path to degradation and primitivization, a deep demographic and moral crisis. What else can be evidence of a moral crisis if not the loss [of the population´s] capacity for self-reproduction [?]. An today almost all depeloped countries cannot grow even with the help of migration. Without the values established in Christianity and other world religions, without the moral norms that have been formed through thousands of years, people will inevitably lose human dingity. And we consider natural and correct to protect these values."* 

          Following this statement, the Forum´s website continues with a Vladimir Putin´s speech to the participants of the Valdai Club, in September 2013, where the President defends traditional values, says the State could be a partner in this defense and alerts to the threat of the loss of Western countries´ sovergnity. The Valdai Club is a think-thank linked to the Kremlin and turned to Russia´s foreign policy research, and every year it receives Putin´s participation.

(A meeting of the Forum in Saint Petersburg, Russia, March 21-22, 2015. This was the most publicized Forum´s photo by Western media.)

          The Forum´s mission is to create a new concept of human development in response to Western liberalism, integrate conservative political organizations and to strenghten comercial, cultural and spiritual ties historically established between Russia and Europe. Taken as a scientific congress, it´s target audience are Russian and foreign public, political and patriotic organizations, representatives of regional, national governents and universities, Russian scientists, experts in History, Sociology, Demography, Law, Economics, Finances and members of industry. The intention is to influence political and social organizations in Russia and abroad, as well as public figures from the areas mentioned above, writers and public personalities.

          The 2015 event took place on March 21-22th at Holiday Inn Hotel, in Saint Petersburg, and was organized by the Russian National Cultural Center - People´s House, organization dedicated in promoting Russian culture. The initiative came from Rodina party, of Russian Deputy Prime Minister Dmitry Rogozin. According to an official statement from the British government, members of right and far-right from Germany, Belgium, Bulgaria, Denmark, Spain, Greece, Italy, United Kingdom and Sweden has attended the meeting. There wasn´t, however, participation of politicians of the Russian government. Participants were mainly political parties and military and political leaders who align themselves with the Forum´s proposal, such as Ataka from Bulgaria, Golden Dawn from Greece, Fuerza Nuova from Italy and the European political organization Alliance for Peace and Freedom. (Freedom Party from Austria, which had signed a cooperation agreement with Putin´s United Russia and had confirmed it´s presence at the Forum decided at last minute not to go.) These parties have simpathy for Russia and the Kremlin´s leadership. Among the Forum´s participants there was also people of neo-Nazi and antissemitic profile.

          In the end of the meeting was published the Participant´s Resolution, that begins with the declaration of regret to the destruction of "tradition European values". The text presents seven points defended by the members: 1) the creation of a "free, multipolar, progressive world order" (main Forum´s objective), the defense of the countries´ sovereignty and conservatism as the best form of existing social activity; 2) promoting, through the parties and the European Parliament, Christian values and propagate them to the masses, improving relations with the West and the end of the "Cold War" promoted against Russia; 3) the creation of a collective security system in Europe outside NATO, which became a tool of a dictadorship, departure of US troops from the continent and rejection of interventions by Western forces in other countries; 4) Russia is the legitimate successor of the Soviet Union and Russian Empire and now it´s integral part of the European traditions and it´s extended family; 5) Europe and Russia have their own path and must be freed from the US power. The main example of this is the conflict in Ukraine, that Forum sees as an internal problem, but considers that part of it´s territory was artificially separeted from Russia, is inhabited by Russians and asks the West to stop supporting Kiev gonverment; 6) the condenation of the sanctions against Russia and that also undermines Europe, and the desire to estimulate trade between the two regions to turn them back again into the center of humanity´s progress; 7) finally, the most important task is to estimulate the population growth by returning population to traditional values, and also intervene more rapidly to improve people´s urban life and health. The Resolution ends by asking participant organizations to act in a coordinated way to achieve these goals.

          The document sometimes repetes that the Forum´s members are "conservatives" and in the objectives it´s clear the references to the Russia´s special role in the world (the Russia-Europe duality repeatedly mentionated reinforce this idea).

          The fact that the Forum use a logo of strong religious load doesn´t necessarely means the divinization of the event or it´s messianic pretension (the same could be said, for example, about the flag of my country, Brazil, whose Positivist motto "Ordem e Progresso" - Order and Progress - inscribed in it doens´t makes this country and active agent in promoting Positivist philosophy through world, which promisses a new age of peace and progress for mankind). However, it´s symbology and performance is inserted into Russia´s messianic tradition. As I´ve commented in other post in this blog, today´s Russia continues to reproduce this tradition aiming to create a new world order over the rubble of the actual one. Whether under tzars´ divine authority, under the divinization of the Party and Communist triunphalism or under eschatology of the present Eurasian Movement, Russian messianism remains alive in planetary political projects focused in the formation of a new humanity, a new world created in the image and likeness of it´s social planners

          The International Russian Conservative Forum is only one of the Kremlin´s various investiments to achive this goal. It´s strategy is revealed in the conservative and nationalist narrative where elements of revolutionary tradition (anti-conservative, therefore) are mixed up, such as fascists, neo-Nazis and right-wing extremist, whose common point isn´t exaclty in values, but pro-Russia and anti-US feeling. The ignorance of this event´s mission by the great majority of people shows that this isn´t a plan with peoples´ consent, muche less of divine one.

* Translated from Russian to Portuguese with Google Tradutor with adpatations by the author, and to English by the author.

** Published in Portuguese on October 13th, 2017.