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segunda-feira, 17 de outubro de 2016

Putin chama familiares de oficiais para casa: desvendando um mal-entendido

(Presidente da Rússia em foto de 11 de novembro de 2015: se fosse há um anos atrás, a chamada de Putin para o retorno das famílias de membros do governo não teria a mesma repercussão.)

A notícia de que Vladimir Putin teria ordenado a membros do alto-escalão do governo que levassem seus familiares de volta à Rússia causou furor em veículos de comunicação do Ocidente. A ordem teria sido expedida para membros da administração federal e regional, deputados e empregados de empresas públicas. O episódio foi interpretado como uma ação de emergência na preparação para uma possível guerra nuclear com os EUA e a OTAN.

Ao que tudo indica, os principais responsáveis por esta interpretação foram os tabloides ingleses como o Daily Star e o Daily Mail. Este último citou como fonte o site de notícias russo Znak, com sede na cidade de Iekateriburgo, dizendo que Putin teria ordenado que os alto-oficiais do governo mandassem de volta à Rússia seus familiares "em meio ao aumento das tensões na perspectiva de uma guerra global". O não cumprimento da ordem teria como punição o prejuízo às carreiras do oficiais. Apesar do Daily Mail afirmar que o motivo da ordem não era clara, o episódio foi interpretado no contexto da súbita deterioração das relações entre a Rússia e o Ocidente, principalmente nas divergências diplomáticas e militares sobre a Guerra Civil Síria e no posicionamento de mísseis na Europa, que mencionei no final de meu último texto neste blog. A reportagem também cita um analista político russo que afirma que Putin estaria preparando a elite russa para uma "grande guerra".

No meu último texto sugeri que a relação entre a ordem de Putin e uma possível guerra mundial não era correta. Comentei também que poderia haver uma relação entre essa chamada e a reforma política que o presidente está conduzindo no país. Mas segundo as informações não parece haver relação entre este fato e a mencionada reforma política. A razão seria outra.

(Estudantes russos num programa de intercâmbio em Michigan, EUA, em 2013: Kremlin quer diminuir a influência cultural do Ocidente.)

O site Snopes.com, que em sua conta no Twitter se apresenta como "fonte de referência definitiva na internet para lendas urbanas, folclores, mitos, boatos e desinformação", diz que a atitude do Daily Mail estaria instigando o medo na população ao interpretar de forma errada a notícia do Znak, escrita em russo, e ao misturar questões de ordem interna com a recente tensão internacional. Como explica a reportagem:

O Daily Mail citou o website de língua russa Znak, que postou um texto intitulado "Lar!". Traduzido do russo, o texto diz que a administração Putin emitiu um pedido informal, não uma ordem, para que oficiais russos e os membros de suas famílias que estão vivendo no exterior voltassem para casa. O texto discute não um possível conflito militar, mas um problema de percepção pública decorrente da elite russa mandar seus filhos para serem educados em escolas ocidentais caras enquanto sua terra natal em meio a um desafio com o Ocidente e em disputa com os EUA pelo poder global. Isto não parece ser um alerta vermelho de que a Terceira Guerra Mundial é iminente.

A reportagem cita ainda um cientista político russo, que afirmou que a educação dos filhos da elite do país gera constante deboches e reclamação ao governo. "Você não pode servir a dois senhores, deve escolher", disse, numa alusão de que as famílias devem escolher, ou a Rússia, ou Ocidente.  
 
Segundo a Russia Today a  reportagem do Znak cita cinco fontes anônimas do governo que disseram ter recebido uma "recomendação não oficial" do Kremlin a respeito de seus familiares no exterior. Os russos em universidades estrangeiras deveriam continuar seus estudos na Rússia, caso contrário isto poderia significar o fim de suas carreiras.
 
A análise do Snopes.com foi base de outra reportagem escrita pelo corpo de escritores do jornal The New Zeland Herald, da Nova Zelândia, um dos poucos jornais dos países ocidentais a dar esta versão dos fatos.
 
A chamada de Putin teria relação, portanto, com uma questão interna: a tentativa de "purificar" a elite do país das influências culturais do Ocidente. Desde seu segundo mandato (2004-2008), a Rússia tem investido numa diplomacia pública expandindo o alcance seus meios de comunicação, think thanks, organismos de cooperação na área política e cultural além, é claro, do sistema de alianças políticas como os extremistas europeus, grupos separatistas, uma aliança estratégica com a China e os BRICS. O objetivo é criar uma ordem global concorrente à norte-americana, e isto inclui a dimensão cultural.
(Na mídia ocidental proliferaram imagens que combinavam uma figura agressiva de Putin com uma explosão nuclear: conclusões sobre um conflito global são precipitadas e exageradas.)

O "ordem informal" de retorno das famílias dos oficiais soou preocupante devido à profunda crise entre russos e ocidentais nos últimos dias, o que deu realmente a entender que se tratava de uma preparação para um conflito mais sério mesmo sem um indicativo claro de que este era o objetivo da ordem. Por isso as agências ocidentais que deram esta interpretação imediatamente relacionaram a chamada de Putin com os acontecimentos das duas últimas semanas. Isto não significa, porém, que o Kremlin não esteja se preparando para uma guerra mais ampla. A retórica explosiva como a do líder do Partido Liberal Democrático da Rússia e aliado de Putin, Vladimir Zhirinovsky, que "alertou" (na verdade ameaçou) os EUA sobre uma possível guerra nuclear apenas reforça esta percepção, e é uma das razões para o sensacionalismo na imprensa ocidental. Mas os líderes russos também fazem de suas palavras histriônicas uma guerra de propaganda. Qualquer conclusão definitiva de que haverá um conflito global EUA-Rússia entra no terreno da especulação. Temos de esperar para ver quais serão os próximos passos de ambos os lados.

terça-feira, 23 de junho de 2015

Duas notas importantes sobre a Grécia

                                                                

                         (Tsipras se encontra com Putin em Moscou, 8 de abril de 2015)                                                                                                             
Na noite de ontem, 22, foi realizada em Bruxelas, na Bélgica, mais uma rodada de negociações para tentar solucionar a grave crise econômica grega. Abaixo duas notas sobre o assunto.

1) Interessante notar o tratamento que a imprensa ocidental e russa dão ao caso. A notícia destacada pelo site da CNN afirma que a "Europa dá uma cautelosa boa-vinda ao plano grego", que prevê reformas econômicas, aumento de impostos e corte de despesas. Segundo Donal Tusk, presidente do Conselho Europeu e que presidiu o encontro em Bruxelas, todas as partes estariam comprometidas com um acordo, que ainda depende de futuras negociações. A notícia destaca o protesto feito no dia de hoje, 23, em frente ao Parlamento grego que pedia para que o país se mantivesse na zona do euro.

Por outro lado, algumas das notícias destacadas pela Sputnik, órgão de mídia russo e fortemente crítico dos países ocidentais, apresenta uma União Europeia na defensiva com relação à crise grega. Uma notícia destaca que a mencionada reunião em Bruxelas acabou sem acordo entre as partes, e destacou os protestos realizados em diversos países europeus no último domingo, 21, que criticavam a pressão econômica dos credores sobre a Grécia. Outra notícia da última sexta-feira, 19, destacava a entrevista de um deputado do Syriza que a saída da Grécia da zona do euro faria mal ao bloco. Já uma terceira notícia destacava a declaração do primeiro-ministro grego Alexis Tsipras no Fórum Econômico Internacional de São Petersburgo de que a "Europa não é o centro do universo", numa clara crítica à tentativa do Ocidente continuar se prevalecendo economicamente, e destacou o papel da Rússia no mundo.

2) Na medida em que vasculho os pormenores das relações entre Grécia e Rússia tenho algumas surpresas. O ideólogo russo Alexander Dugin não teve contato apenas com membros do Syriza, uma coligação de partidos de extrema-esquerda que atualmente está no poder na Grécia, como ele e seus colegas ativistas teriam contribuído para a aliança entre o Syriza com ninguém menos que o recém-fundado partido de extrema-direita Gregos Independentes. Após as eleições de janeiro deste ano, ambos partidos formaram uma aliança para governar o país. O que eles têm em comum? São críticos do capitalismo liberal, eurocéticos (opõe-se à atual União Europeia) e, acima de tudo, anti-austeridade. Um quarto ponto, não-ideológico mas prático, são os contatos entre membros de ambos os partidos com ativistas russos antiocidentais, entre eles Dugin. Em maio 2014, mesmo após iniciada a crise na Ucrânia, Alexis Tsipras teve um encontro oficial com membros do alto-escalão do governo russo que estava na lista de sanções do Ocidente. Na ocasião, ele declarou que a paz na Ucrânia não seria possível sem a remoção dos elementos nazifascistas daquele governo. Já em setembro, numa votação do Parlamento Europeu para ratificar o Acordo de Associação EU-Ucrânia, todos os seis membros do Syriza votaram contra. E na Grécia, um dos membros do Gregos Independentes e deputado regional fundou em 2001 o Movimento Social Patriótico Aliança Grego-Russa, do qual é chefe, e que busca promover uma maior cooperação entre os dois países.

Outros acontecimentos relevantes ocorreram em janeiro de 2015, mês das eleições na Grécia: na primeira metade do mês um dos membros do GI viajou em visita a Moscou; no dia 23, dois dias antes das eleições, o presidente da Aliança Grego-Russa visitou o consulado geral da Rússia em Thessalonika para negociar a renovação da cooperação entre os dois países; e no dia 26, dia seguinte às eleições, o embaixador russo na Grécia, Andrei Maslov, fez uma visita à sede do Syriza em Atenas.

Com a aliança entre dois partidos abertamente pró-Rússia, sendo o Syriza, segundo Dugin, "anti-atlantista" (leia-se: antiocidental) fica difícil a Grécia se posicionar abertamente contra Moscou. Alexis Tsipras já se manifestou contrário às sanções do Ocidente para com a Rússia, e seu partido, como o mencionado, votou unanimemente contra uma maior integração da Ucrânia à União Europeia, cujo acordo contraria frontalmente os planos de Putin e abre portas para uma futura integração desse país com a OTAN.

Por outro lado, é importante observar que tanto o governo grego como a mídia pró-Rússia não se colocam favoráveis à saída da Grécia do bloco. A mídia tece fortes críticas aos líderes europeus, mas ao mesmo tempo destaca os prejuízos e as insatisfações que uma saída grega causaria à Europa. A exemplo do que comentei na postagem anterior, é interesse russo uma Grécia integrada à UE mas não submetida a ela de forma a permitir que Moscou possa influenciar a política do bloco desde dentro e aproximar os países ocidentais da sua esfera.

Para a Rússia é melhor uma Europa unida e não dividida, mas a seu favor. E contra os EUA.

sábado, 13 de junho de 2015

Agência russa (ou eurasiana) Sputnik

Acabo de colocar com uma das referências de informações desse blog a agência russa de notícias Sputnik, que tem notícias em português além de outras 28 línguas.

Não devemos, porém, observar essa agência com ingenuidade ou pureza de intenção. Na página de apresentação, a Sputnik apresenta-se como uma marca de mídia "alternativa" (leia-se: não ocidental) e que contribui ao apontar "o caminho para um mundo multipolar que respeita os interesses nacionais, cultura, história e tradições de cada país". Essa linguagem e o tom crítico aos EUA e o Ocidente nas suas chamadas de notícia são reveladoras da influência da doutrina eurasiana na sua atividade.